segunda-feira, 22 de março de 2010

Arte na educação: a poesia é de quem lê

         

A poesia é de quem lê, e não de quem escreve. A poesia é a experiência do leitor diante do poema. Ao autor restou o poema e a imaginação sobre qual é a extensão de sua obra. Nas artes, em geral, os limites são improváveis, o observador faz parte da obra e a complementa com sua exclusiva interioridade.


            Costumo dizer, quando falo com jovens estudantes, que o mundo tem o tamanho da nossa interioridade. Assim, quem desenvolve sua vida interior através de estudos, meditação, observação, escuta e diálogo está ampliando seu mundo. No Brasil, por exemplo, vivemos em uma era plural, na qual temos seres humanos vivendo experiências espaciais, temos até astronauta brasileiro (lembram-se?), e outros vivendo neste nosso país como se vivia há dez mil anos atrás, sem domínio da agricultura, dos metais, da cerâmica, da linguagem escrita, da criação de animais, e outras marcas relevantes da linha do tempo da tecnologia, em agrupamentos indígenas isolados ainda presentes na Amazônia.


            Essa pluralidade dá a possibilidade de nos colocarmos em realidades diferentes diante de um mesmo cenário. Os modernos meios de comunicação nos ampliaram o mundo e encolheram o planeta. Observando-se um mesmo evento, cada observador terá visões e interpretações diferentes, alguns mais profundas, como quem domina o assunto; outros mais superficiais, com baixa interatividade com o fenômeno. Porém, externamente o evento manifestou-se igual para todos.


            A arte deve estar presente em qualquer educação que se preze em proporção equivalente a formação intelectual. A arte é a educação do emocional, do conviver saudável e harmônico, da expansão da interioridade. Porém, falar em arte na educação é discurso fácil. Tem escola fazendo visita a museu ou estudando quem foi Van Gogh, e dizendo que é educação artística. Desculpem-me, mas isso é educação cognitiva e não artística, talvez seja estimulante para formar críticos, mas insuficientes para formar artistas. Arte tem que ser vivida, desafiadora para promover o crescimento. Arte é aprender a dominar a água numa pintura com guache, fazer de um violino, por exemplo, uma extensão do seu corpo e dos seus sentimentos. Arte é vida e comunicação!


            A educação do intelecto com a intensidade atual que se dá nas escolas é a causadora (e conseqüência também) do mundo caótico e desequilibrado de hoje. Só somos bons sobre o que reduzimos para dominá-lo. Desta forma, somos analfabetos, apesar dos nossos diplomas, em questões ambientais. Somos irresponsáveis, quando inviabilizamos a vida na Terra para nossos filhos e netos. Também, do mesmo jeito que se estuda para provas escolares, agimos priorizando o curto prazo sobre o longo prazo: temos que levar vantagem em tudo – Diria o Gerson. Que educação é essa?


            Vejamos exemplos de nossas ações reducionistas: Quando trabalhamos com os minerais extraímos suas preciosidades deixando em seu lugar apenas materiais amorfos e estéreis, descristalizados. Ao atuarmos sobre os vegetais, os mineralizamos com a adição abusiva de sais fertilizantes. Já, sobre os animais, os confinamos impiedosamente, reduzindo-os a uma vida vegetativa. Quanto aos humanos, nós os tratamos como uma manada, através da moda padronizadora e escravizante, e outras criações de desejos consumistas coletivos produzidos pela mídia de massa, reforçados via educação reprodutora destes valores. É o educar a todos como se fossem um só, infelizmente, tão presente em nossa escola.


            Vivemos a época da valorização da inteligência. Muitos são mais preocupados em ver os filhos bem colocados no vestibular que em vê-los felizes e bons. Os quatro pilares da educação para o século XXI, proposto pela UNESCO, prioriza o aprender cognitivo com tanta ênfase que até nos orienta a “aprender a ser”. Aprender? O mesmo se dá quando falamos em inteligência emocional. Pergunto: Inteligência? É essa a palavra certa para emoções? Talvez estejamos a criar uma sociedade cada vez mais fria e distante da visão holística do ser humano dotado de corpo físico, vital, emocional e da sua individualidade, ou identidade espiritual.


            Será que nosso modelo educacional está favorecendo a formação de pessoas com fraqueza de caráter? Será que nossos bandidos, estupradores e assassinos não passaram por escolas? Espero que não, mas posso estar enganado. Vejo muitos profissionais de nível superior (sic) criando procedimentos em benefício próprio lesando seus clientes ou pacientes. Vejo profissionais de confiança (sic) que traem seus clientes por trinta dinheiros. E esses, também não passaram pela escola?


