segunda-feira, 19 de abril de 2010

A lan house do futuro e o futuro das lan houses

           

Neste mês de abril se divulgou mais uma interessante pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI-Br) sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação, conhecidas por TICs. Trata-se da quinta pesquisa anual, reveladora, portanto, da realidade brasileira de hoje e de suas tendências.


            Não há grandes surpresas nesta nova pesquisa. Sabemos que a popularização do computador e dos instrumentos de comunicação é real e crescente. Hoje, tornou-se tão comum o uso da internet que até programas voltados para pessoas de baixa renda são disponibilizados, alguns até exclusivamente, na grande rede, a exemplo do Prouni, Enem e Minha Casa Minha Vida. Mas vale destacar o seguinte: pela primeira vez o número de usuários brasileiros de computadores em casa (48%) supera o número de usuários de lan houses (45%), no acesso a internet. Tais indicadores não se aplicam ao nordeste brasileiro, onde a proporção dos usuários da internet é de 29% em casa, para 63% em lan houses. Também, nacionalmente, 72% dos internautas com renda de até 1 salário mínimo são clientes de lan houses. Enquanto isso, os telecentros respondem por apenas 4% destes.        

            Os computadores são máquinas que exigem maior capacidade cognitiva que as meramente mecânicas. Seus usuários, conseqüentemente, terão maior poder de explorar as potencialidades informáticas quanto maior for seu nível de conhecimento. Falo de conhecimento propriamente dito, e não de habilidades. O computador é uma extensão do cérebro humano, enquanto máquinas mecânicas como o liquidificador ou a empilhadeira são prolongamentos alavancados do nosso corpo físico. Vejo que muitos usam o computador com muita habilidade e pouco conhecimento, certamente, por estarem presos às limitações impostas pelo software, que reduzem a infinitude do computador a um conjunto pobre de menus.


            A educação formal deve nos dar a possibilidade de pensar com mais elasticidade e abstração. Dispor de vários códigos de representação mental como o alfabeto, os numerais, uma vasta iconografia e imagens mitológicas ou arquetípicas nos ajudarão nesta tarefa, pois, ampliam nossa capacidade de explicitar e internalizar conhecimentos. Como vemos, dominar mais de um idioma, estudar filosofia e praticar artes são meios ampliadores de nossa capacidade de compreensão do mundo atual e de seu desenvolvimento tecnológico, posto que, ambos estão perfeitamente imbricados e associados à essência da própria natureza humana. Quanto mais conseguirmos explicitar e codificar conhecimentos mais conseguiremos ampliar o uso do computador como ferramenta tecnológica.


            Digo isso porque, infelizmente a realidade escolar brasileira é dramática. Desnecessário se faz detalhar sobre isso, todas as pesquisas e artigos sobre o tema são assombrosos. O fato é que com a grande atração que os computadores exercem sobre os jovens, principalmente, temos na internet uma possibilidade de ampliação do conhecimento das populações mais excluídas desde que: a) desenvolvam-se conteúdos bons e adequados ao nível de escolaridade (não basta ser gratuito), já que para um usuário de internet de pouca ou nenhuma capacidade de leitura a rede oferta apenas jogos, erotismo e algum lazer. Nada mais. b) haja mediação para o uso adequado destas tecnologias. O mediador agirá pedagogicamente, orientando o usuário na escolha e navegação de serviços disponíveis na rede. Uma transferência de conhecimento tácito e explícito que só é possível numa relação pessoal de proximidade.


            Nesse cenário é que vejo um futuro duradouro para as lan houses. Esses empreendimentos precisam diferenciar sua atuação para não concorrerem tão diretamente com os crescentes computadores domésticos. Para isso, é recomendável o associativismo das lans, há associações na Grande Aracaju e Estância; a formalização do negócio, já que existem novas e vantajosas modalidades como a de Empreendedor Individual; representar produtos web, via credenciamento de algumas empresas ou cursos; e profissionalizar-se para mediar os usuários nos serviços e produtos que ofertam. 


            Sergipe é pioneiro no trabalho de organizar e profissionalizar as lan houses, sendo referência nacional neste assunto, inclusive no sistema S. Eu, pessoalmente, já apresentei as sugestões a seguir em vários momentos de destaque, a exemplo da Fundação Getúlio Vargas (RJ) juntamente com a Mozilla Foundation (EUA), Campus Party Brasil de 2009 e 2010, Audiência Pública na Câmara Federal em 2010 e diversos outros eventos estaduais, inclusive no Pará.


