segunda-feira, 26 de novembro de 2012

De biquíni e computador, pai não entende nada




O uso de computadores na educação parece desconsiderar a mais ínfima razão pedagógica. Os investimentos nessa área obedecem, em geral, a  uma simples chamada mercadológica. Afinal, para que servem mesmo os computadores na escola?

Um dos argumentos para sustentar a necessidade dessas máquinas nas escolas vem da dificuldade, relativamente comum, dos pais usarem os computadores nas mais variadas versões: celulares, desktops, laptops, tablets, smartphones, netbooks, Ipods, “I-isso”, “I-aquilo”. Particularmente, penso que a dificuldade que um jovem de hoje terá de usar um computador será semelhante à que minha geração teve para usar uma garrafa térmica. As crianças atuais nascem com um chip a mais que as de décadas atrás. Elas usam um aparelho eletrônico qualquer desde a primeira vez como se já fossem velhos conhecidos, arrasando definitivamente nossa autoridade no assunto.

Do ponto de vista pedagógico, desconheço projeto de uso de computador em ensino fundamental que possua fundamento superior ao do uso de uma flauta ou uma aquarela na escola. O que se desenvolve em uma criança durante a interação com computadores? A autocorreção gramatical? A motricidade? A compaixão? A capacidade de operar números? A prontidão mastigada e apressada do Google? A arte de colar? A experiência anônima do MSN? O reflexo condicionado pelos estímulos visuais? A reação impensada nos games? A representação de um mundo oco, acelerado e hiperexcitante?

O Doutor Valdemar Setzer, professor do Instituto de Ciências da Computação da Universidade de São Paulo - USP, é um aguerrido defensor da inutilidade pedagógica dessas máquinas digitais. Ele argumenta que, por possuir uma estrutura fria e inflexível, a lógica do software empobrece a capacidade imaginativa da criança por meio de um condicionamento limitado do pensar, além de apresentar imagens simuladas da realidade por mero recurso matemático, o mesmo acontecendo com o som. Dessa forma, sustenta o professor Setzer, esse mergulho no ambiente virtual afasta a criança da realidade concreta, na qual as coisas têm peso, textura, temperatura, sombras, coerência entre tamanho e massa, produzem sons característicos e, acima de tudo, nos dão segurança na existência.

Pais costumam crer que os computadores devem ser manipulados desde cedo pelas crianças, pensando no futuro delas. Filhos veem os computadores como coisas do passado - afinal, já existiam no mundo antes de eles nascerem. Esse é o descompasso entre gerações habitantes do novato século XXI.

Sim, já houve conflitos mais tensos entre gerações. Certamente, ter um filho hippie ou guerrilheiro desorientava bem mais os pais de 40 anos atrás. Mas esses filhos contestadores e inconformados formavam minorias e não aprendiam esses comportamentos sociais na escola. Preocupante, hoje, é a submissão em larga escala das crianças a esse mundo virtual, incentivadas por “educadores” (des)orientados e (des)preparados pela indução do mercado, que dita tendências educacionais autorrealizáveis e narcisistas.

Deixar uma criança sozinha na internet é semelhante a largá-la a sós em uma esquina de uma grande cidade à noite, assim diz o professor Setzer. Semelhantemente, não vemos crime quando nosso filho faz um download  desautorizado de um livro. Porém, não aceitaríamos, com veemência, se ele roubasse esse mesmo livro da prateleira de uma livraria. Isso mostra que não sabemos educar para esse mundo virtual. Falta-nos a mais elementar compreensão do universo imaterial.

Um ligeiro e genial conto, “Pai Não Entende Nada”, de Luís Fernando Veríssimo, ilustra bem a imaterialidade crescente das coisas e as diferentes visões de mundo entre gerações:

- Um biquíni novo?
- É, pai.
- Você comprou um no ano passado!
- Não serve mais, pai. Eu cresci.
- Como não serve? No ano passado, você tinha 14 anos. Este ano, tem 15. Não cresceu tanto assim.
- Não serve, pai.
- Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.
- Maior não, pai. Menor.
Aquele pai, também, não entendia nada.

  

            Publicado no jornal Cinform em 26/11/2012 – Caderno Emprego

Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 11/2013


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?