            Será que uma escola que não é capaz de observar e agir sobre desvios de desenvolvimento do caráter, dificuldades elevadas de convivência social e outras patologias sociais de seus alunos, ainda que aprovados no vestibular de medicina, pode dizer que educou?         


            Certa vez, um velho pajé disse a um jovem: “dentro de mim existem dois cachorros. Um é fiel e protetor companheiro. Outro de péssima índole, traidor e ladrão. Ambos vivem brigando sempre”. Então, o atento ouvinte lhe perguntou: “Quem vencerá essa briga?” E o sábio índio respondeu: “Aquele que eu alimentar”.


            Fazer arte é exercer a liberdade plenamente e por este caminho educar o caráter. A educação proporcionada pela vivência artística chega como alimento à luz da alma humana, tornando-a irradiadora ao próximo.     




Publicado no jornal Cinform 22/03/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Carvão é coisa séria



     É interessante como certas coisas adquirem estigmas negativos e pagam um preço alto por isso. Um forte estigma danoso foi associado a lan houses, e acredito, elas prestam um serviço inestimável à população mais carente por reduzir a exclusão digital no Brasil. No nosso Nordeste, dois terços dos internautas usam as lan houses como meio de acesso a grande rede, enquanto as iniciativas governamentais e não-governamentais respondem por apenas seis por cento destes. Por conta disso, o próprio governo já começa a ver as lan houses com outros olhos, apesar da resistência de alguns.


Outra atividade econômica altamente estigmatizada é a madeireira. O madeireiro leva a fama de exterminar florestas, quando para ele isso é antieconômico. Seu interesse é focado em algumas espécies valiosas e não em toda a mata. Por que gastar mais para derrubar toda a floresta quando se deseja apenas uma parte menor dela? Quem derruba toda a mata é o criador de gado para suas pastagens e o carvoeiro ganancioso para tudo carbonizar.


Penso que quem danifica o meio ambiente e a sociedade não é a atividade econômica e sim o caráter humano. A falta de escrúpulo e as “grandes verdades” distorcem nossa visão da realidade e nos fazem acreditar em papais noéis fora de época. Certamente é mais prejudicial para o planeta a queima irrecuperável do petróleo que a queima do carvão vegetal, por ser este fonte de energia renovável. Porém entendemos, ou somos levados a entender, que o petróleo é bom e o carvão não é.


O estigma, como um mau rótulo, está associado a algo de ruim. Trata-se de uma marca que a pessoa leva para o resto da vida. Antigamente, malfeitores que cometiam algum crime eram “tatuados” com uma marca bem visível chamada estigma que os faziam serem reconhecidos como criminosas ainda que já houvessem sido punidos, e, portanto, pago por seus erros. Esta marca está presente também em certas atividades econômicas, como vemos.


Não quero ser defensor de todos os madeireiros, todas as lan houses ou qualquer carvoaria. Não, em hipótese alguma defenderei atividades irresponsáveis com o planeta, a sociedade atual ou com nossas futuras gerações. Mas também não aceito ser levado por bandeiras que fecundam inverdades, existem interesses encobertos e enviesados que julgam algumas atividades econômicas e outras não, e que querem nos convencer de todo modo, para que façamos o mesmo julgamento raso. Conheço madeireiros, donos de lan houses e carvoeiros honestos, construtores de uma sociedade melhor, e que têm que lutar severamente contra o estigma que lhes é imputado injustamente.


Conheço uma empresa nordestina produtora de carvão que atua beneficiando a própria mata nativa de onde extrai seu produto. É, como disse, uma atividade empresarial, e como tal, lucrativa e responsável. Todo seu expertise decorre do manejo da floresta: a área foi dividida em lotes pares e impares. Cada lote é manejado em um dia de trabalho, alternando-se lote sim, lote não. Ou seja, só se manejará os lotes pares após se esgotar todos os lotes impares. Desta forma, só ocorrerá um novo manejo de um lote após mais de dez anos, tempo suficiente para a reposição natural, com sobra, neste bioma.


Como é o manejo em cada lote? São unidades equivalentes a um hectare que tem suas árvores inventariadas e assim escolhidas segundo critérios técnicos: retiram-se árvores doentes, árvores velhas, espécies atingidas por cupins e arvoredos com mais de sete centímetros de diâmetro – na altura do peito (ADP). Preservam-se as árvores que têm ninhos de pássaros, as espécies protegidas por lei, as cinqüenta melhores árvores do lote e os arvoredos menores, ainda em crescimento. Além disso, o trabalho dentro da área é auxiliado por jumentos na remoção da madeira cortada até a estrada, o que acarreta menor impacto ambiental.


