quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Trabalho decente para o empregador também


Esta semana acontece em Brasília a I Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente. Trata-se de uma oportunidade para discutir políticas públicas que nortearão o futuro das relações de trabalho no Brasil. Torçamos para que haja lucidez e racionalidade nos produtos finais desse encontro de trabalhadores, empregadores e governos. Não se pode ser raso na interpretação de resoluções oriundas de órgãos externos como a OIT – Organização Internacional do Trabalho.

Vivemos em um país continental, em que cerca de 85% da população se concentra em 1,5% da área territorial. Isso, por si, já demonstra a escassez reinante entre os brasileiros espalhados pelos 98,5% do país, desassistidos de infraestrutura mínima de saúde, renda, educação, transporte, estradas, habitação, saneamento, segurança, energia elétrica, etc.

Lamentavelmente, nesses bolsões nacionais, o Estado em todas as suas esferas se faz presente para punir ainda mais os brasileiros desassistidos. Eu convivo com a realidade do sul do Piauí e sei do que afirmo aqui. Ano passado, me espantou o fato de um jovem ter sofrido um acidente de moto, fraturando uma perna na segunda-feira de carnaval. Este infeliz rapaz só veio a ter sua perna engessada na quinta-feira, após viajar 400 km em carro fretado e pagando pelo serviço médico numa clínica particular. Por se tratar de uma pessoa pobre, essa assistência só foi possível porque uma pequena empresa local, num gesto de solidariedade, providenciou os recursos financeiros. Onde estava o Estado?

Esse Poder, ausente no cumprimento de suas obrigações constitucionais, por vezes se faz presente na região, unicamente para exercer seu caráter fiscal e punitivo contra essa mesma pequena empresa, perfeitamente legalizada, ambientalmente sustentável, que gera empregos formais onde não há energia elétrica, nem internet, nem água tratada e seu acesso se dá por estradas municipais intransitáveis durante a chuva, ficando interrompido o trânsito por até uma semana inteira devido a inexistência de pontes e a abundância de atoleiros. Além disso, tal empresa dista 70 km do banco, 200 km do contador, 600 km do curso obrigatório de operador de motosserras, 900 km dos órgãos ambientais licenciadores e 1500 km de seus clientes – as siderúrgicas mineiras. Como visto, itens indispensáveis para o funcionamento desse empreendimento regido por leis palacianas, as mesmas aplicadas aos bancos multinacionais da avenida Paulista.

Os empreendedores pioneiros são os bandeirantes do século XXI, que abrem espaço para o crescimento da economia regional, sobrevivendo em condições de total adversidade nas atividades empresariais, sem incentivos justos, sem logística de transporte, punidos severamente por gerar empregos para brasileiros que não tiveram a sorte de haver nascido nas Paulíneas ou Londrinas, interiores presentes naquele privilegiado 1,5 % do território nacional. 

No Brasil os empresários não diferem muito dos trabalhadores quanto ao status precário da sua escolaridade, na má formação profissional, na dificuldade de acesso ao crédito e na renda familiar. Afinal, mais de 99% das empresas brasileiras são micro e pequenas, pertencentes a pessoas que se enquadram nos maiores estratos populacionais de nosso país: classes C, D e E.

Será justo defender o trabalho decente apenas para os empregados, já que não há diferenciação notável de seus patrões na quase totalidade dos casos? Acho que estão confundindo as imagens do empresário brasileiro com a do banqueiro internacional.

Aliás, defender o “trabalho decente” parece encantar a todos, porém, por sua imprecisão e abstração conceitual, pode ser a fórmula para politizar o tema e interpretá-lo da maneira mais aprazível ao discurso de uma elite camuflada, aproveitadora e utilitarista. Bem ao estilo do filósofo John Stuart Mill (20/05/1806–08/05/1873): “É melhor ser um ser humano insatisfeito que um porco satisfeito; melhor ser um Sócrates insatisfeito que um tolo satisfeito; e, se o tolo ou o porco tem uma opinião distinta, é porque eles só conhecem o seu próprio lado da questão”.


