segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Peru, a gastronomia como identidade nacional

Fui agraciado com novos conhecimentos nesses últimos dias. Participei de uma missão dos Senac do Nordeste ao Peru, onde conheci sua estratégia, bem sucedida, de vender a imagem, a cultura e o destino turístico a partir da Gastronomia local.

Não resta dúvida de que esse país possui uma variedade invejável de climas e biomas que fazem dele um lugar muito especial. Isso ainda é associado à grandeza da história que remonta a séculos antes de Cristo. Dessa combinação, surge um território único, onde os desafios culturais e geográficos produziram uma sociedade com forte identidade e generosidade.

O relevo é composto por desertos, montanhas intransponíveis e selva amazônica, além de vales e altiplanos andinos. Os terremotos também são uma ameaça constante, bem como os tsunamis. Na Capital, Lima, há demarcações de áreas seguras para refúgio em caso de abalos sísmicos e rotas de fugas sinalizadas para possíveis maremotos.

O Peru é o terceiro maior país da América do Sul, ficando atrás do Brasil e da Argentina. Sua população está em torno de trinta milhões de habitantes, dos quais quase a metade se encontra abaixo da linha de pobreza.

Os contrastes são visíveis. Em Lima, há bairros que nada devem aos melhores locais europeus, a exemplo de Miraflores. E a periferia, que possui favelas sem água nem esgoto, que visitamos para conhecer um belíssimo trabalho de educação profissional realizado por missionários católicos.

Apesar dessas dificuldades, o país é uma referência em hospitalidade. Lá está a única sede na América do Sul da secular escola francesa, Le Cordon Bleu. Ícone da hotelaria mundial, com universidade e cursos técnico-profissionalizantes. Acresce essa lista de escolas profissionalizantes, o Senati, espécie de Sistema S peruano, e inúmeras outras escolas profissionalizantes particulares.

Com efeito, visitamos a feira anual “Mistura”, que recebe cerca de duzentos mil visitantes em seus dez dias de funcionamento, o que a qualifica como o maior evento gastronômico do continente. Nossa comitiva necessitou de dois dias para visitar todos os pavilhões da feira.

A culinária peruana é muito saborosa e variada. Envolve frutos do mar, carnes e produtos agrícolas típicos. Entretanto, o prato que identifica, em nível internacional, sua comida é o cebiche, preparado com peixe cru, suco de limão, sal, cebola e ají (pimenta da região andina). Porém, nada fica a dever, o famoso lomo saltado, preparado com carne bovina, cebola, vinho branco, tomates, pimenta e outros ingredientes. E tudo isso pode ser antecedido pelo saboroso pisco, aguardente da uva trazida e cultivada pelos primeiros espanhóis e, logo, assimilada pelos nativos.

Como se vê, a Gastronomia se reverte em valioso instrumento turístico, ao associar o prato ao contexto local. Assim, provar um cebiche é saborear a cultura peruana, integrada pelo desafio da pesca no Litoral do Pacífico, com a vida penosa de agricultores familiares dos Andes. Portanto, culinária é identidade e desenvolvimento local, é roteiro histórico e geográfico, é cultura e respeito às tradições, é fortalecimento dos pequenos negócios geradores de empregos e fomento econômico.

Diante dessas possibilidades, o Brasil precisa partir para estruturar sua rica Gastronomia com profundidade. Isto é, pesquisar a culinária brasileira, criar roteiros gastronômicos, fomentar a presença de restaurantes típicos brasileiros no Exterior, atrair visitantes estrangeiros para provarem nossos pratos e bebidas. Quentes, em sua maioria, como o pato ao tucupi amazônico, o acarajé baiano, o churrasco gaúcho, a tapioca nordestina, a cachaça mineira, entre tantos outros. Pelo visto, urge implantar uma política firme de desenvolvimento gastronômico internacional, como bem observou Antonio Henrique, experiente gestor do Senac Nacional, integrante de nossa comitiva.

Se, na língua portuguesa, Peru e Lima, são homônimos de alimentos, que dizer do Brasil, cuja semântica nos remete à brasa.



