segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Burocracia e economia



     Quando Max Weber (1864-1920) desenvolveu sua teoria sobre a burocracia estava, como todos seus contemporâneos, encantado com as conquistas da revolução industrial. A máquina era, então, o modelo máximo da aventura humana na Terra. Certamente, Weber, ao propor a racionalidade burocrática para a organização pública, o fez imbuído das melhores intenções: proteger o bem público do patrimonialismo largamente dominante e estabelecer regras de funcionamento da estrutura pública visando torná-la mais institucionalizada e menos personalizada. Sua racionalidade, porém, se inspirava na frieza cartesiana das máquinas da época. Aliás, mesma fonte inspiradora da linha de montagem fordista.

Hoje, em muitos casos, vemos a burocracia ser um fim em si mesmo. Suspende-se o envio da merenda escolar a um município se este não apresentar os relatórios comprobatórios nos prazos estabelecidos. Isso porque  os papeis são mais importantes que a merenda de crianças famintas. O mesmo acontece com a falta de remédio em hospitais por causa de procedimentos licitatórios questionáveis. Confunde-se impessoalidade com desumanidade.

As organizações humanas seguem ou deveriam seguir modelos biológicos, inspirados no próprio ser humano, que são muito mais flexíveis e tolerantes que as engrenagens, polias e catracas. Uma máquina será inteira e imediatamente prejudicada no seu funcionamento caso uma engrenagem trave ou se solte. Nestas organizações, a relação entre um elemento e outro não é tão direta. Provavelmente, trabalharemos o dia todo em uma empresa sem saber se há um problema no funcionamento da portaria ou da tesouraria. Tal problema se agravará até comprometer o todo, somente após dias seguidos de crise. O mesmo acontece com nosso corpo, quando o mau funcionamento do estômago ou uma bursite, por exemplo, prejudica nossas atividades sem parar todo o organismo. Muitas vezes mudamos nossa alimentação ou hábitos para melhor convivermos com nossos males corpóreos, ou ainda assumimos papéis e rotinas de outros setores da empresa, posto que estes não desempenham adequadamente suas atribuições. Isto é o modelo orgânico que prevalece tanto em organismos biológicos quanto empresariais, governamentais e sociais.

A economia segue o modelo sistêmico ou biológico de forma plena, por vezes, desobedecendo aos inputs originados em um painel de controle. A economia, a biologia, a ecologia e as ciências humanas em geral, são incontroláveis a partir do modelo reducionista vigente. Ou seja, o modelo científico só responde aos problemas atuais que podemos isolar para estudarmos, o que é impossível nestas citadas áreas do conhecimento, nas quais nenhum dos atores consegue controlar o todo, mas apenas perturbá-lo.

À medida que nos afastamos da máquina como modelo de organização econômica, vemos que o modelo mais adequado tende a se estruturar em valores humanos, obviamente inexistentes nas insensíveis engrenagens. O berço do vínculo econômico é a confiança, que se transforma em capital humano e capital social - fundamentos do desenvolvimento local.  

Um estudo do Banco Mundial (1995) sobre 192 países concluiu que apenas uma fração do crescimento econômico (16%) se explica pelo capital físico (máquinas, edifícios e infra-estrutura); 20% provêm do capital natural (petróleo, hidrelétricas, florestas), e 64% são atribuídos ao capital humano e social.

 O ambiente das relações econômicas e negócios tem aversão, por sua própria natureza, à burocracia. Toda relação no mundo da economia tende para a informalidade. Por isso, faz grande diferença no relacionamento conhecer pessoalmente aquele fornecedor de outro Estado com quem só se comunicava por email ou telefone. Comumente, a relação muda, fica mais fácil quando há empatia e confiança mútua. A relação cliente-fornecedor tende a simplificar quando as partes cumprem seus contratos iniciais. Muitos são os casos em que caducam os contratos de papel e as transações comerciais prosseguem como se nada houvesse de irregular. O que está no papel só é usado nos litígios e contendas judiciais.

O crédito é uma forma de confiança. Quando o banco ou o fornecedor repassa capital, inicialmente exige cadastro e garantias para depois, uma vez cumprido o acordado, flexibilizar e incentivar a novas investidas.

A partir dessa tendência natural à informalidade nas relações econômica surgem grandes armadilhas. A informalidade (mesmo no sentido mais nobre do termo: estar à vontade com a outra parte, confiar) não é suportada pelo serviço público brasileiro nas suas relações com outras entidades, sejam públicas ou privadas. São inúmeros os casos de empresas que sofrem grandes prejuízos e até fecham suas portas, por haver confiado em agentes do serviço público já que este está regido pela impessoalidade. O inverso também é verdadeiro quando um preposto do serviço público contrata informalmente e/ou paga antecipadamente por um serviço ou fornecimento que não ocorreu. Este descuidado servidor pagará caro por isso.