São quatro pilares que apresento, didaticamente, de nichos de mercado para a especialização das lan houses: 1) Serviços públicos – São inúmeros os serviços disponíveis na internet. Imposto de renda, boletins de ocorrência, solicitação de título de eleitor, CIC/CPF, PROCON, etc. Ou seja, uma significativa parcela de serviços realizados pelo CEAC poderia ser feitos também em lan houses credenciadas. 2) Comércio eletrônico - Toda lan house pode tornar-se uma loja sem estoque, comercializando desde eletrônicos até material escolar, evitando-se as insuportáveis e tradicionais filas, além de poderem se especializar na venda de passagens aéreas, rodoviárias e pacotes turísticos. 3) Educação - A educação a distância (EaD) cresce em ritmo superior à modalidade presencial. Há lan house que de tanto vender curso a distância de uma faculdade de Santos, virou posto avançado dessa mesma faculdade. Neste quesito, o município de Estância tem o melhor exemplo brasileiro de educação formal em lan houses, em parceria com a escola pública, em um serviço mediado por empreendedores capacitados. 4) Suporte social - Redes sociais, emails, apoio a usuários idosos ou com deficiência, pesquisas, lazer, entretenimento disponível a baixo custo, dentre outros.


            Para todos os pilares acima, tenho conhecimento de exemplos em pleno funcionamento, em Salvador, Manaus, Natal, além de Sergipe, que demonstram a viabilidade do que vislumbro. Assim, convido todas as lan houses sergipanas a procurarem o SENAC para melhor detalhamento deste assunto.


            Acredito que as lan houses podem ser empreendimentos comerciais lucrativos e ainda prestarem um relevante serviço de interesse social para a construção de um Brasil economicamente democrático e justo, onde a micro empresa seja protagonista.



 
Publicado no jornal Cinform 19/04/2010 – Caderno Emprego
            Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial mar/2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Como proteger seus filhos e alunos da internet

 

Esse título é o tema da palestra homônima proferida no SENAC de Sergipe durante as comemorações da Semana da Inclusão Digital 2010, pelo professor Dr. Valdemar Setzer. Uma palestra realmente empolgante que apesar de durar quase três horas, fez os participantes não sentirem o tempo passar. O assunto deve ser tratado como uma prioridade nos dias atuais, tal a escala de famílias que convivem com este problema e uma grande parcela destas, nem sabe.


A internet pública é muito nova. No Brasil só a encontramos neste formato comercial que a conhecemos hoje, a partir de 1994, limitada a alguns lugares e com acesso caro e lento. Porém, por conta de sua jovialidade não a devemos subestimar. A última pesquisa sobre internet brasileira feita pelo CGIBR – Comitê Gestor da Internet no Brasil – revela a existência de cinqüenta e quatro milhões de brasileiros usuários da rede em 2008, número que deve ter aumentado muito até os dias de hoje. No mundo, estima-se que em 2011 dois bilhões de pessoas, um terço da humanidade, portanto, estará usando a grande rede.


A internet em si não é ruim nem boa. Como qualquer tecnologia, seu uso pode ser construtivo ou destrutivo para o homem. Eu, particularmente, sou um grande usuário da internet e nela vejo, igualmente, grande utilidade.


Acontece que a internet não inventou nada de bom ou de ruim para a alma humana. Tudo que nela se manifesta já ocorria antes numa escala mais restrita, nos permitindo manter distância segura do que nos ameaçasse. Enquanto tecnologia, a internet revoluciona por ter suprimido o espaço geográfico. Nela, todos têm o mesmo tamanho. Nela, não existe endereço da capital ou do interior. É realmente uma libertação do homem em relação ao espaço físico.


E aqui começam também os perigos. Se antes a geografia nos resguardava, pois conseguíamos manter nossas famílias protegidas das mazelas do mundo quando passávamos a chave na porta, hoje, não podemos mais dizer o mesmo. O professor Valdemar Setzer diz que deixar uma criança ou adolescente com livre acesso a internet é equivalente a largá-la sozinha à noite em uma esquina de São Paulo. Nós adultos temos implantado em nossas cabeças o paradigma do espaço físico e não dimensionamos a revolução que a supressão dele traz para a cultura humana. Por exemplo, ninguém de boa fé elogiará um adolescente que furte um livro em uma livraria. Porém, se este mesmo adolescente o fizer através de um download na internet será visto como inteligente e praticamente todos pensarão que o jovem não causou mal algum. Será que o crime está em roubar papel? Será que ao comprar um livro o fazemos porque precisamos de papel ou de seu conteúdo?