Publicado no jornal Correio de Sergipe em 08/08/2012 - Caderno B2

Publicado em:
http://www.cdlaju.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=155:trabalho-decente-para-o-empregador-tambem&catid=44:noticias&Itemid=109

segunda-feira, 23 de julho de 2012

É ilusão oportunidade sem empreendedorismo



A OIT - Organização Internacional do Trabalho adotou, em 1944, a Declaração de Filadélfia como parte integrante de sua Constituição, reconhecendo que "todos os seres humanos, independentemente de raça, credo ou sexo, têm o direito de buscar seu bem-estar material e seu desenvolvimento espiritual em condições de liberdade e dignidade, de segurança e de igual oportunidade". Esta Declaração serve de base para a formatação de políticas públicas e a projeção de metas de desenvolvimento social em inúmeros países, inclusive no Brasil.

Mas, será possível existir oportunidade sem empreendedorismo? Ora, oportunidade é definida no Houaiss como “ocasião favorável para a realização de algo”, ou seja, um ensejo para se empreender uma realização. Ainda, este mesmo dicionário nos diz que empreendedorismo é “disposição ou capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços, negócios”.

Empreendedorismo é, na verdade, a arte de realizar sonhos. A partir disso, não há limites para quem é persistente e possui os conhecimentos necessários. Assim, empreendedorismo se torna uma capacitação possível a qualquer pessoa que se disponha a ter as atitudes e os comportamentos necessários para “fazer acontecer” oportunidades.

O sucesso em qualquer campo de atuação humana é, em ultima instância, fruto da sua ação empreendedora e da luta cotidiana focada em atingir objetivos. Em geral, são empreendedores todos aqueles capazes de trabalhar hoje sem perder o olhar no futuro.

Transcrevemos a partir do livro “O poder da atitude”, de Alexandre Slivinik, esse exemplo bastante emblemático da história de um dos políticos mais famosos do mundo: “ele montou um negócio em 1831, mas não deu certo. Foi derrotado na candidatura a vereador em 1832. Fracassou em outro negócio em 1834. A noiva faleceu em 1835. Teve um ataque de nervos em 1836. Foi derrotado em outra eleição em 1838. Foi derrotado para o Congresso em 1846. Foi derrotado para o Congresso em 1948. Foi derrotado para o Senado em 1855. Foi derrotado para a vice-presidência em 1856. Foi derrotado para o Senado em 1858. Foi eleito Presidente da República dos Estados Unidos em 1860. Seu nome? Abraham Lincoln. Um dos mais notáveis estadistas da humanidade”.

Com efeito, a persistência é característica obrigatória nos homens e mulheres de sucesso. Steve Jobs foi expulso de sua própria empresa, a Apple, após lançar o Macintosh. Por cinco anos desenvolveu tecnologias para a produção de filmes animados por computador em sua nova empresa, a bem sucedida Pixar, e retornou à Apple para salvá-la da insolvência, com sucesso. Albert Einstein também foi expulso da escola, porque não tinha capacidade para aprender, mas a história comprovou a genialidade dele. Nelson Mandela, após passar 27 anos na prisão, se elegeu presidente da África do Sul e se consagrou como o maior líder da África Negra, tendo sido agraciado com o Premio Nobel da Paz.

Exemplos como esses nos fazem ver o valor do empreendedorismo como instrumento de superação de adversidades. Dele, aprendemos que sempre que vislumbramos metas a alcançar nos fortalecemos no enfrentamento dos inúmeros obstáculos cotidianos. Assim, mitigamos o impacto que essas adversidades nos impõem e somos mais criativos nas soluções delas. Porém, quantos potenciais Lincoln, Einstein, Jobs e Mandela se perderam nos ideais deles pela falta de capacidade empreendedora? Talvez já tivéssemos a cura do câncer, a fórmula da paz mundial, a equação que resolveria a exclusão social e a degradação ambiental. Quem sabe essas soluções chegaram a alguma cabeça que recuou no primeiro obstáculo?

