segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Educador: o profissional que tem o tempo a seu favor





A maioria das profissões trabalha contra o tempo. Na engenharia, por exemplo, a ação do tempo é perversa com os materiais. O aço é corroído, a madeira é desintegrada, os plásticos ressecam. Na área de software e periféricos de informática, a obsolescência é ainda mais rápida. Na medicina, os remédios têm curta data de validade, bem como os exames clínicos. Jardineiros e agricultores combatem pragas e espécies invasoras permanentemente para evitar caros prejuízos. É possível explicitar várias atividades humanas, senão quase todas, onde o tempo traz regressões no seu desenvolvimento: musicistas, atletas, químicos, produtores de alimentos e estilistas, por exemplo.


Existem leis naturais que agem sobre os elementos físicos e químicos, arrastando-os na direção do mais absoluto caos. A entropia é uma dessas leis. Na natureza tudo tende a se espalhar e se tornar difuso. Assim, encontrar elementos minerais concentrados em um mesmo local é literalmente encontrar uma mina, ou seja, algo muito raro. Talvez um descuido natural ou um presente dos deuses para nós humanos.


Com a educação é diferente. Claro que me refiro a educação no sentido mais nobre do termo. As práticas pedagógicas corretamente aplicadas, isto é, com técnica e amor, semeiam a alma de crianças e adolescentes, fecundando uma referência na personalidade por toda a vida futura. Quem não se lembra de grandes professores que tivemos? Muitos deles são pessoas extremamente simples, porém, de alma tão rica e transbordante que na sua peculiar simplicidade marcou positiva e definitivamente nosso destino. Isso mesmo! A responsabilidade do professor está ampliada para muito além da sala de aula, é uma responsabilidade cármica. Pois, do mesmo jeito que nos lembramos docemente dos bons mestres, também, ainda degustamos do fel dos maus professores que passaram por nossas vidas. Porém, os bons mestres são os que nos chegam em lembranças vivas, acendendo em nosso interior a luz que fortalece nossas escolhas, às vezes caras, mas corretas, nas situações difíceis e conflituosas que enfrentamos na vida.


A Pedagogia Waldorf fundamenta-se em estudos biográficos dos seres humanos ao afirmar que na faixa etária dos 7 aos 13 anos geramos os hábitos e ritmos que manteremos por toda a vida. Quem, nessa fase da vida, tem pais disciplinadores e atentos aos ritmos dos filhos e da casa, adotará naturalmente estes mesmos hábitos e ritmos para sua vida toda. Quem, nesta idade escovou os dentes após as refeições ou foi acordado pelas manhãs sempre cedo, ainda que forçado por pais ou avós, assim procederá sempre, experimentando grande desconforto quando privado de tal procedimento. Ou seja, o tempo reforça e engrandece a educação recebida.


Se pequenos afazeres são perpetuados por uma zelosa educação doméstica, o que pensar sobre a formação do caráter a partir de belos exemplos de valores humanos, de gestos de amizade e respeito, de cuidado com a natureza, de um construtivo trato social, de belas vivências estéticas e artísticas e de religiosidade? Eu, particularmente, vivi a oportunidade em minha adolescência de ser escoteiro, e trago profundamente marcado em meu ser as ricas experiências de ecologia (nunca época em que não se falava nisso ainda), de cidadania, de disciplina e respeito ao coletivo, além, da superação do medo de aprender a conviver com o risco real, da construção da autonomia e da capacidade empreendedora.


Penso que seria muito oportuno à educação moderna a prática de ações voluntárias de interesse social feitas por nossos jovens e organizadas pelas escolas. Essas ações trariam contato com a realidade de nossa própria sociedade, especialmente para os alunos de escolas particulares, enriquecendo a formação educacional, para muito além dos conteúdos e macetes do moribundo vestibular. Certamente, todas essas ações sociais ou ambientais são permeadas por vastos conteúdos curriculares de todas as séries, que podem e devem servir como conhecimento vivo – aquele que efetivamente nos apropriamos e jamais nos desfazemos dele.


Imaginemos a riqueza de saberes e conteúdos educacionais atuantes em uma campanha de vacinação, por exemplo. Aí estão presentes as fórmulas químicas, os microorganismos e a biologia, a matemática na diluição e proporção das doses, a geografia com a cobertura territorial e ocupacional da campanha, a história com a comparação entre situações passadas e atuais, a comunicação como estratégia de mobilização comunitária, a física com o funcionamento dos instrumentos de aplicação dos remédios (seringas, conta-gotas, etc), a sociologia denunciando desigualdades e seus motivos na saúde pública, além do resgate de importantes vivências cívicas, só para citar alguns. E tudo isso ocorre sistematicamente nesta campanha de vacinação de forma interdisciplinar e consequentemente com todas as disciplinas escolares presentes, sem a separação artificial dos conteúdos que só acontece mesmo na escola e em mais nenhum outro lugar.


