segunda-feira, 5 de julho de 2010

Pedagogia. Para que?




     Na antiga Grécia surge a figura do pedagogo como sendo o escravo que, equipado com uma lanterna, conduzia as crianças até as palestras, além de as acompanharem na execução das lições e tarefas exigidas. Assim, a imagem do pedagogo na sua forma mais original é a de alguém que atua ofertando as condições para que a educação aconteça da maneira mais efetiva e segura possível para além, como se vê, do interior da escola. Desta forma, a lanterna simboliza bem mais que a simples fonte de luz necessária para atravessar o caminho escuro mas, a iluminação que o conhecimento dá ao homem. Essa imagem da lanterna na mão do pedagogo ajuda a induzir muitos educadores ao erro de significar o termo aluno como “sem luz”. Tal afirmação é indevida pois trata-se de verbete de origem latina traduzido como “lactante”, ou “aquele que necessita ser nutrido”.


Nas escolas de pedagogia atuais o currículo prende-se demasiadamente ao estudo dos teóricos da educação e pouco às metodologias de ensino e aprendizagem. Muitos educadores saem de tais cursos extremamente ideologizados e, consequentemente, tão apaixonado por um grande autor da pedagogia quanto desafetos de outros.


Devemos, de fato, render homenagens a grandes teóricos da educação. Piaget, por exemplo, nos trouxe contribuições fantásticas no campo da cognição e suas conexões biológicas. Já, Paulo Freire nos instrumentaliza para a humanização e a relação dialógica do aluno com o professor. Por sua vez, Vygotsky apresenta os fundamentos da interação social como fator decisivo da aprendizagem. Diferentemente, Skinner, demonstra cientificamente que a aprendizagem pode ser realizada por condicionamentos a partir de reforços físicos e/ou sensoriais. Por outro lado, Steiner nos apresentou uma pedagogia de grande completude no desenvolvimento humano. Como vemos, é grande a lista de gigantes da educação, que ainda pode ser acrescida por Rousseau, Pestallozzi, Froebel, Ferrer, Dewey, Dècroly, Makarenko, Ferrière, Cousinet, Neill, Rogers, Robin, Montessori, Emilia Ferreiro, dentre outros.


Ora, como pode haver tantos defensores do processo de aprendizagem se baseando em pilares tão distintos na defesa dos seus objetivos educacionais? Será que algum deles está plenamente correto? Se for verdade, então significa dizer que os demais erraram nas suas propostas. Quem acertou? Quem errou? Ou não existe isso?


Vejamos o seguinte: cada grande teórico prioriza um eixo do desenvolvimento humano. E por este caminho fragmentado apresenta seus resultados. Será que chegaram a plena conclusão de suas teses ou estavam em processo permanente de construção? Geralmente os discípulos são apegados a interpretações rasas das teses de seus mestres, distorcendo assim, sua aplicação. Exemplo disso é a interpretação degradante que por interesse ideológico aplicam indevidamente à palavra “aluno”.


A educação se dá no domínio da alma humana, isto é, na interioridade da pessoa e se manifesta através do pensar, do sentir e do agir. Da mesma forma como ninguém é considerado competente apenas por ter habilidade sem ter os conhecimentos e as atitudes correspondentes. Também, não podemos dizer que alguém é educado se tem apenas conhecimento, sem os correspondentes níveis de controle emocional e sem fazer aquilo que diz saber.


Como citamos o pensar, o sentir e o agir, podemos relacioná-los diretamente com três dos quatro pilares da educação no século XXI, propostos por Edgar Morin. Assim, nosso raciocínio é: existe uma linha teórica mais adequada para o desenvolvimento de cada pilar? Vemos que a linha teórica de Piaget, emblematicamente, prioriza a cognição (aprender a aprender); já, Paulo Freire e Vygotsky priorizam o desenvolvimento social do indivíduo (aprender a conviver); e finalmente, Skinner, valoriza o fazer, o agir educado (aprender a fazer).


Como pode alguém apaixonado por qualquer linha teórica da pedagogia querer aplicar sua metodologia para toda a abrangência da educação? Vejo que um dos erros da escola brasileira é ter muito discurso e pouco resultado final. Enquanto nós pedagogos não formos capazes de levar os alunos a desenvolverem conhecimentos, habilidades e atitudes, estaremos cada vez mais agarrados a discursos bem fundamentados, cheios de citações, úteis em ultima análise, para justificar o porquê não dá certo.


Penso que é natural que tenhamos o nosso teórico predileto. Também tenho o meu. Mas, como técnico em educação tenho a obrigação de usar a metodologia mais indicada ao caso e educar equilibradamente o pensar, o sentir e o agir.




