segunda-feira, 20 de junho de 2011

Robô pra quê?



     Nos anos 60, a série televisiva ‘Os Jetsons’ fazia grande sucesso por especular sobre o futuro. As cenas eram simplesmente delirantes mesmo quando analisamos hoje, após 50 anos, o que se concretizou e o que está por vir, ainda desconhecido aos nossos olhos. Aparentemente, existem influências desse desenho animado visionário na arquitetura de alguns prédios e torres construídas no mundo, como o aeroporto de Los Angeles e o obelisco de Seattle, ambos nos Estados Unidos.


Também são designs dignos dos Jetsons o berço DoDo, e até – pasme! - a torneira Smartfaucet com tela de LCD para que se possa ler os e-mails enquanto, muito tradicionalmente, escova os dentes.  Porém, se no design e na arquitetura existem produtos em pleno funcionamento, o mesmo não se pode dizer dos veículos urbanos e dos robôs, auxiliares muito competentes nas tarefas domésticas, a exemplo da governanta eletrônica Rosie.


Chegamos ao terceiro milênio com índices acanhados de automação e robótica. A indústria, carro-chefe da utilização de robôs nas linhas de montagens, não se mostra com o apetite imaginado para o assunto por quê? Quando analisamos os robôs industriais, verificamos que são compostos por três eixos tecnológicos: mecânica, eletrônica e software.


O primeiro eixo, ou seja, a mecânica é uma ciência bastante dominada e já mostra sinais de esgotamento tecnológico em alguns de seus pilares, a exemplo de elementos de máquinas e conversões de movimentos, e alta vitalidade na pesquisa de novos materiais e lubrificação. Mas, certamente, por ser o mais antigo dos três eixos tecnológicos, é também o que mais dominamos.


O eixo da eletrônica ainda apresenta inovações diárias, embora já atenda a contento nossas necessidades de automação por meio dos mais diversos tipos de sensores e escâneres disponíveis. Por último, o eixo tecnológico do software, o mais novo dos três, se apresenta como um desafio quase intransponível para o nível científico atual.


Esse bloqueio se deve a dificuldade de explicitar na forma de códigos, movimentos combinados que fazemos com muita naturalidade em nossos corpos, mas para se comandar em uma máquina torna-se extremamente difícil. Essa dificuldade faz com que os robôs industriais usuais sejam limitados a três articulações, também chamadas graus de liberdade: pinça, punho e cotovelo. Assim, por analogia, corresponde a um braço humano dotado de polegar mais um dedo, munheca e cotovelo. E só. Porém, suficiente para exigir em sua animação trabalho técnico especializado de programação.


Matematicamente, os três graus de liberdade do robô industrial oferecem as combinações de uma matriz de três linhas e três colunas. Em comparação a mão humana, vemos que esta possui 27 graus de liberdade, o que a torna inacessível para a lógica de programação disponível. Mesmo assim, esse limitado dispositivo industrial é suficientemente hábil para soldar, apertar parafusos, preencher embalagens e engradados com mais rapidez e precisão que nós homens poderíamos fazer, mas tudo tem um custo, pois, para realizar esta proeza, o robô exige um ambiente totalmente controlado, livre de adversidades e surpresas, o que provoca o engessamento de toda a linha industrial.


Diante desses fatos, constatamos que o robô idealizado para a indústria representa a culminância do modelo fordista, focado na eficiência e na massificação dos produtos, inadequado, pois, para a nova indústria que busca flexibilizar a capacidade produtiva ou até desmaterializar seus produtos. Nesse contexto, o robô parece ser uma invenção tardia. Porém, muita novidade está por vir na automação residencial, comercial e industrial. A maior revolução anunciada pela robótica será a supressão do limitante software, a ser substituído pelo pensar humano por meio da leitura direta de ondas cerebrais.


Pesquisas nesse campo se encontram em estágios bem evoluídos, particularmente, as realizadas pelo médico brasileiro, Miguel Nicolelis, primeiro conterrâneo candidato ao prêmio Nobel de medicina por seus estudos de neurociências na interface homem-máquina. Promete, inclusive, o Dr. Nicolelis desenvolver um exoesqueleto que vestido por uma pessoa com severa deficiência motora dará possibilidade, a mesma, para realização do chute inaugural na abertura da Copa de 2014, no Brasil, a partir de seu comando mental.


