segunda-feira, 28 de maio de 2012

Números inquietantes do clima do trabalho



Uma pesquisa da Towers Watson, intitulada “Global Workforce Survey”, realizada em 2007 num universo de 90 mil trabalhadores de 18 países, buscou determinar o nível de envolvimento das pessoas com os trabalhos delas, chegando a resultados surpreendentes e preocupantes. Os pesquisadores descobriram que 21% dos empregados são realmente engajados no trabalho, isto é, trabalham com iniciativa, criatividade e paixão. Dos trabalhadores pesquisados, 38% se mostraram pouco ou totalmente desengajados em relação às organizações. E os 41% restantes se enquadraram em um oscilante meio termo de comprometimento.


Tais números nos dizem que apenas um quinto dos empregados é apaixonado pelo que faz e aparentemente está feliz com as atividades laborais. Devemos nos indignar com essa realidade e buscar a resposta que dê luz à solução desse problema e as implicações na qualidade de vida de todos: empregados, familiares, gestores, economistas e consumidores impactados por essa infelicidade generalizada.


Por certo, o estado de espírito dos colaboradores reflete não apenas nos resultados da organização, mas decisivamente na realização profissional e pessoal. Assim, entendemos que um bom desempenho profissional é emancipador para a pessoa e construtivo para a sociedade, derivando desse conjunto de atitudes positivas, uma relação ganha-ganha bem colaborativa.


No livro “O futuro da administração”, de Gary Hamel, há uma proposta de hierarquia das capacidades humanas no trabalho: nível 6:paixão; nível 5: criatividade; nível 4: iniciativa; nível 3: expertise; nível 2: diligência e nível 1: obediência.


Notemos que há um maior reconhecimento profissional à medida que se sobe nos níveis. Podemos considerar que os três primeiros níveis são os mais valorizados na economia industrial, a mais tradicional. Os três níveis superiores são mais valorizados, indispensáveis até nas modernas economias do conhecimento e criativa.  


Há, porém, um resultado felizmente contraditório nessa mesma pesquisa da Towers Watson ao constatar que 86% dos empregados pesquisados afirmaram que amavam ou gostavam do trabalho. Disso, foi verificado que o engajamento do colaborador é maior se três fatores forem observados: primeiro, se há oportunidade de crescimento na organização. Segundo, a empresa deve possuir boa reputação e missão nobre que justifique o esforço extraordinário. E terceiro, os comportamentos dos líderes da organização devem ser confiáveis a ponto de serem seguidos.


 À alta administração, são recomendáveis, afirma Hamel, os seguintes pontos indicados na grande pesquisa: A - deve estar sinceramente interessada no bem-estar dos empregados; B – deve se comunicar com abertura e honestidade; C – deve transmitir as razões das decisões empresariais; D – deve ser visível e acessível; E – as decisões devem ser compatíveis com os valores da organização.

Já os trabalhadores, devem protagonizar a carreira profissional com ênfase na construção do próprio futuro, sendo-lhes interessante manter um cíclico programa de aperfeiçoamento profissional intercalado com os novos desafios do trabalho e da acelerada dinâmica econômica e social em curso, imprescindível para conduzir a carreira sempre em tempo bom.   


Como vimos, a atmosfera do engajamento laboral aponta 21% de empregados apaixonados por seus locais de trabalho. Coincidentemente, a atmosfera terrestre se compõe dos mesmos 21% de oxigênio. Dessa maneira, os gestores devem melhorar o clima de suas organizações, oxigenando, pelo próprio exemplo, todo o corpo de colaboradores. Afinal, concluiu Hamel: para os empregados serem entusiásticos, apaixonados e vibrantes tanto quanto poderiam ser, não espere o trabalho sugar. Melhor fazer a administração soprar.    