Nesse manejo ocorre um processo de sanitização da floresta através da eliminação das plantas doentes e/ou contaminadas. O sol, então, atinge o solo encoberto por resíduos orgânicos como folhas e lenha decorrentes do trato, acelerando o crescimento das novas árvores, antes prejudicadas pelo excesso de sombra. Também, são comuns as rebrotas, isto é, o renascimento vigoroso de árvores cortadas a partir de suas raízes intactas e superdimensionadas para a nova copa. Por tudo isso, acredita-se que o próximo manejo de um mesmo lote será mais produtivo que o primeiro.


A visão que temos de uma área após o manejo é parecida com a visão da área virgem, tal a quantidade de mata nativa preservada, dispensando o plantio de espécies exóticas ou nativas. A reposição da vegetação é natural, bem ao modo darwinista.


As conseqüências deste trabalho, no Piauí, é a transformação social na região de mais baixo IDH do país. Neste projeto, todo trabalhador tem carteira de trabalho assinada, duas refeições diárias gratuitas em refeitório da própria fazenda, obrigatoriedade de uso de todos os equipamentos de segurança, ganhos extra por produção, treinamento, seguro de vida, banheiros dignos e água potável mesmo junto aos fornos. Até os jumentos recebem ração adequada durante a jornada de trabalho. Já é visível a ascensão social da comunidade local. Na pequena cidade surgem financeiras para intermediar compras de eletrodomésticos, carros e motos dos trabalhadores que agora tem comprovantes de renda. Toda uma rede de serviços e produtos diversos começou a se formar para prover a demanda do projeto e dos colaboradores, até alimentos orgânicos – os preferidos para o refeitório da fazenda – além de um espaço cultural na cidade visando reforçar com qualidade a educação das crianças e a valorização da cultura da região, inspirado na pedagogia Waldorf.


Vejo nesta iniciativa o surgimento de um modelo que alia o lucro natural de uma atividade empresarial com o respeito aos limites da natureza e, acima de tudo, a aliança com o desenvolvimento humano local e saudável. Até o jumento, tão presente na cultura do lugar foi resgatado. É, ...porque carvão é coisa séria!   





Publicado no jornal Cinform 22/02/2010 – Caderno Emprego

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Redes sociais, um pouco de Brasil




O nosso Brasil, conhecido como o país do futebol, também pode tornar-se conhecido como o país das redes sociais na internet. Nas pesquisas mundiais referentes ao tema, o Brasil se destaca como o país que mais utiliza sites de relacionamento, a exemplo do Orkut, o primeiro do ranking nacional mas que, curiosamente, está fora das listas dos dez mais utilizados no mundo.


Esse uso da internet brasileira (se é que existe internet de algum lugar?) revela qual a visão e compreensão que os brasileiros têm da grande rede: um ambiente de relacionamento pessoal. Certamente, estamos bem diferenciados nesta visão, pois, ao contrário, os Estados Unidos, berço da internet, a utiliza prioritariamente para negócios ou buziness, como chamam por lá. Etnologias à parte, penso que essa diferença de pontos de vista merece uma análise mais cuidadosa a partir da história econômica.


Uma distinção relevante deriva do perfil econômico dos dois países, EUA e Brasil. Hoje, a economia tradicional da indústria americana representa muito pouco no seu PIB. Menos de dez por cento dos trabalhadores estão na indústria, e apenas três por cento estão na agricultura. O grande motor econômico do Tio Sam é a produção de bens intangíveis e imateriais, como o software, as patentes, os games e o entretenimento. Apenas a Califórnia, sede de Hollywood e do Vale do Silício, possui um PIB bem superior a todo o PIB brasileiro.


Essa indústria de bens intangíveis está montada sobre fluxos e redes, e não sobre formas ou estruturas como ocorre na indústria tradicional. Nós brasileiros, ainda estamos muito presos ao modelo da revolução industrial, que é pesada fisicamente e agarrada a estruturas rígidas e hierárquicas. Assim, somos comumente levados a pensar soluções inadequadas para a nova ordem econômica. Exemplo: Se reunirmos no Brasil um grupo de pessoas diversas para discutir a criação de uma escola de idiomas, a conversa logo versará sobre a localização, o número de salas de aulas, quem será o diretor, os equipamentos e computadores necessários, a fachada, o horário de funcionamento, a biblioteca, etc. Para não dizer que alguém até já tem um jardineiro ótimo pra indicar. Tudo isso está predominantemente relacionado a formas e estruturas.