Publicado no jornal Cinform 05/07/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O futuro do comércio

 

Vivemos uma era de grandes transformações. Tais mudanças, além de profundas nos hábitos e costumes, também, se processam em velocidades jamais vistas pelo homem. Diferentemente de quinze anos atrás, somos todos dependentes do telefone celular, de tal maneira que se sairmos sem ele nos sentimos inseguros e vulneráveis. Talvez, entendamos que grande parte da nossa vida está ali naquela caixinha tecnológica, ou ainda, que as mudanças se processam tão rapidamente que a ausência momentânea do celular nos fará socialmente excluídos ou alienados – um verdadeiro extraterrestre.


Da mesma forma que a tecnologia afeta nossa vida pessoal, também, influencia as relações sociais, ambientais e econômicas. Novas tendências nos levam em direção a profundas alterações nas relações comerciais e os agentes do comércio e serviços precisam estar em permanente vigilância sobre os novos horizontes para se adaptarem a esses desafios que são tão ameaçadores quanto reveladores de inéditas oportunidades.


Nos últimos dias, dois veículos de larga circulação nacional, uma revista e um jornal, publicaram matérias sobre o surgimento com grande sucesso de sites de compra coletiva que funcionam através de promoções instantâneas com descontos inimagináveis para os consumidores isolados. O site faz intermediação entre lojistas e consumidores organizando barganhas e conduzindo os consumidores em bloco para aquele produto ou serviço. No Brasil, estes sites ainda são muito recentes, algo como no máximo seis meses de funcionamento, mas estão dispostos a apostar nesse mercado.


Se olharmos para essa nova prática, veremos muito mais que o simples uso da tecnologia da informação, pois, trata-se de um empoderamento, isto é, um maior protagonismo do consumidor na cena, que através de um mediador (o gestor do site), auxiliado pela ferramenta (internet) passa a ditar as regras do jogo. Isso é só o começo, pois os consumidores que hoje estão em negociação direta com o comércio, podem passar a negociar diretamente com a indústria eliminando os mediadores e os intermediários, e consequentemente reduzindo custos e preços finais. Tal situação ainda não ocorre hoje, porém, as ferramentas estão aí prontas para serem usadas nos primeiros ensaios. Uma mudança rápida nessas relações pode trazer consequências desastrosas para a geração de empregos e toda a economia do setor terciário.


Penso que está na hora dos agentes do comércio e serviço se reposicionarem e abrirem a discussão sobre as novas tendências que se anunciam e assim, preservarem ou reinventarem sua importante atividade econômica geradora de empregos.


Entre as novas tendências anunciadas, além da exposta acima, devemos ver o crescimento da automação presente nas lojas. Sem deixarmos de lado o crescimento exponencial da automação do fisco em todos os níveis do fluxo dos bens no comércio: desde a compra, o controle do estoque e a venda. Tudo inteiramente acompanhado, ou melhor, fiscalizado.  Também é crescente a mediação de agentes financeiros nas relações entre o consumidor e a loja através do crédito em suas múltiplas modalidades. Algumas lojas são verdadeiros bancos, vivem de remuneração sobre o crédito ao consumidor, usando seus bens à venda como meros atrativos para operações creditícias, revelando até, estranho e explícito desinteresse nas vendas à vista. Ainda devemos ver como tendências claras o crescimento do comércio eletrônico através da internet e TV, e o avanço rumo aos novos perfis de consumidores: crianças, adolescentes, etnias, pessoas que moram só, idosos, classes sociais emergentes, etc.


Os produtos industriais estão cada vez mais comoditizados, isto é, padronizados e normatizados. É visível a tendência ao comum na indústria automobilística onde, a diferença entre carros concorrentes é quase invisível no produto e no preço em si. Porém, se fazem presentes nos serviços ofertados junto ao carro. 


Na prestação de serviço é que está o nicho maior do comércio. É o pedaço econômico onde a indústria e o setor financeiro chegam com grandes dificuldades ao cliente. É o contato direto e pessoal com o consumidor que fará a diferença dos produtos industriais tão homogeneizados. Ninguém compra uma geladeira porque quer a geladeira em si. Compra porque precisa conservar alimentos e para isso, aceita conviver com o incomodo, gastador e imenso objeto na sua moderna cozinha compacta. Assim, grosso modo, só compramos serviços e não produtos. Pense como é importante a opinião clara, honesta e técnica de um vendedor de uma loja de roupas que bem orienta seus clientes, cativando-os e promovendo fidelidade através do atendimento.


