segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Para quem trabalhamos?



     Nos minutos em que se lê este texto, um número infinito de pessoas realiza seus trabalhos. Certamente, muitos estão preparando produtos ou serviços para nós mesmos. São anônimos trabalhadores que, juntamente com os empregadores, fazem parte de uma imensa rede de atividades econômicas posta à nossa disposição.


O advento da revolução industrial promoveu incrementos de produtividade inimagináveis se comparados à própria capacidade humana. Dessa forma, um trator realiza a mesma tarefa que 50 homens, por exemplo. Semelhantemente, um tear industrial substitui dezenas de trabalhadores.


Do ponto de vista ambiental, o ganho de produtividade e o elevado consumo de energia têm promovido impactos desastrosos, por demais divulgados. Já sob a ótica social, essa nova relação de trabalho, decorrente do uso intensivo de tecnologias e larga produção de excedentes, traz uma inovação de significado profundo, ainda hoje pouco assimilada culturalmente por todos. Trata-se da produção exclusivamente direcionada para terceiros.


Historicamente, associamos o trabalho à provisão de bens e insumos  necessários à manutenção de nossas famílias. Dessa maneira, o homem da idade média plantava para consumir, construía sua própria moradia, fabricava suas rudes ferramentas, domava os animais que serviam como alimentos, segurança e tração. Além disso, fiava suas vestes e produzia os utensílios domésticos, dentre outros afazeres como de cortar lenha para seu aquecimento.


Culturalmente, como foi dito, ainda enxergamos o nosso labor do dia a dia sob essa visão inadequada à moderna realidade presente. O que mudou? A mudança mais significativa se deu com a formação de uma imensa rede de serviços à nossa disposição, integrada por inúmeros e anônimos nós e canais de relacionamento. Simbolicamente, a internet revela a mesma topologia, isto é, a organização esquemática, refletindo a moderna estrutura econômica mundial, na qual ninguém mais trabalha para si e sua família.


Nesse contexto, a remuneração, em suas diversas formas de dinheiro, é o atual meio provedor de conforto, segurança e lazer das famílias de trabalhadores, e não mais a capacidade de trabalho físico aliada às habilidades de produzir diretamente tudo o que se necessita consumir.


Hoje, trabalhamos exclusivamente para os outros. E outros trabalham para nós. Muitos estão produzindo o pão que consumiremos mais tarde, a gasolina que utilizaremos adiante, o jornal que compraremos semanalmente, a aula que meu filho assistirá, o filme que nos emocionará, a roupa da próxima estação que lhe cairá muito bem, e o remédio que esperamos não precisar usar. Simultaneamente, estamos todos trabalhando para suprir não sabemos quem. Mas temos consciência de que só sobreviveremos nesse mundo econômico se fizermos a parte que nos cabe da melhor maneira que pudermos.


Assim, se você produz cachorro-quente, por exemplo, sabe que seu sucesso profissional está baseado no seguinte principio pétreo: fazer o cachorro-quente da melhor forma que puder, mesmo sem saber quem irá degustá-lo.  Igualmente, deve pensar e agir o fabricante de pneus ou o de guarda-chuvas. Esse é o mundo atual onde quem ensina sobre licitações públicas nem sequer possui empresa fornecedora para governos. Ou, paralelamente, quem produz pregos em alta escala não necessitará nem de um segundo de sua imensa produção para assegurar seu abastecimento vitalício deste primitivo material de construção, devido a produção de excedentes que os modernos meios de produção nos garantem.


Com efeito, fazer o melhor que pudermos sem saber quem se beneficiará de nosso trabalho tem o mesmo significado que “fazer o bem sem olhar a quem”. Se formos conscientes disso, teremos a inédita oportunidade histórica de vivenciar a fraternidade diariamente por meio de nosso trabalho.