Essa mesma falta de entendimento da realidade virtual nos leva a minimizar a compreensão que fazemos de seus possíveis problemas. Quando precisamos de ajuda em alguma área do conhecimento, como Direito ou Arquitetura, procuramos um especialista que nos oriente. Certamente, resistiríamos muito em aceitá-lo, se tal especialista fosse uma criança ou jovem adolescente. Sabemos que a imaturidade é (naturalmente) limitante para a responsabilidade e a compreensão das conseqüências dos próprios atos. Assim, de pronto recusaríamos tal “especialista”, já que procuramos alguém que nos dê segurança e saiba bem mais que nós. Como disse o professor Setzer, qualquer adolescente de quinze anos sabe bem mais que os pais sobre computação e internet. Aqui, eles são os especialistas e nós precisamos de ajuda para acompanhá-los e sabermos o que efetivamente fazem quando estão na internet. Apesar do amplo saber operacional que possuem sobre computadores e sistemas, não deixam de ser adolescentes ou crianças em sua essência, e como tal, sujeitos a enganos e ingenuidades típicas da idade. Ingenuidade, aliás, que é a porta de entrada de predadores sexuais e criminosos que buscam informações sobre os pais e a família para aplicação de golpes financeiros em contas bancárias ou seqüestros, por exemplo. Os jovens têm a maravilhosa tendência a achar que o mundo é bom, belo e verdadeiro e com essa visão desenvolvem a certeza de mais tarde poder contribuir para a humanidade com sua força e crença. E só serão adultos com energia para realizar seus sonhos se esta visão do mundo for preservada. Nada contribuirá para o desenvolvimento saudável de uma criança crer que o mundo é mau, isso só a tornará um adulto inseguro. Assim, cumpre-nos o dever como pais e educadores, de assegurar proteção aos menores para que fortaleçam suas almas em formação com bons alimentos. Desta forma, o recomendável é não deixar crianças e adolescentes livres na internet, ou melhor, crianças nunca deveriam usar a internet, é o que defende o professor Setzer com a autoridade de quem publicou inúmeros livros, foi professor titular do Instituto de Matemática da USP por muitos anos, onde ainda leciona voluntariamente depois de aposentar-se, e defende a preservação da infância e a educação integral dos seres humanos com o radicalismo que sua titularidade acadêmica permite e sua paixão pela Pedagogia Waldorf reforça.


Creio que vale a pena saber mais sobre esse assunto e como agir junto aos filhos e outras pessoas vulneráveis aos males cibernéticos. Pesquisem no Google com o seguinte argumento: setzer proteger que encontrarão um artigo sobre o tema da palestra, e uma porta para seu site com muitos artigos e resenhas, além de slides de suas palestras. Também está disponível no SENAC o DVD gratuito com essa palestra do professor Setzer por meio do email senac@se.senac.br



Publicado no jornal Cinform 05/04/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 22 de março de 2010

Arte na educação: a poesia é de quem lê

         

A poesia é de quem lê, e não de quem escreve. A poesia é a experiência do leitor diante do poema. Ao autor restou o poema e a imaginação sobre qual é a extensão de sua obra. Nas artes, em geral, os limites são improváveis, o observador faz parte da obra e a complementa com sua exclusiva interioridade.


            Costumo dizer, quando falo com jovens estudantes, que o mundo tem o tamanho da nossa interioridade. Assim, quem desenvolve sua vida interior através de estudos, meditação, observação, escuta e diálogo está ampliando seu mundo. No Brasil, por exemplo, vivemos em uma era plural, na qual temos seres humanos vivendo experiências espaciais, temos até astronauta brasileiro (lembram-se?), e outros vivendo neste nosso país como se vivia há dez mil anos atrás, sem domínio da agricultura, dos metais, da cerâmica, da linguagem escrita, da criação de animais, e outras marcas relevantes da linha do tempo da tecnologia, em agrupamentos indígenas isolados ainda presentes na Amazônia.


            Essa pluralidade dá a possibilidade de nos colocarmos em realidades diferentes diante de um mesmo cenário. Os modernos meios de comunicação nos ampliaram o mundo e encolheram o planeta. Observando-se um mesmo evento, cada observador terá visões e interpretações diferentes, alguns mais profundas, como quem domina o assunto; outros mais superficiais, com baixa interatividade com o fenômeno. Porém, externamente o evento manifestou-se igual para todos.


            A arte deve estar presente em qualquer educação que se preze em proporção equivalente a formação intelectual. A arte é a educação do emocional, do conviver saudável e harmônico, da expansão da interioridade. Porém, falar em arte na educação é discurso fácil. Tem escola fazendo visita a museu ou estudando quem foi Van Gogh, e dizendo que é educação artística. Desculpem-me, mas isso é educação cognitiva e não artística, talvez seja estimulante para formar críticos, mas insuficientes para formar artistas. Arte tem que ser vivida, desafiadora para promover o crescimento. Arte é aprender a dominar a água numa pintura com guache, fazer de um violino, por exemplo, uma extensão do seu corpo e dos seus sentimentos. Arte é vida e comunicação!


            A educação do intelecto com a intensidade atual que se dá nas escolas é a causadora (e conseqüência também) do mundo caótico e desequilibrado de hoje. Só somos bons sobre o que reduzimos para dominá-lo. Desta forma, somos analfabetos, apesar dos nossos diplomas, em questões ambientais. Somos irresponsáveis, quando inviabilizamos a vida na Terra para nossos filhos e netos. Também, do mesmo jeito que se estuda para provas escolares, agimos priorizando o curto prazo sobre o longo prazo: temos que levar vantagem em tudo – Diria o Gerson. Que educação é essa?


