terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Economia e ecologia

 

Ao analisarmos as palavras economia e ecologia percebemos de imediato que ambas nascem a partir do mesmo radical grego oikos (eco) que significa casa. Assim, economia, ou oikos nomos, é a ordem ou a organização da casa, e ecologia, ou oikos logos, é o estudo da casa. De imediato vemos que a abrangência da ecologia é superior ao da economia porque encarrega-se de compreender o todo, já a economia, prende-se a compreensão de um conjunto de regras. De fato, embora estes termos devam ser tão próximos nas suas aplicações quanto na grafia, lamentavelmente o que temos é um preocupante afastamento das suas ações e compreensões pelo homem.


O desenvolvimento econômico está ancorado no desenvolvimento tecnológico, assim, a tecnologia alavanca o trabalho humano gerando mais riqueza, o que nos leva a crer, erroneamente, que o desenvolvimento tecnológico é sinônimo de desenvolvimento humano, resultando numa evolução capenga. Nosso capacidade de criar e implementar aparatos tecnológicos é a própria perfeição: mandamos jipes para Marte e o guiamos a partir de nossos centros aeroespaciais para que cumpram suas missões e retornem à Terra na hora e local exatos. Nesse segmento do desenvolvimento nós realmente surpreendemos, superamos nossas próprias expectativas. Porém, muitas vezes não conseguimos deliberar pacificamente em uma reunião de um pequeno condomínio de seis apartamentos o novo horário de funcionamento da portaria, ou mesmo, adotar medidas de combate ao desperdício de água, por exemplo. Que desenvolvimento é esse? Todas as ações acima envolvem a economia e, contraditoriamente, parece mais fácil mandar o jipe para o espaço que fazer um acordo com o vizinho.


O termo sustentabilidade nos obriga a ampliar nossa visão do trabalho humano e suas conseqüências sobre a economia, a sociedade e o meio-ambiente. Este é o tripé que deve ser contemplado positivamente nas ações do desenvolvimento humano. A atividade econômica deve produzir excedentes e riquezas se, e somente se, a sociedade for beneficiada nas gerações atuais e futuras, e o ambiente não sofrer degradação, isto é, tiver suporte para tal atividade. E aqui começa o desencontro entre os modelos econômicos e ecológicos vigentes.


A economia tradicional considera que os suportes ambientais são inesgotáveis e assim, podemos crescer com nossas atividades transformadoras indefinidamente, sem levar em conta a descapitalização do planeta através do capital natural que esgotamos hoje, usurpando gerações futuras. Além disso, a escassez agrega valor econômico aos bens. Deste modo a poluição de uma praia, antes acessível a todos gratuitamente pode ser interessante do ponto de vista econômico, pois, nos obrigará a pagar para ter acesso a outra praia mais distante através de sedutores pacotes de viagem. Esta visão da economia respalda-se na utópica idéia do modo perpétuo ao adotar leis da física newtoniana de duzentos anos atrás, inválida para legitimar a complexa relação de atores presentes nos sistema humanos atuais. Por estes motivos, a divergência entre a economia e o planeta só tende a aumentar enquanto acreditarmos que crescimento econômico é gerador de bem estar social.


De acordo com o economista Hugo Penteado, autor do livro “Ecoeconomia: Uma nova abordagem, nosso futuro comum”, as razões para o conflito são muito simples, pois a economia possui três características que a definem:


            1) Linear (extrai, produz, consome, descarta num ciclo exagerado de extenso desperdício e ineficiência  e o mito do jogar fora ou deixar os países mais avançados exportar sujeira, produção suja e viver de exportação de bens e recursos às custas de ecossistemas ainda existentes no mundo em desenvolvimento, tudo isso a custo zero),


2) infinita (produz crescimento exponencial contínuo de coisas, alimentos, pessoas, etc.) e


3) degenerativa (introduz materiais degenerativos nos ecossistemas como transgênicos, queima de combustíveis fósseis, compostos químicos, metais pesados, etc.). 


