terça-feira, 26 de maio de 2009

Atitude é competência e educação


     Desde a década de 1970, firmou-se o conceito de competência na gestão de negócios como um conjunto de três fatores principais: conhecimento, habilidades e atitudes, também conhecido como CHA por causa das iniciais de cada palavra. Tal conceito deriva do trabalho do psicólogo e pesquisador da Universidade de Harvard (EUA), David C. McClelland, que muito contribuiu para a construção da teoria da gestão por competência. Seu trabalho  foi aprimorado pelo aluno Daniel Goleman em seu livro Inteligência Emocional (1997). Daí para frente muita tecnologia se desenvolveu nas escolas de administração, com o reconhecimento de valores interiores e aptidões das pessoas e seus reflexos na atividade econômica.

     A nova ordem econômica mundial descobriu que pessoas são fatores indispensáveis de produção. Indispensáveis, mas não do ponto de vista adotado quando falamos da produção de bens tangíveis que podem ser manufaturados com perfeição superior por robôs. Mas sim, indispensáveis na produção de bens intangíveis, frutos de aplicações intensas de conhecimento como são os softwares, os filmes, o entretenimento, as patentes, a nanotecnologia e as marcas. Nesta nova ordem econômica, apenas pessoas com seus talentos podem prover o mundo, ou o mercado como preferem alguns, com tais produtos em larga escala de consumo.

     À primeira vista, vemos uma supremacia do conhecimento sobre os demais fatores que formam as competências, isto é, habilidades e atitudes. É aqui que nos enganamos profundamente. Recentemente li um artigo científico intitulado “Por que as empresas demitem?”, escrito por pesquisadores do CEFET do Estado do Paraná, que me confirmou algo que já ouvira falar: 80% das demissões são motivadas por razões atitudinais ou comportamentais, as demais 20% são resultantes de incapacidade técnica ou insuficiência de conhecimentos. Aqui levamos em conta apenas as demissões com reposição de ocupante à vaga, ou seja, sem extinção do posto de trabalho.

     São problemas típicos de atitude comuns nas organizações: a indisciplina, o desrespeito a hierarquia, as ofensas, o descumprimento de horários, os desvios de caráter, não saber trabalhar em equipe, assédio moral, danos ao patrimônio, dentre vários outros problemas que acontecem com freqüência no cotidiano. Por que nossas atitudes não foram educadas como nosso conhecimento?  Pode a escola contribuir para uma atitude saudável?  
   
     Creio que todos educadores desejam formar pessoas literalmente competentes para gerir a própria vida. Pessoas capazes de escolher, produzir, opinar, influenciar positivamente os outros, trabalhar, educar os filhos; enfim, ser livre e com o próprio arbítrio construir um mundo melhor para todos. Porém, como vimos, vivemos numa sociedade que supervaloriza a cognição, o saber e a intelectualidade, em detrimento das outras faculdades humanas. Nossa sociedade quer puxar tudo para a cabeça misturando esferas originalmente distintas como o pensar e o sentir ao conceituar “inteligência emocional”, por exemplo. Desta distorção resulta o desastre ambiental de nosso tempo e a degradação social produtora de excluídos. Não sabemos colaborar, nem cuidar do próximo. Vivemos numa sociedade onde não existe um bezerro sequer sem dono, mas existem milhões de crianças “sem dono”. Onde não nos entendemos em uma simples reunião de condomínio pela escolha do horário de trabalho do porteiro, mas enviamos o homem à lua e coletamos rochas marcianas com indiscutível perfeição. Parece que conferimos respostas do século XIX para perguntas do século XXI.

     Quero ousar uma formulação a partir dos quatro pilares da educação propostos pela UNESCO que nos ajudará a diagnosticar falhas da educação frente à realidade do trabalho atual: Competência = conhecimento + habilidades + atitudes.

     Respectivamente: Aprender a ser [competente] = aprender a aprender + aprender a fazer + aprender a conviver.  

     Em ambos os casos a solução da equação passa pelo pensar, pelo agir e pelo sentir, fundamentos educacionais insubstituíveis no desenvolvimento integral do ser humano (1). Assim, se quisermos elevar nossas atitudes devemos educar o sentir através de atividades artísticas, esportes coletivos, trabalhos sociais voluntários e uma veneração religiosa à natureza. Além disso, os bons exemplos de pais e professores influenciam definitivamente novas gerações.

    Todos os grandes teóricos da educação vinculam a escola ao trabalho, independentemente da orientação política dos seus discursos. Faço aqui um alerta:  se não fazemos isso bem é porque falhamos pedagógica, econômica e socialmente. Talvez daí resultem nossos miúdos índices de desempenho escolar e o graúdo número de dois milhões de reclamações trabalhistas anuais do Brasil, numero 27 vezes maior que o norte-americano e 250 vezes maior que o japonês.   Realmente “só o Brasil é penta”, mas devemos escutar o grande pensador contemporâneo Edgar Morin, autor da proposta dos 4 pilares da educação para o século XXI, que também relacionou escola com trabalho e pode nos ajudar a  depender menos do futebol.

     Vide “A pedagogia Waldorf”, jornal Cinform de 27/04/2009.


Publicado no jornal Cinform 25/05/2009 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE– Editorial mai/2009

terça-feira, 12 de maio de 2009

Maioridade com que idade?


Estava ouvindo distraidamente um noticiário da TV, quando um assunto recorrente me chamou a atenção. Discutia-se a alteração da legislação para que a maioridade passasse a ocorrer aos dezesseis anos.