De outra maneira, poderia existir a mesma escola exclusivamente para atuar através de educação a distância via internet, e aí a discussão seria totalmente diferente. Neste caso, a conversa seria focada no método pedagógico, na dinâmica do site, no acompanhamento dos alunos, na formação de turmas flexíveis, no software que suportaria a solução educacional, etc.


É inegável que ambas as hipóteses são escolas de idiomas, que precisam de amparo legal para seu funcionamento, que exigem administração competente e que, embora concorrentes, são propostas originárias de conceitos distintos. Enquanto a primeira se prende ao rígido e ao material, a segunda está amparada por mídias eletrônicas e funciona à base de flexibilidade e imaterialidade. Esse caso ilustra algo sobre o uso da internet como acessório no Brasil frente ao uso econômico dela no EUA.


Neste mês de janeiro, estive em São Paulo, na III Campus Party que é o maior evento mundial de internet. Lá, durante a minha explanação sobre o tema “Lan House: um fenômeno de empreendedorismo”, reforcei mais uma vez o pioneirismo de Sergipe no trabalho de inclusão digital e social para pessoas de menor renda através das lan houses.


O mais interessante da Campus Party é ver a materialização da internet. Os participantes pertencem às mais diversas tribos. Tem a turma dos blogueiros, da robótica, do modding de computadores, do software livre, da inclusão digital, dos games, dos programadores, dos inovadores, dos hackers, e mais um pouco de tudo nos demais. Verdadeiramente me senti entre os demais.


Os números deste evento são fantásticos: banda larga de 10 giga livre para os participantes compartilharem, a maior do mundo em eventos internacionais até agora; 553 atividades, totalizando 700 horas; 6000 participantes inscritos, dos quais 3877 acamparam lá durante uma semana e 3900 levaram seus computadores pessoais; participantes dos 27 Estados brasileiros e de 20 outros países; 90000 visitantes; 40000 metros de cabos de rede, 20000 metros de fibras óticas e 18000 metros de fios elétricos; 1017 jornalistas e blogueiros cadastrados para cobertura; e tudo isso entre 25 e 31 de janeiro num espaço de 45000 metros quadrados. E, o mais importante, porque revela a qualidade do público participante: 34% de download e 66% de upload no uso da conexão.


Refiro-me à qualidade do público participante porque fazer uploads é produção intelectual, é autoria, é disponibilizar conteúdos e assim fazer o que a internet nos propicia de mais rico, que é a possibilidade inédita na história de produzir comunicação de muitos para muitos. Hoje, qualquer jovem talentoso, sem precisar ser rico, pode ser um emissor de TV, ao vivo, a partir da geração de imagens do seu computador pessoal, uma espécie de big brother doméstico. Pode também ser produtor de filmes, de clipes musicais, de programas de rádio ou produtor de textos.


A ferramenta está aí. Precisamos aprender a utilizá-la e produzir conteúdos e soluções inteligentes e construtivas. A receita parece simples, mas prescinde de educação de verdade e em larga escala para que se transforme o Brasil no novo país que ele realmente merece ser.       



           

Publicado no jornal Cinform 08/02/2010 – Caderno Emprego
            Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial fev/2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Economia e ecologia

 

Ao analisarmos as palavras economia e ecologia percebemos de imediato que ambas nascem a partir do mesmo radical grego oikos (eco) que significa casa. Assim, economia, ou oikos nomos, é a ordem ou a organização da casa, e ecologia, ou oikos logos, é o estudo da casa. De imediato vemos que a abrangência da ecologia é superior ao da economia porque encarrega-se de compreender o todo, já a economia, prende-se a compreensão de um conjunto de regras. De fato, embora estes termos devam ser tão próximos nas suas aplicações quanto na grafia, lamentavelmente o que temos é um preocupante afastamento das suas ações e compreensões pelo homem.


O desenvolvimento econômico está ancorado no desenvolvimento tecnológico, assim, a tecnologia alavanca o trabalho humano gerando mais riqueza, o que nos leva a crer, erroneamente, que o desenvolvimento tecnológico é sinônimo de desenvolvimento humano, resultando numa evolução capenga. Nosso capacidade de criar e implementar aparatos tecnológicos é a própria perfeição: mandamos jipes para Marte e o guiamos a partir de nossos centros aeroespaciais para que cumpram suas missões e retornem à Terra na hora e local exatos. Nesse segmento do desenvolvimento nós realmente surpreendemos, superamos nossas próprias expectativas. Porém, muitas vezes não conseguimos deliberar pacificamente em uma reunião de um pequeno condomínio de seis apartamentos o novo horário de funcionamento da portaria, ou mesmo, adotar medidas de combate ao desperdício de água, por exemplo. Que desenvolvimento é esse? Todas as ações acima envolvem a economia e, contraditoriamente, parece mais fácil mandar o jipe para o espaço que fazer um acordo com o vizinho.