No entanto, a natureza e o planeta, sistema maior do qual a economia e nossa sociedade é um subsistema dependente , é justamente o oposto:


1) circular (reaproveita tudo  com um ciclo fechado  em si mesmo e uma solução é a economia reaproveitar tudo ao máximo  e parar de fazer de conta que é um sistema aberto),


2) finita (a finitude territorialmente é óbvia demais embora a infantilidade dos economistas tente negar que sobre um território finito não há problema alguma acumular um estoque crescente de carros, casas, coisas,  poluição de todos os tipos, cacarecos e pessoas nem buscar uma demanda infinita por energia, quando já desperdiçamos mais da metade da energia disponível para nosso consumo desnecessário) e


3) regenerativa (a água é um bom exemplo, porque não só poluímos a água, como usamos além da sua capacidade de reposição e vários países estão caminhando para esgotamento de estoques hídricos simplesmente porque extraem mais do que os aquíferos recebem e bons exemplos dessa atrocidade são os Estados Unidos e a China, mas Brasil vai pelo mesmo caminho ao destruir o Cerrado e a Amazônia).


Usemos a ciência e a tecnologia aliadas a responsabilidade que temos sobre o planeta e a sociedade para juntos construirmos uma ética do século XXI que, perdoem o trocadilho, a economia faça eco na ecologia e vice-versa.



     

Publicado no jornal Cinform 25/01/2010 – Caderno Emprego

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

PIB e colesterol: tem o bom e o mau


Existe no ar uma expectativa positiva quanto ao crescimento do PIB brasileiro em 2010. Certamente os interesses políticos com esse número são grandes e assim, por certo, nem toda notícia econômica é imparcial ou isenta neste ano eleitoral. Mas, tudo faz crer que este ano será melhor para as contas nacionais que o ano passado, marcado por uma crise internacional.


O que é o PIB? É o Produto Interno Bruto, em termos de metodologia, é o sistema de contas nacionais elaborado ainda nos anos 1950 no quadro das Nações Unidas, com ajustes em 1993, que reflete a soma dos valores e custos de produção de bens e serviços, restringida portanto à área de atividades mercantis. Desse modo, não espelha indicadores sociais ou de qualidade de vida de uma sociedade. Assim nos ensina o economista Ladislau Dowbor.


Já o colesterol é conhecido em dois tipos: o LDL (o mau) e o HDL (o bom). Grosso modo, podemos dizer que o LDL facilita a deposição de gordura nas paredes dos vasos sanguíneos e o HDL remove o excesso de gordura no sangue, o encaminhando para o catabolismo no fígado.


Com base nas definições acima, quero usar o colesterol como metáfora para entendermos melhor as diferentes qualidades do PIB.  O PIB (mau) é incrementado com a contabilização dos desastres e acidentes, bem como com o impedimento do público ao lazer gratuito ou com as despesas de saúde e recuperação ambiental decorrentes da poluição. Porém, também, são aditivos ao crescimento o PIB (bom) decorrente da atividade econômica saudável, aquela que gera empregos e renda sem destruição ambiental e que ainda traz vantagens para a qualidade de vida das pessoas naquele lugar, a exemplo de obras de abastecimento de água, esgotos, moradias, educação, dentre outros. A partir destes parâmetros, o PIB da pequena e histórica cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), destruída recentemente pela enchente calamitosa do rio do mesmo nome, terá crescimento superior em 2010 com os investimentos de recuperação dos prejuízos calculados em R$ 100 milhões. Pergunto: crescimento do PIB impulsionado por tragédia é bom para a comunidade? Em 1999 o naufrágio do navio petroleiro Exxon Valdez nas costas do Alaska torna-se um caso clássico, pois elevou fortemente o PIB da região devido aos inúmeros contratos de empresas para limpar as costas atingidas pela maré negra. Como pode a destruição ambiental aumentar o PIB?


O PIB é alimentado por fluxos monetários dos meios e não pelo alcance dos fins. Assim, o volume de atividade econômica independentemente de serem úteis ou nocivas é registrado igualmente no cálculo deste indicador.


Preocupa-me que uma leitura superficial do crescimento do PIB por autoridades que tomam importantes decisões a partir destes dados possam induzi-las a erros que comprometerão a qualidade de vida dos cidadãos atuais ou futuros. A venda de petróleo ou o desmatamento da amazônia elevam nosso PIB, quando, em verdade, nos descapitaliza pois vendemos nossos estoques, por vezes, de forma irreversível. A leitura do PIB segue frequentemente a lógica simplória do curto prazo: baixo crescimento significa desemprego, recessão econômica e dificuldades eleitorais. Já o alto crescimento se traduz como novos empregos, expansão econômica e vantagens eleitorais. Mas, cuidado! “Crescer por crescer, é a filosofia da célula cancerosa” dizia um banner colocado por estudantes na entrada de uma conferência sobre economia.   