Como tal assunto me incomoda! Entendo os motivos que levam muitos brasileiros à defesa dessa mudança: crimes praticados por jovens, quadrilhas que usam jovens para autoria de delitos a fim de se beneficiarem com a proteção legal que consiste nas medidas sócio-educativas, que tem o limite temporal de 21 anos para sua aplicação, etc. Neste assunto, porém, o que mais me incomoda é a sensação de que queremos negar o direito à juventude a alguns apenas: os jovens pobres em situação de risco.

Vejo jovens de classe média terem sua juventude e dependência cada vez mais prolongadas, seja por meio da convivência na casa paterna até aproximadamente os trinta anos, seja no ingresso ao mercado de trabalho depois de formados e pós-graduados. Nada contra, são livres decisões que cabem exclusivamente ao próprio contexto familiar. Vejo ainda, algo emblemático que comprova a incoerência e a degradação de nossa civilidade. São os transportes escolares: aquelas Topics que anunciam em seus parabrisas “UNIT à noite” ou “UFS”. Nossos universitários, maiores de idade, portanto, necessitam de transporte escolar, geralmente custeado pelos pais, tal qual crianças do ensino fundamental para irem a suas aulas. Por quê? 

Na década de 50, o brasileiro vivia em média 46 anos e a maioridade acontecia aos 21, ou seja, quase metade da vida era juventude. Atualmente no Brasil, vivemos em média 72 anos, a maioridade se dá aos 18 anos e alguns querem reduzi-la para os 16; repetindo a conta, a juventude passa a representar apenas 20% do tempo médio de vida de um brasileiro.

Nem Darwin explica tal mutação em tão pouco tempo. A maioridade aos 21 anos tem referências biológicas que ultrapassam nossos códigos legais. Existem leis biográficas às quais todos nós humanos seguimos. A maturidade se dá no corpo físico, inclusive, neurologicamente falando. Também no aspecto anímico ocorre amadurecimento à medida que conseguimos mais e mais controlar nossas emoções e nossa vontade. Este amadurecimento saudável pode e deve ser proporcionado pela educação, embora, as escolas como conseqüência de nossa sociedade, valorizem e avaliem quase exclusivamente o desenvolvimento cognitivo – o saber intelectual. Pedagogicamente, penso que as atividades escolares devem equilibrar ações que estimulem o pensar com atividades artísticas, dinâmicas de grupos e esportes coletivos, promotores do amadurecimento emocional (sentir), além de praticas de trabalhos manuais com madeira, argila, jardinagem, mecânica, dentre outras que nos desenvolvem e educam a vontade e o agir no mundo.

Será que não estamos agindo por impulso quando defendemos ainda mais a redução da maioridade para os 16? Sem olvidarmos que há em nosso país  quem defenda sua redução para os 14 anos. É possível reduzir verdadeiramente a adolescência a dois ou três anos apenas? Queremos extirpar a difícil fase da adolescência por decreto? Seria a juventude um objeto platônico, apenas idealizada e nunca realizada, já que nós sempre queremos parecer jovens enquanto o tempo insiste em nos mostrar o contrario com seu argumento incontornável? Por ser a adolescência  uma fase passageira, será que vale à pena darmos tanta importância a ela?

São perguntas difíceis às quais não tenho respostas confortáveis. Sabemos que as políticas públicas para juventude são precárias demais no Brasil e em muitos outros países. Os jovens formam o grupo social mais vulnerável e mais exposto a desafios. Para eles o desemprego é maior, a inserção no mundo do trabalho é mais difícil, é natural sua dificuldade de relacionamento com os adultos, não são preparados para a cultura empresarial e suas atitudes e valores facilmente colidem com as exigências do trabalho.

Políticas públicas estarão condenadas ao fracasso sempre que tratarem os jovens como atores sem identidade própria e sem independência e não levarem em conta a diversidade cultural e material presente entre eles e o seu desenvolvimento biopsicossocial. De universal mesmo, em nossa sociedade brasileira, vejo um processo de “juvenilização” dos adultos que os incentiva a omitir-se das suas responsabilidades, e outro processo de “adultilização” das crianças e jovens que atropela o ritmo natural e harmonioso de seu desenvolvimento, a exemplo da maioridade precoce, da erotização e consumismo das crianças, e da antecipação recente do ensino fundamental e da alfabetização em um ano.

Ao creditarmos à redução da maioridade penal uma mudança real da segurança pública, estamos tão somente nos desviando do real problema. Ou será que menores bebem mais que maiores? Menores se drogam mais que maiores? Menores roubam mais que maiores? Menores são mais corruptos que maiores? ...? ...?   
 
Quero um amplo debate da sociedade brasileira sobre o tema. Acredito que a saída está na educação. Mas não uma educação redentora ou salvadora que nos chegue como mágica. E sim, numa educação construída num cotidiano honesto nas salas de aulas, nos lares, nas empresas e nos governos por adultos que colaborem (ao invés de concorrerem) com os jovens e sejam conscientes de suas responsabilidades na construção de um país.

Se reduzirmos a maioridade para os 16 anos, teremos criminosos cada vez mais jovens e indefesos frente a seus algozes, que, lamento, continuarão aprendendo pelo mau exemplo dado por maiores, exatamente como já ocorre hoje.


Publicado no jornal Cinform 11/05/2009 – Caderno Emprego