Vamos reinventar o robô. Vamos livrá-lo da imagem humanóide, romântica e inútil. Eles podem executar atividades às quais não se deve expor um ser humano devido ao risco e às condições adversas à vida. Os protótipos atuais não fazem sucesso nem em novelas das sete. Contudo, aplicada na educação, a robótica faz grande sucesso entre jovens, ávidos por contextualizar a aprendizagem e exercitar nos seus projetos o talento e a criatividade que só eles tem. E tudo isso num mundo real que nem é o dos Jetsons  nem  o dos Flintstones.     



Publicado no jornal Cinform 20/06/2011 – Caderno Emprego
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 01/2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Degradar para produzir: a ética caduca



     Uma grande e bem vinda novidade seria encontrar a fórmula definitiva de conciliar desenvolvimento econômico com respeito ambiental e social. Muitos discursam nesta direção, embora a veemente retórica não corresponda ao diminuto passo na direção da sustentabilidade.


A palavra ‘sustentabilidade’ é um dos verbetes mais frequentes nos principais livros técnicos da literatura de negócios. Equipara-se a ‘negociação’, ‘marketing’, ‘mercado de capitais’ e outras palavras-chave do vocabulário da administração de empresas.


Executivos de todo o mundo se debruçam sobre como transformar sua organização tradicional em uma empresa sustentável. Esse é o desafio de maior evidência nas agendas econômicas, sociais e governamentais desde o final do século XX. O difícil é acreditar que com a ética prevalente nos nossos dias possamos achar soluções para esse desafio, ainda que atuemos com  ética. Por quê?


Em princípio, nenhuma matéria-prima tem preço em si. Toda ela se origina em Deus, sendo, portanto, dada pela natureza. Assim, ninguém paga R$ 0,10 sequer por uma pérola magnífica que se encontra nas profundezas do oceano, caso se tenha que ir buscá-la. Da mesma forma, não compramos terrenos na lua nem a R$ 0,01 por hectare.


O preço crescente dos produtos é fixado pelos custos de exploração, beneficiamento, produção, logística, comercial, transporte, tecnologia, processamento, marketing, recursos humanos, desperdícios, ociosidade, sazonalidade e várias leis de mercado. São esses processos da cadeia de produção que agregam valor às gratuitas matérias-primas.


Talvez, pela ausência de um preço original, mantemos uma relação desrespeitosa com a natureza na exploração dos seus recursos. Com base  neste pressuposto, podemos afirmar que maior será o proveito e controle, quanto maior for a degradação imposta ao nosso objeto explorado em qualquer reino da natureza, características de uma relação direta entre o lucro e a degradação.


Quando trabalhamos com o reino mineral, buscamos selecionar suas substâncias mais nobres, isto é, aquelas mais organizadas em suas estruturas cristalinas, a exemplo de cristais e metais, verdadeiros representantes do reino. Nessa atividade mineradora, após processar a separação das partes cobiçadas, ficam no local apenas substâncias amorfas e descristalizadas, degradadas representantes dos minerais.


Nas intervenções que praticamos no reino vegetal somos igualmente agressivos. Eliminamos as árvores, maiores representantes deste reino e  únicos seres capazes de unir as substâncias telúricas da rocha-mãe através de suas profundas raízes, às mais sutis substâncias cósmicas da atmosfera, por meio de sua copa aérea. Infelizmente, substituímos as árvores por gramíneas e cereais, obviamente, de pequenos portes, incapazes de cumprir esse mesmo papel.


Além disso, nos utilizamos abusivamente de sais químicos na adubação do solo numa clara tentativa de mineralizar e, por consequência, aproximar a planta a um reino inferior ao vegetal. Com os animais não é diferente. Costumamos submetê-los a confinamentos cruéis retirando toda sua mobilidade. Triste exemplo é o tratamento dado às galinhas de postura criadas em gaiolas minúsculas, quase imóveis, semelhantes a plantas ornamentais cultivadas em vasos. Deste modo, eliminar a mobilidade de um animal é atentar contra a sua própria natureza mais elementar. Isso porque quando um animal está vivo e desprovido de movimento, dizemos que ele possui vida vegetativa. Eis uma bela metáfora para ilustrar a degradação imposta a este reino, tratando-o como se vegetal fosse.