Ofertar bons serviços exige mais preparo de todo o time comercial. Faz-se necessário o desenvolvimento de novas competências mais aprimoradas e complexas que só se conquista, inicialmente, pelo desejo pessoal de cada um da equipe de aprender cada vez mais e, depois, pela educação profissional adequada, que deve ser concomitante ao exercício do trabalho ao longo de toda a vida. 


      



Publicado no jornal Cinform 21/06/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O valor do conhecimento

 

Todos nós sabemos que o conhecimento tem valor econômico. Sabemos também, que quanto mais se sobe na hierarquia das organizações maior é a exigência de conhecimentos do ocupante do cargo. Assim, da mesma forma que se exige maior formação intelectual dentro da empresa aos que estão no topo da pirâmide, também o mercado, de forma geral, hierarquiza o conhecimento como referência de valor.


É fácil ver que em um moderno aparelho celular estão importantes conhecimentos agregados. Poucos sabem fazer celular no parque industrial. O mesmo acontece com inúmeros outros produtos industriais que são frutos de um conjunto reduzidíssimo de empresas capazes de fabricá-los. Por que poucas empresas conseguem fabricar em condição de competitividade produtos e serviços que possuem demanda garantida de consumidores para adquiri-los? É aqui que entra o fator diferencial entre organizações econômicas: o conhecimento. Porém, o mesmo conhecimento que favorece uma empresa de ponta atual, será totalmente inútil em curto prazo se houver mudança nos paradigmas de consumo ou produção. Por exemplo, a Motorola foi referência em telefonia celular analógica, após a mudança da rede de telefonia móvel para o sistema digital, tal liderança passou a ser da Nokia. Por muito tempo a Sony foi praticamente única em equipamentos de som individuais, desde o lançamento do walkman, ainda com fitas cassetes, e mais tarde com o discman, tocador de CDs. Essa soberania foi perdida após a americana Apple lançar a linha ipod, em outro paradigma tecnológico, não prontamente acompanhado pela empresa japonesa.


Estes exemplos nos apresentam claramente o valor que o conhecimento tem quando agregado a produtos. Alguns autores, como o pesquisador Tom Coelho, afirmam que não compramos produtos, mas apenas serviços. Ninguém compra uma furadeira porque quer a furadeira em si. Compramos, na verdade, os furos que necessitamos em nossas paredes, serviço este, prestado pela incômoda furadeira.  Desta forma, o conhecimento se torna ainda mais valorizado economicamente, pois nos serviços ele é mais visível e, portanto, passível de avaliação direta do consumidor do que nos produtos industriais em geral. Em um restaurante, a limpeza de um prato é mais fácil de ser avaliada que um erro no processo de fabricação do próprio prato que o deixou em desconformidade. É no serviço que o conhecimento se realiza, enfim.  


Conhecimento é poder. Por isso, a educação dá poder às pessoas na medida em que as prepara para responderem a desafios cada vez mais complexos e seletivos. A educação é o caminho da liberdade porque emancipa o homem dando-lhe o poder de decidir com mais segurança, e assim, adquirir o almejado livre arbítrio, uma exclusividade humana. A capacitação, aliada a autoconfiança, produz milagres na evolução profissional dos trabalhadores.


Gosto de usar como exemplo do valor do conhecimento os dados econômicos do estado da Califórnia nos Estados Unidos. Sua economia é diversificada, cerca de um terço de sua área é ocupada por fazendas que produzem tanto, que fazem dela o maior celeiro da agricultura americana. É o maior produtor de leite, carne bovina, tomate, morango, melões, pêssegos e melancias e segundo maior produtor de laranjas, além de uvas e vinhos. Dados, portanto, extremamente significativos para qualquer economia tradicional. Porém, toda essa portentosa produção primária responde por apenas 2% do seu PIB. Os produtos industriais propriamente ditos, correspondem a 18% do PIB do estado, ai incluídas as grandes indústrias da informática, telecomunicações e eletrônicos, também, as maiores do país. Sobram, então, 80% do PIB que é completado pelo setor terciário, nele compreendido o comércio e os serviços diversos. Destacam-se o entretenimento fruto de Hollywood e a produção de software para os mais diversos fins.


Como vimos, apenas a economia dos serviços californianos equivale a cerca de 125% de todo o PIB brasileiro. Comparativamente ao nosso estado de São Paulo, a Califórnia, que possui população aproximada, detém um PIB total cinco vezes superior. Tudo isso, fruto do incremento de valor que o conhecimento dá a moderna economia.