Não há como falar em igual oportunidade, princípio fundamental das modernas políticas sociais, de forma dissociada da educação empreendedora – o aprender a fazer – que deve estar presente em todos os níveis da escola regular, assim nos diz a UNESCO. Isso, porque até a sorte é definida como o encontro da oportunidade com a competência de empreender. O resto é ilusão!



      Publicado no jornal Cinform em 23/07/2012 – Caderno Emprego
  

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Estranhas terceirizações




     O Brasil permite um universo muito restrito de possibilidades legais para a terceirização nas empresas privadas e no serviço público. O nosso desvario de regras faz do país um recordista em reclamações trabalhistas: são cerca de 2 milhões de processos por ano, que comparado aos  75 mil dos Estados Unidos, revela um panorama infernal sobre o tema.


     Certamente, o excesso de regulamentação normativa gera desencontros nos próprios códigos, alimentando, assim, as chances de conflitos. Além disso, a superproteção ao trabalhador brasileiro é incoerente com o perfil demográfico atual. Já é razoável flexibilizar a relação trabalhista entre profissionais de nível superior e as empresas privadas, especialmente as micro e pequenas que representam um imenso e frágil universo superior a 99% do total.

     Também será bom para o País admitir terceirizados em áreas fins, se menores de 26 anos e pelo prazo máximo de dois anos nas empresas públicas, como forma de ampliar o acesso ao primeiro emprego por meio de uma experiência realmente qualificada. Isso consolidará a formação desses aspirantes, que poderiam candidatar-se ao processo seletivo público com mais bagagem e certeza da própria vocação, evitando o tão comum desvio de função no serviço público.

     Por certo, Getúlio Vargas, por mais visionário que fosse, jamais teria condições de enxergar a complexidade do mundo de hoje, ao criar a Consolidação das Leis do Trabalho - CLT. Ao longo dos mais de 60 anos de emendas na referida lei, o Brasil conseguiu o impropério de punir os que mais empregam.

     Mas, conforme o título deste artigo, vamos falar sobre estranhas terceirizações. Michael Sandel, professor da Universidade de Harvard e autor do livro “Justiça – o que é fazer a coisa certa”, nos aponta dois exemplos intrigantes: na Guerra Civil Americana, em 1862, a obrigatoriedade do serviço militar atingia a tradição liberal em sua base, que levou a União a abrir uma ampla concessão: quem fosse convocado e não quisesse servir poderia contratar outra pessoa para assumir seu lugar. Desta forma, tanto os combatentes do Norte como os do Sul podiam ser contratados por preços de até US$ 1.500, valor considerável na época.

     Como alternativa, a União estipulou que o convocado que não quisesse servir poderia ser dispensado mediante o pagamento de uma taxa de US$ 300, que correspondia a um ano de salário de um trabalhador não qualificado. O resultado é que dos 207 mil efetivamente alistados, 87 mil pagaram a taxa de compensação, 74 mil contrataram substitutos e apenas 46 mil de fato serviram. Este conflito ficou conhecido como “guerras dos ricos, luta dos pobres”.

     Bem mais recente é este segundo caso: desde que se tornou possível a fertilização humana “in vitro”, isto é, a fecundação de um óvulo e um espermatozoide fora do corpo humano, surgiu um novo mercado de barrigas de aluguel. Esse tipo de fertilização extracorpórea pacificou questões judiciais anteriores sobre a verdadeira maternidade da criança, uma vez que, antes, essa reprodução se dava a partir do conjunto óvulo + útero da gestante, vinculando automaticamente a mãe biológica ao feto.

     Essa tecnologia fez brotar um mercado considerável de mulheres dispostas a abrigar, no ventre delas, o desenvolvimento do ovo importado, serviço que realizado nos Estados Unidos custava até US$ 80 mil, entre despesas médicas e a “locação da barriga”. Na cidade de Ananda, no oeste da Índia, em 2008, mais de 50 mulheres tiveram filhos para casais estrangeiros. O custo total, nesse caso, fica em torno de US$ 25 mil, isto é, um terço do americano. A mulher indiana recebe em nove meses US$ 7.500, o equivalente a 15 anos de salário médio da região.