Sei que existem esforços no sentido da criação de indicadores de desenvolvimento que reflitam maior responsabilidade sobre o uso de recursos naturais e sociais por diversos pesquisadores e autores renomados. Até o Banco Mundial já revisa o PIB através de nova metodologia mais realista e economicamente sustentável. Assim como o colesterol total não é suficiente para a leitura da saúde do paciente, também o PIB total não nos atende mais para o diagnóstico de uma economia.


Concluo certo de que não nos será possível atravessar o século XXI com a ética do século XX e apresento abaixo um discurso feito em 1968 pelo senador americano Robert Kennedy, extraído na internet do site //dowbor.org, que além de eloqüente mostra-se visionário.


“Durante um tempo demasiadamente longo, parece que reduzimos a nossa excelência pessoal e os valores da comunidade à mera acumulação de coisas materiais. O nosso Produto Interno Bruto, agora, já supera os US$800 bilhões por ano, mas este PIB, – se julgarmos os Estados Unidos da América por este critério – este PIB contabiliza a poluição do ar e a publicidade de cigarros, e as ambulâncias para limpar a carnificina nas nossas autoestradas. Soma as fechaduras especiais para as nossas portas e as prisões para as pessoas que as rompem. Soma a destruição florestal e a perda da nossa maravilha natural na expansão caótica urbana...E os programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos para as nossas crianças. No entanto, o produto nacional bruto não conta a saúde das nossas crianças, a qualidade da sua educação ou a alegria das suas brincadeiras. Não inclui a beleza da nossa poesia ou a solidez dos nossos casamentos, a inteligência do nosso debate público ou a integridade dos nossos funcionários públicos. Não mede nem o nosso humor nem a nossa coragem, nem nossa sabedoria nem a nossa aprendizagem, nem a nossa compaixão nem a nossa devoção ao nosso país. Resumindo, mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena”.





Publicado no jornal Cinform 11/01/2010 – Caderno Emprego
            Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial jan/2010

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Trabalho e fraternidade

 

Ao voltarmos um pouco no tempo, veremos que o trabalho sofreu grandes transformações na sua essência. Nem todos vemos isso com clareza, pois ainda somos fortemente influenciados por modelos mentais antigos e também pelo meio cultural em que vivemos. Paralelamente, existem no Brasil ambientes culturais profundamente diferenciados. Como exemplo, pode-se citar o contraste dos grandes centros financeiros e tecnológicos do Sudeste com a agricultura familiar de subsistência nordestina e também a cultura nortistas que ainda sobrevive da coleta na floresta.


Ao olharmos a linha do tempo do trabalho humano, vislumbramos que na Idade Média, excluindo-se o trabalho escravo, as famílias produziam o que podiam para elas mesmas. O agricultor produzia o que sua família necessitava consumir, assim como fazia o artesão. As possibilidades comerciais eram limitadíssimas e o mundo destas pessoas era menor ainda. Hoje, numa sociedade industrial ou pós-industrial, desconheço trabalhador que produza para si ou para a própria família. Auxiliados pela tecnologia, vivemos a época da grande produção de excedentes que têm sua distribuição potencialmente pulverizada por todo o globo.  


Saímos de uma relação socialmente restrita do trabalho para um contexto social amplo e complexo da nossa participação na vida econômica. Não se pode dizer que é uma mudança pequena ou desconsiderável. Trabalhamos para os outros, geralmente anônimos e desconhecidos. O fruto de nosso trabalho nas grandes organizações é destinado a consumidores inimagináveis, mas certamente exigentes de qualidade e segurança no que consomem.


A regra básica de sobrevivência econômica é produzir bens - e serviços -  da melhor forma possível para um consumidor desconhecido. Sem a obediência a essa lei, a chance de sucesso empresarial é nula. Penso que essa regra possui a mesma natureza original do conceito de fraternidade: fazer o bem sem olhar a quem.


Precisamos nos conscientizar da verdadeira lei que rege a atividade econômica, e portanto, nosso trabalho: a fraternidade. Quando estamos no nosso labor, estamos à disposição do outro, seja colega de empresa, fornecedor, consumidor, ou outros. Para eles dedicamos nosso conhecimento, nosso tempo, nossas ações e até, nossos sentimentos. Acredito que trabalharemos melhor e mais satisfeitos se pensarmos dessa forma, posto que enfrentaremos menos conflitos internos e externos.