Penso que o grande motor da economia mundial moderna é a educação. Ela é o suporte do conhecimento e este, precisa do empreendedorismo para se transformar em valor econômico. É preciso mobilizar o conhecimento através de redes de colaboração interdisciplinares para que possa acontecer inovação em larga escala e, conseqüentemente, gerar riqueza. O que só será possível se houver a indispensável gestão do conhecimento.




Publicado no jornal Cinform 31/05/2010 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial jun/2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Porque educar o pensar, o sentir e o agir



Imaginemos a seguinte cena: um antepassado nosso observando as estrelas dez mil anos atrás. Certamente, a aprendizagem obtida pela observação dos corpos celestes serve de base para muitos dos conhecimentos científicos e tecnológicos atuais. Naturalmente que há, hoje, uma grossa camada de conhecimentos e conceitos que seriam impossíveis à época do nosso contemplativo tataravô em questão. O que regia seus conhecimentos, porém, estava subordinado às mesmas leis gerais presentes nos grandes avanços tecnológicos do século XXI.


A primeira noção adquirida pela observação celeste é o ritmo do tempo. O carrossel das estrelas fixas fornece informações absolutamente precisas do tempo cronológico. Podemos afirmar que o movimento dos astros é um referencial absoluto para nosso proveito terrestre, e como tal, toda referência absoluta é uma lei geral.


Pela observação da posição das estrelas podemos saber com segurança total a hora exata no local onde estamos. Disso resulta um conceito derivado do tempo cronológico e profundamente enraizado no ser humano: a noção de passado, presente e futuro. Percebemos aqui que somos dependentes do tempo e sabiamente a natureza humana é dotada de instrumentos de leitura para tal passado, presente e futuro.


Para lidar com o passado somos dotados do pensar. Isto mesmo, o pensar, a intelectualidade, a memória e a cognição, tão valorizados nos tempos modernos, são nossos agentes de ligação com o passado, senão vejamos: nós só pensamos para trás, só pensamos a partir do que sabemos, isto é, aquilo que já está devidamente aprendido e registrado na memória. Para frente, nosso pensar será meramente especulativo e não seremos capazes de prever o futuro a partir de nossos cérebros. Certamente muitos dirão: e o planejamento não é “pensar” o futuro? Não. O planejamento é um guia para nossas ações e elas farão o tal futuro acontecer, como veremos adiante. Se alguém crer que é capaz de pensar o futuro, então lhe peça que informe o resultado da loteria federal da próxima semana e também o resultado da mesma loteria da semana passada. A diferença entre as duas respostas nos dará com precisão para onde nosso pensar está apto.


Opostamente ao nosso pensar estão as nossas ações. Assim, o nosso querer ou a nossa volição é o instrumento de ligação que temos com o futuro. Desta forma, conclui-se que o futuro é construído a partir de nossas ações. O futuro nasce a cada dia como conseqüência de nossos atos. Se for necessário dar um exemplo esclarecedor, pergunte ao reticente ouvinte: é possível mudar o passado? Certamente a resposta será não. Mas também, certamente ouviremos que é possível mudar o futuro. E mudanças serão sempre resultados exclusivos de ações conseqüentes da vontade de uma ou mais pessoas. Como não podemos mudar algo errado do passado, só nos resta o perdão.


E o presente? Que instrumento a natureza nos deu para sua leitura? O “sentir”, isto é, o sistema emocional humano. São as emoções harmoniosas que nos fazem estar aqui e agora. Quando estamos emocionalmente desestabilizados perdemos a capacidade de ler o presente. Ficamos desequilibrados e perdemos o famoso “simancol”. Tal desequilíbrio pode nos remeter ao passado, um remorso por exemplo. Ou ainda, somos remetidos pro futuro como quando temos uma grande preocupação (pré-ocupação). Em ambos os casos ficamos comprometidos no nosso desempenho social. O sentir humano é o veiculo das nossas interações sociais e da nossa convivência.


Voltando ao nosso inspirado antepassado, outra lição que ele nos deixou como conseqüência da sua capacidade de aprender com os astros, advém da mesma lei geral. É a capacidade de reconhecer o espaço geográfico tridimensional a partir da leitura dessas mesmas estrelas. Tal aprendizado permitiu ao homem a aventura de se deslocar pelo planeta e dominar os mares. Como vimos o espaço coincidentemente com o tempo está dividido em três: profundidade, largura e altura.


Obviamente, já que são frutos de uma mesma lei geral podemos então, por analogia, associar que o pensar está diretamente ligado a profundidade. A largura (o horizontal) está vinculada ao sentir e, conseqüentemente, ao espaço social. Por fim, a altura (o vertical) corresponde ao querer, agir contra a lei da gravidade.