Publicado no jornal Cinform em 28/05/2012 – Caderno Emprego


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Dia das Mães e o “day after”


     Ontem, Dia das Mães, certamente uma data especial. É quando almoçamos em família e dedicamos (ou deveríamos dedicar) uma atenção especial à mamãe – retribuição simbólica em relação à atenção que dela recebemos. Merece registro o efeito deste domingo de maio também para o comércio, considerado o segundo melhor período de vendas, perdendo apenas para o Natal.

Por todo esse simbolismo enriquecido por gestos amorosos de filhos para com as mães deles, esse dia dispensa maiores comentários. Assim, vamos nos ater ao dia seguinte (“day after”, em inglês) e todos os demais 360 e tantos dias que o sucedem até um novo Dia das Mães. Tão numerosos esses outros dias, que os fazem verdadeiro palco da luta cotidiana, o famoso dia a dia, representando muito mais o que é ser mãe, que o único dia do ano a ela consagrado.

Quando se desenvolve um trabalho educacional e formativo, como fazem as mães cuidando dos filhos de qualquer idade, percebe-se que só surtirá o efeito desejado quando realizado a longo prazo. Dessa forma, não há como crer que algo acontecido em um único dia, por mais poderoso e marcante que seja, será capaz de, por si só, resultar em efetivas mudanças. Isso porque, não se faz educação por decreto, mas apenas através de um trabalho cotidiano e repetitivo, capaz de criar hábitos e solidificar graus de crescimento moral, volitivo, social e cognitivo nos educandos.

Esse é o grande papel exercido pelas mães na sociedade – zelar pela coerência e persistência de um cotidiano saudável para a formação do código moral e ético nos filhos. Cada vez mais, a permanente orientação firme e amorosa de uma mãe é necessária para a criação harmoniosa das crianças em virtude da crise moral e institucional crescente que vivemos.Hoje,questionamos os valores morais coletivos e institucionais, a exemplo da igreja ou da pátria, e nada repomos no lugar. E se rejeitamos esses padrões coletivos, criamos novos códigos éticos pessoais a partir de que fontes? Ofertar essa fonte é o dever que uma nova escola e família devem propiciar. Porém, enquanto nos ocupamos prioritariamente com a formação cognitiva na esperança de termos jovens inteligentes, podemos estar dando um tiro no próprio pé: desenvolver uma inteligência egoísta, destrutiva socialmente e, portanto, poderosa mas carente de um repertório de valores morais elevados.

Mais do que ser um adulto que gera crianças, à mãe, cabe o mérito de ser alguém que gera adultos a partir de crianças. Essa é a heroica saga da mulher numa família, papel compartilhado com o homem, mas não transferível por razões de íntima essência da alma feminina, perfeitamente integrada a um corpo que também não transfere ao homem o ventre fecundo e o poder de alimentar um filho ao seio.

Vivemos em um País que reconhece e remunera muito bem a formação escolar. O Prof. Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas – FGV - ,afirma, a partir de exaustivas pesquisas socioeconômicas, que o Brasil incrementa os salários em 15%,em média, por ano de escolaridade. Isso comprova o que já faz parte do discurso das famílias que se sacrificam e insistem na boa educação dos filhos, pois, sabiamente entendem que bons professores são caros; maus professores, mais ainda.

Como uma estadista do lar, a mãe nos ensina o sentido da fé com a convicção de que o longo prazo nos resgatará de qualquer situação adversa atual. Prega também a certeza de que o maior inimigo de nossos sonhos é ceder ao imediatismo sedutor. E isso é feito, incansavelmente, nos 366 dias do ano, quando bissexto.

Nosso mais profundo respeito às mamães. Afinal, a sabedoria popular ensina: “A mão que embala o berço governa o mundo”, o que reafirma o erudito Goethe, nas palavras finais da segunda parte de Fausto: “O eterno feminino nos eleva”.




Publicado no jornal Cinform em 14/05/2012 – Caderno Emprego

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Trabalhador, construa bem o seu passado para ter futuro


     Avaliar um candidato a uma vaga de emprego é uma situação que ilustra o que se deseja demonstrar a seguir. A construção de uma carreira profissional bem sucedida é feita a partir de algumas passagens da vida pessoal e profissional de um trabalhador. Cada passagem dessas pode se tornar uma interessante linha a constar no curriculum vitae – que traduzido literalmente significa “curso da vida”. Assim, nossa profissionalização é fruto da construção de experiências já realizadas ao longo de nossas vidas, portanto, já passadas.