            Vejamos exemplos de nossas ações reducionistas: Quando trabalhamos com os minerais extraímos suas preciosidades deixando em seu lugar apenas materiais amorfos e estéreis, descristalizados. Ao atuarmos sobre os vegetais, os mineralizamos com a adição abusiva de sais fertilizantes. Já, sobre os animais, os confinamos impiedosamente, reduzindo-os a uma vida vegetativa. Quanto aos humanos, nós os tratamos como uma manada, através da moda padronizadora e escravizante, e outras criações de desejos consumistas coletivos produzidos pela mídia de massa, reforçados via educação reprodutora destes valores. É o educar a todos como se fossem um só, infelizmente, tão presente em nossa escola.


            Vivemos a época da valorização da inteligência. Muitos são mais preocupados em ver os filhos bem colocados no vestibular que em vê-los felizes e bons. Os quatro pilares da educação para o século XXI, proposto pela UNESCO, prioriza o aprender cognitivo com tanta ênfase que até nos orienta a “aprender a ser”. Aprender? O mesmo se dá quando falamos em inteligência emocional. Pergunto: Inteligência? É essa a palavra certa para emoções? Talvez estejamos a criar uma sociedade cada vez mais fria e distante da visão holística do ser humano dotado de corpo físico, vital, emocional e da sua individualidade, ou identidade espiritual.


            Será que nosso modelo educacional está favorecendo a formação de pessoas com fraqueza de caráter? Será que nossos bandidos, estupradores e assassinos não passaram por escolas? Espero que não, mas posso estar enganado. Vejo muitos profissionais de nível superior (sic) criando procedimentos em benefício próprio lesando seus clientes ou pacientes. Vejo profissionais de confiança (sic) que traem seus clientes por trinta dinheiros. E esses, também não passaram pela escola?


            Será que uma escola que não é capaz de observar e agir sobre desvios de desenvolvimento do caráter, dificuldades elevadas de convivência social e outras patologias sociais de seus alunos, ainda que aprovados no vestibular de medicina, pode dizer que educou?         


            Certa vez, um velho pajé disse a um jovem: “dentro de mim existem dois cachorros. Um é fiel e protetor companheiro. Outro de péssima índole, traidor e ladrão. Ambos vivem brigando sempre”. Então, o atento ouvinte lhe perguntou: “Quem vencerá essa briga?” E o sábio índio respondeu: “Aquele que eu alimentar”.


            Fazer arte é exercer a liberdade plenamente e por este caminho educar o caráter. A educação proporcionada pela vivência artística chega como alimento à luz da alma humana, tornando-a irradiadora ao próximo.     




Publicado no jornal Cinform 22/03/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Carvão é coisa séria



     É interessante como certas coisas adquirem estigmas negativos e pagam um preço alto por isso. Um forte estigma danoso foi associado a lan houses, e acredito, elas prestam um serviço inestimável à população mais carente por reduzir a exclusão digital no Brasil. No nosso Nordeste, dois terços dos internautas usam as lan houses como meio de acesso a grande rede, enquanto as iniciativas governamentais e não-governamentais respondem por apenas seis por cento destes. Por conta disso, o próprio governo já começa a ver as lan houses com outros olhos, apesar da resistência de alguns.


Outra atividade econômica altamente estigmatizada é a madeireira. O madeireiro leva a fama de exterminar florestas, quando para ele isso é antieconômico. Seu interesse é focado em algumas espécies valiosas e não em toda a mata. Por que gastar mais para derrubar toda a floresta quando se deseja apenas uma parte menor dela? Quem derruba toda a mata é o criador de gado para suas pastagens e o carvoeiro ganancioso para tudo carbonizar.


Penso que quem danifica o meio ambiente e a sociedade não é a atividade econômica e sim o caráter humano. A falta de escrúpulo e as “grandes verdades” distorcem nossa visão da realidade e nos fazem acreditar em papais noéis fora de época. Certamente é mais prejudicial para o planeta a queima irrecuperável do petróleo que a queima do carvão vegetal, por ser este fonte de energia renovável. Porém entendemos, ou somos levados a entender, que o petróleo é bom e o carvão não é.


O estigma, como um mau rótulo, está associado a algo de ruim. Trata-se de uma marca que a pessoa leva para o resto da vida. Antigamente, malfeitores que cometiam algum crime eram “tatuados” com uma marca bem visível chamada estigma que os faziam serem reconhecidos como criminosas ainda que já houvessem sido punidos, e, portanto, pago por seus erros. Esta marca está presente também em certas atividades econômicas, como vemos.


Não quero ser defensor de todos os madeireiros, todas as lan houses ou qualquer carvoaria. Não, em hipótese alguma defenderei atividades irresponsáveis com o planeta, a sociedade atual ou com nossas futuras gerações. Mas também não aceito ser levado por bandeiras que fecundam inverdades, existem interesses encobertos e enviesados que julgam algumas atividades econômicas e outras não, e que querem nos convencer de todo modo, para que façamos o mesmo julgamento raso. Conheço madeireiros, donos de lan houses e carvoeiros honestos, construtores de uma sociedade melhor, e que têm que lutar severamente contra o estigma que lhes é imputado injustamente.