O termo sustentabilidade nos obriga a ampliar nossa visão do trabalho humano e suas conseqüências sobre a economia, a sociedade e o meio-ambiente. Este é o tripé que deve ser contemplado positivamente nas ações do desenvolvimento humano. A atividade econômica deve produzir excedentes e riquezas se, e somente se, a sociedade for beneficiada nas gerações atuais e futuras, e o ambiente não sofrer degradação, isto é, tiver suporte para tal atividade. E aqui começa o desencontro entre os modelos econômicos e ecológicos vigentes.


A economia tradicional considera que os suportes ambientais são inesgotáveis e assim, podemos crescer com nossas atividades transformadoras indefinidamente, sem levar em conta a descapitalização do planeta através do capital natural que esgotamos hoje, usurpando gerações futuras. Além disso, a escassez agrega valor econômico aos bens. Deste modo a poluição de uma praia, antes acessível a todos gratuitamente pode ser interessante do ponto de vista econômico, pois, nos obrigará a pagar para ter acesso a outra praia mais distante através de sedutores pacotes de viagem. Esta visão da economia respalda-se na utópica idéia do modo perpétuo ao adotar leis da física newtoniana de duzentos anos atrás, inválida para legitimar a complexa relação de atores presentes nos sistema humanos atuais. Por estes motivos, a divergência entre a economia e o planeta só tende a aumentar enquanto acreditarmos que crescimento econômico é gerador de bem estar social.


De acordo com o economista Hugo Penteado, autor do livro “Ecoeconomia: Uma nova abordagem, nosso futuro comum”, as razões para o conflito são muito simples, pois a economia possui três características que a definem:


            1) Linear (extrai, produz, consome, descarta num ciclo exagerado de extenso desperdício e ineficiência  e o mito do jogar fora ou deixar os países mais avançados exportar sujeira, produção suja e viver de exportação de bens e recursos às custas de ecossistemas ainda existentes no mundo em desenvolvimento, tudo isso a custo zero),


2) infinita (produz crescimento exponencial contínuo de coisas, alimentos, pessoas, etc.) e


3) degenerativa (introduz materiais degenerativos nos ecossistemas como transgênicos, queima de combustíveis fósseis, compostos químicos, metais pesados, etc.). 


No entanto, a natureza e o planeta, sistema maior do qual a economia e nossa sociedade é um subsistema dependente , é justamente o oposto:


1) circular (reaproveita tudo  com um ciclo fechado  em si mesmo e uma solução é a economia reaproveitar tudo ao máximo  e parar de fazer de conta que é um sistema aberto),


2) finita (a finitude territorialmente é óbvia demais embora a infantilidade dos economistas tente negar que sobre um território finito não há problema alguma acumular um estoque crescente de carros, casas, coisas,  poluição de todos os tipos, cacarecos e pessoas nem buscar uma demanda infinita por energia, quando já desperdiçamos mais da metade da energia disponível para nosso consumo desnecessário) e


3) regenerativa (a água é um bom exemplo, porque não só poluímos a água, como usamos além da sua capacidade de reposição e vários países estão caminhando para esgotamento de estoques hídricos simplesmente porque extraem mais do que os aquíferos recebem e bons exemplos dessa atrocidade são os Estados Unidos e a China, mas Brasil vai pelo mesmo caminho ao destruir o Cerrado e a Amazônia).


Usemos a ciência e a tecnologia aliadas a responsabilidade que temos sobre o planeta e a sociedade para juntos construirmos uma ética do século XXI que, perdoem o trocadilho, a economia faça eco na ecologia e vice-versa.



     

Publicado no jornal Cinform 25/01/2010 – Caderno Emprego

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

PIB e colesterol: tem o bom e o mau


Existe no ar uma expectativa positiva quanto ao crescimento do PIB brasileiro em 2010. Certamente os interesses políticos com esse número são grandes e assim, por certo, nem toda notícia econômica é imparcial ou isenta neste ano eleitoral. Mas, tudo faz crer que este ano será melhor para as contas nacionais que o ano passado, marcado por uma crise internacional.


O que é o PIB? É o Produto Interno Bruto, em termos de metodologia, é o sistema de contas nacionais elaborado ainda nos anos 1950 no quadro das Nações Unidas, com ajustes em 1993, que reflete a soma dos valores e custos de produção de bens e serviços, restringida portanto à área de atividades mercantis. Desse modo, não espelha indicadores sociais ou de qualidade de vida de uma sociedade. Assim nos ensina o economista Ladislau Dowbor.