Muitas vezes insistimos em erros que nem sabemos por que. Temos a tendência a reproduzir os ensinamentos que recebemos seguindo a mesma metodologia e, assim, somos conservadores e ousamos pouco. Porém, temos uma chama dentro de nós que nos alerta que algo que reproduzimos ou conceituamos hoje já não cabe bem frente à nova realidade. Creio que com o trabalho deve acontecer o mesmo quando insistimos em ser mais competitivos que colaborativos. Mas, a natureza humana é boa e cheia de luz, ainda que reprimida. Porém, quando lhe é dado espaço para se manifestar a explosão resultante contagia a todos à sua volta e nos faz viver momentos inesquecíveis do contato com essa luz interior, como em uma notícia divulgada na internet:


“Há alguns anos, nas olimpíadas especiais de Seattle, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos cem metros rasos.


Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar. Todos, com exceção de um garoto, que tropeçou no piso, caiu rolando e começou a chorar. Os outros oito ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás. Viram o garoto no chão, pararam e voltaram. Todos eles!


Uma das meninas, com síndrome de down, ajoelhou-se, deu um beijo no garoto e disse: "pronto, agora vai sarar". E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. O estádio inteiro levantou e não tinha um único par de olhos secos. E os aplausos duraram longos minutos.


E as pessoas que estavam ali, naquele dia, repetem essa história até hoje. Por que? Porque lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida é mais do que ganhar sozinho. O que importa é ajudar os outros a vencer”, cita a matéria.


A experiência da colaboração traz a todos nós a sensação de que é impossível agir de outra forma na construção de uma sociedade mais justa e solidária. E essa nova sociedade será fruto do nosso trabalho em equipe.


Reflita sobre sua ação no mundo e seja feliz, afinal Trabalho é fraternidade.





Publicado no jornal Cinform 28/12/2009 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial dez/2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Robótica e educação



 

                                    “Conhecer não é suficiente, deve ser aplicado.
Querer não é suficiente, deve ser feito”. Goethe.

  
Nos meus tempos de criança, várias vezes assisti o desenho animado “Os Jetsons”. Ali, o futuro se mostrava altamente cibernético e biônico.  Até os cachorros usavam patins à jato, tipo aeroespaciais. Esse seriado sinalizou a imagem do amanhã para muitos, como eu, que amava inocentemente as conquistas da revolução industrial e apostava num inesgotável aprimoramento físico-mecânico.


Hoje, olhando para trás, vejo que o futuro que se realizou é constituído pela pluralidade, pela fusão de conhecimentos, pelas metáforas insuperáveis, pela visão sistêmica/orgânica e pela interdisciplinaridade. Inversamente à monocultura mecânica do desenho animado.


Do ponto de vista técnico, a robótica não avançou na velocidade esperada porque se somos perfeitos no campo da mecânica e conseguimos milagres na eletrônica, o mesmo não podemos dizer do software. Em programação de computadores nós apenas engatinhamos e os desafios para a programação de um robô são os grandes obstáculos atuais. Os robôs industriais, aqueles das montadoras de automóveis, ainda são exageradamente limitados e limitantes na medida que não aceitam qualquer alteração na linha de montagem fora do que foram programados. Assim, o robô só age com a sua reconhecida precisão superior se todo o seu entorno também for rigidamente preciso. Um aparente contra-senso à tendência de flexibilização da indústria pós-fordista. Num robô, a mecânica é o corpo físico, a energia é a vitalidade e o software é a alma. Assim, o que caracteriza um robô é a possibilidade de alterar seu comportamento ou funcionamento sem mexer em um único parafuso ou dispositivo do seu corpo, apenas substituindo sua alma, ou seja, a sua programação.


É nesse contexto de hoje que exalto a robótica como instrumento educacional. A construção de um robô exige o desenvolvimento de conhecimentos e habilidades necessárias ao moderno mundo do trabalho, quais sejam: intimidade e compreensão do ambiente computacional, criatividade e autoria de soluções, desenvolvimento da colaboração e cooperação (quando se trabalha em equipe, conforme é recomendado), aceitação e superação dos erros honestos através da aprendizagem que eles nos proporcionam e a descoberta da existência de múltiplas soluções reais para problemas reais, diferindo das situações ideais com solução única, tão presente nos currículos e práticas escolares.


As principais teorias educacionais norteadoras do modelo educacional da robótica provêm de Piaget e Vygotsky. O construtivismo de Piaget se reconfigura como construcionismo a partir das contribuições do seu discípulo Seymour Papert, Diretor do Instituto de Tecnologia de Massassuchets - MIT (EUA), ao afirmar que a aprendizagem se dá pela motivação e inteligência somadas à ação frente a uma interessante problematização. Já a pedagogia de Vygotsky pressupõe que a aprendizagem é fundamentalmente uma experiência social de interação pela linguagem e pela ação. 