     Esses são dois casos extremos de terceirização, ambos legais e polêmicos. Desse modo, nem vamos tão longe, mas manter o que temos hoje – até que a morte os separe -, para os contratos de trabalho é ver neles a mesma missão do que no casamento civil, em que, também creio, ocorrem estranhas terceirizações.


      Publicado no jornal Cinform em 09/07/2012 – Caderno Emprego

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Roma, Nasa, Jobs: mitos

    Não resta dúvida de que Roma, ainda hoje, exerce grande influência no pensamento universal. O Direito expressa emblematicamente esse fervor cultural secular.  Contudo, existem outros contributos bem mais inusitados, cujo extinto Império nos legou, os quais, por estarem disponíveis na internet, apresentamos a seguir:

    Aqui está o mais puro exemplo de como temos, muitas vezes, de nos adaptar a atitudes tomadas no passado:
A bitola das ferrovias - distância entre os dois trilhos- nos Estados Unidos é de 4 pés e 8,5 polegadas. Por que esse número "mágico" foi utilizado?
Porque era essa a bitola das ferrovias inglesas e, como as americanas foram construídas pelos ingleses, essa foi a medida utilizada.
Por que os ingleses usavam esta medida? Porque as empresas inglesas que construíam os vagões eram as mesmas que construíam as carroças, antes das ferrovias, e se utilizavam dos mesmos ferramentais das carroças.
Por que das medidas (4 pés e 8,5 polegadas) para as carroças?
Porque a distância entre as rodas das carroças deveria servir para as estradas antigas da Europa, que tinham essa medida.
E por que tinham esta medida? Porque essas estradas foram abertas pelo antigo Império Romano, quando das conquistas dele, e tinham as medidas baseadas nas antigas bigas romanas. E por que as medidas das bigas foram definidas assim? Porque foram feitas para acomodar dois traseiros de cavalos!
E, finalmente,o ônibus espacial americano, o Space Shuttle, utiliza dois tanques de combustível sólido (SRB - Solid Rocket Booster) que são fabricados pela Thiokol, em Utah. Os engenheiros que os projetaram queriam fazê-lo mais largo, porém, tinham a limitação dos túneis das ferrovias por onde eles seriam transportados, os quais tinham as medidas baseadas na bitola da linha.
Conclusão: o exemplo mais avançado da engenharia mundial em design e tecnologia acaba sendo afetado pelo tamanho da bunda do cavalo da Roma antiga.

     Ora, amigos, associar a anca do equino ao suprassumo tecnológico humano é um golpe duro nos mortais que gostam de ridicularizar antigos conhecimentos. Por certo, não há salto tecnológico sem fundamento teórico ou realizado a partir do nada.

     A tecnologia possui a própria história numa sequência de cenas interligadas desde a invenção da roda. A fonte da inovação é a interdisciplinaridade, ou seja, o encontro de duas ou mais disciplinas criando uma nova concepção mais rica e complexa. Exemplo concreto é a convergência tecnológica presente no celular, que, além do centenário telefone, agrega inúmeras funções.

     Assim, reconhecer a riqueza de cada fase histórica nos dá mais segurança na própria existência, à medida que compreendemos melhor o presente. Dessa visão global, resultam grandes oportunidades para empreendedores que vislumbram inovações gestadas na interface de áreas até então desconexas.

     Um mestre merecedor de homenagens póstumas é Steve Jobs, fundador da Apple, inovador revolucionário, citado como homem que conseguia ligar ciências exatas a humanas com grande êxito. Ele associou design a funcionalidade, criando o que, à primeira vista, não cabia ser reinventado. Também uniu processadores à poesia e engenharia à arte.

     Jobs fez, a partir da inovação, uma cultura entre os fiéis seguidores da  marca dele. Um modelo de futuro que relaciona tecnologia com mudança cultural, diferentemente de “Os Jetsons” –  desenho animado futurista dos anos 60, que ofertava soluções tecnológicas inimagináveis até para os nossos dias, porém, sem que isso ocasionasse qualquer impacto nos hábitos de seus personagens, uma típica e conservadora classe média americana.