Como vemos, as chances para uma melhoria na educação são muitas, acessíveis, e mais dependentes de atitudes dos educadores (pais, professores, empresários da educação, pedagogos, governos, intelectuais e demais interessados) que de tecnologias importadas ou de fachadas. Nós educadores temos o privilégio, talvez exclusivo, de termos o tempo a nosso favor. Somos parceiros do tempo, e isso não é pouco.    




            Publicado no jornal Cinform 28/09/2009 – Caderno Emprego


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A importância estratégica da micro empresa




     Dias atrás, vivi a oportunidade de participar como palestrante no 1° Encontro de Empresas Juniores na UFS, quando falei sobre a economia sergipana e as tendências de mercado promissoras para nossas empresas juniores. Naturalmente, não possuo bola de cristal para adivinhar o futuro, mas passei para os jovens empreendedores indicadores que anunciam as mudanças mais claras, a exemplo de questões ambientais, envelhecimento populacional, empreendedorismo, interiorização e empoderamento local, dentre outras. Porém, a minha maior satisfação em participar do evento foi sair de lá com a certeza de que alguns tabus e dogmas começam a ser quebrados no ambiente acadêmico. Lá estavam empresas juniores de engenharia florestal, administração, economia, ciências contábeis, química e outras, apresentando caminhos que aproximam o valioso conhecimento acadêmico do grandioso espaço reservado às micro e pequenas empresas no campo da inovação.


É sabido que o Brasil pouco investe em P&D (pesquisa e desenvolvimento) na iniciativa privada. São diversas as razões para isso e podemos enumerar algumas: primeiramente, a pouca pesquisa realizada no Brasil está concentrada principalmente na universidade pública. Isto é, 73% dos pesquisadores brasileiros estão nas universidades, enquanto nos EUA apenas 13% estão nelas. Já os centros de pesquisas brasileiros têm 11% dos pesquisadores ante os 79% dos norte-americanos. Em segundo lugar vem o difícil relacionamento público-privado brasileiro, onde empresário e lucro são mal vistos. Com certeza, é muito difícil conseguir a cessão, ainda que temporária, de um pesquisador de universidade pública para desenvolver seu projeto em uma empresa privada. Diferentemente, este mesmo pesquisador é gentilmente cedido para algum órgão público. Assim afirma o doutor Jacques Marcovitch — reitor da USP de 1997 a 2001, autor da série "Pioneiros & Empreendedores".


Certamente, os argumentos que a universidade apresenta para defender seu ponto de vista são bem fundamentados e embasados em citações sólidas. Fortes também são os argumentos da iniciativa privada que necessita de P&D e não consegue fazê-lo deslanchar, embora todos saibam que a interação será vantajosa para todos, como disse Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente da Fapesp: “Com orçamento anual de R$ 13 milhões, o Instituto de Física da Unicamp já deu origem a 12 empresas de alta tecnologia, que faturam R$ 300 milhões. Diga-me qual investimento rende mais de 20 vezes".


Os institutos de pesquisas devem mediar essa importante aproximação entre as demandas tecnológicas do mercado e a pesquisa universitária.  Assim aconteceu na Coréia do Sul, país que em apenas três décadas elevou a renda per capita de seu povo em seis vezes com relação à brasileira no mesmo período. Nessa Coréia, encontra-se a sede da Nokia, maior fabricante de telefonia celular do mundo, mas que na década de 80 era apenas um fabricante de botas de borrachas. Tal fato ilustra o esforço empreendido na formação de capital humano (educação, escolaridade, empreendedorismo, inovação, pesquisa) e capital social (confiança, identidade nacional, valores comuns), pilares da nova economia mundial.


Aqui entra a vantagem da micro empresa como fonte de inovação. Se olharmos para o cenário atual, veremos que grandes marcas líderes como Aplle, microsoft, HP, Bematech (Brasil), Mandic (Brasil), etc., nasceram em garagens, apartamentos ou em incubadoras de pequenas empresas ligadas a universidades. Está aí a grande vantagem competitiva para a micro e pequena empresa sobre as demais: a agilidade.