Sabemos que ter uma boa base escolar, aliada a uma formação profissional bem reconhecida, é fundamental para a conquista de postos mais valorizados e bem remunerados no competitivo mercado de trabalho. Porém, associamos diretamente a essa receita a expectativa de um futuro melhor. Tudo certo até aqui, exceto pela incerteza inerente ao próprio futuro, já que não temos quaisquer garantias sobre ele.  Que fazer então?

O futuro é sempre uma aposta. Já o passado é perfeitamente estático, isto é, imutável. Dessa maneira, seremos muito mais felizes em nosso objetivo de construir um passado que um futuro. De tal forma, a realização de um robusto histórico pessoal e profissional é a chave para se diferenciar na carreira profissional.

No serviço público, os concursos seletivos, hoje disputadíssimos, baseiam-se no estoque de conhecimentos teóricos, objetivos nas suas provas, favorecendo os candidatos que mais estudaram e possuem melhor habilidade de responder as provas dessa natureza. Sendo assim, favorece aos que já dedicaram mais horas de estudos aos assuntos avaliados, ou seja, os que têm mais passado dedicado a esse fim. Na iniciativa privada, a seleção de currículos também se dá pela lista de experiências vividas e pelos resultados já alcançados em funções anteriores. Novamente, somos avaliados por nosso passado.

Diante dessas constatações, nossos atos do dia a dia se transformarão nas linhas que constarão em nossos currículos profissionais. Zelar por nossas atitudes, pelo desenvolvimento de novas habilidades e conhecimentos deve ser uma fórmula ao alcance de todos que sonham com uma bela realização profissional. Posto isso, vemos que não só um bom conteúdo teórico será suficiente para a conquista da realização no trabalho, mas, acima de tudo, as boas atitudes. Aquelas que nos tornam pessoas bem sociáveis, capazes de trabalhar em equipes, integradoras, confiáveis e éticas – essas são as verdadeiras garantias de longevidade e progresso na profissão.

O trabalhador formal, o autônomo e até mesmo o empresário serão excluídos de qualquer convivência duradoura no ambiente econômico se não agirem com bons modos. Tal profissional pode ser a maior autoridade em determinado assunto, possuir um vasto conhecimento e domínio teórico do tema, mas sendo uma pessoa intratável não logrará êxito no trabalho. E isso será registrado definitivamente em seu passado.

Jack Welch, ex-presidente da GE – General Eletric, considerado “O Executivo do Século” pela revista Fortune, disse certa feita durante um debate em uma universidade americana, quando perguntado sobre “o que se deve dizer a um jovem que almeja uma brilhante carreira profissional para que tenha sucesso:”  “Apenas duas palavras”, gerando grande expectativa no curioso auditório e completou: “boas maneiras!”.

Por certo, vemos com frequência a dificuldade de jovens obterem o primeiro emprego. Contraditoriamente, os que têm “mais futuro” são os que enfrentam maiores barreiras no acesso ao trabalho. Por isso, reafirmamos: estudar, fazer cursos profissionalizantes, estagiar, participar de trabalhos voluntários e comunitários é a fórmula para a geração de um bom e imutável passado.   Invista em sua formação profissional e na construção de uma rede de relacionamentos saudáveis, afinal, o bom futuro será fruto de um passado bem avaliado.



Publicado no jornal Cinform em 30/04/2012 – Caderno Emprego


segunda-feira, 16 de abril de 2012

A sociedade à frente das corporações



     Uma autêntica inversão de valores já se anuncia há algum tempo e consolida-se mais e mais: é a velocidade superior das dinâmicas sociais sobre as dinâmicas corporativas e institucionais. Há anos, as instituições ditavam os passos que a sociedade obedientemente seguia.