Fraternidade e confiança formam a base de toda atividade econômica moderna. Queiramos ver ou não, só nos realizaremos profissionalmente se nos educarmos para servir através de nosso trabalho. Então, desafio o leitor a fazer uma análise de seu trabalho observando quem se beneficia diretamente de suas atividades, e verá seguramente que é o ‘próximo’, por mais distante que seja.     





Publicado no jornal Cinform em 12/09/2011 – Caderno Emprego


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Quem administra sua carreira profissional?



     Em uma rápida viagem no tempo, logo chegamos à época de nossos avós, especialmente às décadas de 1940 e 1950, quando viviam com escassez de emprego. Em Aracaju, por exemplo, nesse período só existia emprego na burocracia pública ou nos poucos bancos que por aqui operavam. Ademais, só uns raros e mal remunerados ofícios.


O emprego é uma aquisição recente na nossa estrutura econômica. Nossos antepassados criaram seus numerosos filhos tirando o sustento de pequenas unidades rurais e comerciais. Coisa muito difícil hoje.


Assim, construímos a sociedade atual alicerçada no emprego. Sonhamos com um bom emprego, mas pouco fazemos para chegar até ele. Por quê? Em geral, formamos gerações de seguidores e não de líderes. A escola premia os alunos que são mais passivos e cordatos com o status quo, aqueles que repetem a forma de pensar e interpretar do professor, em detrimento do pensamento próprio. Essa mesma escola prefere alunos que se mantenham limitados à esfera cognitiva, sem a respectiva atuação prática.


“O modelo educacional tradicional é impróprio para formar empreendedores porque condiciona à passividade”, afirma L.J. Filion, pesquisador canadense e um dos principais autores sobre empreendedorismo. Repetidamente afirmamos aqui que a boa educação deve atuar na formação do pensar, do sentir e do agir.


Infelizmente, só o pensar é educado pelos programas oficiais de nossas escolas. O desenvolvimento do sentir é apenas acompanhado indiretamente por elas, sendo formado pela convivência social espontânea - e perigosa - dos próprios alunos. Enquanto o agir é reprimido abertamente no atual sistema de ensino, pois, de nossas ações emergirão manifestações pessoais exteriores, decorrentes da vontade individual, que por não caber neste modelo combate-se desde cedo nas crianças. Pergunta-se: como podemos formar pessoas dinâmicas e inovadoras cuja atuação sempre trará mudanças à ordem das coisas?


Somos, muitas vezes, levados a pensar que, ao conseguir um emprego, tudo o mais de nossas vidas profissionais nos será dado pela empresa. Assim, acomodamo-nos passivamente. Ao mesmo tempo, vivemos a sensação de que algo decepciona nossas expectativas e nos voltamos contra o próprio emprego, alimentando um discurso destrutivo na tentativa de responsabilizar alguém pelo próprio fracasso.


Devemos imaginar que assim como no modelo escolar, em que evoluímos a cada ano, ao avançar para a série seguinte, inclusive trocando de escola, se necessário, fazemos acontecer a progressão e não aceitamos a repetição. Igualmente, devemos pensar em nossa carreira profissional: evoluir sempre. Olhar para frente objetivamente, definir onde queremos estar daqui a cinco ou dez anos, e fazer um plano para chegar lá. Esse plano, certamente, envolverá a construção de um itinerário formativo, contemplando os cursos e formações necessárias para se fazer cumprir o plano de carreira profissional. Esse é o caminho da liberdade que só a educação nos dá.      


De fato, todos nós conhecemos pessoas lamurientas e desagregadoras que sempre estão a falar mal das organizações que trabalham. Essa é a pior atitude profissional que se deve ter, pois representa a impotência e a incapacidade de decidir sobre a própria vida. Parecem esperar pelo “Messias” que vai resolver tudo para elas. Disso, surgem oportunistas que se apresentam como vendedores de ilusões para tirar proveito político do “sofredor”, num movimento perverso de retroalimentar sua baixa autoestima quando o saudável seria ajudá-lo a se emancipar do círculo vicioso de autodestruição.