Conheço uma empresa nordestina produtora de carvão que atua beneficiando a própria mata nativa de onde extrai seu produto. É, como disse, uma atividade empresarial, e como tal, lucrativa e responsável. Todo seu expertise decorre do manejo da floresta: a área foi dividida em lotes pares e impares. Cada lote é manejado em um dia de trabalho, alternando-se lote sim, lote não. Ou seja, só se manejará os lotes pares após se esgotar todos os lotes impares. Desta forma, só ocorrerá um novo manejo de um lote após mais de dez anos, tempo suficiente para a reposição natural, com sobra, neste bioma.


Como é o manejo em cada lote? São unidades equivalentes a um hectare que tem suas árvores inventariadas e assim escolhidas segundo critérios técnicos: retiram-se árvores doentes, árvores velhas, espécies atingidas por cupins e arvoredos com mais de sete centímetros de diâmetro – na altura do peito (ADP). Preservam-se as árvores que têm ninhos de pássaros, as espécies protegidas por lei, as cinqüenta melhores árvores do lote e os arvoredos menores, ainda em crescimento. Além disso, o trabalho dentro da área é auxiliado por jumentos na remoção da madeira cortada até a estrada, o que acarreta menor impacto ambiental.


Nesse manejo ocorre um processo de sanitização da floresta através da eliminação das plantas doentes e/ou contaminadas. O sol, então, atinge o solo encoberto por resíduos orgânicos como folhas e lenha decorrentes do trato, acelerando o crescimento das novas árvores, antes prejudicadas pelo excesso de sombra. Também, são comuns as rebrotas, isto é, o renascimento vigoroso de árvores cortadas a partir de suas raízes intactas e superdimensionadas para a nova copa. Por tudo isso, acredita-se que o próximo manejo de um mesmo lote será mais produtivo que o primeiro.


A visão que temos de uma área após o manejo é parecida com a visão da área virgem, tal a quantidade de mata nativa preservada, dispensando o plantio de espécies exóticas ou nativas. A reposição da vegetação é natural, bem ao modo darwinista.


As conseqüências deste trabalho, no Piauí, é a transformação social na região de mais baixo IDH do país. Neste projeto, todo trabalhador tem carteira de trabalho assinada, duas refeições diárias gratuitas em refeitório da própria fazenda, obrigatoriedade de uso de todos os equipamentos de segurança, ganhos extra por produção, treinamento, seguro de vida, banheiros dignos e água potável mesmo junto aos fornos. Até os jumentos recebem ração adequada durante a jornada de trabalho. Já é visível a ascensão social da comunidade local. Na pequena cidade surgem financeiras para intermediar compras de eletrodomésticos, carros e motos dos trabalhadores que agora tem comprovantes de renda. Toda uma rede de serviços e produtos diversos começou a se formar para prover a demanda do projeto e dos colaboradores, até alimentos orgânicos – os preferidos para o refeitório da fazenda – além de um espaço cultural na cidade visando reforçar com qualidade a educação das crianças e a valorização da cultura da região, inspirado na pedagogia Waldorf.


Vejo nesta iniciativa o surgimento de um modelo que alia o lucro natural de uma atividade empresarial com o respeito aos limites da natureza e, acima de tudo, a aliança com o desenvolvimento humano local e saudável. Até o jumento, tão presente na cultura do lugar foi resgatado. É, ...porque carvão é coisa séria!   





Publicado no jornal Cinform 22/02/2010 – Caderno Emprego

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Redes sociais, um pouco de Brasil




O nosso Brasil, conhecido como o país do futebol, também pode tornar-se conhecido como o país das redes sociais na internet. Nas pesquisas mundiais referentes ao tema, o Brasil se destaca como o país que mais utiliza sites de relacionamento, a exemplo do Orkut, o primeiro do ranking nacional mas que, curiosamente, está fora das listas dos dez mais utilizados no mundo.


Esse uso da internet brasileira (se é que existe internet de algum lugar?) revela qual a visão e compreensão que os brasileiros têm da grande rede: um ambiente de relacionamento pessoal. Certamente, estamos bem diferenciados nesta visão, pois, ao contrário, os Estados Unidos, berço da internet, a utiliza prioritariamente para negócios ou buziness, como chamam por lá. Etnologias à parte, penso que essa diferença de pontos de vista merece uma análise mais cuidadosa a partir da história econômica.


Uma distinção relevante deriva do perfil econômico dos dois países, EUA e Brasil. Hoje, a economia tradicional da indústria americana representa muito pouco no seu PIB. Menos de dez por cento dos trabalhadores estão na indústria, e apenas três por cento estão na agricultura. O grande motor econômico do Tio Sam é a produção de bens intangíveis e imateriais, como o software, as patentes, os games e o entretenimento. Apenas a Califórnia, sede de Hollywood e do Vale do Silício, possui um PIB bem superior a todo o PIB brasileiro.