Esta imagem aqui apresentada serve de orientação para a educação integral dos seres humanos. Precisamos educar nas escolas as grandes funções humanas: o pensar, o sentir e o agir. Na mesma ordem estão três dos quatro pilares da educação propostos por E. Morin: aprender a aprender, aprender a conviver e aprender a fazer. Ou ainda, o desenvolvimento de competências: conhecimentos, atitudes e habilidades, também respectivamente.


Generalizando, podemos afirmar que a escola de hoje adora trabalhar o pensar - o aprender a aprender; vacila no desenvolvimento do sentir – o aprender a conviver; e repele a educação da volição – o aprender a fazer.


Mas, como sempre concluo meus textos com uma mensagem otimista, indico aos educadores e pais que conheçam a Pedagogia Waldorf.  Por meio desta, eles verão como é possível educar todas essas macro funções do ser humano de forma equilibrada e efetiva, desvinculada de modismos. Educação para todo tempo e espaço.       

      


Publicado no jornal Cinform 17/05/2010 – Caderno Emprego
Publicado no Boletim da Sociedade Antroposófica nº 064/2011

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Poluição, lucro e prejuízo



O homem desenvolveu dois métodos para lidar com os rejeitos poluentes: caso seja sólido, procura concentrar para que seja isolado no ambiente. Caso seja fluido, isto é, gasoso ou líquido, procura dispersar para não mais tornar-se visível. Assim, a poluição atmosférica ou hídrica é socializada para todo o planeta automaticamente, enquanto a poluição sólida dos aterros e lixões, por exemplo, é delimitada geograficamente. Embora, a poluição sólida sempre reflita em poluição aérea ou do lençol freático, e portanto socializada parcialmente.


Quero com isso fazer um paralelo entre essas metodologias de combate a poluição e as metodologias econômicas usuais no Brasil. Em nosso país, o tratamento que se dá aos prejuízos econômicos se igualam ao tratamento de efluentes fluídos. Socializa-se automaticamente, às vezes na calada da noite, outras vezes acintosamente à luz dos olhos de todos. Emblematicamente, o sistema financeiro repassa todo seu risco e prejuízo aos seus clientes através da taxa de juros, das taxas de serviços ou do spread bancário (diferença entre as taxas de captação e aplicação financeiras). Por sua vez, a indústria e o comércio repassam estes custos para o preço dos seus produtos, majorando o preço final pago pelo consumidor.


Quando uma empresa deixa de honrar seus compromissos com uma instituição financeira, todos pagam. Desta forma, é ingênuo pensar que se trata de um problema localizado, restrito aos agentes relacionados diretamente com o infeliz empresário. Não, a lógica tem se mostrado perversa: a instituição financeira lesada vai repartir o seu “prejuízo” entre todos aqueles que mantêm negócios, inclusive clientes pessoas físicas por meio de suas infindáveis e gordas taxas de juros e serviços ou as anuidades de cartões de crédito.


Importante se faz entender a prática do repasse de custos aos preços finais, o que socializa indistintamente até potenciais prejuízos não efetivados. No preço dos produtos de consumo obrigatório, tipo material escolar, leite para crianças, remédios, transportes, higiênicos e comida, dentre outros básicos estão embutidas externalidades financeiras que não dizem respeito direto ao consumidor, especialmente os de mais baixa renda.


Isto faz do Brasil o país único no mundo que conseguiu fazer um portentoso crescimento do PIB nos últimos 60 anos sem mudar a desigualdade da distribuição da renda. Coisa que só o Brasil consegue. Seja pela criatividade de fazer políticas compensatórias como tíquete-refeição, vale transporte, vale-gás, bolsa-família, etc. Seja pela distribuição livre dos prejuízos a toda a sociedade, penalizando mais os de baixa renda, perpetuando desigualdades e neutralizando ações de políticas públicas reparadoras.


Já o lucro, tão visado ideologicamente, é em tese, muito menos perverso. Com ele, acontece algo semelhante à poluição de sólidos: mesmo concentrado e isolado, é socializado através da “contaminação” dos fluidos ao seu entorno, inclusive na forma de impostos. Portanto, muito mais controlável e saudável que o invisível prejuízo.


Como vemos, tratamos o lucro com impulso concentrador e os prejuízos com impulso dispersor. Não devemos crer que seja possível uma sociedade existir sem ambos já que derivam da assunção de riscos inerentes ao mundo dos negócios.


Na minha visão, lucro e prejuízos são entes naturais da atividade econômica. Não visualizo problemas em ambos dentro de valores e padrões razoáveis.  Mas o que seria razoável? Talvez a visão orgânica da economia traga respostas.