Já o colesterol é conhecido em dois tipos: o LDL (o mau) e o HDL (o bom). Grosso modo, podemos dizer que o LDL facilita a deposição de gordura nas paredes dos vasos sanguíneos e o HDL remove o excesso de gordura no sangue, o encaminhando para o catabolismo no fígado.


Com base nas definições acima, quero usar o colesterol como metáfora para entendermos melhor as diferentes qualidades do PIB.  O PIB (mau) é incrementado com a contabilização dos desastres e acidentes, bem como com o impedimento do público ao lazer gratuito ou com as despesas de saúde e recuperação ambiental decorrentes da poluição. Porém, também, são aditivos ao crescimento o PIB (bom) decorrente da atividade econômica saudável, aquela que gera empregos e renda sem destruição ambiental e que ainda traz vantagens para a qualidade de vida das pessoas naquele lugar, a exemplo de obras de abastecimento de água, esgotos, moradias, educação, dentre outros. A partir destes parâmetros, o PIB da pequena e histórica cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), destruída recentemente pela enchente calamitosa do rio do mesmo nome, terá crescimento superior em 2010 com os investimentos de recuperação dos prejuízos calculados em R$ 100 milhões. Pergunto: crescimento do PIB impulsionado por tragédia é bom para a comunidade? Em 1999 o naufrágio do navio petroleiro Exxon Valdez nas costas do Alaska torna-se um caso clássico, pois elevou fortemente o PIB da região devido aos inúmeros contratos de empresas para limpar as costas atingidas pela maré negra. Como pode a destruição ambiental aumentar o PIB?


O PIB é alimentado por fluxos monetários dos meios e não pelo alcance dos fins. Assim, o volume de atividade econômica independentemente de serem úteis ou nocivas é registrado igualmente no cálculo deste indicador.


Preocupa-me que uma leitura superficial do crescimento do PIB por autoridades que tomam importantes decisões a partir destes dados possam induzi-las a erros que comprometerão a qualidade de vida dos cidadãos atuais ou futuros. A venda de petróleo ou o desmatamento da amazônia elevam nosso PIB, quando, em verdade, nos descapitaliza pois vendemos nossos estoques, por vezes, de forma irreversível. A leitura do PIB segue frequentemente a lógica simplória do curto prazo: baixo crescimento significa desemprego, recessão econômica e dificuldades eleitorais. Já o alto crescimento se traduz como novos empregos, expansão econômica e vantagens eleitorais. Mas, cuidado! “Crescer por crescer, é a filosofia da célula cancerosa” dizia um banner colocado por estudantes na entrada de uma conferência sobre economia.   


Sei que existem esforços no sentido da criação de indicadores de desenvolvimento que reflitam maior responsabilidade sobre o uso de recursos naturais e sociais por diversos pesquisadores e autores renomados. Até o Banco Mundial já revisa o PIB através de nova metodologia mais realista e economicamente sustentável. Assim como o colesterol total não é suficiente para a leitura da saúde do paciente, também o PIB total não nos atende mais para o diagnóstico de uma economia.


Concluo certo de que não nos será possível atravessar o século XXI com a ética do século XX e apresento abaixo um discurso feito em 1968 pelo senador americano Robert Kennedy, extraído na internet do site //dowbor.org, que além de eloqüente mostra-se visionário.


“Durante um tempo demasiadamente longo, parece que reduzimos a nossa excelência pessoal e os valores da comunidade à mera acumulação de coisas materiais. O nosso Produto Interno Bruto, agora, já supera os US$800 bilhões por ano, mas este PIB, – se julgarmos os Estados Unidos da América por este critério – este PIB contabiliza a poluição do ar e a publicidade de cigarros, e as ambulâncias para limpar a carnificina nas nossas autoestradas. Soma as fechaduras especiais para as nossas portas e as prisões para as pessoas que as rompem. Soma a destruição florestal e a perda da nossa maravilha natural na expansão caótica urbana...E os programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos para as nossas crianças. No entanto, o produto nacional bruto não conta a saúde das nossas crianças, a qualidade da sua educação ou a alegria das suas brincadeiras. Não inclui a beleza da nossa poesia ou a solidez dos nossos casamentos, a inteligência do nosso debate público ou a integridade dos nossos funcionários públicos. Não mede nem o nosso humor nem a nossa coragem, nem nossa sabedoria nem a nossa aprendizagem, nem a nossa compaixão nem a nossa devoção ao nosso país. Resumindo, mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena”.