Por que se aprende tanto construindo robôs? Para tal pergunta, apresentamos as seguintes respostas: 1) A construção de um robô exige um contexto, isto é, o ambiente onde o robô funcionará, que definirá seu ótimo design físico-funcional. Uma proximidade com a engenharia e outras ciências exatas, além da possibilidade de usar materiais reciclados. 2) Suas fontes de suprimentos, a energia (eletricidade, petróleo, solar, etc) e o software (download, upload) a partir de um computador. Um espaço rico para as ciências biológicas, ambientais e sociais. 3) A animação, isto é, a dinâmica dos movimentos será conduzida por programação de computador, cujo design deve dialogar com a forma física construída para o melhor funcionamento. Um mergulho de corpo inteiro na lógica em um ambiente real, longe, portanto, da virtualidade ilusória do computador.


Pergunto: Que disciplina curricular é suficiente para atender todos os itens acima? Penso que individualmente nenhuma.  Então vamos inverter a pergunta: Que disciplina escolar fica excluída de todos estes itens acima? Também nenhuma, acredito.


Então concluímos que a natureza interdisciplinar é intrínseca à robótica.  Impossível construir coletivamente sem o exercício da comunicação e da linguagem. Também, não o fazemos sem aplicações diretas da matemática e da lógica. A missão que o robô executará será em um lugar geográfico, em um momento histórico, em um ecossistema, com impactos ambientais e sociais, para que benefícios ao homem? Todos ou quais?


Essa é a escola que defendo. A escola onde o mundo faça eco, que permita prazer à aprendizagem, que valorize a individualidade através da autoria e desenvolva os talentos num mergulho em si próprio. E que também valorize o coletivo através da colaboração de todos para a construção do projeto comum, com conseqüente desenvolvimento do caráter, tão necessário aos nossos dias, resultante dos embates naturais que permeiam o trabalho interativo e o aprendizado das regras de convivência social.





Publicado no jornal Cinform 14/12/2009 – Caderno Emprego

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O empreendedorismo e a educação empreendedora

 

     Durante muito tempo associou-se o termo empreendedorismo à atividade comercial. Vem do economista Richard Cantillon (1680-1734) a definição de empreendedores para aqueles indivíduos que compravam produtos por um preço certo para vender por preço incerto. Isto é, eram obrigados a agregar valor ao produto para minimizar os riscos que assumiam e assim empreendiam mudanças. Mais adiante, outro economista famoso vem contribuir com nova definição para o termo empreendedorismo: Schumpeter (1883-1950) foi quem deu projeção ao tema, associando definitivamente o empreendedor ao conceito de inovação, apontando-o como o elemento que dispara e explica o desenvolvimento econômico.

     A definição que vigora hoje com maior propriedade é a de Filion, citado por Fernando Dolabela autor do livro O Segredo de Luíza, a qual consiste em  conceituar o empreendedor como alguém que “imagina, desenvolve e realiza visões”. Deste modo, as definições anteriores refletem apenas características do comportamento empreendedor, a exemplo de disposição para correr riscos calculados e de ser inovador e criativo, focando apenas sua repercussão na atividade econômica. Na atual definição, o empreendedor é visto como agente de mudanças em todas as áreas da atividade humana, seja na economia, na sociedade, na política, na educação, nas artes, na diplomacia ou em quaisquer outras. Deste modo, consideram-se igualmente empreendedoras as personalidades de Gandhi, Luther King, Juscelino Kubitschek, Barão de Mauá, Thomas Edison, Irmã Dulce, Delmiro Gouveia, Paulo Freire, Marco Pólo, Assis Chateaubriand, Orlando Villas-Boas e do Infante D. Henrique. Exemplos, já falecidos, que atuaram em campos tão diversos quanto importantes para o desenvolvimento humano e que deixaram marcas profundas no rastro de suas ações transformadoras.


     A atitude empreendedora extrapola, portanto, o âmbito empresarial e desliza para todas as atividades humanas. Para Louis Jacques Filion – Regente da Cadeira de Empreendedorismo HEC, The University of Montreal Business School, “mesmo que exista uma espécie de euforia em torno do empreendedorismo, não se trata, a meu ver, de uma moda, mas de uma evolução e de uma transformação profunda de conceber o ser humano que tirou seus fundamentos do pensamento liberal”.