Por fim, o homem. Aqui, o especificamos como um reino à parte devido a sua particular natureza anímico-espiritual que o distancia dos demais animais. A maior distinção entre humanos e animais está na existência da individualidade presente, desculpem a redundância, unicamente em cada um. Já com os animais (silvestres), a individualidade é própria da espécie, portanto, coletiva, e não de cada ser isolado, obrigando-os a comportamentos iguais em todos os indivíduos.


Neste sentido, quando tratamos homens e mulheres em nossos sistemas de produção, a exemplo do escolar, costumamos impor a todos os indivíduos de uma mesma classe, um comportamento de manada, no qual todos devem responder, vestir, consumir, pensar, agir e sentir igualmente. Está nos princípios da escola brasileira o lema “ensinar a todos como se fossem um só”.


Assim, nessa coletivização, atentamos contra o desenvolvimento do livre-arbítrio ao inibirmos a manifestação e a conseqüente educação da vontade e dos sentimentos humanos. Concluímos, reafirmando que por mais presente que se faça no discurso, a sustentabilidade só será uma realidade quando revermos a nossa própria ética, como visto, incompatível com uma digna convivência humana na Terra.



   

Publicado no jornal Cinform 06/06/2011 – Caderno Emprego
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 05/2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A era do intelecto



     São visíveis algumas heranças que recebemos. Umas são bem mais recentes que outras, mas, por certo, nem todas malditas. Dentre elas, cabe destacar o pensamento positivista surgido no início do século XIX, a partir das ideias do francês Augusto Comte, que nos dias atuais campeiam com vigor exagerado.


O positivismo crê na ciência como redentora da humanidade. Assim, afirma que só é verdade o que pode ser comprovado aos nossos olhos e analisado à luz do pensar consciente. Esse modo de ver o mundo é responsável, dentre outras coisas, pelo lema da bandeira brasileira ‘ordem e progresso’, derivado da divisa comteana ‘O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por meta’, pilares de uma sociedade justa, fraterna e progressista, na visão do filósofo.


Esse ponto de vista desconsidera tudo que possa ser mágico ou sobrenatural, isto é, tudo que não possa ser percebido pelos cinco sentidos que possuímos. Seriam, então, sobrenaturais as invisíveis emoções e os sentimentos? Seria mágico se tivéssemos em nosso corpo órgãos que funcionam alheios à força de nossa consciência, a exemplo das vísceras e coração?


Não subordinar tudo à esfera do pensar traz uma riqueza maior na compreensão da humanidade, pois sabemos que não somos exclusivamente governados pelo pensar consciente. Paralelamente, agimos motivados por emoções e vontades inconscientes que são forças pra lá de influentes, quando não são determinantes. Agir só com a cabeça é agir de maneira fria e lenta.


Hoje valorizamos de forma exagerada a inteligência e o pensar racional. Todos nós declaramos explicitamente o empenho e o desejo de termos os familiares bem aprovados no decadente vestibular. Ver o filho passar no vestibular de medicina ou em outra carreira disputada parece ser a realização da própria educação. Para muitos pais e educadores essa passagem funciona como uma espécie de ‘lavar as mãos’, isto é: fiz a minha parte e agora é com você.


Queremos, acima de tudo, filhos inteligentes. Acreditamos que a racionalidade os fará felizes, harmoniosos, bons, alegres, cheios de virtudes, saudáveis, comunicativos, respeitosos, socialmente responsáveis, honestos, justos, habilidosos, etc. Essa é a falácia da nossa era do intelecto.


Supervalorizamos a formação do pensar e desconsideramos a educação das atitudes e das ações no dia-a-dia pedagógico e familiar. Chega a ser apelativo o enaltecimento da inteligência nos métodos didáticos. Daí, emblematicamente, derivam os quatro pilares da educação para o século XXI da Unesco: aprender a aprender, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a ser. É só ‘aprender’ e ‘aprender’ e ‘aprender’. Isso leva muitas escolas a trabalharem apenas o aprender a aprender e esquivarem-se dos demais saberes.  


