terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Quando a escola dá nos nervos


     À primeira vista, motoristas dirão que a escola dá nos nervos quando pais estacionam em filas duplas para buscar os filhos. Os pais, por sua vez, dirão que o desgaste emocional maior se dá na compra cara e volumosa do material escolar, ou nos reajustes das mensalidades dos estabelecimentos particulares. Outros tantos alunos, professores, funcionários e donos falarão de salários, indisciplina, insegurança, falta de vagas, provas e vestibulares. Aliás, qualquer cidadão deve ter algum desgaste com a escola.

     Contudo, nosso foco é o contexto biológico e fisiológico do sistema nervoso humano e as contribuições boas ou ruins, que a escola nele realiza. Durante os primeiros anos da criança, o sistema nervoso tem prioridade sobre os demais órgãos do corpo. Assim, o desenvolvimento corpóreo se dá no sentido crânio-caudal, isto é, da cabeça para os pés, de forma que o cérebro, centro principal do sistema nervoso, seja o órgão que primeiro cresce no organismo humano.

     Biologicamente, duas importantes obras se realizam nos primeiros sete anos de vida: a maturidade neurológica e o reconhecimento geral do corpo pelo sistema imunológico. Sob essa ótica, a maturidade neurológica se faz com o fim do processo de mielinização dos troncos nervosos, que é o isolamento dos nervos por uma bainha de gordura - chamada de mielina -, a qual irá permitir velocidades bem superiores e precisão nas comunicações nervosas. Desde a formação do cérebro nos primeiros meses de vida até a completa mielinização aos sete anos, estão em jogo o futuro escolar da criança e suas capacidades no mundo do trabalho.

     Paralelamente, durante esses mesmos sete anos, o organismo da criança elabora a substituição de todas as células herdadas do ventre materno pelas suas próprias. Assim fazendo, o sistema imunológico põe sua assinatura nas células, identificando-as: EU. Por esse meio, diferenciar o EU do não EU é a base para o reconhecimento e combate aos invasores. As falhas nesse processo podem levar o organismo a combater violentamente a si mesmo, em qualquer idade futura, desencadeando as chamadas doenças autoimunes, a exemplo de Lúpus, algumas artrites e diabetes, além de alergias.

     Com efeito, é indiscutível a importância da primeira infância na formação da saúde e na escolaridade futura do indivíduo. Mas, onde entra a escola nisso? A resposta é o cuidado que a escola deve ter nas práticas pedagógicas para não ferir a prioridade da criança pequena, que é reservar suas energias para a construção de um corpo físico saudável. Então, o brincar e os estímulos imaginativos devem ser os componentes essenciais das aulas, respeitados os ritmos naturais da faixa etária.

     Dito de outra maneira, impor processos intelectuais em crianças pequenas, como a alfabetização precoce (anterior à mielinização), é desviar forças organizadoras do corpo físico para a esfera do raciocínio, resultando em prováveis prejuízos para a saúde e a cognição. Portanto, erros pedagógicos são frequentes e danosos, para além da esfera psíquica das crianças, e muitas vezes, invisíveis ou tidos, erroneamente, como se fossem práticas escolares corretas. Por fim, ainda dirão que a culpa é do ácaro.

     Como saber se a criança apresenta maturidade neurológica para alfabetizar? Além da possível avaliação de um neurologista ou psicopedagogo, existe outra evidência interessante a ser observada pelo educador: a troca de dentes. A implantação da dentição permanente sinaliza um estágio avançado de renovação celular, no qual a criança demonstra que até as células mais duras ela já elaborou. Em geral, após essa fase, a criança apresenta saúde estável e maior controle sobre as febres. Isto é, um bom domínio sobre o próprio organismo, para tranquilidade dos pais.

     Por certo, não há trabalho mais gratificante do que educar. Respeitar os ritmos individuais e da idade, e ver que também assim, a escola dá nos nervos, agora positivamente, quando se comprova que a escolaridade é fator de proteção contra o Mal de Alzheimer. Quanto mais escola (boa), menos doença!


         Publicado no Jornal Cinform em 17/02/2014 - Caderno Emprego