Diferentemente, na maioria das grandes empresas a idéia deve nascer no ano anterior para ser contemplada no orçamento corrente. Uma boa idéia pode sofrer bloqueio hierárquico devido a vaidades, insegurança ou outras questões de recursos humanos. Para assegurar o retorno sobre investimento e obter vantagem competitiva, uma boa idéia, durante sua fase de pesquisa e desenvolvimento, deve ser guardada em segredo, o que é muito difícil na grande empresa. Além de tudo isso, um pesquisador apaixonado por seu trabalho peleja em busca de uma resposta, horas seguidas, de forma incansável, independentemente se é dia, noite, sábado, domingo ou feriado. Como fazer isso numa empresa burocratizada, normatizada e zelosa para evitar contenciosos trabalhistas?


Naturalmente que o poder econômico está do lado da grande empresa. Dentre os 100 maiores PIBs do mundo, mais da metade são oriundos de conglomerados econômicos e só a menor parte é formada por países.  Por isso, uma boa idéia que se transforma em inovação finda por ser adquirida por grandes empresas, seja através de fusões, incorporações, sociedades ou pela simples compra da propriedade intelectual. Ainda assim, pode ser extremamente vantajoso para as micro e pequenas empresas negociarem seu invento.


Devemos defender a micro empresa e assegurar que disponha de um ambiente saudável para sua sobrevivência. A micro empresa não é um acidente de percurso simplesmente porque ainda não cresceu. Ela deve ser valorizada e protegida por leis para que possa cumprir o papel que a nova economia lhe tem destinado: ser um agente de inovação, criatividade, empreendedorismo e geração de empregos, trabalho e renda para nosso país. 





Publicado no jornal Cinform 14/09/2009 – Caderno Emprego



segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Burocracia e economia



     Quando Max Weber (1864-1920) desenvolveu sua teoria sobre a burocracia estava, como todos seus contemporâneos, encantado com as conquistas da revolução industrial. A máquina era, então, o modelo máximo da aventura humana na Terra. Certamente, Weber, ao propor a racionalidade burocrática para a organização pública, o fez imbuído das melhores intenções: proteger o bem público do patrimonialismo largamente dominante e estabelecer regras de funcionamento da estrutura pública visando torná-la mais institucionalizada e menos personalizada. Sua racionalidade, porém, se inspirava na frieza cartesiana das máquinas da época. Aliás, mesma fonte inspiradora da linha de montagem fordista.

Hoje, em muitos casos, vemos a burocracia ser um fim em si mesmo. Suspende-se o envio da merenda escolar a um município se este não apresentar os relatórios comprobatórios nos prazos estabelecidos. Isso porque  os papeis são mais importantes que a merenda de crianças famintas. O mesmo acontece com a falta de remédio em hospitais por causa de procedimentos licitatórios questionáveis. Confunde-se impessoalidade com desumanidade.

As organizações humanas seguem ou deveriam seguir modelos biológicos, inspirados no próprio ser humano, que são muito mais flexíveis e tolerantes que as engrenagens, polias e catracas. Uma máquina será inteira e imediatamente prejudicada no seu funcionamento caso uma engrenagem trave ou se solte. Nestas organizações, a relação entre um elemento e outro não é tão direta. Provavelmente, trabalharemos o dia todo em uma empresa sem saber se há um problema no funcionamento da portaria ou da tesouraria. Tal problema se agravará até comprometer o todo, somente após dias seguidos de crise. O mesmo acontece com nosso corpo, quando o mau funcionamento do estômago ou uma bursite, por exemplo, prejudica nossas atividades sem parar todo o organismo. Muitas vezes mudamos nossa alimentação ou hábitos para melhor convivermos com nossos males corpóreos, ou ainda assumimos papéis e rotinas de outros setores da empresa, posto que estes não desempenham adequadamente suas atribuições. Isto é o modelo orgânico que prevalece tanto em organismos biológicos quanto empresariais, governamentais e sociais.

A economia segue o modelo sistêmico ou biológico de forma plena, por vezes, desobedecendo aos inputs originados em um painel de controle. A economia, a biologia, a ecologia e as ciências humanas em geral, são incontroláveis a partir do modelo reducionista vigente. Ou seja, o modelo científico só responde aos problemas atuais que podemos isolar para estudarmos, o que é impossível nestas citadas áreas do conhecimento, nas quais nenhum dos atores consegue controlar o todo, mas apenas perturbá-lo.

À medida que nos afastamos da máquina como modelo de organização econômica, vemos que o modelo mais adequado tende a se estruturar em valores humanos, obviamente inexistentes nas insensíveis engrenagens. O berço do vínculo econômico é a confiança, que se transforma em capital humano e capital social - fundamentos do desenvolvimento local.  