Publicado no jornal Cinform em 16/09/2013 - Caderno Emprego


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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Inclusão de vulneráveis no mercado de trabalho


     Participei, recentemente, de uma interessante reunião do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento –, em Salvador, BA, que envolveu os Estados da Bahia, Ceará e Sergipe. A temática foi a inserção de grupos vulneráveis no mercado de trabalho. Uma das motivações do BID é encontrar uma porta de saída para a população inscrita no Cadastro Único do Governo Federal e, mais particularmente, para os beneficiários do  Bolsa-Família. Nessa reunião, estavam representantes do serviço público, do BID, do Sistema S e da iniciativa particular.

     O norte das discussões apontou para ampliar a articulação entre esses mesmos atores, institucionalizar as boas práticas e os bons projetos, além de propor soluções para que as empresas empreguem pessoas de baixa escolaridade. Por certo, um grupo tão experiente e diversificado tem propostas concretas para promover melhorias para tal desafio. Contudo, fica-se no campo das “melhorias”, e não das soluções definitivas, por quê?

     A relação trabalhista brasileira, além de conflituosa, com a arcaica CLT, é povoada por dogmas “imexíveis”. Quando se pensa em flexibiliza-la, as resistências são enormes. Mas a realidade é cruel e os números não mentem.

     Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - Dieese (2010), Sergipe possui uma PEA – População Economicamente Ativa - composta por pouco mais de um milhão de pessoas. Dessas, menos de 400 mil são assalariados formais, isto é, trabalhadores e domésticos com carteira assinada, estatutários e militares. Isso significa que apenas um terço da PEA é formalizada. Número semelhante configura o esquadrão dos empregados e trabalhadores domésticos, assalariados sem registro formal. O último terço é composto pelos que trabalham por conta própria, outros informais, os não remunerados e os poucos empregadores.

     Assim, infelizmente, os 270 mil sergipanos assistidos pela CLT formam uma minoria da PEA. Nesse cenário, a rígida CLT é garantia de proteção apenas para o trabalhador brasileiro elitizado, revelando-se um instrumento excludente para a ampla maioria. Onde está a segurança que a Carteira de Trabalho oferece? Ao alcance de meros 26% dos trabalhadores.

     O cenário piora quando vemos que o empresário brasileiro também vive sérias precariedades. Muitos creem que o Sr. Antônio Hermírio ou o Silvio Santos sejam exemplos comuns dos donos de negócios próprios. Grande engano. Segundo o Sebrae, 99,2% das empresas brasileiras são micro ou pequenas, 0,6% são médias e nanicos 0,2% formam as grandes empresas. Além disso, o anormal, diz o IBGE, é uma empresa viver mais de três anos, já que a metade fecha antes. É mesmo infernal a vida da empresa brasileira, sobrecarregada por entraves ilimitados da onerosa máquina pública e o estigma de ser exploradora do trabalhador. Ideologia cega e perversa que tributa esforços e movimentos ao invés do lucro.

     A inserção significativa de trabalhadores no mercado de trabalho formal só se dará com a modernização da CLT, ampliação da terceirização legal e políticas fiscais compensatórias para incentivar a geração de empregos em regiões de baixo adensamento econômico.

     Compensações para a implantação de negócios em áreas afastadas dos grandes centros fixará a população, evitará o êxodo e a precarização do trabalho em periferias. Em geral, nas pequenas cidades do Norte e Nordeste, a escassez de recursos técnicos e econômicos, leva - quando possível - à produção de mercadorias de baixo valor agregado, como produtos agrícolas familiares, carvão, estacas, lenha, farinha e outros que, devido ao elevado custo do frete, não conseguem preços competitivos nos mercados consumidores e a geração de riquezas. Devemos retirar encargos das pequenas empresas formais que se instalem nessas localidades, incluindo seus fornecedores.

     Será justo exigir da Umburana Ltda., na Rua São Gabriel, s/n, em Avelino Lopes, PI (PIB 30 milhões - 2008), o mesmo que do Citibank da Avenida Paulista, na cosmopolita São Paulo (PIB 391 bilhões - 2009)?  


     Publicado no Jornal Cinform em 02/09/2013 - Caderno Emprego


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

As aventuras de feissibuq no planeta azul


     Durante quarenta anos, as Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia -, um grupo insurgente marxista-leninista colombiano, vinha se dedicando ao terrorismo, tráfico de drogas e armas, além de sequestros. Pontes eram explodidas, aviões eram derrubados, cidades eram aterrorizadas.