 Diante da crise econômica atual, várias são as propostas de maior intervenção governamental na economia.  Creio que não será possível num ambiente econômico saudável esta aproximação. São entes de natureza tão divergentes, regidos por princípios e velocidades igualmente desencontrados que só conseguem conviver bem nos momentos em que o instinto de sobrevivência impera, qual o leão que nada lado a lado com a gazela na planície inundada. Quem será o leão?




Publicado no jornal Cinform 31/08/2009 – Caderno Emprego


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sobre dar o peixe



     São muitos os dirigentes públicos, gestores de programas de responsabilidade social, intelectuais, artistas, homens da imprensa e da comunicação, influentes formadores de opinião, portanto, que aderiram ao discurso de que é errado dar o peixe e que o correto seria ensinar a pescar. É o pensamento “politicamente correto” ou até a expressão da moda. Porém, não é bem assim que as coisas funcionam. Senão vejamos, Stephen Kanitz, administrador de empresas, articulista da Veja, escreveu certa vez: “Todo ano analiso mais de 400 ONGs e descobri algo muito constrangedor. Nas organizações que fazem "mero assistencialismo", 80% dos recursos doados são revertidos em uma cadeira de rodas, em óculos para um deficiente visual ou em um prato de comida. Ou seja, o dinheiro vai para quem precisa, enquanto nas ONGs que "ensinam a pescar" 85% das doações terminam no bolso dos professores, não no bolso dos alunos carentes”.

Acredito que não é possível ensinar alguém a pescar se não lhe é acessível o anzol, a rede, o barco, o freezer, o acesso à comercialização do pescado, o crédito, especialmente o capital de giro. Nesta hora, parece que o instrutor de pesca lava as mãos. Talvez tenha finalizado “sua parte” no projeto que nasceu bom para o professor e insuficiente para o aluno. Também, o financiador pode estar satisfeito porque cumpriu a carga horária, o orçamento, o prazo e o mandato. Justificou o “retorno sobre o investimento” e “alavancou” benefícios comprovados no seu “balanço social”. É muito capitalismo para pouca fraternidade. É o cumprimento frio e burocrático de etapas de um projeto míope, às vezes, criado apenas para retro-alimentar seus idealizadores.

Estranhamente, muitos consultores que aprimoram a gestão de iniciativas sociais do terceiro-setor, enaltecem a importância do trabalho voluntário, mas, ali, naquele momento cobram caríssimo por sua aula e, alguns, nunca experimentaram uma ação voluntária própria.

Precisa-se urgentemente de visão sistêmica para elaborar e executar projetos sociais. Muitos atores devem participar e protagonizar ações que somem resultados reais sobre o público alvo. Resultados estes, que avaliem e vinculem o êxito do projeto a metas transformadoras na comunidade beneficiada pelas ações do projeto. Exemplo: crescimento da renda, volume comercializado, abertura de novos mercados, formalização de empreendimentos, taxa de desemprego e outros indicadores finalísticos.

Ensinar é esforço empreendido visando um resultado final transformador. Apenas ministrar N horas-aulas não garante sucesso. O resultado deste esforço deve ser medido a partir do efeito que esta carga horária executada promoveu nos alunos. O mais importante de uma empresa, acontece fora de seus muros, é quando o consumidor usa seu produto, é o momento onde a empresa efetivamente se realiza e é avaliada. Com educação não deve ser diferente. O verdadeiro certificado de formação profissional não é o “canudo” entregue ao final do curso, e sim, a carteira de trabalho assinada ou a promoção conquistada, ou então, a realização do próprio empreendimento.

Como ensinar a pescar quando a pobreza é profunda e irreparável, porque não é só material? Como apenas ensinar a pescar a excluídos ou expulsos do amor humano, que querem colo? As entidades promotoras de ações sociais brasileiras, na sua maioria, só estão aptas a trabalhar com o pobre com potencial para deixar de ser pobre. Este é o público alvo predileto. O financiador colocar seu dinheiro e o resultado logo aparece, através de transformações visíveis e eternizadas, mais facilmente ainda, se o publico alvo for composto por crianças ou adolescentes.

Não quero elencar qual o público que necessita de receber o peixe, todos nós sabemos. Só precisamos de trinta segundos de reflexão para contar inúmeros (igualmente) brasileiros que não têm qualquer chance de serem atendidos pelos programas mais comuns de inclusão e cidadania disponíveis, ampliando a exclusão para seus familiares (igualmente) abandonados.

Peço desculpas ao caríssimo leitor se estou muito ácido neste texto, mas, falar desse assunto exige posicionamento firme e claro. O politicamente correto é uma nova elitização na nossa muito estratificada sociedade.