Não muito distante dessa prática, encontramos outro trabalho muito citado por educadores e consultores, que versa sobre a inteligência emocional,  defendida por Daniel Goleman. Novamente a inteligência suprema manda no resto. Será que é assim mesmo? O apelo ao dom da inteligência se repete no projeto ‘Escola da Inteligência’ de Augusto Cury, nas inteligências múltiplas de Howard Gardner, na inteligência social de Robert Thorndike, dentre outros. Afinal, queremos participar ativamente da sociedade da informação e da economia do conhecimento, nas quais impera a inteligência.


Reconheço que exagerei na forma como expus acima a crítica aos trabalhos de nobres autores. Mas, a intenção se limita a demonstrar o quanto somos seduzidos pela palavra inteligência. Por certo, essa apologia ao intelecto corresponde ao desequilibrado modelo de desenvolvimento vigente, no qual, um jovem que baixa livros e músicas ilegalmente pela internet é avaliado como gênio, ainda que esteja praticando um crime.


Também assistimos agora à curiosa situação: ao mesmo tempo em que a França consegue com altíssima tecnologia resgatar a quatro mil metros de profundidade no Atlântico as caixas-pretas do avião da Air France acidentado em 2009, tem seu candidato maior a Presidente da República preso, acusado de comportamento sexual criminoso em Nova York. Parece que a verdadeira caixa-preta é o próprio homem.


Se já educamos perfeitamente o pensar para os desafios tecnológicos da engenharia genética, das missões espaciais, das profundezas marinhas, da nanotecnologia e demais maravilhas contemporâneas, por certo, devemos, de igual forma, educar nossas atitudes e ações a fim de plasmarmos mais integralmente o ser humano em suas diversas faculdades. Se assim não agirmos, a tecnologia será apenas um adorno a embelezar nosso fracasso comum.    




Publicado no jornal Cinform 23/05/2011 – Caderno Emprego
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 02/2011



segunda-feira, 9 de maio de 2011

Por um ensino médio empreendedor



    O ensino médio brasileiro passa por uma grave crise existencial. Não apenas porque perdeu a identidade do seu caráter formativo, mas também por apresentar-se utilitariamente como trampolim para o curso superior, ou, pior ainda, como mero reforço dos conhecimentos do ensino fundamental.


Quando olhamos diretamente para o ensino médio não vemos o seu rosto. Sua arquitetura atual revela-se um ambiente de passagem, semelhante aos detestáveis corredores presentes em minúsculos apartamentos, a roubar-lhes caros espaços úteis. Desta forma, muitos jovens evadem das escolas em busca de encontrar algo que lhes ofereça mais sentido à vida e aos anseios e desafios, particularmente, próprios da adolescência dos mais carentes. 


“A educação secundária parece ser o nível mais difícil de se transformar no mundo inteiro. Preparada para receber jovens dos setores médios e altos, começou, já há algumas décadas, a receber jovens de todos os setores sociais. Por outro lado, sua proposta cultural e pedagógica segue em importante medida ancorada no século XIX. O diagnóstico é claro. As alternativas estão em construção”, reporta a autora Cecília Braslavsky – UNESCO.


De modo geral, todos entendem a juventude como algo passageiro ou, uma fase a ser superada. Dessa visão de transitoriedade resulta uma grande escassez de políticas públicas para juventudes no Brasil. Consequentemente, mais um ponto a dificultar a vida desse relevante período escolar.


Diante das constatações universais acima apresentadas surgem ações interessantes de resgate para o ensino médio. Desde novos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs - já apresentados pelo Conselho Federal de Educação, até, uma nova proposta de ensino médio articulada por renomados educadores brasileiros em parceria com a UNESCO.


Essa nova proposta, temporariamente denominada Protótipos Curriculares de Ensino Médio e Ensino Médio Integrado, traz em seu escopo a clara intenção de revolucionar a escola ao aproximá-la das perguntas básicas que movem nossos jovens, e da formação para o trabalho, enquanto espaço educativo fundamental.


Se reconhecer a falência do atual ensino médio é uma unanimidade entre educadores, então, este é, por si, motivo para que todos dêem as mãos visando que o novo projeto seja bem sucedido e se torne uma construção sólida de toda comunidade escolar. A célula primordial do novo modelo é o Projeto Político Pedagógico de cada unidade escolar, que deve ser legítimo e participativo, elaborado por pais, professores, gestores, alunos, funcionários e demais membros da comunidade escolar.