     Ser empreendedor significa possuir atitudes e comportamentos como praticar a visão de longo prazo, planejar e monitorar sistematicamente, ter autoconfiança, liderar, correr riscos calculados, persistir, inovar, persuadir, ter iniciativa, formar redes de contatos, dentre outras características. Adquiri-las é comprovadamente possível através de programas de capacitação, especialmente aqueles originários de Harvard Business School (USA), e disseminados através do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) da ONU, disponibilizados no Brasil via SEBRAE.



      Educação empreendedora.

     O Brasil é um país de empreendedores. Todas as pesquisas mundiais nos colocam entre as nações mais empreendedoras do mundo. O povo brasileiro possui umas das maiores riquezas que se pode desejar: o espírito empreendedor. Porém, esta riqueza por si só não é suficiente para a geração de valor econômico, precisa de conhecimento. O paradigma do trabalho está mudando em uma velocidade sem precedente na história da civilização humana. A exigência de conhecimentos, a velocidade e quantidade de informações obrigam o homem a, mais que possuir um saber cognitivo elevado, ser capaz de agir a todo instante diante de situações novas e inesperadas, às quais sua melhor performance virá da capacidade de criar e improvisar, elaborando de imediato um novo saber. Superar obstáculos, enfrentar desafios, criar novas respostas, isto é aprender a aprender.


     Este novo ambiente econômico exige do trabalhador a capacidade de responder por assuntos cada vez mais complexos e por quantidades de conhecimentos crescentes e desordenados. A convivência com esta situação requer a formação de redes de relacionamentos e o desenvolvimento de uma cultura de cooperação e colaboração, haja vista que sozinhos não somos capazes de responder à grandeza do desafio do trabalho atual. Assim, educar para o associativismo é aprender a conviver.


      Sabemos que uma das qualidades do empreendedor é a capacidade de construir sonhos. Para que esse processo aconteça, faz-se necessário metamorfosear o pensar presente na cabeça e no agir, simbolizado pelas mãos. Tal ligação revela a arte e a presença do sentir humano. Portanto, a escola deve educar o pensar, o sentir e o agir equilibradamente para o desenvolvimento de pessoas saudáveis, autônomas e socialmente construtivas. Educação empreendedora é aprender a fazer.   


            Busquemos por uma escola que ofereça a seus alunos a elevação da auto-estima, que os faça acreditar em si e na realização de seus sonhos, que os faça reconhecer os seus limites sem, contudo, deixar de ousar, que lhes apresente a sociedade como uma rede que permita a conexão de infinitos relacionamentos, que os emancipe dos abusos do mercado e das manobras oportunistas de governos. Para que empreendam a própria vida com independência. O resultado maior que a educação pode propiciar aos que saem da escola para atuar no mundo é aprender a ser.


     Recorremos aos quatro pilares da educação, apontados no Relatório Jacques Delors: “Educação: Um Tesouro a Descobrir”, MEC/UNESCO, que aponta os fundamentos para a educação no século XXI. Só a educação nos dá direito à verdadeira liberdade.



Publicado no jornal Cinform 23/11/2009 – Caderno Emprego

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A difícil escolha profissional

 

     Um breve histórico: a humanidade sempre educou seus filhos. Nas sociedades tribais ou em outras organizações sociais primitivas, a educação se desenvolvia de forma difusa e desprovida de metodologia.   Assim, as crianças eram educadas a todo instante assistindo a atividades típicas de sua cultura, como caçar, pescar, dançar ou construir moradias. Um processo de aprendizagem por imitação.


     Nesse período, as profissões não existiam como existem hoje e a mobilidade social era impraticável. O aprendizado de tarefas se dava dentro das famílias e a educação era o reflexo da própria convivência grupal, não deixando margem para a escolha da ocupação especialmente nas famílias mais hierarquizadas, nas quais as atividades de todos eram definidas pelo chefe ou patriarca.


     Mais adiante, com as transformações ocorridas no mundo do trabalho e no modo de produção capitalista até o inicio do século XX, tornou-se necessário adaptar o ser humano ao trabalho visando maior produtividade. É então que surge o primeiro centro de orientação profissional em Munique no ano de 1902, com olhar direcionado para satisfazer a seleção de pessoal para a indústria. Note-se que este centro não está vinculado a educação e sim a critérios seletivos de admissão de pessoal em empregos, características da psicologia industrial.


     O primeiro campo de interesse dos estudos vocacionais é o aumento da produtividade no trabalho, seja pela satisfação de fazer algo que se tem aptidão, ou pela redução de acidentes de trabalho, mais comuns nos que demonstram menos aderência com suas tarefas.