     Entre 1999 e 2007, as Farc controlavam 40% do País. Os sequestros haviam se tornado tão frequentes, que no início de 2008, setecentas pessoas eram mantidas em cativeiro, incluindo a candidata presidencial, Íngrid Betancourt, sequestrada durante a campanha de 2002.

     Todos, sem exceção, tinham receio de se opor às Farc, pois os que assim fizeram, desapareceram por sequestro ou morte. O que se via era uma grande insatisfação nas pessoas, de forma contida ou dissimulada pelo medo. 

     Mas, subitamente, e aparentemente do nada, em 5 de fevereiro de 2008, em cidades do mundo inteiro, milhões de pessoas acorreram às ruas, protestando contra os rebeldes e exigindo a libertação dos reféns.

     Tal mobilização atingiu 200 cidades em 40 países, envolvendo 12 milhões de pessoas nas ruas, sendo 1,5 milhão só em Bogotá. Os protestos geraram tamanha repercussão mundial que desmilitarizou as Farc, ao ver quantas pessoas no mundo eram contra ela.

     Esse fenômeno de mobilização social nasceu do inconformismo de uma pessoa, Oscar Morales, criador do perfil “Um Milhão de Vozes” no Facebook, usado para divulgar e convidar seguidores para a seguinte causa, em letras maiúsculas mesmo: “CHEGA DE SEQUESTROS, CHEGA DE MENTIRAS, CHEGA DE MORTES, CHEGA DE FARC”.

     Apenas um mês depois de criado o perfil no facebook, toda essa mobilização se realizou. Tudo que Morales precisou para destruir as Farc foi de um computador, uma ideia na cabeça, a internet e a indignação. Esse é o novo mundo, onde os protagonistas são agentes “vitaminados” da microfísica do poder.

     Com a chamada “Primavera Árabe”, não foi diferente. As redes sociais foram os principais veículos de mobilização popular e de divulgação da realidade dos países controlados por mãos de ferros de ditadores. Durante os protestos no Cairo (Egito) que derrubaram o presidente Hosni Mubarak, um ativista sintetizou isso muito bem numa mensagem no twitter: “Usamos o Facebook para marcar os protestos, o twitter para coordenar e o youtube para informar ao mundo”.

     É claro que esses movimentos cresceram por causa da indignação popular. Ninguém aderiu por modismo ou porque recebeu um SMS convidando para uma manifestação pública. Em paralelo, não se pode negar que o domínio das tecnologias da informação e comunicação - TICs - exige uma infraestrutura considerável de antenas e satélites, acrescido de capacitação técnica. E como se implantou isso em países fechados?

     Algumas tecnologias foram utilizadas longe de seus propósitos originais. O Bluetooth foi uma tecnologia inventada para que as pessoas pudessem conversar enquanto dirigiam – nenhum dos seus criadores esperava que essa rede ponto a ponto seria usada para contornar um regime opressivo. Apesar de o Departamento de Estado norte-americano investir muito no que a secretária de Estado Clinton denominou de “política do século XXI”, que propôs formas inovadoras de diplomacia.

     Nesse contexto, quase todos os grandes líderes do mundo das TICs visitaram o Iraque para apresentar seu ponto de vista e propor soluções que mudassem a realidade do País, recém-invadido pelos americanos.

     Esses fatos foram extraídos do livro Abundância – O Futuro é Melhor do que Você Imagina -, de Diamandis e Kotler. Infelizmente, o futuro pode não ser tão bom como eles imaginam, pois nem tudo são flores na vida de feissibuq, já que a mesma utilização emancipadora proporcionada pelas TICs também serve para grupos radicais se articularem, prometendo ou promovendo atentados terroristas.

     Cena que assistimos hoje, com a retirada do corpo diplomático americano e inglês do Oriente Médio, motivada por interceptações de diálogos de extremistas na internet do planeta azul.
  
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Publicado no Jornal Cinform em 19/08/2013 - Caderno Emprego

Publicado na revista TI&N em 08/2013 – nº 014





segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O retorno de Saturno


     Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver.