Na natureza, a produção de excedentes é regra básica. Uma laranjeira dá milhares de laranjas com sementes durante sua vida. Caso não houvesse excedente nessa planta, ela daria apenas uma laranja com duas sementes no máximo, para repor sua existência. Sem mais.


O organismo humano produz bilhões de espermatozóides e milhares de óvulos para pouquíssimos serem fecundados. O risco de fracasso é alto e as possibilidades de reprodução são baixas. Inúmeras perdas são freqüentes, ou seriam prejuízos? O excedente corresponde ao risco e essa é a regra natural.


Tudo que é produzido pela natureza é produzido com excedentes. Semelhantemente, na atividade econômica o mesmo acontece com o uso intenso de tecnologias, é o caso de uma máquina de produzir pneus que produzirá muito mais pneus que todos os envolvidos no processo serão capazes de consumir. A diferença é que na natureza só há cooperação e na economia predomina a competição.


O surgimento de uma floresta é de uma beleza sem par. Os primeiros arbustos que surgem vêm apenas para fazer sombra para as árvores secundárias, mais nobres. As secundárias também visam sombrear idealmente o local para o crescimento protegido das terciárias, ainda mais nobres e definitivas. Quando as sucessoras ultrapassam as pioneiras, estas morrem e irão adubar o solo para o desenvolvimento bem sucedido das plantas mais nobres. Assim, surge uma Mata Atlântica, por exemplo, fruto da mais alta cooperação entre seres ditos irracionais.


Na natureza, como na economia existem o excedente, o risco, a perda e a doença. Mas, penso que se nos espelharmos no modelo orgânico para conduzir a moralidade econômica viveremos em justa paz com desenvolvimento cooperado, ainda que alguns sejam pioneiros e outros mais definitivos nas suas atividades. Mas igualmente importantes para o todo.





Publicado no jornal Cinform 03/05/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A lan house do futuro e o futuro das lan houses

           

Neste mês de abril se divulgou mais uma interessante pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI-Br) sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação, conhecidas por TICs. Trata-se da quinta pesquisa anual, reveladora, portanto, da realidade brasileira de hoje e de suas tendências.


            Não há grandes surpresas nesta nova pesquisa. Sabemos que a popularização do computador e dos instrumentos de comunicação é real e crescente. Hoje, tornou-se tão comum o uso da internet que até programas voltados para pessoas de baixa renda são disponibilizados, alguns até exclusivamente, na grande rede, a exemplo do Prouni, Enem e Minha Casa Minha Vida. Mas vale destacar o seguinte: pela primeira vez o número de usuários brasileiros de computadores em casa (48%) supera o número de usuários de lan houses (45%), no acesso a internet. Tais indicadores não se aplicam ao nordeste brasileiro, onde a proporção dos usuários da internet é de 29% em casa, para 63% em lan houses. Também, nacionalmente, 72% dos internautas com renda de até 1 salário mínimo são clientes de lan houses. Enquanto isso, os telecentros respondem por apenas 4% destes.        

            Os computadores são máquinas que exigem maior capacidade cognitiva que as meramente mecânicas. Seus usuários, conseqüentemente, terão maior poder de explorar as potencialidades informáticas quanto maior for seu nível de conhecimento. Falo de conhecimento propriamente dito, e não de habilidades. O computador é uma extensão do cérebro humano, enquanto máquinas mecânicas como o liquidificador ou a empilhadeira são prolongamentos alavancados do nosso corpo físico. Vejo que muitos usam o computador com muita habilidade e pouco conhecimento, certamente, por estarem presos às limitações impostas pelo software, que reduzem a infinitude do computador a um conjunto pobre de menus.


            A educação formal deve nos dar a possibilidade de pensar com mais elasticidade e abstração. Dispor de vários códigos de representação mental como o alfabeto, os numerais, uma vasta iconografia e imagens mitológicas ou arquetípicas nos ajudarão nesta tarefa, pois, ampliam nossa capacidade de explicitar e internalizar conhecimentos. Como vemos, dominar mais de um idioma, estudar filosofia e praticar artes são meios ampliadores de nossa capacidade de compreensão do mundo atual e de seu desenvolvimento tecnológico, posto que, ambos estão perfeitamente imbricados e associados à essência da própria natureza humana. Quanto mais conseguirmos explicitar e codificar conhecimentos mais conseguiremos ampliar o uso do computador como ferramenta tecnológica.