Se não decidirmos por nossas próprias vidas, alguém o fará por nós, e dificilmente será em nosso favor. Este é um processo de terceirização de destinos, infelizmente tão presente em nossa terra brasileira. País que leva nossos jovens mais bem formados e talentosos a sonharem com concursos públicos e empregos burocráticos. Para muito longe, portanto, da atividade produtiva, única capaz de gerar riqueza e emprego para todos.   



 
Publicado no jornal Cinform em 29/08/2011 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial ago/2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Os quatro temperamentos humanos – Parte IV



     Ao final da nossa apresentação sobre o tema, apresentamos nesta edição mais dois temperamentos. O calmo fleumático e o forte colérico, opositores naturais. O fleumático – água - é possuidor de baixa energia e baixa excitabilidade. Voltado para dentro de si, está sempre ligado no seu próprio metabolismo. É calmo, acessível, agradável, e por isso, trabalha bem com os outros. É uma pessoa eficiente, conservadora, digna de confiança e espirituosa.


Fisicamente, o fleumático possui, em geral, olhos pequenos e sem brilho, mas o olhar, diferentemente do melancólico, é disposto e amigável. No seu rosto, tudo tende mais para o arredondado, o esférico, o que se traduz em uma expressão facial amável. Seu andar é bamboleante tal como se faz ao pisar na água. 


Gosta de se sentar para observar a pressa dos outros, sem se envolver diretamente nessas atividades e achando tudo divertido. Caracteriza-se também por adorar viver nos processos da gustação e desfrutar os importantes processos de ingestão de alimentos. Tende à obesidade e é fortemente ligado nos processos vitais. Vê o corpo como um laboratório de processamento do humor, isto é, se o metabolismo está bom, assim também estará o humor.


Vive muito no presente interior, tem facilidade de observar tudo o que se passa à sua volta, mas não costuma reagir. Tem alguma lentidão para entender o que lhe dizem assim como para agir. Contudo, uma vez entendido, gravará para sempre a informação. É um músico tranqüilo, a exemplo do instrumentista que toca um contrabaixo em um grupo de jazz ou rock, ou seja, destaca-se pela estabilidade em oposição aos demais da banda. A música ‘Deixa a vida me levar’, de Zeca Pagodinho, revela a fleuma típica. Na Bíblia é representado pelo cauteloso Abraão, que sempre precisou de estimulo externo para agir.


No trabalho é altamente organizado, zeloso, cuidadoso, persistente, tradicionalista e metódico, além de preso às normas. O aspecto negativo é a tendência à morosidade e indecisão. Em contrapartida, aceita como ninguém as rotinas mais rígidas.


Suas características são inigualáveis para artistas plásticos, cientistas, médicos, humoristas, auditores, contadores, diplomatas, professores, pesquisadores, dentre outras atividades que exigem disciplina e dedicação.


Por fim, o temperamento colérico – fogo, possuidor de alta energia e alta excitabilidade, é típico da pessoa aparentemente brava, líder, exigente, cumpridora dos deveres. Gosta de fazer as coisas e de vê-las terminadas. Extrovertido, sua cabeça fervilha de idéias otimistas. Seus olhos brilham irradiando o fogo interior da personalidade.


Quanto à forma de andar, o colérico pisa no chão com passos firmes, com o peso recaindo sobre os calcanhares. Em seu rosto, predomina a mandíbula e o pescoço é curto. É notável neste temperamento o predomínio do querer, que se caracteriza pela tendência de impor suas vontades sobre as dos outros, chegando facilmente a agir de forma impulsiva ou instintivamente. Costuma ter o chamado ‘pavio curto’.


Possui forte vínculo com o futuro e, por isso, precisa agir permanentemente. A energia do corpo necessita ser convertida em ações concretas e em enfrentamentos difíceis. Beethoven é um exemplo de compositor colérico, com suas peças completas e bem definidas. Mais popular, parece convergente o estilo musical de Alceu Valença.