     Diferentemente, no Brasil, a orientação vocacional surge promovendo a vinculação direta entre a orientação profissional e a educação. Os nossos serviços de orientação vocacional nascem dentro das escolas técnicas. Tradicionalmente, inclusive, a tarefa de realizar intervenções em orientação profissional, nacionalmente, cabe tanto ao psicólogo quanto ao pedagogo.


     Nas universidades brasileiras a evasão de alunos é objeto de pesquisas desde a década de 90, sendo também motivo de grandes prejuízos às próprias instituições, aos alunos evadidos, aos alunos potenciais que ficaram excluídos pela limitação de vagas no vestibular e ao erário publico pela capacidade ociosa do sistema educacional superior e profissionalizante.  Algumas pesquisas apontam uma evasão média em torno de 40%, com a ocorrência de picos superiores a 70%.


     As causas da evasão são geralmente classificadas em dois grandes grupos: a) motivos internos à instituição, que incluem descontentamento com qualidade docente, modelo pedagógico, horário ou outros problemas estruturais; e b) motivos externos à instituição e mais vinculados ao aluno, que são os mais freqüentes de acordo com as pesquisas. Dentro desse segundo grupo incluem-se a baixa integração social na escola, a deficiência escolar, as expectativas frustradas, as reprovações e atrasos, os problemas financeiros, a falta de informações sobre o curso e a profissão, a baixa autonomia na gestão dos estudos, etc. Mas as causas apresentadas acima não estão relacionadas em qualquer ordem de importância.


     Pelo visto, as instituições que trabalham com formação profissional e superior não podem se furtar a oferecer assistência vocacional ao estudante para minimizar evasões e flexibilizar a escolha de uma outra opção de curso aos seus estudantes.  


     Vou sair um pouco da natureza técnica até aqui apresentada convidando o leitor a uma reflexão a partir de nossa própria realidade sergipana. Com o advento da economia do conhecimento, conquistando cada vez mais postos de trabalho no mercado, temos experimentado uma abstração sempre crescente sobre o que é trabalhar. São inúmeros os profissionais que podem desenvolver suas tarefas independentemente do lugar onde estão, a exemplo de atendentes de call center, programadores de computador, web designers e repórteres, dentre outros.


     Igualmente, quando estamos em casa lendo e escrevendo emails de nossas empresas, atendendo o pronto telefone celular para ligações profissionais, estamos trabalhando de forma abstrata. Quando praticávamos ofícios, nossos filhos podiam ver e aprender a fazer o mesmo e compreendiam a vinculação direta entre trabalhar e fazer algo visível. Caso visitassem o ambiente de trabalho dos pais numa indústria ou estação ferroviária, tinha a plena certeza de que seus pais trabalhavam e produziam algo tangível ao tato, ao olfato, à visão, à audição, e quem sabe, ao sabor também?.  E hoje, o que ocorre quando o filho adolescente de um administrador de banco-de-dados vai visitá-lo em seu trabalho? Que impressões sensoriais chegam a esse jovem? Que ensinamento profissional ocorre? Difícil dizer.  Parece que transitamos ao longo da historia, de uma educação difusa para um trabalho difuso ou confuso.


     Dada a imaturidade natural dos estudantes com idade entre 15 e 19 anos de fazerem suas escolhas profissionais na inscrição do vestibular para uma profissão que futuramente abraçará, e daí há 8 anos quando esta mesma profissão poderá nem mesmo existir mais, é que penso que o apoio familiar e o escolar devem se fazer cada vez mais presentes no fortalecimento da autonomia e da construção do livre-arbítrio do adolescente através da educação do pensar, do sentir e do agir. Afinal, a decisão final da escolha profissional sempre será dele próprio. 




Publicado no jornal Cinform 09/11/2009 – Caderno Emprego

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Dinheiro traz felicidade?




A incômoda pergunta “dinheiro traz felicidade?” foi a questão norteadora de uma pesquisa científica realizada pela Universidade da Columbia Britânica, no Canadá e pela Harvard Business School, nos Estados Unidos. No primeiro grupo investigado, uma equipe de pesquisadores aplicou um teste numa amostra de 630 pessoas para conhecer seu perfil econômico, hábitos de consumo e seus rendimentos, além, obviamente, os níveis de felicidade que reportavam. Para o segundo grupo pesquisado, formado por 16 funcionários de uma firma em Boston, foram distribuídos bônus entre 3 e 8 mil dólares que tiveram sua destinação acompanhada e o decorrente impacto na felicidade dos abonados. Finalmente, um terceiro grupo composto de voluntários que receberam cerca de 20 dólares para gastar até determinada hora enquanto eram monitorados sistematicamente.

