domingo, 21 de julho de 2019

Entrevista: Educação Empreendedora nas Escolas

Entrevista: Educação Empreendedora nas Escolas

Desde 2013, o Sebrae vem trabalhando com o Programa Nacional de Educação Empreendedora, em parceria com escolas públicas e privadas. O projeto visa estimular a criatividade, o pensamento crítico e o protagonismo juvenil. Em Sergipe, teve início em 2015, e de lá até 2018, cerca de 22 mil estudantes já foram atendidos e 1.150 professores capacitados em sua metodologia. Nesta entrevista ao Caderno de Educação, o superintendente do Sebrae/SE, Paulo do Eirado Dias Filho, conta como a Educação Empreendedora pode incentivar o protagonismo dos alunos.

Caderno de Educação – Por que investir em educação empreendedora nas instituições de ensino?
Paulo do Eirado - Quando falamos em educação empreendedora, a primeira coisa que a gente deve pensar é que esse empreendedorismo vem no sentido de trazer um projeto de vida, de trazer emancipação, de trazer alternativas para o futuro desses alunos que estão frequentando, hoje, o ensino fundamental, o ensino médio, ou até mesmo o ensino superior. A gente vive num mundo com muitas mudanças e a questão comportamental é onde está havendo, talvez, a maior crise. De um modo geral, vivemos numa época meio que “obcecada” pelo conhecimento. Todo mundo acha que conhecimento é tudo. Mas, conhecer não é tudo. A gente precisa ter também o lado atitudinal, que está muito ligado ao nosso emocional. O lado da ação, da força de vontade, de fazer as coisas acontecerem, não ficar só no mundo das ideias. Tudo isso deve fazer parte de um projeto de educação que seja, de fato, um projeto sério, um projeto comprometido com o que vai acontecer no futuro daquela pessoa.

CE – Qual a diferença de trabalhar o empreendedorismo nas escolas, do trabalho do SEBRAE com micro e pequenos empresários?
Paulo do Eirado - Quando trabalhamos empreendedorismo na educação, a gente trabalha muito focado na questão comportamental, principalmente para um futuro onde haverá profissões que a gente não prevê hoje. E como a gente prepara uma pessoa para um futuro em que não se faz a menor ideia do que possa acontecer? É exatamente através do desenvolvimento de habilidades que possam dar equilíbrio emocional, dar uma visão de mundo, incentivar a criatividade pra que a pessoa se torne inovadora, para que se torne capaz de se adaptar a esse mundo novo. A outra vertente, quando falamos em empreendedorismo objetivamente refere-se a questão da atividade econômica. O Sebrae tem uma grande responsabilidade com relação aso ambiente de negócios, que é preparar as empresas, os empreendedores que estão já com seus negócios em andamento. Esperamos que eles tenham mais condição de acompanhar as mudanças de mercado, a concorrência, as questões tributárias...enfim, todo esse universo de desafios que estão presentes no dia a dia das empresas.

CE – Como funciona o projeto de Educação Empreendedora nas Escolas?
Paulo do Eirado – O Sebrae trabalha a educação empreendedora junto à rede pública, junto com as escolas particulares também, no sentido comportamental. Nesses lugares, a gente não está numa escola técnica de empreendedores, de formar empresários, mas sim de formar pessoas que precisam ter um projeto de vida, de pessoas que precisam desenvolver uma visão de longo prazo, para fazer suas escolhas. Nós damos ferramentas e treinamento aos professores e encorajamos os alunos, por exemplo, a conviverem e calcularem riscos, para evitar aqueles riscos que sejam maiores que a própria perna. Tudo isso, dentro de um projeto educacional bem feito, que vai enriquecer o próprio currículo da escola.