            Digo isso porque, infelizmente a realidade escolar brasileira é dramática. Desnecessário se faz detalhar sobre isso, todas as pesquisas e artigos sobre o tema são assombrosos. O fato é que com a grande atração que os computadores exercem sobre os jovens, principalmente, temos na internet uma possibilidade de ampliação do conhecimento das populações mais excluídas desde que: a) desenvolvam-se conteúdos bons e adequados ao nível de escolaridade (não basta ser gratuito), já que para um usuário de internet de pouca ou nenhuma capacidade de leitura a rede oferta apenas jogos, erotismo e algum lazer. Nada mais. b) haja mediação para o uso adequado destas tecnologias. O mediador agirá pedagogicamente, orientando o usuário na escolha e navegação de serviços disponíveis na rede. Uma transferência de conhecimento tácito e explícito que só é possível numa relação pessoal de proximidade.


            Nesse cenário é que vejo um futuro duradouro para as lan houses. Esses empreendimentos precisam diferenciar sua atuação para não concorrerem tão diretamente com os crescentes computadores domésticos. Para isso, é recomendável o associativismo das lans, há associações na Grande Aracaju e Estância; a formalização do negócio, já que existem novas e vantajosas modalidades como a de Empreendedor Individual; representar produtos web, via credenciamento de algumas empresas ou cursos; e profissionalizar-se para mediar os usuários nos serviços e produtos que ofertam. 


            Sergipe é pioneiro no trabalho de organizar e profissionalizar as lan houses, sendo referência nacional neste assunto, inclusive no sistema S. Eu, pessoalmente, já apresentei as sugestões a seguir em vários momentos de destaque, a exemplo da Fundação Getúlio Vargas (RJ) juntamente com a Mozilla Foundation (EUA), Campus Party Brasil de 2009 e 2010, Audiência Pública na Câmara Federal em 2010 e diversos outros eventos estaduais, inclusive no Pará.


São quatro pilares que apresento, didaticamente, de nichos de mercado para a especialização das lan houses: 1) Serviços públicos – São inúmeros os serviços disponíveis na internet. Imposto de renda, boletins de ocorrência, solicitação de título de eleitor, CIC/CPF, PROCON, etc. Ou seja, uma significativa parcela de serviços realizados pelo CEAC poderia ser feitos também em lan houses credenciadas. 2) Comércio eletrônico - Toda lan house pode tornar-se uma loja sem estoque, comercializando desde eletrônicos até material escolar, evitando-se as insuportáveis e tradicionais filas, além de poderem se especializar na venda de passagens aéreas, rodoviárias e pacotes turísticos. 3) Educação - A educação a distância (EaD) cresce em ritmo superior à modalidade presencial. Há lan house que de tanto vender curso a distância de uma faculdade de Santos, virou posto avançado dessa mesma faculdade. Neste quesito, o município de Estância tem o melhor exemplo brasileiro de educação formal em lan houses, em parceria com a escola pública, em um serviço mediado por empreendedores capacitados. 4) Suporte social - Redes sociais, emails, apoio a usuários idosos ou com deficiência, pesquisas, lazer, entretenimento disponível a baixo custo, dentre outros.


            Para todos os pilares acima, tenho conhecimento de exemplos em pleno funcionamento, em Salvador, Manaus, Natal, além de Sergipe, que demonstram a viabilidade do que vislumbro. Assim, convido todas as lan houses sergipanas a procurarem o SENAC para melhor detalhamento deste assunto.


            Acredito que as lan houses podem ser empreendimentos comerciais lucrativos e ainda prestarem um relevante serviço de interesse social para a construção de um Brasil economicamente democrático e justo, onde a micro empresa seja protagonista.



 
Publicado no jornal Cinform 19/04/2010 – Caderno Emprego
            Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial mar/2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Como proteger seus filhos e alunos da internet

 

Esse título é o tema da palestra homônima proferida no SENAC de Sergipe durante as comemorações da Semana da Inclusão Digital 2010, pelo professor Dr. Valdemar Setzer. Uma palestra realmente empolgante que apesar de durar quase três horas, fez os participantes não sentirem o tempo passar. O assunto deve ser tratado como uma prioridade nos dias atuais, tal a escala de famílias que convivem com este problema e uma grande parcela destas, nem sabe.


A internet pública é muito nova. No Brasil só a encontramos neste formato comercial que a conhecemos hoje, a partir de 1994, limitada a alguns lugares e com acesso caro e lento. Porém, por conta de sua jovialidade não a devemos subestimar. A última pesquisa sobre internet brasileira feita pelo CGIBR – Comitê Gestor da Internet no Brasil – revela a existência de cinqüenta e quatro milhões de brasileiros usuários da rede em 2008, número que deve ter aumentado muito até os dias de hoje. No mundo, estima-se que em 2011 dois bilhões de pessoas, um terço da humanidade, portanto, estará usando a grande rede.