     Onde muitos veem atraso na associação do antigo cavalo romano com a mais notável espaçonave, creio que Steve Jobs douraria a cápsula, recriando desse aparentemente infeliz encontro um novo e indispensável Pégaso – o cavalo alado, símbolo da imaginação sublimada - e um imperdível carro do Sol puxado por cavalos, coincidentemente, conduzido por Apolo. 



     Publicado no jornal Cinform em 25/06/2012 – Caderno Emprego


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Carta aberta à RIO+20: Não é só questão de gosto


Inicialmente, desejo que esse encontro histórico mundial seja a sede da sabedoria e da consciência cósmica, compatíveis com a grandeza das decisões esperadas. Também que a lucidez da inteligência amorosa e o desapego a valores secundários reinem nos debates que produzirão novas políticas e regras de convivência harmoniosas em nosso sofrido planeta.
Muitos dos pressupostos basilares da nossa civilização estão ameaçados, desestabilizam, consequentemente, a segurança de toda a humanidade. Pensadores modernos já disseram que em nossa era “faltam-nos as estrelas fixas”. Essa afirmativa revela, também o desencanto com a ciência que se expôs onipotente e redentora, porém, na prática, desumana por essência. Desumana porque se fundamenta no mito da neutralidade do observador que, em última análise, é o próprio ser humano: subjetivo em seu todo, incompleto em seu desenvolvimento, plural nos olhares, dúbio em suas decisões, tridimensional na relação com o tempo e com o espaço, tetradimensional em relação aos reinos da natureza, pois se abstrai do reino animal ao reconhecê-lo e classificá-lo, olhando-o de cima.
Com efeito, se a ciência se sente desconfortável com a natureza do homem, então a quem ela se destina e para quem ela serve?  É possível o domínio da natureza sem considerar a humanidade?
Vejamos esse clássico diálogo: “Mas Messier de Laplace, e quanto a Deus?”, indagou Napoleão. “Eu não preciso dessa hipótese”, respondeu o astrônomo Laplace, ao explicar a Napoleão a teoria da origem do universo”.
            A exclusão de Deus da ciência, para afirmação dela, pode ter acarretado à eliminação automática do próprio homem, por Sua imagem e semelhança. Essa lógica fria se mostra caduca na própria ética legitimada pela ciência ao propor modelos redutores que degradam para melhor dominar. Exemplo disso é o confinamento abusivo de animais, como galinhas de posturas “plantadas em gaiolas” como se fossem hortaliças em vasos, a lhes impor uma vida “vegetativa”. Método tão desrespeitoso ao reino animal quanto aceito por todos.
A destruição da natureza é a destruição do homem e vice-versa. Enquanto prevalecer a noção utilitária da natureza e do ser humano como insumos do setor econômico e do Estado, nada de melhor será possível fazer. Continuaremos sabendo tudo, mas fazendo errado. Talvez, maquiando soluções ou envernizando fracassos até conhecer a intolerância da fustigada natureza. Assim, é um mero espelhamento o tratamento que damos à ecologia em relação à visão egoísta e míope de nós mesmos.
Ampliar a imagem do ser humano, estimular o desvendar da vida, da alma, do espírito e do corpo, além da própria natureza pela via do conhecimento para a formação de uma nova consciência, é a proposta que vejo como a mais adequada para respondermos ao ultimato que, hoje, temos nas mãos. Tenho fé de que logo seremos capazes de encontrar os caminhos da superação.
 Goethe, poeta, escritor e naturalista alemão do século XVIII, origina uma proposta real de método qualitativo para pesquisas científicas. Já Rudolf Steiner, filósofo austríaco do século XX, autor da ciência espiritual Antroposofia, oferece propostas concretas e laicas de organização social, pedagogia, medicina, agricultura, entre outras aplicações, todas exequíveis para harmonizar o desenvolvimento do homem com a natureza em perfeito equilíbrio, sem prejuízo ao crescimento econômico, governamental e espiritual da sociedade. Estes são apenas alguns vultos grandiosos que não compactuaram com o poder contemporâneo, em meio a outros.
Disse Thomas Huxley, frio defensor de Darwin: “Não é menos respeitável ser um macaco modificado em vez de barro modificado”.  Penso que o nobre cientista falhou ao “materializar” o sentido literal de macaco e barro. Faltou-lhe poesia para ver no barro a união dos quatro elementos – terra, água, ar e fogo. Eu nem sou criacionista, mas prefiro ver minha origem numa metáfora de barro a uma genética de macaco. Não é só questão de gosto.
 