Essa indústria de bens intangíveis está montada sobre fluxos e redes, e não sobre formas ou estruturas como ocorre na indústria tradicional. Nós brasileiros, ainda estamos muito presos ao modelo da revolução industrial, que é pesada fisicamente e agarrada a estruturas rígidas e hierárquicas. Assim, somos comumente levados a pensar soluções inadequadas para a nova ordem econômica. Exemplo: Se reunirmos no Brasil um grupo de pessoas diversas para discutir a criação de uma escola de idiomas, a conversa logo versará sobre a localização, o número de salas de aulas, quem será o diretor, os equipamentos e computadores necessários, a fachada, o horário de funcionamento, a biblioteca, etc. Para não dizer que alguém até já tem um jardineiro ótimo pra indicar. Tudo isso está predominantemente relacionado a formas e estruturas.


De outra maneira, poderia existir a mesma escola exclusivamente para atuar através de educação a distância via internet, e aí a discussão seria totalmente diferente. Neste caso, a conversa seria focada no método pedagógico, na dinâmica do site, no acompanhamento dos alunos, na formação de turmas flexíveis, no software que suportaria a solução educacional, etc.


É inegável que ambas as hipóteses são escolas de idiomas, que precisam de amparo legal para seu funcionamento, que exigem administração competente e que, embora concorrentes, são propostas originárias de conceitos distintos. Enquanto a primeira se prende ao rígido e ao material, a segunda está amparada por mídias eletrônicas e funciona à base de flexibilidade e imaterialidade. Esse caso ilustra algo sobre o uso da internet como acessório no Brasil frente ao uso econômico dela no EUA.


Neste mês de janeiro, estive em São Paulo, na III Campus Party que é o maior evento mundial de internet. Lá, durante a minha explanação sobre o tema “Lan House: um fenômeno de empreendedorismo”, reforcei mais uma vez o pioneirismo de Sergipe no trabalho de inclusão digital e social para pessoas de menor renda através das lan houses.


O mais interessante da Campus Party é ver a materialização da internet. Os participantes pertencem às mais diversas tribos. Tem a turma dos blogueiros, da robótica, do modding de computadores, do software livre, da inclusão digital, dos games, dos programadores, dos inovadores, dos hackers, e mais um pouco de tudo nos demais. Verdadeiramente me senti entre os demais.


Os números deste evento são fantásticos: banda larga de 10 giga livre para os participantes compartilharem, a maior do mundo em eventos internacionais até agora; 553 atividades, totalizando 700 horas; 6000 participantes inscritos, dos quais 3877 acamparam lá durante uma semana e 3900 levaram seus computadores pessoais; participantes dos 27 Estados brasileiros e de 20 outros países; 90000 visitantes; 40000 metros de cabos de rede, 20000 metros de fibras óticas e 18000 metros de fios elétricos; 1017 jornalistas e blogueiros cadastrados para cobertura; e tudo isso entre 25 e 31 de janeiro num espaço de 45000 metros quadrados. E, o mais importante, porque revela a qualidade do público participante: 34% de download e 66% de upload no uso da conexão.


Refiro-me à qualidade do público participante porque fazer uploads é produção intelectual, é autoria, é disponibilizar conteúdos e assim fazer o que a internet nos propicia de mais rico, que é a possibilidade inédita na história de produzir comunicação de muitos para muitos. Hoje, qualquer jovem talentoso, sem precisar ser rico, pode ser um emissor de TV, ao vivo, a partir da geração de imagens do seu computador pessoal, uma espécie de big brother doméstico. Pode também ser produtor de filmes, de clipes musicais, de programas de rádio ou produtor de textos.


A ferramenta está aí. Precisamos aprender a utilizá-la e produzir conteúdos e soluções inteligentes e construtivas. A receita parece simples, mas prescinde de educação de verdade e em larga escala para que se transforme o Brasil no novo país que ele realmente merece ser.       



           

Publicado no jornal Cinform 08/02/2010 – Caderno Emprego
            Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial fev/2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Economia e ecologia

 

Ao analisarmos as palavras economia e ecologia percebemos de imediato que ambas nascem a partir do mesmo radical grego oikos (eco) que significa casa. Assim, economia, ou oikos nomos, é a ordem ou a organização da casa, e ecologia, ou oikos logos, é o estudo da casa. De imediato vemos que a abrangência da ecologia é superior ao da economia porque encarrega-se de compreender o todo, já a economia, prende-se a compreensão de um conjunto de regras. De fato, embora estes termos devam ser tão próximos nas suas aplicações quanto na grafia, lamentavelmente o que temos é um preocupante afastamento das suas ações e compreensões pelo homem.