     Em pouco tempo, a sociedade, municiada por tecnologias da informação e da comunicação, e organizada em redes sociais, passa a protagonizar o rumo ao futuro, levando muitas empresas e governos à instabilidade de suas gestões.
Esse fenômeno começou no final dos anos 70, com o advento do computador pessoal – PC. Nos Estados Unidos, centro dessa revolução, toda a estrutura educacional foi literalmente atropelada pela febre autodidata dos usuários de recursos de informática. Alvin Toffler, em seu livro “Riqueza Revolucionária”,  descreve: “Esse evento começou em 1977, e aconteceu de uma forma bastante incomum. Na época, para todos os efeitos práticos, não havia computadores pessoais no planeta. Por volta de 2003, entretanto, somente nos Estados Unidos havia 190 milhões de PCs. Isso foi surpreendente. Porém, mais surpreendente foi o fato de que mais de 150 milhões de americanos sabiam como usá-los. E mais espantoso, foi como eles aprenderam a fazer isso.

     Os PCs, desde que os primeiros Altair 8800 e Sol 20 apareceram, têm sido dispositivos temperamentais e muito mais teimosos e complicados de usar do que qualquer outra utilidade doméstica. Eles tinham teclas, disquetes, softwares (um conceito que poucos americanos conheciam), manuais e um estranho vocabulário de comando DOS.
Então, como milhões de pessoas – metade da nação – dominaram essa máquina de grande complexidade?  Como elas aprenderam a fazer isso?

     Bem, sabemos como NÃO aprenderam. A esmagadora maioria, especialmente nos primeiros tempos, não foi à escola para aprender a usar o PC. Na verdade, com raras exceções, esses novos usuários tiveram pouca ou nenhuma instrução formal.

     O aprendizado começava quando iam a uma loja (...). O que acontecia em seguida era uma busca frenética por alguém – vizinho, amigo, colega, conhecido, etc – que pudesse ajudar. Qualquer um que soubesse um pouco mais do que ele sobre como usar um computador. Um guru, descobriu-se, era alguém que comprara um computador uma semana antes”.

     E conclui Toffler: “Em seguida, uma verdadeira torrente de informações sobre PCs espalhou-se pela sociedade americana, criando uma experiência de aprendizagem da qual milhões participam”.

     A partir dessa narrativa histórica, percebemos um movimento espontâneo de ensino-aprendizagem nascido das interações pessoais, que provocou uma transformação cultural, econômica e social em curtíssimo espaço de tempo.

     E onde estavam as escolas nesse período? Onde estavam as empresas nesse período?  Naturalmente, esse processo de aprendizado progressivo não foi controlado ou organizado por uma pessoa ou instituição. E como ninguém recebia pelo trabalho ou atividade que realizava, teve início um imenso processo social – que passou despercebido por boa parte dos educadores e economistas. Apenas muitos anos mais tarde as empresas começaram a treinar grandes números de usuários para operarem seus PCs.

     O exemplo americano é apenas o começo de um processo histórico universal, aliado ao destino humano de formação do livre arbítrio, no qual as pessoas tendem a fazer suas escolhas de dentro para fora, isto é, o poder do marketing de massa e da indução de desejos de consumo começa a ser amenizado. As redes sociais da internet influenciarão cada vez mais as decisões de compras entre consumidores empoderados e, assim, deverão ser acompanhadas de perto pelas corporações e governos para balizarem suas estratégias mais vitais.

     Aos empresários, fica o recado de que há de se rever práticas comerciais urgentemente. E isso é apenas o começo.





Publicado no jornal Cinform em 16/04/2012 – Caderno Emprego



segunda-feira, 2 de abril de 2012

De tanto pensar, morreu um mundo


     
     Vivemos a era do intelecto. Nos dias atuais, a exigência de uma formação intelectual se tornou pressuposto de sucesso no universo do trabalho e das profissões. Modo geral, somos extremamente estimulados na escola e na sociedade para o desenvolvimento cognitivo da memória e da capacidade intelectual.