           Publicado no jornal Cinform em 11/06/2012 – Caderno Emprego

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Números inquietantes do clima do trabalho



Uma pesquisa da Towers Watson, intitulada “Global Workforce Survey”, realizada em 2007 num universo de 90 mil trabalhadores de 18 países, buscou determinar o nível de envolvimento das pessoas com os trabalhos delas, chegando a resultados surpreendentes e preocupantes. Os pesquisadores descobriram que 21% dos empregados são realmente engajados no trabalho, isto é, trabalham com iniciativa, criatividade e paixão. Dos trabalhadores pesquisados, 38% se mostraram pouco ou totalmente desengajados em relação às organizações. E os 41% restantes se enquadraram em um oscilante meio termo de comprometimento.


Tais números nos dizem que apenas um quinto dos empregados é apaixonado pelo que faz e aparentemente está feliz com as atividades laborais. Devemos nos indignar com essa realidade e buscar a resposta que dê luz à solução desse problema e as implicações na qualidade de vida de todos: empregados, familiares, gestores, economistas e consumidores impactados por essa infelicidade generalizada.


Por certo, o estado de espírito dos colaboradores reflete não apenas nos resultados da organização, mas decisivamente na realização profissional e pessoal. Assim, entendemos que um bom desempenho profissional é emancipador para a pessoa e construtivo para a sociedade, derivando desse conjunto de atitudes positivas, uma relação ganha-ganha bem colaborativa.


No livro “O futuro da administração”, de Gary Hamel, há uma proposta de hierarquia das capacidades humanas no trabalho: nível 6:paixão; nível 5: criatividade; nível 4: iniciativa; nível 3: expertise; nível 2: diligência e nível 1: obediência.


Notemos que há um maior reconhecimento profissional à medida que se sobe nos níveis. Podemos considerar que os três primeiros níveis são os mais valorizados na economia industrial, a mais tradicional. Os três níveis superiores são mais valorizados, indispensáveis até nas modernas economias do conhecimento e criativa.  


Há, porém, um resultado felizmente contraditório nessa mesma pesquisa da Towers Watson ao constatar que 86% dos empregados pesquisados afirmaram que amavam ou gostavam do trabalho. Disso, foi verificado que o engajamento do colaborador é maior se três fatores forem observados: primeiro, se há oportunidade de crescimento na organização. Segundo, a empresa deve possuir boa reputação e missão nobre que justifique o esforço extraordinário. E terceiro, os comportamentos dos líderes da organização devem ser confiáveis a ponto de serem seguidos.


 À alta administração, são recomendáveis, afirma Hamel, os seguintes pontos indicados na grande pesquisa: A - deve estar sinceramente interessada no bem-estar dos empregados; B – deve se comunicar com abertura e honestidade; C – deve transmitir as razões das decisões empresariais; D – deve ser visível e acessível; E – as decisões devem ser compatíveis com os valores da organização.

Já os trabalhadores, devem protagonizar a carreira profissional com ênfase na construção do próprio futuro, sendo-lhes interessante manter um cíclico programa de aperfeiçoamento profissional intercalado com os novos desafios do trabalho e da acelerada dinâmica econômica e social em curso, imprescindível para conduzir a carreira sempre em tempo bom.   


Como vimos, a atmosfera do engajamento laboral aponta 21% de empregados apaixonados por seus locais de trabalho. Coincidentemente, a atmosfera terrestre se compõe dos mesmos 21% de oxigênio. Dessa maneira, os gestores devem melhorar o clima de suas organizações, oxigenando, pelo próprio exemplo, todo o corpo de colaboradores. Afinal, concluiu Hamel: para os empregados serem entusiásticos, apaixonados e vibrantes tanto quanto poderiam ser, não espere o trabalho sugar. Melhor fazer a administração soprar.    