Com esses versos esotéricos, a banda Legião Urbana revelou uma grande sabedoria - o retorno de Saturno à mesma posição no zodíaco ocorre a cada vinte e nove anos - e fez oposição a outra famosa melodia, da década de 1970, que dizia: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Mas o essas idades têm de importante?

     Estudos biográficos humanos ensinam que, até cerca dos trinta anos, é possível a revelação de talentos natos. Isto é, após essa idade, os dons naturais não mais surtirão efeitos, caso não tenham sido trabalhados antes.

     Pessoas que aprenderam sozinhas a tocar violão, dançar, jogar futebol, pintar quadros ou a praticar outras artes de forma espontânea e vocacionada, certamente, fizeram quando jovens e pegaram carona no talento natural que possuíam. Aos que já passaram dos trinta anos, resta-lhes a chance de realizar a mesma coisa, porém, pelo caminho do esforço e perseverança, semelhante ao jovem que necessita aprender algo para o qual não possui nenhuma afinidade nata.

     Antes dos trinta anos, as pessoas são mais audaciosas e desconhecem impossibilidades convencionais, como nos exemplos apresentados a seguir, extraídos do livro Abundância – O Futuro é Melhor do que Você Imagina -, de P. Diamandis e S. Kotler.

     No início da década de 1960, foi lançado o programa espacial Apollo, com pouquíssima tecnologia disponível. Quase tudo teve de ser inventado em paralelo aos lançamentos dos foguetes. Se credita o sucesso do programa ao fato de que os engenheiros responsáveis eram muito jovens para saber que estavam tentando o impossível. Os engenheiros que nos levaram à Lua tinham no máximo trinta anos.

     Alguns anos mais tarde, outros jovens promoveram uma revolução no campo da informática ao desenvolver os microcomputadores e os sistemas operacionais amigáveis, popularizando o acesso ao mundo digital e as aplicações, até então, inacessível aos mortais e às pequenas empresas.

     A partir da década de 1990, jovens inovadores promovem a revolução “pontocom”. A internet ganha uma linguagem própria, interativa e democrática, que disponibiliza a todos o status de autor, tornando a comunicação difusa e igualitária a todos, dentro da rede. É a chamada web 2.0, “terra” das redes sociais e dos sítios de livre publicação, como o YouTube ou os blogs.

     Em 2004, Jared Cohen, 24 anos, universitário americano, estava disposto a conhecer o Irã e estabelecer amizade com jovens locais, em plena época de conflito com os Estados Unidos. Conseguiu, com dificuldade óbvia, um visto de entrada e para lá viajou. É uma longa e curiosa história, mas suficiente para fazer, desse corajoso viajante, um dos homens mais conhecedores de redes sociais do mundo, sendo hoje, diretor de Ideias da Google.

      Ele fez muitos amigos, a maioria jovens. Na época, o Irã possuía dois terços da população com menos de trinta anos, o que criava uma barreira digital para os mais idosos, que não tinham domínio algum sobre as censuradas mídias digitais.

     Um interessante episódio acontece quando Cohen encontra com meia dúzia de jovens em uma esquina, encostados na parede, usando explicitamente os celulares.

     Perguntou a um rapaz o que estava acontecendo e foi informado que todo mundo vinha usar o Bluetooth para acessar a internet.

     “Vocês não têm medo de serem presos?”, perguntou Cohen.

      O rapaz fez um sinal de não com a cabeça.

     “Ninguém com mais de trinta anos sabe o que é Bluetooth”.  

     Porém, nem tudo é vantagem para os jovens, pois, mesmo quando, aos mais talentosos, a vida dá presentes que os transformam em grandes técnicos ou artistas, ainda lhes faltam saturnos.

      Só dos trinta em diante, é possível viver a recompensa da maturidade. Maturidade essa que permitiu, a partir dessa idade, a presença do Cristo, igualmente Homem, entre nós.



         Publicado no jornal Cinform em 05/08/2013 - Caderno Emprego

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Enquanto Seu Lobo não vem

 
Bordado de Cida Dias
     Era uma vez, um gênio chamado Albert Einstein, que nos contou o seguinte: “Se quiser que os seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles. Se quiser que sejam ainda mais brilhantes, leia ainda mais contos de fadas”.