Negativamente, costuma desprezar os que fracassam, toma decisões inquebrantáveis – é ‘cabeça dura’, se impõe acintosamente e tende a ser precipitado. A capacidade de realização aliada ao desejo de liderar e persuadir os demais faz do colérico um empreendedor nato. Dotado de espírito guerreiro, é ele que pavimenta a estrada por onde a humanidade caminhará.


Na Bíblia, Paulo revela as qualidades desse temperamento, antes de conhecer Jesus, quando era implacavelmente cruel com seus oponentes. No trabalho, possui a invejável performance de prosperar debaixo de oposição. Esbanja confiança, tem visão global, insiste na produção, é prático e realiza metas. Opostamente ao fleumático está o colérico. Devemos evitar a forte interação ou dependência mútua no trabalho e na escola, ou não se suportarão.





Publicado no jornal Cinform em 15/08/2011 – Caderno Emprego

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Os quatro temperamentos humanos – Parte III




Existem quatro temperamentos humanos distintos e cada pessoa possui um único que é resultante da combinação deles. Nesta edição, vamos focar mais precisamente nas qualidades inatas destes e em seus reflexos no humor das pessoas, já que são construídos a partir de dois pilares fundamentais: energia e excitabilidade.

 Por energia devemos entender a disposição pessoal para utilizar do poder e da força. Por excitabilidade, compreenderemos a sensibilidade a estímulos externos. Vistos a partir de um plano cartesiano, os temperamentos se polarizam ao definirem afinidades entre quadrantes vizinhos e oposição entre os polos. Consultorias em gestão de recursos humanos nas empresas nos fazem entender mais sobre os temperamentos de duas formas:

 O primeiro é o melancólico – terra -, possuidor de alta energia e baixa excitabilidade. Voltado para dentro de si, camufla seu potencial energético. É o mais questionador, filósofo, planejador. Movimenta a vida com as idéias. Costuma ser perfeccionista, sensível, analítico, abnegado e amigo leal. É introvertido e raramente se impõe. Para ele, a vida é difícil e não tem muitos enfeites. Costuma considerar que temos que pensar com mais seriedade.

Fisicamente, o melancólico possui olhos sem brilho e pálpebras pesadas, que lhe conferem uma aparência cansada, especialmente pela manhã. Na postura, gosta de manter a cabeça inclinada para frente ou para os lados e os ombros caídos. Seu andar é pesado, refletindo o peso gravitacional que o elemento terra lhe dá.

É muito intuitivo e têm forte apego ao passado. Não foge do sofrimento, mas por outro lado, parece que ele o atrai. Aprofunda-se nos assuntos, é persistente, fiel e cumpridor dos deveres.

Chopin, famoso músico, é um forte exemplo de melancólico. Também, a música ‘Nem um dia’ de Djavan se estrutura numa atmosfera de evidente melancolia. Na Bíblia, o representante é Moisés.

No trabalho, orienta-se pelo horário, exige altos padrões de desempenho, é econômico, ordeiro, gosta de gráficos e tabelas, é minucioso e detalhista.

Essa típica energia interior faz do melancólico um artista nato para artes mais intimistas como a poesia e a pintura. Tem vocação para a educação, à pesquisa e à invenção. Seu olhar profundo lhe dá compreensão superior na observação de fenômenos naturais e relacionamentos humanos. Porém, carece de apoio externo para realizar suas idéias.

A segunda forma é a do sanguíneo – ar -, possuidor de baixa energia e alta excitabilidade, é voltado para fora, dotado de elevado dinamismo e superficialidade. É uma pessoa amigável, calorosa e simpática. Atrai as pessoas como se fosse um imã. Tem boa prosa, é otimista e despreocupado. Faz o tipo que alegra a festa. Adapta-se como ninguém ao meio ambiente e se ajusta aos sentimentos alheios. Seus olhos brilham e sua boca está sempre pronta para falar alguma coisa.