Publicado no jornal Cinform 11/01/2010 – Caderno Emprego
            Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial jan/2010

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Trabalho e fraternidade

 

Ao voltarmos um pouco no tempo, veremos que o trabalho sofreu grandes transformações na sua essência. Nem todos vemos isso com clareza, pois ainda somos fortemente influenciados por modelos mentais antigos e também pelo meio cultural em que vivemos. Paralelamente, existem no Brasil ambientes culturais profundamente diferenciados. Como exemplo, pode-se citar o contraste dos grandes centros financeiros e tecnológicos do Sudeste com a agricultura familiar de subsistência nordestina e também a cultura nortistas que ainda sobrevive da coleta na floresta.


Ao olharmos a linha do tempo do trabalho humano, vislumbramos que na Idade Média, excluindo-se o trabalho escravo, as famílias produziam o que podiam para elas mesmas. O agricultor produzia o que sua família necessitava consumir, assim como fazia o artesão. As possibilidades comerciais eram limitadíssimas e o mundo destas pessoas era menor ainda. Hoje, numa sociedade industrial ou pós-industrial, desconheço trabalhador que produza para si ou para a própria família. Auxiliados pela tecnologia, vivemos a época da grande produção de excedentes que têm sua distribuição potencialmente pulverizada por todo o globo.  


Saímos de uma relação socialmente restrita do trabalho para um contexto social amplo e complexo da nossa participação na vida econômica. Não se pode dizer que é uma mudança pequena ou desconsiderável. Trabalhamos para os outros, geralmente anônimos e desconhecidos. O fruto de nosso trabalho nas grandes organizações é destinado a consumidores inimagináveis, mas certamente exigentes de qualidade e segurança no que consomem.


A regra básica de sobrevivência econômica é produzir bens - e serviços -  da melhor forma possível para um consumidor desconhecido. Sem a obediência a essa lei, a chance de sucesso empresarial é nula. Penso que essa regra possui a mesma natureza original do conceito de fraternidade: fazer o bem sem olhar a quem.


Precisamos nos conscientizar da verdadeira lei que rege a atividade econômica, e portanto, nosso trabalho: a fraternidade. Quando estamos no nosso labor, estamos à disposição do outro, seja colega de empresa, fornecedor, consumidor, ou outros. Para eles dedicamos nosso conhecimento, nosso tempo, nossas ações e até, nossos sentimentos. Acredito que trabalharemos melhor e mais satisfeitos se pensarmos dessa forma, posto que enfrentaremos menos conflitos internos e externos.


Muitas vezes insistimos em erros que nem sabemos por que. Temos a tendência a reproduzir os ensinamentos que recebemos seguindo a mesma metodologia e, assim, somos conservadores e ousamos pouco. Porém, temos uma chama dentro de nós que nos alerta que algo que reproduzimos ou conceituamos hoje já não cabe bem frente à nova realidade. Creio que com o trabalho deve acontecer o mesmo quando insistimos em ser mais competitivos que colaborativos. Mas, a natureza humana é boa e cheia de luz, ainda que reprimida. Porém, quando lhe é dado espaço para se manifestar a explosão resultante contagia a todos à sua volta e nos faz viver momentos inesquecíveis do contato com essa luz interior, como em uma notícia divulgada na internet:


“Há alguns anos, nas olimpíadas especiais de Seattle, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos cem metros rasos.


Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar. Todos, com exceção de um garoto, que tropeçou no piso, caiu rolando e começou a chorar. Os outros oito ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás. Viram o garoto no chão, pararam e voltaram. Todos eles!


Uma das meninas, com síndrome de down, ajoelhou-se, deu um beijo no garoto e disse: "pronto, agora vai sarar". E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. O estádio inteiro levantou e não tinha um único par de olhos secos. E os aplausos duraram longos minutos.


E as pessoas que estavam ali, naquele dia, repetem essa história até hoje. Por que? Porque lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida é mais do que ganhar sozinho. O que importa é ajudar os outros a vencer”, cita a matéria.


A experiência da colaboração traz a todos nós a sensação de que é impossível agir de outra forma na construção de uma sociedade mais justa e solidária. E essa nova sociedade será fruto do nosso trabalho em equipe.


Reflita sobre sua ação no mundo e seja feliz, afinal Trabalho é fraternidade.





Publicado no jornal Cinform 28/12/2009 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial dez/2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Robótica e educação



 

                                    “Conhecer não é suficiente, deve ser aplicado.
Querer não é suficiente, deve ser feito”. Goethe.

  
Nos meus tempos de criança, várias vezes assisti o desenho animado “Os Jetsons”. Ali, o futuro se mostrava altamente cibernético e biônico.  Até os cachorros usavam patins à jato, tipo aeroespaciais. Esse seriado sinalizou a imagem do amanhã para muitos, como eu, que amava inocentemente as conquistas da revolução industrial e apostava num inesgotável aprimoramento físico-mecânico.