É lugar-comum dizer que no papel cabe tudo. E, novamente o projeto está no papel, de onde precisamos retirá-lo para que se realize no mundo físico e social. O que talvez seja um sonho, e assim, ocorrem duas vertentes possíveis: a primeira, é que só serão integradas ao novo modelo as escolas que assim o desejem. A segunda, é que a adesão implicará na construção de um novo empreendimento e, como tal, revestido de inovações, desafios a serem superados e avaliados.


Já que falamos em sonho, surpreendentemente, agora o assunto fica mais fácil porque existe uma ciência que fundamenta a arte de construir sonhos. É o empreendedorismo, ciência de natureza comportamental, capaz de habilitar pessoas à realização de seus propósitos de vida, ou seja, seus sonhos. Nesse sentido, desfazendo a imagem de comércio, uma das biografias que reúne maior número de característica de atitudes empreendedoras é a da saudosa Irmã Dulce, o anjo bom da Bahia, construtora do maior hospital público do país, ainda em pleno funcionamento. 


Conceitualmente, o empreendedorismo se constitui em um conjunto de atitudes e de hábitos que podem ser adquiridos, praticados e reforçados nas pessoas, ao submetê-las a um programa de capacitação adequado de forma a torná-las capazes de gerir e abraçar oportunidades, melhorar processos e inventar negócios de qualquer natureza.


Em Sergipe, 120 docentes de ensino médio da rede pública estadual freqüentaram entre 2005 e 2006 a pós-graduação lato sensu, MBA – Empreendedorismo para Docentes, que os habilitou a ministrar tal disciplina. Certamente, esses diferenciados professores podem ser ótimos avaliadores do empreendedorismo na educação e dos seus efeitos nos milhares de alunos. Paralelamente, verão que no novo projeto tudo remonta ao empreendedorismo, só não utilizando explicitamente este termo.   


Professores, gestores, alunos e educadores em geral, empreendam, pois, a escola dos sonhos é a escola onde os sonhos são incentivados e se ensina como construí-los, mesmo na escassez. Ou o futuro não está em nossas mãos.




Publicado no jornal Cinform 09/05/2011 – Caderno Emprego



segunda-feira, 25 de abril de 2011

1° de maio – Abolição da escravatura



     Recentemente saiu uma reportagem na grande imprensa sobre a existência de índios brasileiros, viventes ou sobreviventes da selva amazônica, sem contato com nossa civilização. As fotos mostram uma meia dúzia deles, apontando belicosamente suas flechas contra o intruso helicóptero. Esse distante encontro revela um momento muito especial porque nos apresenta um Brasil ainda mais complexo e amplo na sua arquitetura social. No mesmo país que possui um astronauta que já viveu o futuro em sua aventura espacial, e vivenciou a oportunidade que poucos terráqueos tiveram ao ver como o mundo é grande e o planeta é pequeno; também, assenta habitantes índios que vivem como se mais de dez mil anos atrás fosse, sem domínio da linguagem escrita e do ferro, por exemplo. Diferentemente do astronauta, imersos na sensação que o mundo é pequeno e a Terra imensa.


Diante desse cenário enxergamos a amplitude das realidades presentes no campo sociológico, que rebatem para todas as demais áreas do conhecimento humano, notadamente a política. Neste exemplo, citamos casos reais, porém, extremos. Ocorre que entre eles estamos nós, demais brasileiros com diferentes níveis de acesso a tecnologias, escolaridades, remunerações e oportunidades. São os infinitos estratos da elástica pirâmide social brasileira. Assim, não é difícil transportar tais características do país hexacampeão de futebol para a realidade do trabalho.


Historicamente, o primeiro termo usado para o trabalho foi ‘érgon’, palavra grega que se traduz por ação e esforço físico. Também, dela deriva a palavra ‘ergástulo’ significando cárcere. Hoje, ergonomia e ergometria são termos integrante do vocabulário da área de saúde e segurança do trabalho, assegurando ao trabalhador conforto no espaço físico e em seus movimentos.