Para sabermos o porquê disso, devemos entender a natureza anímica do ser humano. Não à toa, o termo latino “anima”, significa “alma” e dele derivam as expressões “animal”, “anímico” e “animado”, por exemplo. Então, seriam os animais dotados de alma? Por certo, sim.

A alma é responsável pelo comportamento, isto é, pela animação característica de cada espécie. Assim, cada lebre compartilha uma alma comum às demais lebres. O mesmo acontece com lobos, avestruzes, tatus ou leões. Essa alma característica de cada espécie silvestre determina o comportamento típico de todos os seus indivíduos, criando grande previsibilidade de como agirão diante de uma dada situação.

Caçar à noite, hibernar no frio, entrar no cio na primavera, construir tocas, emboscar, etc., são hábitos determinados para a espécie, contra os quais não é possível reagir.

De forma diversa, está o ser humano, “bicho” emancipado da natureza e dotado de grande pluralidade comportamental. Há os que fazem castidade, os que preferem trabalhar à noite, os que vivem no frio inóspito das altitudes ou no calor desértico. Essa independência ao natural nos faz dotados de todos os comportamentos dos animais, além de outros exclusivamente humanos.

Dessa forma, é possível ver em homens a agressividade de um tigre, a capacidade de fazer emboscadas de uma onça, a dissimulação mimética do camaleão, o oportunismo de uma hiena, a fidelidade dos pinguins, a covardia de um preá e muitos outros comportamentos dos animais.

Já o inverso não acontece. Não espere compaixão, solidariedade e empatia de uma coruja ou de um jacaré. Para confirmar essa assimetria entre humanos e animais, Goethe, autor maior da língua alemã, afirmou: “Se os macacos chegassem a experimentar tédio, poderiam tornar-se gente”.

 Quantas vezes nos pegamos a comparar pessoas com animais? Dizer que fulano é um leão para trabalhar, que beltrano tem uma visão de águia ou que cicrana é uma jararaca. São metáforas que nos auxiliam a descrever imagens bem simbólicas das pessoas. Aliás, o próprio zodíaco é composto por vários animais representando os signos.    

Ainda no século XVIII, Goethe realizou, com visão poética, pesquisas no campo das ciências naturais que o levou a desenvolver uma metodologia científica inovadora, inspirada na observação das qualidades intrínsecas aos fenômenos naturais. Disso, concluiu o poeta: “o reino animal é apenas o animal mais evoluído – o homem – despedaçado”.

Esses animais latentes na alma humana são narrados sob a forma de contos. Há indícios de que os temas permanecem inalterados desde 25 mil anos a.C. Por isso, devemos respeitar a riqueza espiritual que os contos possuem. Segundo Jung, é nos contos de fadas onde melhor se pode estudar a “anatomia comparada da psique”.

Essa é a função dos contos de fadas na Educação. Transmitir verdades universais, fáceis de serem assimiladas e acolhidas pelas crianças pequenas que veem o mundo com o mesmo olhar fantasioso e imaginativo dos mais belos contos. Ainda que alguns nos pareçam cruéis, eles são adorados pelos pequenos, que não cansam de nos pedir que lhes repita exaustivamente a estória preferida, exatamente da mesma forma.

Pois, contos de fadas povoados por reis e princesas, por lobos e bruxas, formam a rica ponte entre o imaginário da criança e a realidade exterior acessível nos primeiros anos de vida. Os Irmãos Grimm reuniram um belo acervo de contos, alguns editados com puro rigor pedagógico que são muito usados em jardins de infância de escolas Waldorf.