A internet em si não é ruim nem boa. Como qualquer tecnologia, seu uso pode ser construtivo ou destrutivo para o homem. Eu, particularmente, sou um grande usuário da internet e nela vejo, igualmente, grande utilidade.


Acontece que a internet não inventou nada de bom ou de ruim para a alma humana. Tudo que nela se manifesta já ocorria antes numa escala mais restrita, nos permitindo manter distância segura do que nos ameaçasse. Enquanto tecnologia, a internet revoluciona por ter suprimido o espaço geográfico. Nela, todos têm o mesmo tamanho. Nela, não existe endereço da capital ou do interior. É realmente uma libertação do homem em relação ao espaço físico.


E aqui começam também os perigos. Se antes a geografia nos resguardava, pois conseguíamos manter nossas famílias protegidas das mazelas do mundo quando passávamos a chave na porta, hoje, não podemos mais dizer o mesmo. O professor Valdemar Setzer diz que deixar uma criança ou adolescente com livre acesso a internet é equivalente a largá-la sozinha à noite em uma esquina de São Paulo. Nós adultos temos implantado em nossas cabeças o paradigma do espaço físico e não dimensionamos a revolução que a supressão dele traz para a cultura humana. Por exemplo, ninguém de boa fé elogiará um adolescente que furte um livro em uma livraria. Porém, se este mesmo adolescente o fizer através de um download na internet será visto como inteligente e praticamente todos pensarão que o jovem não causou mal algum. Será que o crime está em roubar papel? Será que ao comprar um livro o fazemos porque precisamos de papel ou de seu conteúdo?


Essa mesma falta de entendimento da realidade virtual nos leva a minimizar a compreensão que fazemos de seus possíveis problemas. Quando precisamos de ajuda em alguma área do conhecimento, como Direito ou Arquitetura, procuramos um especialista que nos oriente. Certamente, resistiríamos muito em aceitá-lo, se tal especialista fosse uma criança ou jovem adolescente. Sabemos que a imaturidade é (naturalmente) limitante para a responsabilidade e a compreensão das conseqüências dos próprios atos. Assim, de pronto recusaríamos tal “especialista”, já que procuramos alguém que nos dê segurança e saiba bem mais que nós. Como disse o professor Setzer, qualquer adolescente de quinze anos sabe bem mais que os pais sobre computação e internet. Aqui, eles são os especialistas e nós precisamos de ajuda para acompanhá-los e sabermos o que efetivamente fazem quando estão na internet. Apesar do amplo saber operacional que possuem sobre computadores e sistemas, não deixam de ser adolescentes ou crianças em sua essência, e como tal, sujeitos a enganos e ingenuidades típicas da idade. Ingenuidade, aliás, que é a porta de entrada de predadores sexuais e criminosos que buscam informações sobre os pais e a família para aplicação de golpes financeiros em contas bancárias ou seqüestros, por exemplo. Os jovens têm a maravilhosa tendência a achar que o mundo é bom, belo e verdadeiro e com essa visão desenvolvem a certeza de mais tarde poder contribuir para a humanidade com sua força e crença. E só serão adultos com energia para realizar seus sonhos se esta visão do mundo for preservada. Nada contribuirá para o desenvolvimento saudável de uma criança crer que o mundo é mau, isso só a tornará um adulto inseguro. Assim, cumpre-nos o dever como pais e educadores, de assegurar proteção aos menores para que fortaleçam suas almas em formação com bons alimentos. Desta forma, o recomendável é não deixar crianças e adolescentes livres na internet, ou melhor, crianças nunca deveriam usar a internet, é o que defende o professor Setzer com a autoridade de quem publicou inúmeros livros, foi professor titular do Instituto de Matemática da USP por muitos anos, onde ainda leciona voluntariamente depois de aposentar-se, e defende a preservação da infância e a educação integral dos seres humanos com o radicalismo que sua titularidade acadêmica permite e sua paixão pela Pedagogia Waldorf reforça.


Creio que vale a pena saber mais sobre esse assunto e como agir junto aos filhos e outras pessoas vulneráveis aos males cibernéticos. Pesquisem no Google com o seguinte argumento: setzer proteger que encontrarão um artigo sobre o tema da palestra, e uma porta para seu site com muitos artigos e resenhas, além de slides de suas palestras. Também está disponível no SENAC o DVD gratuito com essa palestra do professor Setzer por meio do email senac@se.senac.br



Publicado no jornal Cinform 05/04/2010 – Caderno Emprego