O desenvolvimento econômico está ancorado no desenvolvimento tecnológico, assim, a tecnologia alavanca o trabalho humano gerando mais riqueza, o que nos leva a crer, erroneamente, que o desenvolvimento tecnológico é sinônimo de desenvolvimento humano, resultando numa evolução capenga. Nosso capacidade de criar e implementar aparatos tecnológicos é a própria perfeição: mandamos jipes para Marte e o guiamos a partir de nossos centros aeroespaciais para que cumpram suas missões e retornem à Terra na hora e local exatos. Nesse segmento do desenvolvimento nós realmente surpreendemos, superamos nossas próprias expectativas. Porém, muitas vezes não conseguimos deliberar pacificamente em uma reunião de um pequeno condomínio de seis apartamentos o novo horário de funcionamento da portaria, ou mesmo, adotar medidas de combate ao desperdício de água, por exemplo. Que desenvolvimento é esse? Todas as ações acima envolvem a economia e, contraditoriamente, parece mais fácil mandar o jipe para o espaço que fazer um acordo com o vizinho.


O termo sustentabilidade nos obriga a ampliar nossa visão do trabalho humano e suas conseqüências sobre a economia, a sociedade e o meio-ambiente. Este é o tripé que deve ser contemplado positivamente nas ações do desenvolvimento humano. A atividade econômica deve produzir excedentes e riquezas se, e somente se, a sociedade for beneficiada nas gerações atuais e futuras, e o ambiente não sofrer degradação, isto é, tiver suporte para tal atividade. E aqui começa o desencontro entre os modelos econômicos e ecológicos vigentes.


A economia tradicional considera que os suportes ambientais são inesgotáveis e assim, podemos crescer com nossas atividades transformadoras indefinidamente, sem levar em conta a descapitalização do planeta através do capital natural que esgotamos hoje, usurpando gerações futuras. Além disso, a escassez agrega valor econômico aos bens. Deste modo a poluição de uma praia, antes acessível a todos gratuitamente pode ser interessante do ponto de vista econômico, pois, nos obrigará a pagar para ter acesso a outra praia mais distante através de sedutores pacotes de viagem. Esta visão da economia respalda-se na utópica idéia do modo perpétuo ao adotar leis da física newtoniana de duzentos anos atrás, inválida para legitimar a complexa relação de atores presentes nos sistema humanos atuais. Por estes motivos, a divergência entre a economia e o planeta só tende a aumentar enquanto acreditarmos que crescimento econômico é gerador de bem estar social.


De acordo com o economista Hugo Penteado, autor do livro “Ecoeconomia: Uma nova abordagem, nosso futuro comum”, as razões para o conflito são muito simples, pois a economia possui três características que a definem:


            1) Linear (extrai, produz, consome, descarta num ciclo exagerado de extenso desperdício e ineficiência  e o mito do jogar fora ou deixar os países mais avançados exportar sujeira, produção suja e viver de exportação de bens e recursos às custas de ecossistemas ainda existentes no mundo em desenvolvimento, tudo isso a custo zero),


2) infinita (produz crescimento exponencial contínuo de coisas, alimentos, pessoas, etc.) e


3) degenerativa (introduz materiais degenerativos nos ecossistemas como transgênicos, queima de combustíveis fósseis, compostos químicos, metais pesados, etc.). 


No entanto, a natureza e o planeta, sistema maior do qual a economia e nossa sociedade é um subsistema dependente , é justamente o oposto:


1) circular (reaproveita tudo  com um ciclo fechado  em si mesmo e uma solução é a economia reaproveitar tudo ao máximo  e parar de fazer de conta que é um sistema aberto),


2) finita (a finitude territorialmente é óbvia demais embora a infantilidade dos economistas tente negar que sobre um território finito não há problema alguma acumular um estoque crescente de carros, casas, coisas,  poluição de todos os tipos, cacarecos e pessoas nem buscar uma demanda infinita por energia, quando já desperdiçamos mais da metade da energia disponível para nosso consumo desnecessário) e


3) regenerativa (a água é um bom exemplo, porque não só poluímos a água, como usamos além da sua capacidade de reposição e vários países estão caminhando para esgotamento de estoques hídricos simplesmente porque extraem mais do que os aquíferos recebem e bons exemplos dessa atrocidade são os Estados Unidos e a China, mas Brasil vai pelo mesmo caminho ao destruir o Cerrado e a Amazônia).


Usemos a ciência e a tecnologia aliadas a responsabilidade que temos sobre o planeta e a sociedade para juntos construirmos uma ética do século XXI que, perdoem o trocadilho, a economia faça eco na ecologia e vice-versa.



     

Publicado no jornal Cinform 25/01/2010 – Caderno Emprego

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

PIB e colesterol: tem o bom e o mau


Existe no ar uma expectativa positiva quanto ao crescimento do PIB brasileiro em 2010. Certamente os interesses políticos com esse número são grandes e assim, por certo, nem toda notícia econômica é imparcial ou isenta neste ano eleitoral. Mas, tudo faz crer que este ano será melhor para as contas nacionais que o ano passado, marcado por uma crise internacional.


