segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Liberdade, Igualdade e Fraternidade nos negócios


O famoso lema da Revolução Francesa encerra nas três palavras ideais uma sabedoria que transborda o efeito de marketing ou de engajamento revolucionário. Desde então, elas formam um tripé de princípios que balizam o modelo social do ocidente. Daí decorre, por exemplo, a divisão do Estado em três poderes correlatos: Legislativo, Judiciário e Executivo.
Contudo, se pode observar que falhamos no entendimento e na aplicação desses princípios. Talvez, não tenhamos, enquanto sociedade, maturidade e racionalidade suficientes para que a ordem social flua com baixos conflitos de interesses. Também, nos cega a visão a paixão por ideologias raquíticas, frente à complexidade da sociedade contemporânea e do próprio homem, ainda o mais desconhecido objeto de estudo.
Ao longo da história, países assimilaram esses princípios ordenadores de forma gradual e em prazos distintos. Por certo, o primeiro princípio desejado e institucionalizado foi o da Liberdade. A Constituição Americana, de 1791, dispõe no seu primeiro aditivo: Liberdade de religião, de discurso, de imprensa e de livre associação. De igual modo, os movimentos pelo fim da escravidão varreram todo o planeta, apesar da derradeira Mauritânia só haver abolido em 1981 - inacreditável.
De forma empolgante, o princípio da Liberdade vasou dos espaços do pensar humano para a ação, tornando-se base do sistema econômico e, assim, distorcendo a harmonia, pela imposição do capital sobre todos os demais pilares das estruturas sociais. Extremamente motivador, o capitalismo se alia ao impulso natural do livre-arbítrio desviando-o de seu curso saudável para transformá-lo, facilmente, em egoísmo pragmático. Então, podemos ver claramente que a vida econômica não deve ser gerida, a priori, pelo pilar Liberdade.
A Igualdade é o segundo clamor social assimilado pelas constituições dos países. É mais recente que o desejo de liberdade e está muito presente, especialmente quando tratamos de Direitos Humanos: Igualdade de gênero, respeito a etnias, garantias de direitos individuais, acesso igual a pessoas com deficiência ou casamento entre pessoas do mesmo sexo. Enfim, todos devem ser tratados igualmente pela Lei.
     A Declaração Universal dos Direitos do Homem - DUDH, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1948, dispõe: “Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da lei”. Diante da clareza dessa Resolução, devemos clamar por justiça contra todo ato que atente contra a dignidade humana. Contudo, mais uma vez erramos quando aplicamos o princípio da Igualdade na vida econômica. Crer que pessoas possuem as mesmas motivações interiores ou a mesma capacidade produtiva é forçar uma realidade insustentável e perversa com as individualidades. Toda ação humana, inclusive o trabalho, é única, portanto desigual. Deixamos uma assinatura no que fazemos, pois nosso agir é uma extensão de nós mesmos.
Assim, impor igualdade na atividade econômica é desconhecer a realidade suprassensível, ou imaterial, do ser humano. Dessa morte anímica decorre a desmotivação e a improdutividade que minam os modelos econômicos planificados e, consequentemente, empobrece os países socialistas/comunistas. Ademais, coletivizar contraria a formação do livre-arbítrio.
Por fim, podemos enxergar como futura tendência o clamor público pela Fraternidade ou solidariedade (parece soar melhor). Esse deve ser o pilar da vida econômica correta. Implica em modelos ganha-ganha, ou seja, de colaboração e cooperação. “Fazer o bem sem olhar a quem” já é a regra número um do trabalho, porque temos que fazer nosso labor da melhor forma que podemos e, na maioria das vezes, sem sabermos para quem produzimos. Estamos mergulhados numa gigantesca rede de serviços anônima e autônoma, a servir uns aos outros sem distinção, por meio do nosso trabalho. Isto é, hoje, não produzimos para nós mesmos.
 DUDH, Art. I: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão  e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade”.