CE – Qual a vantagem de a escola abraçar um projeto como a Educação Empreendedora em sua grade curricular?
Paulo do Eirado – Existe um relatório da Unesco, o Delors, que já previa a educação empreendedora, não com esse nome, mas quando propôs os quatro pilares para a educação nesse novo milênio. Dentre esses quatro pilares, um a escola já pratica com destreza, que é um lado mais cognitivo, o “Aprender a Conhecer”. O segundo pilar, que é o “Aprender a Conviver”, acontece de forma relativamente espontânea, entre os grupos de alunos, as “tribos”, como eles mesmos se referem, que vão se organizando por afinidade. A escola não interfere muito nisso, mas observa. E o terceiro pilar, importantíssimo, é o “Aprender a Fazer”. Em geral, esse pilar ainda está muito distante da escola. É difícil colocar centenas de alunos pra fazer coisas dentro da escola, né? Que tamanho de produção é essa? Que equipamentos, espaços e materiais seriam necessários? Tudo isso é custo. A Unesco diz que esses três pilares, juntos, vão construir um quarto pilar, que seria o “Aprender a Ser”. Bom, se nós trabalharmos esses três pilares, a gente realmente consegue fazer uma educação de extrema qualidade. Quando levamos o projeto empreendedorismo para a educação, que de fato seja integrado com as propostas da escola, com seus conteúdos curriculares, estamos levando, dentre outros, o aprender a fazer, que é exatamente praticar alguma coisa empreendedora, como um projeto, onde ele é protagonista.

CE – Num país, como o nosso, que ainda está em crise, educar para empreender é a solução?
Paulo do Eirado – É uma das soluções, na medida em que isso venha a enriquecer a Educação. A gente tem que ter cuidado para que esse empreendedorismo não seja uma válvula de escape. Ah! Já que não existe emprego, então, vamos transformar ele em empreendedor? Não é assim. Até porque, de um modo geral, são poucas pessoas que, de fato, são empreendedores, que tem essa vocação. A maior parcela das pessoas não busca conviver com o risco permanentemente ou lida bem com as incertezas. A gente tem que respeitar as pessoas como são. Imagine uma sociedade em que todo mundo é empreendedor? Seria uma sociedade de todos contra todos. Quem vai ser líder de quem? Já começava daí a briga, né? (risos). Então, a gente tem que entender e respeitar a natureza humana, respeitar o aluno.

CE – Quais o próximos passos do Sebrae em relação a educação empreendedora?
Paulo do Eirado – O Sebrae vai aperfeiçoando o seu material pedagógico, a sua maneira de abordar as escolas. A grande prioridade é o professor – fazer ele entender que quando vai usar essas ferramentas tecnológicas, ele tem que ir com o papel de mediador, de orientador, de visão crítica para essas tecnologias. A criança ou adolescente, quando entra em contato com essas tecnologias, ele vai de cabeça, não tem realmente filtros e tem limitações pra ter uma visão mais crítica. Esses alunos chegaram nativos digitais. Eles têm um “chip” a mais, então, realmente, a intimidade deles com essas ferramentas é diferente de gerações anteriores. E o professor não deve jamais se cobrar de ter um desempenho no uso dessas ferramentas melhor que seus alunos. Acaba com isso, vamos esquecer. Eu pergunto aos professores, será que o técnico de futebol joga melhor do que o jogador? Da mesma forma o professor, na mediação dessas ferramentas. Ele vai ser aquele técnico, aquele orientador, aquele que organiza o seu time e que o leva a vitória: uso construtivo da tecnologia. Porque do mesmo jeito que ela tem um potencial positivo muito grande, também tem um potencial destrutivo muito grande. Cabe à escola não ser absolutamente encantada com o uso dessas ferramentas, pois uma boa aula não depende somente de tecnologia, depende principalmente da motivação do professor, da relação dele com os alunos. Eu acho que é isso que a gente tem de repensar, de como abordar, de como chegar no aluno, de como ser um adulto de referência pra eles.

Publicado no Caderno de Educação do Jornal da Cidade em 17 de julho de 2019, pág. 8

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