O que é o PIB? É o Produto Interno Bruto, em termos de metodologia, é o sistema de contas nacionais elaborado ainda nos anos 1950 no quadro das Nações Unidas, com ajustes em 1993, que reflete a soma dos valores e custos de produção de bens e serviços, restringida portanto à área de atividades mercantis. Desse modo, não espelha indicadores sociais ou de qualidade de vida de uma sociedade. Assim nos ensina o economista Ladislau Dowbor.


Já o colesterol é conhecido em dois tipos: o LDL (o mau) e o HDL (o bom). Grosso modo, podemos dizer que o LDL facilita a deposição de gordura nas paredes dos vasos sanguíneos e o HDL remove o excesso de gordura no sangue, o encaminhando para o catabolismo no fígado.


Com base nas definições acima, quero usar o colesterol como metáfora para entendermos melhor as diferentes qualidades do PIB.  O PIB (mau) é incrementado com a contabilização dos desastres e acidentes, bem como com o impedimento do público ao lazer gratuito ou com as despesas de saúde e recuperação ambiental decorrentes da poluição. Porém, também, são aditivos ao crescimento o PIB (bom) decorrente da atividade econômica saudável, aquela que gera empregos e renda sem destruição ambiental e que ainda traz vantagens para a qualidade de vida das pessoas naquele lugar, a exemplo de obras de abastecimento de água, esgotos, moradias, educação, dentre outros. A partir destes parâmetros, o PIB da pequena e histórica cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), destruída recentemente pela enchente calamitosa do rio do mesmo nome, terá crescimento superior em 2010 com os investimentos de recuperação dos prejuízos calculados em R$ 100 milhões. Pergunto: crescimento do PIB impulsionado por tragédia é bom para a comunidade? Em 1999 o naufrágio do navio petroleiro Exxon Valdez nas costas do Alaska torna-se um caso clássico, pois elevou fortemente o PIB da região devido aos inúmeros contratos de empresas para limpar as costas atingidas pela maré negra. Como pode a destruição ambiental aumentar o PIB?


O PIB é alimentado por fluxos monetários dos meios e não pelo alcance dos fins. Assim, o volume de atividade econômica independentemente de serem úteis ou nocivas é registrado igualmente no cálculo deste indicador.


Preocupa-me que uma leitura superficial do crescimento do PIB por autoridades que tomam importantes decisões a partir destes dados possam induzi-las a erros que comprometerão a qualidade de vida dos cidadãos atuais ou futuros. A venda de petróleo ou o desmatamento da amazônia elevam nosso PIB, quando, em verdade, nos descapitaliza pois vendemos nossos estoques, por vezes, de forma irreversível. A leitura do PIB segue frequentemente a lógica simplória do curto prazo: baixo crescimento significa desemprego, recessão econômica e dificuldades eleitorais. Já o alto crescimento se traduz como novos empregos, expansão econômica e vantagens eleitorais. Mas, cuidado! “Crescer por crescer, é a filosofia da célula cancerosa” dizia um banner colocado por estudantes na entrada de uma conferência sobre economia.   


Sei que existem esforços no sentido da criação de indicadores de desenvolvimento que reflitam maior responsabilidade sobre o uso de recursos naturais e sociais por diversos pesquisadores e autores renomados. Até o Banco Mundial já revisa o PIB através de nova metodologia mais realista e economicamente sustentável. Assim como o colesterol total não é suficiente para a leitura da saúde do paciente, também o PIB total não nos atende mais para o diagnóstico de uma economia.


Concluo certo de que não nos será possível atravessar o século XXI com a ética do século XX e apresento abaixo um discurso feito em 1968 pelo senador americano Robert Kennedy, extraído na internet do site //dowbor.org, que além de eloqüente mostra-se visionário.


“Durante um tempo demasiadamente longo, parece que reduzimos a nossa excelência pessoal e os valores da comunidade à mera acumulação de coisas materiais. O nosso Produto Interno Bruto, agora, já supera os US$800 bilhões por ano, mas este PIB, – se julgarmos os Estados Unidos da América por este critério – este PIB contabiliza a poluição do ar e a publicidade de cigarros, e as ambulâncias para limpar a carnificina nas nossas autoestradas. Soma as fechaduras especiais para as nossas portas e as prisões para as pessoas que as rompem. Soma a destruição florestal e a perda da nossa maravilha natural na expansão caótica urbana...E os programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos para as nossas crianças. No entanto, o produto nacional bruto não conta a saúde das nossas crianças, a qualidade da sua educação ou a alegria das suas brincadeiras. Não inclui a beleza da nossa poesia ou a solidez dos nossos casamentos, a inteligência do nosso debate público ou a integridade dos nossos funcionários públicos. Não mede nem o nosso humor nem a nossa coragem, nem nossa sabedoria nem a nossa aprendizagem, nem a nossa compaixão nem a nossa devoção ao nosso país. Resumindo, mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena”.





Publicado no jornal Cinform 11/01/2010 – Caderno Emprego
            Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial jan/2010