Caracteriza-o ainda o andar leve e flutuante, como se desconsiderasse a gravidade. Assim como o ar, seu elemento, o sanguíneo, preenche todos os espaços e o induz a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Não tolera normas e rotinas, vive o presente exterior e tem dificuldade de se fixar em um assunto. Reage e se empolga com estímulos externos.

A aptidão pela música é tão forte que nos permite confirmar que o som só se propaga através do ar, seu elemento. Mozart, compositor, é um clássico exemplo, com sua genialidade e leveza musical. Típica, também é ‘A festa’ de Ivete Sangalo. Parece ser o temperamento majoritário da Bahia, com sua festa inesgotável e a frenética renovação de ritmos, danças e ausência de rituais disciplinados, exceto o de mandar a galera ‘tirar o pé do chão’.

A capacidade de adaptação aliada ao desejo de ser o centro das atenções faz do sanguíneo um artista nato do teatro e da música. Na Bíblia, Eva revela a natureza desse temperamento ao se deixar seduzir inconsequentemente.

No trabalho, é excelente vendedor, relações públicas, orador, recepcionista, enfim, desenvolve bem atividades que envolvem interação rotativa entre pessoas.

Como se vê, opostamente ao melancólico está o sanguíneo. Assim, convém evitar a interação forte entre ambos nos ambientes de trabalho e escola, ou um irá exaurir o outro.

(continua)  


Publicado no jornal Cinform em 01/08/2011 – Caderno Emprego

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os quatro temperamentos humanos – Parte II



     O conhecimento sobre os temperamentos humanos tem uma grande aplicabilidade nas empresas, escolas, times desportistas, movimentos populares, tratamentos terapêuticos, dentre outros. Ainda no século 16, a Companhia de Jesus selecionava seus missionários de acordo com o perfil mais adequado à atividade dos jesuítas na Província do Brasil.


Assim, um relatório elaborado pelo Padre Provincial Pedro Rodrigues no ano de 1598 retrata os 163 jesuítas presentes em nossa terra com a seguinte compleição: 142 coléricos, um melancólico, 10 fleumáticos e 10 indefinidos. Tal prevalência de coléricos está registrada nos relatórios seguintes até o ano de 1660. Por óbvia e antropofágica razão, creio.


Igrejas evangélicas muito bem se utilizam desse conhecimento para orientar seus fiéis na busca de melhores relacionamentos conjugais, familiares e laborais. Nas suas páginas na internet encontramos farto material sobre o tema.


No século 20, além de Rudolf Steiner – criador da Pedagogia Waldorf, Carl Gustav Jung, psicólogo discípulo de Freud, apresentou estudos contemplando os 4 ‘tipos psicológicos’. Mas foi o psicólogo americano William Moulton Marston, nos anos 30, quem deu outra roupagem aos temperamentos, visando sua direta aplicação nas empresas, ao definir a construção de gráficos que apresentam pontos de maior e menor expressão dos temperamentos individuais, permitindo, deste modo, atenuar ou fortalecer as características desejáveis à boa performance do trabalhador ou do empregador. 


 De acordo com Marston, os padrões comportamentais se dividem em dominância, influência, estabilidade e conformidade, diretamente associáveis aos temperamentos colérico, sanguíneo, fleumático e melancólico, nesta mesma ordem. Certamente para um vendedor, por exemplo, será de grande utilidade ter algum conhecimento sobre características comportamentais para auxiliar seu trabalho.


Ao abordar um cliente colérico, é de se esperar que ele se mostre arrogante e pouco disposto a ouvi-lo. Caso o cliente agora seja do tipo melancólico, ele poderá pedir informações em tal nível de detalhe que dificulte a obtenção de respostas. Já com um cliente sanguíneo, a tendência é que ele falará muito e desejará soluções rápidas devido a sua tradicional impaciência para com rotinas e processos. Finalmente, ao atender um cliente fleumático, o desafio do incansável vendedor será fazê-lo se sentir seguro do que lhe é oferecido e depois conseguir a rápida decisão de efetuar a compra.