Hoje, olhando para trás, vejo que o futuro que se realizou é constituído pela pluralidade, pela fusão de conhecimentos, pelas metáforas insuperáveis, pela visão sistêmica/orgânica e pela interdisciplinaridade. Inversamente à monocultura mecânica do desenho animado.


Do ponto de vista técnico, a robótica não avançou na velocidade esperada porque se somos perfeitos no campo da mecânica e conseguimos milagres na eletrônica, o mesmo não podemos dizer do software. Em programação de computadores nós apenas engatinhamos e os desafios para a programação de um robô são os grandes obstáculos atuais. Os robôs industriais, aqueles das montadoras de automóveis, ainda são exageradamente limitados e limitantes na medida que não aceitam qualquer alteração na linha de montagem fora do que foram programados. Assim, o robô só age com a sua reconhecida precisão superior se todo o seu entorno também for rigidamente preciso. Um aparente contra-senso à tendência de flexibilização da indústria pós-fordista. Num robô, a mecânica é o corpo físico, a energia é a vitalidade e o software é a alma. Assim, o que caracteriza um robô é a possibilidade de alterar seu comportamento ou funcionamento sem mexer em um único parafuso ou dispositivo do seu corpo, apenas substituindo sua alma, ou seja, a sua programação.


É nesse contexto de hoje que exalto a robótica como instrumento educacional. A construção de um robô exige o desenvolvimento de conhecimentos e habilidades necessárias ao moderno mundo do trabalho, quais sejam: intimidade e compreensão do ambiente computacional, criatividade e autoria de soluções, desenvolvimento da colaboração e cooperação (quando se trabalha em equipe, conforme é recomendado), aceitação e superação dos erros honestos através da aprendizagem que eles nos proporcionam e a descoberta da existência de múltiplas soluções reais para problemas reais, diferindo das situações ideais com solução única, tão presente nos currículos e práticas escolares.


As principais teorias educacionais norteadoras do modelo educacional da robótica provêm de Piaget e Vygotsky. O construtivismo de Piaget se reconfigura como construcionismo a partir das contribuições do seu discípulo Seymour Papert, Diretor do Instituto de Tecnologia de Massassuchets - MIT (EUA), ao afirmar que a aprendizagem se dá pela motivação e inteligência somadas à ação frente a uma interessante problematização. Já a pedagogia de Vygotsky pressupõe que a aprendizagem é fundamentalmente uma experiência social de interação pela linguagem e pela ação. 


Por que se aprende tanto construindo robôs? Para tal pergunta, apresentamos as seguintes respostas: 1) A construção de um robô exige um contexto, isto é, o ambiente onde o robô funcionará, que definirá seu ótimo design físico-funcional. Uma proximidade com a engenharia e outras ciências exatas, além da possibilidade de usar materiais reciclados. 2) Suas fontes de suprimentos, a energia (eletricidade, petróleo, solar, etc) e o software (download, upload) a partir de um computador. Um espaço rico para as ciências biológicas, ambientais e sociais. 3) A animação, isto é, a dinâmica dos movimentos será conduzida por programação de computador, cujo design deve dialogar com a forma física construída para o melhor funcionamento. Um mergulho de corpo inteiro na lógica em um ambiente real, longe, portanto, da virtualidade ilusória do computador.


Pergunto: Que disciplina curricular é suficiente para atender todos os itens acima? Penso que individualmente nenhuma.  Então vamos inverter a pergunta: Que disciplina escolar fica excluída de todos estes itens acima? Também nenhuma, acredito.


Então concluímos que a natureza interdisciplinar é intrínseca à robótica.  Impossível construir coletivamente sem o exercício da comunicação e da linguagem. Também, não o fazemos sem aplicações diretas da matemática e da lógica. A missão que o robô executará será em um lugar geográfico, em um momento histórico, em um ecossistema, com impactos ambientais e sociais, para que benefícios ao homem? Todos ou quais?


Essa é a escola que defendo. A escola onde o mundo faça eco, que permita prazer à aprendizagem, que valorize a individualidade através da autoria e desenvolva os talentos num mergulho em si próprio. E que também valorize o coletivo através da colaboração de todos para a construção do projeto comum, com conseqüente desenvolvimento do caráter, tão necessário aos nossos dias, resultante dos embates naturais que permeiam o trabalho interativo e o aprendizado das regras de convivência social.





Publicado no jornal Cinform 14/12/2009 – Caderno Emprego