     Questionamentos clássicos, como quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, nos trazem situações que desafiam a lógica e o nosso modelo mental. Facilmente, ao tentarmos responder, entramos em um parafuso sem-fim, que quanto mais gira mais aprisiona. Por certo, pensamos assim, porque buscamos sempre respostas finais à luz do conhecimento e bem enquadradas no paradigma atual, mesmo que para questões anteriores à própria existência humana. Disso, decorre a falência da resposta concreta.

     Se acaso fôssemos mais criativos e imaginativos, esse assunto da galinha e do ovo já estaria solucionado há muito tempo. Mas por que não somos mais criativos e imaginativos? Uma das nossas limitações nessas áreas humanas decorre da atrofia que nos é imposta pela escola, reprodutora, por sua vez, do modelo social de nossos dias que supervaloriza a intelectualidade e a memorização.

     A imaginação é a típica “lógica” infantil, e o brincar é a materialização dela. Assim, crianças que brincam e aprendem a dominar o espaço físico, além de desenvolverem um organismo mais saudável, também criam uma estrutura mental mais dinâmica, isto é, mais ágil e flexível para lidar com o inesperado e o oculto.

     “Todo ato motor conduz ao ato mental”, afirmou Dr. Henri Wallon (1879-1962), médico e psicólogo, formulador da Psicologia do Desenvolvimento. A atividade motora está associada à região central do cérebro humano, que deve ser educada a partir de movimentos corpóreos orientados por desenhos de formas e pela realização de trabalhos manuais finos, como, por exemplo, miçangas e bordados, alternados com trabalhos mais pesados, a exemplo de esculpir madeira.

     Estudos recentes apontam que o lado direito do cérebro é a sede do pensamento sistêmico, intuitivo e emotivo. Do ponto de vista educacional, o desenvolvimento desse lobo cerebral é potencializado pela vivência artística. A experimentação prática das artes plásticas, da música, do canto e das artes cênicas na escola deveria acontecer em proporção similar a das disciplinas teóricas tradicionais.

     O modelo escolar atual potencializa, exclusivamente, o desenvolvimento do lado esquerdo da massa cinzenta, região da atividade lógica, racional e teórica, muito valorizada pelos que querem exibir intelectualidade e pensamento dedutivo. Por essas características neurofisiológicas, encontramos, nessa região, o espaço para preparar jovens para competirem em concursos teóricos, a exemplo do vestibular e de outros exames de proficiência cognitiva.

     No artigo “Salvando a Infância – Um memorando para a pedagogia do fazer”, publicado agora em português, o doutor Peter Guttenhofer ensina que as escolas ameaçam a infância e propõe um novo modelo escolar para crianças de 4 a 11 anos, isto é, o período do jardim e do fundamental menor. Ele se vale da metáfora do bote salva-vidas para conduzi-las numa fase de transição entre o modelo escolar atual, que ele julga insustentável e destrutivo, para um modelo ideal inspirado na Pedagogia Waldorf.

     Nessa proposta, deve haver flexibilização do currículo teórico e uma expansão dos trabalhos manuais, especialmente aqueles que, por meio do brincar, repetem atividades laborais dos adultos na agricultura, no artesanato e na atividade doméstica. Nela, o ponto de partida é: professores e alunos trabalham e aprendem juntos. As crianças de hoje não aceitam mais o professor que parece um “depositário de conhecimentos teóricos” e, bem assim, recusam um currículo e salas de aulas que as isolam da vida real.

      Para preservar a genialidade das crianças, como no diálogo a seguir, é que precisamos reformar profundamente o inadequado modelo escolar vigente: “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?”. Confesso que depois que fiz essa pergunta a Thiago, um menino de seis anos, muito criativo e perspicaz, não tive mais dúvida. Ele respondeu com tanta certeza que me convenceu definitivamente, além de me fazer refletir sobre o quanto essa questão é simples. Ele me disse: “foi o ovo!”. Perguntei: E quem botou o ovo? - Deus! – foi a resposta convicta. E devolveu: “Deus prefere ‘botar’ uma galinha ou botar um ovo?”.


 
      Publicado no jornal Cinform em 05/11/2012 – Caderno Emprego