Estes exemplos são emblemáticos, porém, demonstram os padrões de comportamentos esperados. Certamente, será muito mais fácil para um vendedor que consiga diagnosticar o temperamento típico do comprador, realizar uma venda mais célere e satisfatória para ambos.


Outras características potenciais para melhorar o desempenho no trabalho resultam de temperamentos combinados na mesma pessoa: o colérico/sanguíneo possui talento nato para a liderança. Igualmente, o melancólico/fleumático se sairá muito bem quando o assunto for análise. A combinação sanguíneo/fleumático oferecerá muita habilidade para o relacionamento.


Contrariamente se deve evitar a formação de duplas de alta interação compostas por sanguíneo e melancólico, bem como, colérico e fleumático. São os opositores naturais.

Para organizar salas de aulas, melhor será manter como vizinhos de carteiras jovens de temperamentos semelhantes. Esta proximidade neutralizará predomínios de um sobre o outro, ao aumentar o respeito entre eles e reduzir o bullying. O objetivo deve ser sempre a combinação do tipo ganha-ganha. 


Tudo que está apresentado aqui é uma pequena mostra sobre como os temperamentos humanos podem ajudar nas organizações. Ressalte-se, porém, que não existe temperamento puro ou homogêneo. Além disso, jamais se deve utilizar esse conhecimento para rotular pessoas ou se mostrar superior a elas. Não existe temperamento melhor ou pior, pois cada qual possui vantagens e patologias típicas.


O ser humano pode, em verdade, se emancipar de todas as forças de comportamentos, não se subordinando a nenhuma delas por meio de sua vontade. Além disso, nosso temperamento muda ao longo da vida: na infância somos mais sanguíneos, na adolescência tendemos a coléricos, na fase adulta há mais melancolia e na velhice, a fleuma típica.


Alguns outros fatores que influenciam nos padrões comportamentais são: posição na constelação familiar - primogênito, etc -, signo zodiacal, gênero e biotipo. Portanto, sejamos humildes e procuremos percorrer um longo caminho em busca de si próprio, antes de julgarmos o próximo. Enfim, “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. 

(continua)



Publicado no jornal Cinform em 18/07/2011 – Caderno Emprego

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Os quatro temperamentos humanos – Parte I



     A ciência moderna nos trouxe desenvolvimento e grandes avanços em vários campos do conhecimento humano. Devemos ser muito gratos à ciência e à tecnologia pelos benefícios concedidos à humanidade. Mas esta mesma ciência redentora nos trouxe a inviabilidade do modelo de desenvolvimento atual que destrói os recursos ambientais e ignora as questões sociais.


Certamente, estamos em uma encruzilhada. Ridicularizamos e rompemos com antigos conhecimentos, em nome do novo. Enquanto, simultaneamente, não vislumbramos a possibilidade de nossa própria sobrevivência a partir da promessa decepcionante que abraçamos. Portanto, devemos nos abrir para o novo paradigma que se anuncia, o da pluralidade de visões, porém, convergentes para a compreensão singular do ser humano.


Goethe - cientista e poeta alemão – disse: “as leis gerais são muito poucas, suas metamorfoses é que são infinitas”. São, portanto, essas leis gerais que devemos buscar conhecer para nos garantir sabedoria na escolha de nossas opções de futuro sustentável.


Dentre essas leis gerais, existe uma que divide tudo a partir de quatro elementos básicos: terra, água, ar e fogo. Erroneamente, temos a tendência a achar que se tratava de uma antiga tabela periódica da química. Não, absolutamente. Estes quatro elementos refletem estados qualitativos das coisas e não quantitativos.


Assim, podemos associar os elementos: terra aos sólidos, água aos líquidos, ar aos gases e, por último, o fogo correspondendo ao calor gerado ou adicionado nas transformações de estados físicos e nas combinações químicas. Algo errado nisso? Certamente não. Então, por que desconsiderar essa metáfora tão rica ao nosso conhecimento científico?