Não é possível na complexa sociedade atual ditar soluções universais. Há horas em que se deve dar o peixe. Outras tantas são momentos eficazes de ensinar a pescar. E há outros momentos em que não se deve dar o peixe, nem tampouco ensinar a pescar, e sim, formar piscicultores. Temos, certamente, em nossas mãos os recursos financeiros, tecnológicos, humanos e materiais que devem nos permitir realizar, agora através de nossas mãos, o novo Milagre dos Peixes.




Publicado no jornal Cinform 17/08/2009 – Caderno Emprego
Publicado em http://www.administradores.com.br/artigos/empreendedorismo/sobre-dar-o-peixe/84273/


segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A construtiva visão de longo prazo




“Primeiro a gente faz de conta, depois se torna...” (Guimarães Rosa).


É curioso como as pessoas que costumam adotar uma visão de longo prazo se diferenciam das demais. Em geral, são mais empreendedoras e deixam marcas profundas nas suas biografias e das pessoas que lhes são mais próximas.  A visão de longo prazo faz com que os obstáculos do dia a dia se tornem menores, às vezes até vistos como pequenas adversidades. Já para os mais imediatistas, estas mesmas adversidades se tornam barreiras intransponíveis por não saberem aonde querem chegar, conduzindo-os a perda da fraca orientação que possuem ante tal obstáculo.

Alguns autores definem os empreendedores como visionários, pessoas que promovem as mudanças que resultarão no cenário futuro. Eu, particularmente, considero que empreendedores são construtores de sonhos. São aqueles que idealizam um sonho, definem estratégias e táticas para sua realização e o constroem obstinadamente. Aqui não há nada de mágico. O sonho é construído c-o-t-i-d-i-a-n-a-m-e-n-t-e, tijolinho a tijolinho. E, acreditem, à base de muita renúncia, superação e sacrifício, extensivo aos familiares.

         Certamente todos nós conhecemos pessoas assim, que trabalham sempre para a realização de um sonho empresarial, ou político, ou social, ou religioso; nem sempre com êxito.

A visão de longo prazo nos vincula mais ao coletivo que a visão imediatista de natureza mais egoísta. Também, nos torna mais responsáveis para com nossos descendentes. É raro aquele que deseja mal ao mundo de 2030, igualmente raro é aquele que hoje esteja agindo para que lá encontremos um mundo melhor. Queremos o bem lá na frente, mas infelizmente, não estamos construindo isso agora. É o que diz uma pesquisa do Ibope encomendada pela ONG internacional WWF: “A elite brasileira é ecologicamente inviável – Impacto de classe A e B sobre o ambiente no país é comparável ao dos EUA”. Precisamos acoplar o futuro que sonhamos com nossas ações do presente.

Tem uma estória que diz que “o diabo paga à vista e Deus só paga à prazo”. Isto é, precisamos renunciar às tentações do presente para construirmos um futuro melhor. Em freqüentes oportunidades, agimos por ansiedade e insegurança com o propósito de assegurarmos logo um resultado a nosso favor, na melhor expressão da lei do Gerson. Quantas crianças são alfabetizadas precocemente? Quantas crianças são adultizadas? Quantos pais, por ansiedade, são aceleradores dos processos vitais de desenvolvimento de seus filhos sem respeitar a velocidade natural?  

Dias atrás, li uma reportagem de um jornal de São Paulo que dizia: “Brasileiro gasta mais com carro que com educação – Fenômeno ocorre mesmo entre famílias com filhos, mais ricas e escolarizadas”, e pensei que aí estava um confronto emblemático entre a visão de longo prazo e a de curto prazo. É tentador sentirmos o imediato cheirinho de carro novo, ainda que saibamos que esta atraente propriedade organoléptica possa nos comprometer ou inviabilizar o futuro. Todos sabem que o ingresso de jovens no mercado de trabalho está altamente competitivo, e que as exigências curriculares e de titularidade são crescentes para a realização profissional. Também, sabem que o conhecimento é condição basilar da moderna economia. Mesmo assim, a maioria das pessoas prefere o carro (que está novo por uns dias), ainda que neste mesmo jornal paulista outra reportagem diga: “Sobra 1 milhão de empregos qualificados – vagas não são preenchidas por falta de qualificação, diz Ministério do Trabalho”.

Termos bons sonhos e sabermos o que é melhor para nossos filhos e netos não são suficientes. Precisamos ser educados para termos coerência e sermos mais conscientes de nossos desencontros. Estudar ética, conhecer educação financeira, planejar a vida, ter religiosidade e agir na construção do futuro sonhado nos ajudarão muito. A qualidade da mente e do espírito é fundamental. Não basta confiarmos em nossos planos, precisamos confiar sim, em nós mesmos e nos outros.

Quando nossas ações forem paralelas aos nossos mais nobres desejos, o encontro será inevitável na infinitude de nossos sonhos.





Publicado no jornal Cinform 03/08/2009 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial jul/2009