Não satisfeitos com a associação direta de trabalho a cárcere, nossos raivosos antepassados cunharam outra expressão para o, literalmente penoso, trabalho: ‘tripaliare’. Palavra do latim que significa penalizar com o ‘tripalium’, instrumento de tortura composto de um tripé, no qual se amarrava o preso.


Com o advento da era cristã, o trabalho sobe um pouco de nível, melhorando seu status de sofrimento, mas, claramente sem pressa para uma solução definitiva. Por essa época surge a denominação ‘labor’, que qualquer aurélio nos ensina: ‘dor, fadiga experimentada pela realização de um trabalho’. Desta forma, o labor soa como condenação já que depois daquela história da maçã, o homem foi obrigado a comer o pão regado com o suor do rosto. E a mulher, a parir seus filhos com dor. Redundantemente, chamado de trabalho de parto.


Na lenta ascensão qualitativa do trabalho alguns autores citam o termo sacrifício como composto por sagrado e ofício, denotando ato divino. O que reforça a natureza divina, porém, ainda, punitiva da atividade laboral.


O trabalho só começa a melhorar quando surge a palavra ‘opus’ aplicada à realização de uma obra. Então, a labuta ganha a componente artística na sua ação, perdendo o vínculo com algo de natureza meramente física e material.


Finalmente, o termo ‘poiesis’ chega para que possamos festejar o trabalho como ‘algo criativo e capaz de despertar o sentimento do belo e o que há de elevado e comovente nas pessoas e nas coisas’. Assim, afirma o dicionário, traduzindo a palavra grega em ‘ação de fazer algo’ com inspiração.


Como vimos, existe uma história evolutiva do trabalho. À medida que o tempo passou e as sociedades evoluíram juntamente com os homens, as relações de produção sofreram profundas transformações em favor da dignidade humana. Semelhantemente ao caso do astronauta e do índio brasileiros, nosso ambiente produtivo, ao mesmo tempo que apresenta relações trabalhistas pré-históricas em alguns lugares, também exibe harmonia e dignidade humana em outros, formando um mix de situações, frutos da combinação de diferentes conhecimentos, habilidades e atitudes.


Creio que o trabalho pode ser a oportunidade de crescimento humano para todos, pois, com os modernos meios de produção geramos tantos excedentes, que somos capazes de atender a inúmeras e anônimas pessoas com o nosso ganha-pão. Assim, não vejo mais ninguém que trabalha para si, como era comum até a Idade Média. Hoje, trabalhamos exclusivamente para os outros, e o fazemos da melhor forma possível, mesmo quando não sabemos quem se beneficiará de nossa produção. Isso afirma a presença da fraternidade imbricada a atividade econômica.


1º de maio pode ser o dia da abolição da escravatura se nos conscientizamos de que no trabalho servimos ao próximo e construímos uma sociedade altruísta. Ou, seremos escravos de uma visão míope, torturante e distorcida do trabalho como veículo de degradação moral, destinado à mera (in)satisfação pessoal.      




Publicado no jornal Cinform 25/04/2011 – Caderno Emprego

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Índio quer apito? Não!!! Índio quer iPad



     Diz a lenda que com a chegada dos portugueses em nossas terras tupiniquins, a aproximação pacífica junto aos índios aconteceu sob a oferta de presentes inusitados aos antigos donos da terra. Dentre estas quinquilharias estavam espelhinhos, adereços, colares, adornos, e outros um-e-noventa-e-nove.


Trato esse assunto como lenda por não acreditar que nossos antepassados, de ambos os lados, fossem tão ingênuos. Também não sei como é possível um povo invasor, numericamente insignificante, dominar outro em sua própria selva. Penso que a única explicação plausível é a formação de alianças militares entre portugueses e índios para combater outros índios. O combate na floresta é dificílimo. Que o diga o americano derrotado no Vietnã, a despeito de toda tecnologia de guerra moderna, ainda ineficaz na selva.