     Valorizamos tão demasiadamente a atividade cerebral, que, por vezes, alguns autores teimam em reduzir o ser humano a um cérebro isolado. No máximo, esses adoradores da massa cinzenta devem ver os demais órgãos como satélites que orbitam em torno de um cérebro. Seriam estes os neoencefálocentristas?

     Diferentemente da imagem de provedor do futuro, ou de fonte do porvir, nosso caríssimo cérebro funciona muito mais semelhantemente a um espelho retrovisor do que a um farol que ilumina nosso próximo passo. Explicando melhor: o pensar é fruto de nossas experiências e aprendizagens já realizadas, ou seja, ele vive e se alimenta do passado. Por isso, para sermos bons profissionais, temos que possuir um estoque de conhecimentos adquiridos por muitos anos na escola e por meio das atividades laborais. Assim, é o nosso passado, que nos faz bons pensadores e usuários das nobres funções cerebrais.

     Costumo dizer que se o nosso tão valorizado pensar nos orientasse com segurança para o futuro, acertaríamos o resultado das próximas loterias com a mesma facilidade que acertamos os números de quinas já sorteadas. Além disso, prever o futuro é tão inacessível a nossa cognição que atribuímos isso - em pleno terceiro milênio - a fatores místicos ou mágicos.

     Com efeito, esse mundo da supervalorização das atividades cerebrais e do acervo de informações e conhecimentos pretéritos pode ser responsável pela inviabilidade do nosso futuro. Sabemos tudo, mas erramos muito na nossa conduta. Então, saber não é fazer. Enquanto superestimamos o conhecimento sem a sua coerente aplicação no mundo, nos orgulharemos de nossas conquistas teóricas avançando para o abismo da realidade órfã. Ou seja: um discurso bonito por fora e decomposto por dentro.

     A humanidade, impulsionada por essa onda de intelectualidade, vive no presente a inédita sensação de acreditar que o futuro poderá ser pior que o passado. Trata-se da desesperança coletiva inovadora e infeliz. Enquanto apenas pensamos, ainda que positivamente, sem agirmos, não poderemos ser felizes e equilibrados. Pior que isso, é quando temos um pensamento negativo e agimos para sua realização, a exemplo da vigorosa indústria bélica.

     Devemos, portanto, investir na formação de uma nova escola, que desenvolva seus alunos integralmente por meio da educação do pensar, das atitudes e da vontade. Isso pode ser conquistado, estimulando o empreendedorismo e a cultura da cooperação. Cumpre-se, desse modo, três pilares da educação do Século XXI, propostos pela Unesco: aprender a aprender, aprender a fazer e aprender a conviver.

     Se temos conhecimento sobre a erosão dos solos, o envenenamento das águas, a poluição do ar, a distribuição de renda, os serviços de saúde, as escolas, a segurança pública e a riqueza produzida no mundo, então, somos irreversivelmente responsáveis pelo futuro do planeta.  

     Não temos mais o direito à indecisão, senão viveremos o paradoxo do Asno de Buridan, que na dúvida entre comer um monte de feno e assim matar a fome ou beber uma gamela de água e matar a sede, olhava um, olhava outro e acabou morrendo, na dúvida de qual necessidade atender primeiro. Enfim, de tanto pensar morreu um burro, diz o ditado.

     Creio que vivemos um novo antropocentrismo, no qual o homem é o centro do mundo que o cerca. Um antropocentrismo moderno, sem a pretensão de se sobrepor a Deus e, também, desprovido da vaidade de estar no topo da complexidade biológica da Terra, mas sim por termos conquistado tamanha capacidade de intervenção sobre o planeta que nos responsabiliza definitivamente sobre o próprio destino. É preciso decidir e agir, sem tanto pensar.