Publicado no jornal Cinform em 28/05/2012 – Caderno Emprego


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Dia das Mães e o “day after”


     Ontem, Dia das Mães, certamente uma data especial. É quando almoçamos em família e dedicamos (ou deveríamos dedicar) uma atenção especial à mamãe – retribuição simbólica em relação à atenção que dela recebemos. Merece registro o efeito deste domingo de maio também para o comércio, considerado o segundo melhor período de vendas, perdendo apenas para o Natal.

Por todo esse simbolismo enriquecido por gestos amorosos de filhos para com as mães deles, esse dia dispensa maiores comentários. Assim, vamos nos ater ao dia seguinte (“day after”, em inglês) e todos os demais 360 e tantos dias que o sucedem até um novo Dia das Mães. Tão numerosos esses outros dias, que os fazem verdadeiro palco da luta cotidiana, o famoso dia a dia, representando muito mais o que é ser mãe, que o único dia do ano a ela consagrado.

Quando se desenvolve um trabalho educacional e formativo, como fazem as mães cuidando dos filhos de qualquer idade, percebe-se que só surtirá o efeito desejado quando realizado a longo prazo. Dessa forma, não há como crer que algo acontecido em um único dia, por mais poderoso e marcante que seja, será capaz de, por si só, resultar em efetivas mudanças. Isso porque, não se faz educação por decreto, mas apenas através de um trabalho cotidiano e repetitivo, capaz de criar hábitos e solidificar graus de crescimento moral, volitivo, social e cognitivo nos educandos.

Esse é o grande papel exercido pelas mães na sociedade – zelar pela coerência e persistência de um cotidiano saudável para a formação do código moral e ético nos filhos. Cada vez mais, a permanente orientação firme e amorosa de uma mãe é necessária para a criação harmoniosa das crianças em virtude da crise moral e institucional crescente que vivemos.Hoje,questionamos os valores morais coletivos e institucionais, a exemplo da igreja ou da pátria, e nada repomos no lugar. E se rejeitamos esses padrões coletivos, criamos novos códigos éticos pessoais a partir de que fontes? Ofertar essa fonte é o dever que uma nova escola e família devem propiciar. Porém, enquanto nos ocupamos prioritariamente com a formação cognitiva na esperança de termos jovens inteligentes, podemos estar dando um tiro no próprio pé: desenvolver uma inteligência egoísta, destrutiva socialmente e, portanto, poderosa mas carente de um repertório de valores morais elevados.

Mais do que ser um adulto que gera crianças, à mãe, cabe o mérito de ser alguém que gera adultos a partir de crianças. Essa é a heroica saga da mulher numa família, papel compartilhado com o homem, mas não transferível por razões de íntima essência da alma feminina, perfeitamente integrada a um corpo que também não transfere ao homem o ventre fecundo e o poder de alimentar um filho ao seio.

Vivemos em um País que reconhece e remunera muito bem a formação escolar. O Prof. Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas – FGV - ,afirma, a partir de exaustivas pesquisas socioeconômicas, que o Brasil incrementa os salários em 15%,em média, por ano de escolaridade. Isso comprova o que já faz parte do discurso das famílias que se sacrificam e insistem na boa educação dos filhos, pois, sabiamente entendem que bons professores são caros; maus professores, mais ainda.

Como uma estadista do lar, a mãe nos ensina o sentido da fé com a convicção de que o longo prazo nos resgatará de qualquer situação adversa atual. Prega também a certeza de que o maior inimigo de nossos sonhos é ceder ao imediatismo sedutor. E isso é feito, incansavelmente, nos 366 dias do ano, quando bissexto.

Nosso mais profundo respeito às mamães. Afinal, a sabedoria popular ensina: “A mão que embala o berço governa o mundo”, o que reafirma o erudito Goethe, nas palavras finais da segunda parte de Fausto: “O eterno feminino nos eleva”.




Publicado no jornal Cinform em 14/05/2012 – Caderno Emprego