Ocorre que por trás dessa visão qualitativa das coisas há um perfeito espelhamento da natureza humana. Com base nisso, Hipócrates (460 – 377 a.C) – considerado o pai da medicina – relacionou diretamente os quatro elementos aos temperamentos humanos (melancólico, fleumático, sanguíneo e colérico) para, assim, tratar com mais efetividade seus pacientes. Bem mais tarde, Rudolf Steiner (1861 – 1925), filósofo austríaco, concebe a Antroposofia, ao reunir estes conhecimentos elementares à metodologia científica de Goethe numa cosmovisão que enobrece a existência do ser humano na Terra, ao tempo que também o responsabiliza pela evolução planetária.


Com efeito, para além dos quatro temperamentos, Rudolf Steiner associa os mesmos quatro elementos aos reinos da natureza, às estações do ano, à origem do cosmo e à constituição do ser humano dotado de corpo físico, vida, alma e espírito, numa imagem que chamou de tetramembração.


Sabemos que o termo temperamento remete a outros derivados do mesmo radical semântico, a exemplo de tempero, temperatura, têmpera e tempo (no sentido de clima, ex. tempo chuvoso, etc.). A todas essas palavras relacionamos automaticamente uma escala de graduação, visto não existir uma única temperatura, nem um único tempero, nem uma só têmpera ou um só tempo. Esse mesmo raciocínio se aplica aos temperamentos humanos: nas pessoas não existe exclusividade ou ausência de qualquer temperamento, mas, sempre uma mistura dos quatro com o predomínio de um deles.


Quanto aos quatro temperamentos, fazemos as seguintes associações: melancólico, fleumático, sanguíneo e colérico, com respectivamente, terra, água, ar e fogo. Cada um destes temperamentos possui características peculiares que certamente vemos presentes na maioria das pessoas que conhecemos.


Ao melancólico, por exemplo, associamos atitudes introspectivas, pensamentos pessimistas e muito comprometimento com tudo que se envolve. Já aos coléricos se associa o rompante típico do sujeito de pavio curto, que quer porque quer, sendo assim grande realizador também. O sanguíneo é leve, amigável, sedutor, geralmente superficial e influenciável. Com o fleumático as coisas estão sempre bem, desde que esteja de barriga cheia, nada o perturba, é estável e grande amigo.


Essas características humanas são de extrema importância para a educação e para as organizações econômicas. A partir dos temperamentos associamos trabalhos ideais para cada pessoa, melhorando assim, a satisfação do trabalhador, seu sucesso profissional e o da empresa. Também é possível montar equipes mais harmoniosas e duradouras quando os temperamentos se complementam. Em escolas que adotam a pedagogia Waldorf, a sala de aula é organizada levando-se em conta os temperamentos dos alunos para reduzir atritos e indisciplinas, além de aumentar a empatia.


Esse empolgante assunto não pode ser esgotado aqui. Desta forma, os próximos artigos detalharão mais sobre o tema e sua vinculação ao trabalho e à educação.

            (continua)





Publicado no jornal Cinform 04/07/2011 – Caderno Emprego

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Robô pra quê?



     Nos anos 60, a série televisiva ‘Os Jetsons’ fazia grande sucesso por especular sobre o futuro. As cenas eram simplesmente delirantes mesmo quando analisamos hoje, após 50 anos, o que se concretizou e o que está por vir, ainda desconhecido aos nossos olhos. Aparentemente, existem influências desse desenho animado visionário na arquitetura de alguns prédios e torres construídas no mundo, como o aeroporto de Los Angeles e o obelisco de Seattle, ambos nos Estados Unidos.


Também são designs dignos dos Jetsons o berço DoDo, e até – pasme! - a torneira Smartfaucet com tela de LCD para que se possa ler os e-mails enquanto, muito tradicionalmente, escova os dentes.  Porém, se no design e na arquitetura existem produtos em pleno funcionamento, o mesmo não se pode dizer dos veículos urbanos e dos robôs, auxiliares muito competentes nas tarefas domésticas, a exemplo da governanta eletrônica Rosie.