Um estudo do Banco Mundial (1995) sobre 192 países concluiu que apenas uma fração do crescimento econômico (16%) se explica pelo capital físico (máquinas, edifícios e infra-estrutura); 20% provêm do capital natural (petróleo, hidrelétricas, florestas), e 64% são atribuídos ao capital humano e social.

 O ambiente das relações econômicas e negócios tem aversão, por sua própria natureza, à burocracia. Toda relação no mundo da economia tende para a informalidade. Por isso, faz grande diferença no relacionamento conhecer pessoalmente aquele fornecedor de outro Estado com quem só se comunicava por email ou telefone. Comumente, a relação muda, fica mais fácil quando há empatia e confiança mútua. A relação cliente-fornecedor tende a simplificar quando as partes cumprem seus contratos iniciais. Muitos são os casos em que caducam os contratos de papel e as transações comerciais prosseguem como se nada houvesse de irregular. O que está no papel só é usado nos litígios e contendas judiciais.

O crédito é uma forma de confiança. Quando o banco ou o fornecedor repassa capital, inicialmente exige cadastro e garantias para depois, uma vez cumprido o acordado, flexibilizar e incentivar a novas investidas.

A partir dessa tendência natural à informalidade nas relações econômica surgem grandes armadilhas. A informalidade (mesmo no sentido mais nobre do termo: estar à vontade com a outra parte, confiar) não é suportada pelo serviço público brasileiro nas suas relações com outras entidades, sejam públicas ou privadas. São inúmeros os casos de empresas que sofrem grandes prejuízos e até fecham suas portas, por haver confiado em agentes do serviço público já que este está regido pela impessoalidade. O inverso também é verdadeiro quando um preposto do serviço público contrata informalmente e/ou paga antecipadamente por um serviço ou fornecimento que não ocorreu. Este descuidado servidor pagará caro por isso.

 Diante da crise econômica atual, várias são as propostas de maior intervenção governamental na economia.  Creio que não será possível num ambiente econômico saudável esta aproximação. São entes de natureza tão divergentes, regidos por princípios e velocidades igualmente desencontrados que só conseguem conviver bem nos momentos em que o instinto de sobrevivência impera, qual o leão que nada lado a lado com a gazela na planície inundada. Quem será o leão?




Publicado no jornal Cinform 31/08/2009 – Caderno Emprego


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Sobre dar o peixe



     São muitos os dirigentes públicos, gestores de programas de responsabilidade social, intelectuais, artistas, homens da imprensa e da comunicação, influentes formadores de opinião, portanto, que aderiram ao discurso de que é errado dar o peixe e que o correto seria ensinar a pescar. É o pensamento “politicamente correto” ou até a expressão da moda. Porém, não é bem assim que as coisas funcionam. Senão vejamos, Stephen Kanitz, administrador de empresas, articulista da Veja, escreveu certa vez: “Todo ano analiso mais de 400 ONGs e descobri algo muito constrangedor. Nas organizações que fazem "mero assistencialismo", 80% dos recursos doados são revertidos em uma cadeira de rodas, em óculos para um deficiente visual ou em um prato de comida. Ou seja, o dinheiro vai para quem precisa, enquanto nas ONGs que "ensinam a pescar" 85% das doações terminam no bolso dos professores, não no bolso dos alunos carentes”.

Acredito que não é possível ensinar alguém a pescar se não lhe é acessível o anzol, a rede, o barco, o freezer, o acesso à comercialização do pescado, o crédito, especialmente o capital de giro. Nesta hora, parece que o instrutor de pesca lava as mãos. Talvez tenha finalizado “sua parte” no projeto que nasceu bom para o professor e insuficiente para o aluno. Também, o financiador pode estar satisfeito porque cumpriu a carga horária, o orçamento, o prazo e o mandato. Justificou o “retorno sobre o investimento” e “alavancou” benefícios comprovados no seu “balanço social”. É muito capitalismo para pouca fraternidade. É o cumprimento frio e burocrático de etapas de um projeto míope, às vezes, criado apenas para retro-alimentar seus idealizadores.

Estranhamente, muitos consultores que aprimoram a gestão de iniciativas sociais do terceiro-setor, enaltecem a importância do trabalho voluntário, mas, ali, naquele momento cobram caríssimo por sua aula e, alguns, nunca experimentaram uma ação voluntária própria.