Definitivamente, a resposta a essa pergunta é: “Sim! Dinheiro traz felicidade. Porém...”. Porém, isso só acontece de forma duradoura e evidente quando o usamos a fim de comprar coisas para os outros e não para nós mesmos. “Gastar dinheiro com os outros pode representar um caminho efetivo para a felicidade”, afirmou Elizabeth Dunn, chefe da equipe de pesquisa.

Se olharmos bem para o funcionamento do sistema econômico veremos que há, paralelamente ao movimento financeiro visível, um grande ambiente de caráter afetivo ou emocional recheado de subjetividades e valores humanos. O crédito é uma ação econômica fundamental à saúde e sobrevivência dos mercados. E ele só acontece em um ambiente honesto quando confiamos em quem nos deverá, independentemente das garantias porventura exigidas. Ofertar crédito é acreditar, confiar e viabilizar o sonho do outro, ou seja, dar crédito é comprometer-se com a idéia do outro. Quantas emoções se fazem presentes nas transações creditícias?

Outro aspecto muito interessante está vinculado à regra geral de sobrevivência dos agentes econômicos. Por mais competitivo e selvagem que seja o ambiente onde seu negócio está inserido, você deve fabricar seu produto da melhor forma que lhe é possível sempre, mesmo sem saber a quem se destina. Assim, um fabricante de chinelos buscará fazê-los da melhor forma que possa satisfazer seus usuários, ainda que sejam completamente desconhecidos, podendo até ser um desafeto dele. É mais ou menos como, fazer o bem sem olhar a quem. Ou não?

Os recursos tecnológicos disponíveis pela revolução industrial e, mais recentemente, pela economia digital, nos fazem grandes produtores de excedentes a partir do nosso trabalho. Produzimos muito mais que somos capazes de consumir. Um simples liquidificador é utilizado apenas 5 minutos por dia para dar cabo de nossas necessidades, ficando o resto do tempo ocioso. O mesmo acontece com quem tem um sítio e um trator geralmente superdimensionado e, portanto, ocioso. Um pequeno forno é suficiente para produzir alimentos destinados a várias famílias. Que fazer com esses excedentes?

 Mais significativo ainda, é a nossa condição moderna resultante da economia do conhecimento, na qual a matéria-prima não se esgota com o uso. Pelo contrário, conhecimento não se divide – se multiplica. Passar conhecimento para outra pessoa não diminui este em nada, mas contrariamente, o amplia. Será o capital humano uma forma de capital absolutamente não degradável?

De forma pragmática, o que vemos nas relações comerciais é uma tendência crescente em direção a informalidade nas relações duradouras. À medida que convivemos com parceiros comerciais éticos, relaxamos naturalmente os nossos controles. Esse é o caminho espontâneo das transações econômicas: substituir valores materiais, as garantias e cauções, por exemplo, por valores humanos como a confiança e a solidariedade nas parcerias comerciais.

No início do século XX, Rudolf Steiner, pesquisador e filósofo austríaco, fundador da Antroposofia, desenvolveu um modelo de organização social que denominou de “Trimembração do Organismo Social”, no qual a atividade econômica, que é um dos 3 membros deste organismo, se inspirava na FRATERNIDADE. Tal modelo, implantado experimentalmente em uma pequena sociedade alemã foi logo desfeito em função de perseguições do dominante e crescente nazismo de então. Nesta proposta, a fraternidade é apresentada como sendo a origem arquetípica ou primitiva da atividade produtiva. De fato, a rigor nosso trabalho é realizado para os outros e pela necessidade dos outros – os nossos clientes, geralmente anônimos.   

Pode parecer difícil enxergar fraternidade no conturbado ambiente econômico, porém, me parece a cada dia mais evidente essa convergência. Os argumentos acima apresentados me fazem crer que Steiner estava certo na sua tese. Organizações que superaram esse paradigma tumultuado da visão de negócios através de parcerias, associativismo, cooperação ou práticas colaborativas nos negócios alcançaram patamares diferenciados no próprio fortalecimento e tornaram-se uma referência no que fazem. Acredito que a ganância, a cobiça, o consumismo e a indiferença aos valores humanos no meio dos negócios são apenas metamorfoses patológicas oriundas de uma leitura do mundo feita com a lente errada por um Ser Humano que também não se conhece e se ilude, mas que também é incapaz de alterar a verdade.


Publicado no jornal Cinform 26/10/2009 – Caderno Emprego