Publicado no jornal Cinform em 02/04/2012 – Caderno Emprego
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 07/2012

          Publicado em 02/02/2015 em http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/de-tanto-pensar-morreu-um-mundo/84519/

segunda-feira, 19 de março de 2012

Finlândia, educação e coisas do coração


A Finlândia, país nórdico, com pouco mais de 5 milhões de habitantes é o exemplo mais bem sucedido de educação regular, conforme comprovam resultados comparativos do exame internacional pisa, aplicado em um grupo de cerca de 65 países para avaliar o desempenho dos alunos em Ciências, Matemática e Linguagem. Nesse mesmo teste, o Brasil tem ficado sempre entre as piores notas, ao lado de nações africanas e de países como, Cazaquistão, Panamá, Peru e outras.
     Hoje, a Finlândia colhe os frutos de um trabalho iniciado ainda na década de 1970, quando efetuou amplas reformas na educação e perpetuou esse processo ao longo de 30 anos. Aliás, só é possível consolidar um projeto em educação, se houver visão em longo prazo e um pacto social que assegure continuidade de ações. Nos últimos 40 anos, a Finlândia passou de país eminentemente agrário e industrial para uma moderna economia do conhecimento. Lá está a sede da Nokia, maior fabricante de celulares do mundo.
Mas qual a fórmula para esse sucesso? Há alguns meses, esteve no Brasil o Professor Doutor Pasi Sahlberg, especialista em educação, ex-assessor do Ministério da Educação da Finlândia, que proferiu uma palestra apresentando os quatro paradoxos da educação de seu país.

     Primeiro paradoxo: “Less is more” (menos é mais) – Educação de qualidade não significa grandes volumes de aulas, tarefas e exercícios. Isso, na visão do Dr. Sahlberg, pode provocar exaustão e queda de rendimento dos alunos. Conhecimento não é sinônimo de educação.

     Segundo paradoxo: “More learning with less testing” (aprende-se mais com menos avaliações) – O tempo gasto com avaliações é deslocado para ações educativas mais proveitosas e menos estressantes, inclusive para o professor. As avaliações devem ter caráter mediador, isto é, não classificatório. Não devem servir para rotular um aluno, mas sim para orientar as ações do professor na superação das deficiências de ensino-aprendizagem.

     Terceiro paradoxo: “Equity through diversity” (igualdade na diversidade) – A chegada de inúmeros imigrantes para o país enriquece a educação e o desenvolvimento de hábitos de convivência respeitosa e trocas de experiências.

     Quarto paradoxo: “The better a high school graduate is, the more likely she wants to become a teacher” (Quanto melhor é uma estudante ao finalizar o Ensino Médio, maior o desejo desta de se tornar professora) – De acordo com dados daquele país, cerca de 25% dos formandos do ensino médio querem ser professores. A profissão é valorizada financeira e socialmente. Os professores são reconhecidos pela sociedade como muito importantes para o futuro da nação, ficando em segundo lugar entre todas as profissões, perdendo apenas para os policiais. Assim, os melhores alunos podem ser os melhores professores.

     Lá, diferentemente da maioria dos países avaliados, apenas metade das crianças até seis anos está na escola, já que a pré-escola é voluntária. E, muito acertadamente, a alfabetização só inicia aos sete anos de idade com a frequência escolar obrigatória até os 16 anos. Saliente-se que o professor é o principal pilar desse modelo educacional invejável, sendo valorizado e preparado para a função. Todos possuem mestrado.

     Devemos refletir sobre as mudanças que realizamos na sofrida educação brasileira, se é que de fato elas possuem algum mérito qualitativo. Antecipar a alfabetização, aumentar a carga horária, ampliar a quantidade de dias letivos, estimular a competição do Enem ou vestibular e outras podem ser a contramão da verdadeira educação. Será falta de paixão?

     Curiosamente, a Finlândia tem uma história de amor com a educação que remonta ao século 17. Naquela época, o arcebispo luterano Johannes Gezelius determinou que nenhum homem que não soubesse ler poderia se casar. Sua motivação era fazer avançar a reforma de Martinho Lutero, que propunha uma aproximação maior dos fiéis com Deus a partir da leitura pessoal da Bíblia. Assim, a paixão que movia um finlandês por uma dama, também o levava à escola para aprender a ler.