Precisa-se urgentemente de visão sistêmica para elaborar e executar projetos sociais. Muitos atores devem participar e protagonizar ações que somem resultados reais sobre o público alvo. Resultados estes, que avaliem e vinculem o êxito do projeto a metas transformadoras na comunidade beneficiada pelas ações do projeto. Exemplo: crescimento da renda, volume comercializado, abertura de novos mercados, formalização de empreendimentos, taxa de desemprego e outros indicadores finalísticos.

Ensinar é esforço empreendido visando um resultado final transformador. Apenas ministrar N horas-aulas não garante sucesso. O resultado deste esforço deve ser medido a partir do efeito que esta carga horária executada promoveu nos alunos. O mais importante de uma empresa, acontece fora de seus muros, é quando o consumidor usa seu produto, é o momento onde a empresa efetivamente se realiza e é avaliada. Com educação não deve ser diferente. O verdadeiro certificado de formação profissional não é o “canudo” entregue ao final do curso, e sim, a carteira de trabalho assinada ou a promoção conquistada, ou então, a realização do próprio empreendimento.

Como ensinar a pescar quando a pobreza é profunda e irreparável, porque não é só material? Como apenas ensinar a pescar a excluídos ou expulsos do amor humano, que querem colo? As entidades promotoras de ações sociais brasileiras, na sua maioria, só estão aptas a trabalhar com o pobre com potencial para deixar de ser pobre. Este é o público alvo predileto. O financiador colocar seu dinheiro e o resultado logo aparece, através de transformações visíveis e eternizadas, mais facilmente ainda, se o publico alvo for composto por crianças ou adolescentes.

Não quero elencar qual o público que necessita de receber o peixe, todos nós sabemos. Só precisamos de trinta segundos de reflexão para contar inúmeros (igualmente) brasileiros que não têm qualquer chance de serem atendidos pelos programas mais comuns de inclusão e cidadania disponíveis, ampliando a exclusão para seus familiares (igualmente) abandonados.

Peço desculpas ao caríssimo leitor se estou muito ácido neste texto, mas, falar desse assunto exige posicionamento firme e claro. O politicamente correto é uma nova elitização na nossa muito estratificada sociedade.

Não é possível na complexa sociedade atual ditar soluções universais. Há horas em que se deve dar o peixe. Outras tantas são momentos eficazes de ensinar a pescar. E há outros momentos em que não se deve dar o peixe, nem tampouco ensinar a pescar, e sim, formar piscicultores. Temos, certamente, em nossas mãos os recursos financeiros, tecnológicos, humanos e materiais que devem nos permitir realizar, agora através de nossas mãos, o novo Milagre dos Peixes.




Publicado no jornal Cinform 17/08/2009 – Caderno Emprego
Publicado em http://www.administradores.com.br/artigos/empreendedorismo/sobre-dar-o-peixe/84273/


segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A construtiva visão de longo prazo




“Primeiro a gente faz de conta, depois se torna...” (Guimarães Rosa).


É curioso como as pessoas que costumam adotar uma visão de longo prazo se diferenciam das demais. Em geral, são mais empreendedoras e deixam marcas profundas nas suas biografias e das pessoas que lhes são mais próximas.  A visão de longo prazo faz com que os obstáculos do dia a dia se tornem menores, às vezes até vistos como pequenas adversidades. Já para os mais imediatistas, estas mesmas adversidades se tornam barreiras intransponíveis por não saberem aonde querem chegar, conduzindo-os a perda da fraca orientação que possuem ante tal obstáculo.

Alguns autores definem os empreendedores como visionários, pessoas que promovem as mudanças que resultarão no cenário futuro. Eu, particularmente, considero que empreendedores são construtores de sonhos. São aqueles que idealizam um sonho, definem estratégias e táticas para sua realização e o constroem obstinadamente. Aqui não há nada de mágico. O sonho é construído c-o-t-i-d-i-a-n-a-m-e-n-t-e, tijolinho a tijolinho. E, acreditem, à base de muita renúncia, superação e sacrifício, extensivo aos familiares.

         Certamente todos nós conhecemos pessoas assim, que trabalham sempre para a realização de um sonho empresarial, ou político, ou social, ou religioso; nem sempre com êxito.

A visão de longo prazo nos vincula mais ao coletivo que a visão imediatista de natureza mais egoísta. Também, nos torna mais responsáveis para com nossos descendentes. É raro aquele que deseja mal ao mundo de 2030, igualmente raro é aquele que hoje esteja agindo para que lá encontremos um mundo melhor. Queremos o bem lá na frente, mas infelizmente, não estamos construindo isso agora. É o que diz uma pesquisa do Ibope encomendada pela ONG internacional WWF: “A elite brasileira é ecologicamente inviável – Impacto de classe A e B sobre o ambiente no país é comparável ao dos EUA”. Precisamos acoplar o futuro que sonhamos com nossas ações do presente.