Chegamos ao terceiro milênio com índices acanhados de automação e robótica. A indústria, carro-chefe da utilização de robôs nas linhas de montagens, não se mostra com o apetite imaginado para o assunto por quê? Quando analisamos os robôs industriais, verificamos que são compostos por três eixos tecnológicos: mecânica, eletrônica e software.


O primeiro eixo, ou seja, a mecânica é uma ciência bastante dominada e já mostra sinais de esgotamento tecnológico em alguns de seus pilares, a exemplo de elementos de máquinas e conversões de movimentos, e alta vitalidade na pesquisa de novos materiais e lubrificação. Mas, certamente, por ser o mais antigo dos três eixos tecnológicos, é também o que mais dominamos.


O eixo da eletrônica ainda apresenta inovações diárias, embora já atenda a contento nossas necessidades de automação por meio dos mais diversos tipos de sensores e escâneres disponíveis. Por último, o eixo tecnológico do software, o mais novo dos três, se apresenta como um desafio quase intransponível para o nível científico atual.


Esse bloqueio se deve a dificuldade de explicitar na forma de códigos, movimentos combinados que fazemos com muita naturalidade em nossos corpos, mas para se comandar em uma máquina torna-se extremamente difícil. Essa dificuldade faz com que os robôs industriais usuais sejam limitados a três articulações, também chamadas graus de liberdade: pinça, punho e cotovelo. Assim, por analogia, corresponde a um braço humano dotado de polegar mais um dedo, munheca e cotovelo. E só. Porém, suficiente para exigir em sua animação trabalho técnico especializado de programação.


Matematicamente, os três graus de liberdade do robô industrial oferecem as combinações de uma matriz de três linhas e três colunas. Em comparação a mão humana, vemos que esta possui 27 graus de liberdade, o que a torna inacessível para a lógica de programação disponível. Mesmo assim, esse limitado dispositivo industrial é suficientemente hábil para soldar, apertar parafusos, preencher embalagens e engradados com mais rapidez e precisão que nós homens poderíamos fazer, mas tudo tem um custo, pois, para realizar esta proeza, o robô exige um ambiente totalmente controlado, livre de adversidades e surpresas, o que provoca o engessamento de toda a linha industrial.


Diante desses fatos, constatamos que o robô idealizado para a indústria representa a culminância do modelo fordista, focado na eficiência e na massificação dos produtos, inadequado, pois, para a nova indústria que busca flexibilizar a capacidade produtiva ou até desmaterializar seus produtos. Nesse contexto, o robô parece ser uma invenção tardia. Porém, muita novidade está por vir na automação residencial, comercial e industrial. A maior revolução anunciada pela robótica será a supressão do limitante software, a ser substituído pelo pensar humano por meio da leitura direta de ondas cerebrais.


Pesquisas nesse campo se encontram em estágios bem evoluídos, particularmente, as realizadas pelo médico brasileiro, Miguel Nicolelis, primeiro conterrâneo candidato ao prêmio Nobel de medicina por seus estudos de neurociências na interface homem-máquina. Promete, inclusive, o Dr. Nicolelis desenvolver um exoesqueleto que vestido por uma pessoa com severa deficiência motora dará possibilidade, a mesma, para realização do chute inaugural na abertura da Copa de 2014, no Brasil, a partir de seu comando mental.


Vamos reinventar o robô. Vamos livrá-lo da imagem humanóide, romântica e inútil. Eles podem executar atividades às quais não se deve expor um ser humano devido ao risco e às condições adversas à vida. Os protótipos atuais não fazem sucesso nem em novelas das sete. Contudo, aplicada na educação, a robótica faz grande sucesso entre jovens, ávidos por contextualizar a aprendizagem e exercitar nos seus projetos o talento e a criatividade que só eles tem. E tudo isso num mundo real que nem é o dos Jetsons  nem  o dos Flintstones.     



Publicado no jornal Cinform 20/06/2011 – Caderno Emprego
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 01/2011