Agora, se você duvida que sapos viram príncipes ou que bruxas existam, é melhor dar uma boa olhada no mundo ao seu redor, discretamente, ... enquanto Seu Lobo não vem. 
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Publicado no jornal Cinform em 22/07/2013 - Caderno Emprego 
          Publicado no jornal Coerente em 16/02/2014 - Educação pág. 13




domingo, 21 de julho de 2013

Um vídeo do ano 2000 do Projeto TeenMão - Nossa Escola e KidData

   
     Entre os anos de 1999 e 2001, coordenei o Projeto TeenMão, uma parceria da KidData (minha empresa) e a Nossa Escola. Entre curiosidades desse projeto, está o link a seguir:

http://www.youtube.com/watch?v=4QC90tAFLAc

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Desde que seja preto


Está em tramitação no legislativo, um projeto de unificação dos currículos da Educação Básica do País. Os defensores da ideia alegam que o currículo diferenciado, como se encontra, potencializa as desigualdades regionais, além de não permitir alinhar a formação dos professores com o material didático e conteúdos de cada disciplina. Já os contrários, afirmam que essa unificação engessará, ainda mais, o trabalho do professor e não respeitará as características regionais, fazendo da educação um produto de interesse de minorias dominantes que banalizam a identidade local.

Analisando os fatos, verificamos que está em moda aplicar testes comparativos da Educação Básica entre vários países, a exemplo do famoso Pisa - Program for International Student Assessment -, que coloca o Brasil entre as dez piores notas, em uma lista de mais de 60 países. Nesse Pisa, nosso desempenho foi simplesmente vergonhoso em todas as participações.

Em uma época de acelerado processo de globalização e mudanças, inclusive as de endereços, é natural e saudável a criação de parâmetros educacionais que permitam a mobilidade de famílias dentro ou fora do País, sem maiores prejuízos à formação escolar dos filhos. Assim, a aproximação entre currículos e conteúdos em linguagem, matemática e ciências deve ser bem-vinda. Ademais, essas disciplinas possibilitam conhecimentos universais básicos, que permitirão novas aquisições mais complexas e abstratas.

No mundo atual, existem dois grandes produtores de currículos: a Unesco e a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. De modo geral, todos os países se alinham em uma ou outra dessas fontes, pois são também as grandes financiadoras da educação, liberando recursos aos que aderem às soluções propostas por elas. É natural, portanto, que o financiador padronize os projetos de educação, implante, avalie a conformidade e o desempenho, onde quer que seja a implantação.

Tal cenário favorece excessivamente a padronização da educação escolar, tornando-a um produto de consumo comoditizado, assemelhado ao minério de ferro ou à carne de frango. E, por falar em commodities, sabemos o quanto o Brasil é bom nesse “campo”. Somos líderes mundiais em várias delas, mas não devemos estar satisfeitos com isso, pois sabemos tratar de bens de baixo valor agregado e pouca diferenciação, tornando o menor preço o principal motivo da escolha. Conquanto toda commodity é igual entre si.   

No capitalismo da Revolução Industrial, Henry Ford tornou-se um ícone ao aperfeiçoar a linha de montagem dos famosos automóveis dele. Tamanha obsessão por produtividade e eficiência, o fez reduzir custos, inacreditavelmente, chegando à década de 1920 com a Ford sendo responsável por um terço de todos os automóveis produzidos no mundo.

Porém, tal performance industrial tanto o remeteu ao ápice do modelo como também o levou a perder a sensibilidade quanto ao mercado consumidor. Esse afastamento do cliente foi bem caracterizado com a frase que lhe é atribuída: “o americano pode comprar o carro de qualquer cor, desde que seja preto!”. Sob a ótica da eficiência, ele estava coberto de razão, pois pintar os carros de uma única cor reduz custos de produção. Mas, não era mais isso que o consumidor queria, fazendo a Ford perder posições.

De forma pragmática, devemos considerar a commodity como algo inferior quando somos capazes de superá-la. Ou seja, se exportássemos locomotivas ou navios, então não deveríamos exportar minério de ferro. Todavia, quando nosso produto é inferior ao da commodity, esta deve ser a nossa referência mínima inicial. Se não exportamos escolas, professores, material didático ou gestores escolares, como fazemos com o futebol, então estamos abaixo das commodities do setor. Que tal recorrermos a elas?

Enquanto estamos no conforto egocêntrico das ideologias e perfeccionismos, nossas crianças estão crescendo sem poder esperar o tempo ideal dos carros coloridos, quando nem fabricamos os pretos. Escolha, Brasil!



Publicado no jornal Cinform em 15/07/2013 - Caderno Emprego
Publicado em 24/11/2015 no site http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/desde-que-seja-preto/91819/