Tem uma estória que diz que “o diabo paga à vista e Deus só paga à prazo”. Isto é, precisamos renunciar às tentações do presente para construirmos um futuro melhor. Em freqüentes oportunidades, agimos por ansiedade e insegurança com o propósito de assegurarmos logo um resultado a nosso favor, na melhor expressão da lei do Gerson. Quantas crianças são alfabetizadas precocemente? Quantas crianças são adultizadas? Quantos pais, por ansiedade, são aceleradores dos processos vitais de desenvolvimento de seus filhos sem respeitar a velocidade natural?  

Dias atrás, li uma reportagem de um jornal de São Paulo que dizia: “Brasileiro gasta mais com carro que com educação – Fenômeno ocorre mesmo entre famílias com filhos, mais ricas e escolarizadas”, e pensei que aí estava um confronto emblemático entre a visão de longo prazo e a de curto prazo. É tentador sentirmos o imediato cheirinho de carro novo, ainda que saibamos que esta atraente propriedade organoléptica possa nos comprometer ou inviabilizar o futuro. Todos sabem que o ingresso de jovens no mercado de trabalho está altamente competitivo, e que as exigências curriculares e de titularidade são crescentes para a realização profissional. Também, sabem que o conhecimento é condição basilar da moderna economia. Mesmo assim, a maioria das pessoas prefere o carro (que está novo por uns dias), ainda que neste mesmo jornal paulista outra reportagem diga: “Sobra 1 milhão de empregos qualificados – vagas não são preenchidas por falta de qualificação, diz Ministério do Trabalho”.

Termos bons sonhos e sabermos o que é melhor para nossos filhos e netos não são suficientes. Precisamos ser educados para termos coerência e sermos mais conscientes de nossos desencontros. Estudar ética, conhecer educação financeira, planejar a vida, ter religiosidade e agir na construção do futuro sonhado nos ajudarão muito. A qualidade da mente e do espírito é fundamental. Não basta confiarmos em nossos planos, precisamos confiar sim, em nós mesmos e nos outros.

Quando nossas ações forem paralelas aos nossos mais nobres desejos, o encontro será inevitável na infinitude de nossos sonhos.





Publicado no jornal Cinform 03/08/2009 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial jul/2009




segunda-feira, 20 de julho de 2009

Novos hieróglifos


Mudanças tecnológicas são muito velozes. Esteja certo que quando lhe chegar a sensação de conforto e segurança no uso de um programa de computador ou de um aparelho celular é porque estes já estarão superados ou obsoletos. O normal, hoje, é improvisar no uso destes instrumentos, é ser criativo para descobrir utilidades impensadas até pelo desenvolvedor ou inventor do produto, visto que com certeza este também não teve tempo suficiente para conhecer a fundo sua criação e as possibilidades de suas aplicações.

        Dizem que o ótimo é inimigo do bom. Na indústria do software isso é uma verdade. Se desejarmos lançar um programa de computador livre de erros, os chamados bugs, não o lançaremos nunca. Existe uma curva em um gráfico cartesiano que aponta o índice tolerável de falhas para o lançamento comercial do produto. O software é lançado com versões futuras já em construção onde se elimina algumas falhas mais comprometedoras, além de pacotes com correções que são baixadas pela internet, às vezes automaticamente. Só em 2006, foram 7.427 bugs catalogados entre os dez maiores desenvolvedores de softwares do mundo.

        Dentro deste atropelo calculado, impositivas são as regras do mercado que orientam o lançamento e o descarte de produtos e serviços num giro de máxima rentabilidade, sem levar em conta questões ambientais e sociais. O lixo tecnológico é altamente tóxico e resistente à decomposição na natureza. E o pior, estamos assimilando a cultura do descartável, da superficialidade e da efemeridade em nossas relações afetivas, sociais e econômicas. Em alguns casos, há uma verdadeira inversão de valores que passa aparentemente despercebida: os programas  aplicativos, como o Word ou Excell, estão indevidamente em posição superior aos conteúdos criados a partir deles. Para ser mais claro: imagine que um notável romancista escreveu seu livro mais promissor, uma obra-prima, usando o extinto WordStar ou o desaparecido Carta Certa e guardou muito bem uma cópia eletrônica para futura edição. Certamente  hoje o desavisado escritor já está em apuros. E muito mais ficará à medida que o tempo avançar. Onde abrir seu arquivo? Como recuperar seu livro? 