Publicado no jornal Cinform em 19/03/2012 – Caderno Emprego


segunda-feira, 5 de março de 2012

América Latina: um discurso memorável



     Durante a Cúpula das Américas de 2009 em Trinidad e Tobago, ocorreu, como se esperava, um permanente confronto ideológico entre alguns dirigentes latinoamericanos e Barack Obama, representante máximo do emblemático Estados Unidos. Contudo, próximo do final, o Presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz, Óscar Arias, discursa convidando a todos para uma reflexão sobre a quem devemos responsabilizar pelo fracasso latinoamericano.     


     A seguir, alguns trechos do seu pronunciamento: “Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e latinoamericanos se reúnem com o presidente dos Estados Unidos da América é para pedir-lhe coisas ou para reclamar coisas. Quase sempre, é para culpar os Estados Unidos de nossos males passados, presentes e futuros. Não creio que isso seja de todo justo”.


     Veja mais: “Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades antes que os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras universidades desse país.  Não podemos esquecer que nesse continente, como no mundo inteiro, pelo menos até 1750 todos os americanos eram mais ou menos iguais: todos eram pobres. Ao aparecer a Revolução Industrial na Inglaterra, outros países sobem nesse vagão: Alemanha, França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e aqui a Revolução Industrial passou pela América Latina como um cometa, e não nos demos conta. Certamente perdemos a oportunidade.


     Há 50 anos, o México era mais rico que Portugal. Em 1950, um país como o Brasil tinha uma renda per capita mais elevada que o da Coreia do Sul. Há 60 anos, Honduras tinha mais riqueza per capita que Cingapura, e hoje Cingapura, em questão de 35 a 40 anos, tornou-se um país com $40.000 de renda anual por habitante. Bem, algo nós fizemos mal, os latinoamericanos.


     Que fizemos de errado? Nem posso enumerar todas as coisas que fizemos mal. Para começar, temos uma escolaridade de 7 anos. Essa é a escolaridade média da América Latina. e não é o caso da maioria dos países asiáticos. Certamente não é o caso de países como Estados Unidos e Canadá, com a melhor educação do mundo, similar a dos europeus. De cada 10 estudantes que ingressam no nível secundário na América Latina, em alguns países, só um termina esse nível secundário.


     Como disse esta manhã, não pode ser que a América Latina gaste $50.000 milhões em armas e soldados. Eu me pergunto: quem é o nosso inimigo? Nosso inimigo, presidente Correa, desta desigualdade que o Sr. aponta com muita razão, é a falta de educação; é o analfabetismo; é que não gastamos na saúde de nosso povo; que não criamos a infraestrutura necessária, os caminhos, as estradas, os portos, os aeroportos; que não estamos dedicando os recursos necessários para deter a degradação do meio ambiente; é a desigualdade que temos que nos envergonhar realmente; é produto, entre muitas outras coisas, certamente, de que não estamos educando nossos filhos e nossas filhas. 


     Vá alguém a uma universidade latinoamericana e parece, no entanto que estamos nos anos sessenta, setenta ou oitenta. Parece que nos esquecemos de que em 9 de novembro de 1989 aconteceu algo de muito importante, ao cair o Muro de Berlim, e que o mundo mudou. Temos que aceitar que este é um mundo diferente, e nisso, francamente, penso que os acadêmicos, que toda gente pensante, que todos os economistas, que todos os historiadores, quase concordam que o século XXI é um século dos asiáticos não dos latinoamericanos. E eu, lamentavelmente, concordo com eles. Porque enquanto nós continuamos discutindo ideologias, continuamos discutindo sobre todos os "ismos" (qual é o melhor? Capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo...) os asiáticos encontraram um "ismo" muito realista para o século XXI e o final do século XX, que é o pragmatismo”.






Publicado no jornal Cinform em 05/03/2012 – Caderno Emprego