O lance mais sedutor desse descobrimento brasileiro foi o acesso a tecnologias desconhecidas pelos anfitriões. O aço dos facões, as embarcações, os tecidos, os animais domésticos, especialmente as galinhas e cães. Em troca, os nativos forneceram pau-brasil, matéria-prima para a produção de tintas vermelhas, raras para a indústria têxtil da época, e animais silvestres. Para nossos índios, esse encontro significou um salto tecnológico de dezenas de milhares de anos, pois, aí tiveram contato com a linguagem escrita, a tecnologia do ferro e as naus transatlânticas, dentre outras tecnologias úteis ao dia a dia, a exemplo dos anzóis e machadinhas. Imaginemos que ganho isso representou para eles. Em contrapartida vieram doenças terríveis e vícios pessoais e sociais.


Assim, começa um longo processo de Brasil colônia. Brasil da exportação de matéria-prima e da importação de bens tecnológicos que perdura ainda hoje. Um interessante parâmetro para avaliar nosso desempenho industrial é o preço do quilo de bens exportados comparado ao preço do quilo dos bens importados. Nessa comparação veremos que não estamos bem na foto. Grosso modo, um único quilo de satélite, que importamos, tem o mesmo preço que um milhão de quilos de soja que exportamos. Assim, afirmam autores de referência.


Então, para melhorar a qualidade dos produtos brasileiros exportados, além dos necessários investimentos em pesquisa e desenvolvimento – P&D, pré-requisito para a inovação e a redução da sufocante e injusta carga tributária, nós temos de investir maciçamente em formação tecnológica e em educação básica, bem como, ajustar o câmbio à realidade.


À medida que mantemos o Real artificialmente forte priorizamos as importações e dificultamos as exportações. Isso significa sucateamento da indústria nacional e consequente perda de competitividade. Em outras palavras, criamos um círculo vicioso que nos afasta cada vez mais do mercado internacional e compromete nosso saldo da balança comercial. Este saldo incrementa a reserva cambial e nos dá segurança contra movimentos especulativos e quebradeira econômica, embora seja um dinheiro caro por ser muito mal remunerado quando comparado aos nossos estratosféricos juros internos: quatro vezes superior. Há economistas que afirmam que essa reserva, mal remunerada, nos custa 1% do PIB anualmente.


Devido aos robustos 300 bilhões de dólares de nossa reserva cambial recentemente convivemos com a crise financeira internacional que não se fez tão visível contra nossa economia. Mas, seguramente teve um custo alto para todos nós, na forma de dívida interna e custo da máquina pública.


A economia de bens e serviços produzidos pelo país não pode existir na qualidade de refém da abusiva valorização do Real. A permanência nesses níveis cambiais pode significar um retrocesso ao desenvolvimento. Isto é, um desastroso retorno ao Brasil rural do início do século passado, com o agravante de nem sequer possuirmos um agronegócio verdadeiramente nosso, posto que sua tecnologia é, também, importada e sua operacionalidade através de satélites, GPS e transgênicos nada tem a ver com o nosso homem do campo. Trata-se de uma agricultura usuária da área rural, mas, notadamente gerida técnica, comercial e financeiramente nos grandes centros cosmopolitas. Com o cambio atual geramos bons empregos na China, EUA e Europa; e subempregos no Brasil.


Deixando o economês para lá, podemos ver que a história do Brasil muda de atores e cenários, mas continua sendo palco de um mesmo enredo colonialista. Onde a soja é o novo pau-brasil e o iPad o moderno e inusitado espelhinho do século XXI.    


Se a humanidade nasceu de uma mesma origem, a chegada dos europeus por aqui significa um momento muito especial. Daí, termos a responsabilidade de encaminhar ao desenvolvimento comum a terra que permitiu o reencontro de toda a humanidade, emblematicamente ocorrido num transformador Domingo de Páscoa.


            

Publicado no jornal Cinform 11/04/2011 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial abr/2011
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 00/2011 – edição inaugural

segunda-feira, 28 de março de 2011

Somos todos transformadores



     O título deste texto é o mote da Semana da Inclusão Digital 2011, promovida pelo CDI – Comitê para Democratização da Informática que transcorrerá no período de 27 de março a 2 de abril. É acertada a iniciativa de promover o acesso de todos às modernas TICs - tecnologias da informação e comunicação, assunto que essa ONG desenvolve há muitos anos. Nascido no Brasil, o CDI é reconhecido internacionalmente por atuar em vários países do mundo, assim como o seu jovem e notório fundador: o carioca Rodrigo Baggio.