A situação acima decorre da falta de padronização para editores de textos, de planilhas, de apresentações, etc. Ficamos escravos de determinados fornecedores, proprietários de “padrões” que muitas vezes são voláteis e descontinuados em pleno desrespeito aos seus usuários. Na pueril indústria da informática essas coisas acontecem sem reação dos consumidores. Em outros casos, essas ações desrespeitosas seriam repelidas veementemente por todos os consumidores. Ninguém aceitaria que a companhia de distribuição de energia elétrica, combinada com a indústria de eletrodomésticos, resolvesse alterar a voltagem da rede de 110 para 325 volts a fim de nos obrigar a rever nossos contratos e vender novos eletrodomésticos adaptados a esta inesperada realidade. Também seria inimaginável que seus DVDs só pudessem ser assistidos nos equipamentos da marca tal.

Lembro que no final da década de 70, a Sony lançou um padrão de videocassete exclusivo, chamado Betamax, e disputava a preferência com o padrão VHS, de qualidade inferior. A Sony saiu perdendo, apesar da superioridade tecnológica de seu produto, porque a indústria do entretenimento ofertou mais títulos em VHS. Moral da história: o principal valor está no conteúdo e não na mídia ou no veículo. Assim, será com a informática também.

A tendência a padrões está sendo consolidada e defendida pelo modelo adotado pela internet. Nesta, a partir de computadores de diversos fabricantes, de diversos sistemas operacionais, de vários navegadores, de diversas conexões, é possível navegar pelos mesmos sites numa demonstração exemplar de compatibilidade e interoperabilidade.

          Em janeiro deste ano, participando do Campus-party Brasil em São Paulo, assisti uma palestra interessante sobre a adoção pela ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, do padrão ODF, abreviação de “OASIS Open Document Format for Office Applications”, que trata de um formato aberto para armazenar e trocar documentos de escritório como memorandos, relatórios, livros, planilhas, bases de dados, gráficos e apresentações. Esta norma é referenciada como NBR ISO/IEC 26300, publicada em 12 de maio de 2008, que normatiza o padrão universal para portabilidade de documentos entre aplicativos de diversos fabricantes, sejam Linux, Windows, Google, etc.

            Tal palestra fazia um paralelo entre o desvendar dos hieróglifos da Pedra de Roseta, descoberta em 1799 e que permitiu em 1822 a compreensão da escrita egípcia, com os “novos hieróglifos” produzidos atualmente pela indústria da informática através dos programas aplicativos descontinuados. Comparou também nossa realidade atual com a perda da Biblioteca de Alexandria em 646 dC, totalmente destruída pelo fogo com seus mais de 1000 anos de história humana arquivada. Quantas pesquisas acadêmicas, obras artísticas, projetos, documentos empresariais e anais, dentre outros, estão armazenados em arquivos eletrônicos, porém, inacessíveis aos computadores atuais.

            Penso que o mais importante da informática é o que fazemos através dela. É o nosso trabalho. Não é a máquina, é o humano. Só quando respeitarem nosso trabalho e toda a informática for um meio de interesse público e social, é que deixaremos de ser reféns de tiranias tecnológicas e oportunismos mercadológicos. Quem sabe se com o padrão ODF funcionando para valer possamos dizer: Seja livre, use o que quiser!



 Publicado no jornal Cinform 20/07/2009 – Caderno Emprego
 Publicado na revista TI&N, nº 10, nov/2012





terça-feira, 7 de julho de 2009

Informalidade e improdutividade


       A informalidade é a principal barreira ao desenvolvimento econômico brasileiro, segundo pesquisa realizada pela consultoria McKinsey em 2005. Nesse estudo, atribui-se à informalidade a grandeza de 39% da perda de produtividade no Brasil, além de outros fatores que apresentamos a seguir: a instabilidade macroeconômica com 13%; ineficiência e precariedade dos serviços públicos com 8%, e falta de infra-estrutura com 5% da mencionada  perda. Todos estes fatores, aponta o estudo, podem ser resolvidos de curto a médio prazo através de políticas de Estado estáveis e bem sucedidas, aplicadas ao longo de 12 anos, que consistem na redução da informalidade de 40% para 20% do PIB; na diminuição da instabilidade macroeconômica, cortando gastos correntes do governo de 30% para 25% do PIB; no corte pela metade do tempo de solução e do número de novos processos judiciais e na melhoria da infra-estrutura, aumentando o percentual de investimentos de 2,4% para 6% do PIB. Tais medidas elevariam a renda per capita brasileira para 16.400 dólares, dobrando seu valor em termos reais, em 10 anos.