Muitos dos avanços tecnológicos são sistêmicos, isto é, estruturantes das organizações sociais, pois agem modificando hábitos e valores culturais e diferenciando grupos e indivíduos. Dessa forma, tornaram-se capazes de gerar demandas totalmente inimagináveis há alguns poucos anos atrás. Exemplo disso é o telefone celular que mudou comportamentos, chegando a níveis de domínio capazes de  alterar a psique de indivíduos quando privados do acesso a este aparelho, em parte pela falta de segurança pública no país ou mesmo  pela possibilidade de conexão destes com as viciantes redes sociais da internet.


Essa componente social é uma faceta excludente da tecnologia. Leva à formação de ‘tribos’ que se distanciam das maiorias. Um jovem sem acesso a internet em nossos dias é alguém, indubitavelmente, excluído dos demais. Essa exclusão não deriva de modismo, mas da crua realidade de ocupar um mesmo território geográfico, uma mesma contemporaneidade e ter a certeza de viver em outro mundo.


Recentemente, soube que tramita no Congresso Nacional uma PEC – Proposta de Emenda à Constituição, que cria a obrigação de o Estado Brasileiro ofertar acesso à internet a todos. Trata-se de um esforço louvável de combate a exclusão digital. Sei também que algumas escolas públicas estão experimentando a distribuição de laptops para todos os alunos, derivado do projeto one laptop per children, desenvolvido por Nicholas Negroponte, diretor do MIT – Instituto de Tecnologias de Massachusetts, nos Estados Unidos. Dessa experiência, já não gosto. À primeira vista, por desconhecer um projeto pedagógico que sustente de forma saudável o uso intensivo de computadores por crianças, além de expô-las à insegurança de portar esses equipamentos.


Desconheço mesmo a necessidade de uma criança usar computador. Não vejo ganho pedagógico no uso dessa ferramenta por elas. Precisam é de brincar, correr, desenhar, sentir a textura do papel, o atrito de um pincel com a tinta, trabalhar manualmente com argila, couro, lã, equilibrar-se numa bicicleta, nadar, jogar bola, experimentar e reconhecer os limites delas e das coisas, vivenciar a existência de outros humanos, praticar artes, ouvir o som de um tambor ou de um piano real, ouvir estórias, soltar a imaginação, aprender conteúdos escolares contextualizados, sentir o cheiro da borracha e da cola escolar, falar, cantar, apreciar a beleza da natureza, etc. Isso sim, dentro de um ambiente pedagógico acolhedor, trará segurança na existência do futuro adulto.


Inclusão digital exige mediação. Não basta oferecer acesso a internet ou a computadores se não houver um trabalho pedagógico associado. A mesma internet que educa também deseduca. Os sites inadequados são mais numerosos e fáceis de encontrar que os apropriados. Desta forma, o computador com seus jogos ou a internet com seus abusos mais prejudicam que auxiliam na educação e na formação social da criança usuária e desassistida. Creio que a pedagogia que comanda o uso dos recursos de TICs nas escolas brasileiras, públicas ou particulares, é orientada bem mais pelos interesses de mercado que os educacionais.


Com efeito, exclusão digital não é assunto que diga respeito apenas aos pobres. Ela é muito mais perversa, atingindo a muitos, inclusive da elite intelectual e econômica. Ter o melhor computador com banda larga e ser excelente usuário de seus programas aplicativos não significa estar incluído. Somos todos vítimas de abusos no uso das TICs quando temos nossa privacidade invadida; nossos dados pessoais sigilosos postos à venda em CDs de camelôs; quando somos rastreados sem autorização ou conhecimento disto; quando somos violados eletronicamente pelo fisco invasor; quando o nosso sigilo eleitoral e votos se tornam crença na inviolabilidade (sic) da urna eletrônica, deixando assim de serem garantias constitucionais; ou quando se modernizam apenas os órgãos da arrecadação pública com super computadores para as finanças ou radares de ultima geração para multarem motoristas imprecisos e se esquecem da modernização do serviço ao público. 
  

Não entendam como um desabafo e sim como um convite à reflexão: para onde vai nosso Brasil? Nós, cidadãos podemos escolher o rumo da construção de uma sociedade melhor. Afinal, somos todos transformadores!





Publicado no jornal Cinform 28/03/2011 – Caderno Emprego