Esta pesquisa revela ainda que a produtividade do brasileiro é de apenas 18% face à produtividade do trabalhador norte-americano. Desta forma, temos de trabalhar em média 5 vezes mais que eles para gerar o mesmo produto. Digo em média, porque a perda de produtividade varia conforme o setor econômico. O setor de menor perda comparativa entre Brasil e EUA é o bancário, no qual atingimos a marca de 67% da produtividade dos “senhores de olhos azuis”. Sequencialmente temos o setor automotivo com 29%, a construção com 28%, o varejo com 25%, e, pasmem, a agricultura com ínfimos 5%.

É de se estranhar que justamente o setor agrícola, abrigo do nosso pujante agro-negócio, que participa decisivamente da nossa carteira de exportações, apresente índice tão acanhado de produtividade. O esclarecimento provém da agricultura de subsistência, carente de recursos tecnológicos mínimos. Ela se mostra desigual entre a agricultura mecanizada, dita de precisão, e a rudimentar agricultura familiar de subsistência.

A análise dos números acima nos faz ler que quanto menor a informalidade (setor bancário), maior a produtividade, e vice-versa (setor agrícola).

Esta consultoria McKinsey já afirmou em outra pesquisa que uma redução de 20% da informalidade dará ao Brasil ganho de 1,5% no PIB, além de revelar que o Brasil é responsável por 10% da pirataria musical do mundo e que 55% dos nossos trabalhadores estão desprotegidos.

 São números expressivos que, por si só, justificam a implantação de políticas econômicas planejadas e elaboradas com a visão de longo prazo, típica de programas nacionais de desenvolvimento com visão sistêmica, que independam de governos e orientações ideológicas.

Análises comparativas entre países nos mostram que a renda per capita está diretamente relacionada à produtividade. Se, como vimos, a produtividade norte-americana é 5 vezes superior à nossa, também vemos a renda per capita do Tio Sam ser 4 vezes superior à Tupininquim. Esta proximidade de números relativos entre a renda e a produtividade per capita se repete em vários outros países quando dispostos em um gráfico cartesiano, formando uma nuvem quase reta de pontos.

Como este estudo aponta que a produtividade das iniciativas informais é de apenas 45% da produtividade das formais, sugiro que os programas governamentais de combate à informalidade sigam na direção do ganho de produtividade. Assim, a passagem da informalidade para a formalidade será vantajosa para todos. Ganha o empreendedor, ganha o Estado e, principalmente, ganha a sociedade brasileira. Não basta a vantagem relativa, ofertada pelo tratamento tributário diferenciado, a exemplo do (Micro) Empreendedor Individual – MEI - Lei Complementar 128/08. É preciso sensibilizar o público para quebrar a cultura da informalidade que, lamentavelmente, está tão presente na cabeça do brasileiro, e capacitar o pequeno empreendedor para que se instrumentalize e cresça produtivamente no combate ao desperdício, na visibilidade do seu negócio (publicidade), no giro otimizado do estoque e do capital, nas melhores práticas do seu ramo de atividade, na formação correta de preços, na visão de mercado e seu posicionamento (marketing), no acesso ao crédito, na cultura do associativismo, dentre outras inúmeras noções de técnica de gestão e profissionalização. Nesse espaço o Sistema “S” passa a ser decisivo: tem competência comprovada, tradição e credibilidade, recursos humanos, pedagógicos, materiais e capilaridade para enfrentar a desafiadora missão como nenhum outro organismo no país.  

Outro fator que responde por 35% da perda de produtividade é a excessiva pobreza presente na Terra Brasilis. Neste nível, a pobreza produz continuamente um círculo vicioso de ampliação da própria pobreza. A escola pública é ruim, mas “é grátis”, então não se deve reclamar. Ou ainda, “ruim com ela, pior sem ela”.

A nossa elite é muito reduzida para dar conta rapidamente do passivo social brasileiro. A saída só é possível a longo prazo, porém, é consensual e  se chama educação. Entenda-se educação no sentido amplo da palavra: educar o pensar (cognição), o fazer (volição) e o sentir (emoção), tarefa de pais e educadores.

Por fim, espero ver o dia em que informalidade seja sinônimo de confiança nas relações pessoais e empresariais e ainda de desburocratização, e não sinônimo de clandestinidade, como hoje se aplica no nosso querido Brasil.



Publicado no jornal Cinform 06/07/2009 – Caderno Emprego