         Publicado no Jornal Cinform em 04/08/2014 - Caderno Emprego


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Inspirações alemãs: o negócio é ser humilde


 Vivemos uma época contraditória: nunca produzimos tantos excedentes materiais e, ao mesmo tempo, somos tão carentes de valores espirituais. Nesse ambiente sócio-competitivo e materialista, pequenos gestos nobres nos comovem a ponto de se tornarem sedutores ou fetiches.
Recentemente, assistimos a Copa do Mundo acontecida em nosso Brasil. Muito além do futebol, aliás, nativo da nossa alma, vimos outros gestos fenomenais. Simples e brilhante exemplo veio dos torcedores japoneses ao limpar, após os jogos, o espaço do estádio que ocuparam. Uma atitude que nos faz pensar tratar-se de uma torcida que fez uma campanha superior à do valente time oriental. Dificilmente, o time e seu futebol seria assunto para artigos jornalísticos pós-Copa, senão pela geração de valor do comportamento da educada torcida.
Igualmente superior, foi a performance extra-gramado da seleção alemã. A nobreza de comportamentos e atitudes do time germânico conquistou o Brasil. O massacre em campo contra nosso time, por 7x1, foi serenamente dissipado pelas demonstrações cavalheiras e respeitosas, dirigidas a nosso povo e símbolos. Venceram com mestria e dignidade.
Fosse uma empresa comercial, o time alemão seria vitorioso também. Aliás, o termo empresa se aplica corretamente a toda cruzada ou campanha que se realiza, conforme ensina o Dicionário Houaiss: “obra ou desígnio levada a efeito por uma ou mais pessoas; trabalho, tarefa para a realização de um objetivo; empreendimento. Ex.: as navegações portuguesas constituem e. notáveis”.
Com efeito, é com esse sentido de empresa que observamos o time campeão da Copa 2014, tirando algumas lições para nossos negócios: Valorizar a equipe como um todo pelo desempenho, ao invés de supervalorizar algumas estrelas; respeitar os adversários e, assim, valorizar mais a própria vitória; ser humilde e não tripudiar é reconhecer a transitoriedade dos fatos, já que ninguém será eternamente o melhor; como demonstrou a deslizada “dança do gaúcho”, em Berlim. Contudo, não seremos repetitivos nesse momento em que a mídia já disse tudo isso, inclusive da marca de gratidão e humildade que os vencedores registraram nos corações verde-amarelos.
A humildade é o contrário da arrogância. Por isso, os sábios e todos que têm sede de aprender são humildes. É típico do esnobe, pressupor que já sabe tudo, perdendo a chance de aprender mais e, assim, se desqualificando lentamente. “Tudo” é um nível impossível para a Educação e para a qualidade de nossos gestos, pois a potencialidade humana é ilimitada e elástica, esticando sempre quando dela necessitamos.
Ser humilde é ser humano. É ser fértil para o crédito alheio. Não por acaso, as palavras: humilde, humanidade e solo fértil derivam da mesma raiz latina “humus”. Simples: “do pó viemos e ao pó voltaremos”, faz a grande convergência. Então, ser humilde é atingir uma esfera humana tão primordial que desarma os argumentos mais bem elaborados nos conflitos e competições da vida, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado em um meio social consumista e predador, porém dotado de posturas insustentáveis em prazos maiores.
Exemplo corajoso de humildade aconteceu em 1970, quando o chanceler alemão Willy Brandt, viajou à Polônia, para comparecer a uma cerimônia em memória das vítimas do Gueto de Varsóvia. Foi, certamente, um grande desafio fazer essa aproximação em meio a uma ferida tão recente. Mesmo tendo preparado o difícil e bem elaborado discurso, na hora da cerimônia, Brandt não conseguia achar as palavras certas; e, em silêncio total, ajoelhou-se e abaixou a cabeça, num profundo gesto de penitência que abriu os caminhos para a dolorosa reconciliação. Naturalmente, esse gesto gerou polêmica, mas valeu mais que mil discursos racionais, pois tocou diretamente nos indefesos corações de todos.
     Por fim, que os bons e verdadeiros exemplos sejam vistos como instrumentos de novas relações humanas. Assim, nos inspira mais um nobre cavalheiro alemão, J. W. Goethe, inspirador da Pedagogia Waldorf: “Tudo quanto se destina a surtir efeito nos corações, do coração deve sair”.


           Publicado no Jornal Cinform em 21/07/2014 - Caderno Emprego
Publicado na revista TI&N nº 19, de ago/2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O novo Cacique Chá e o Senac


 Existem coisas que se eternizam e, até se tornam emblemáticas de épocas ou costumes de um povo. A Torre Eiffel virou o ícone de Paris, se incorporando de tal forma à paisagem da Cidade Luz, que gera em nossas cabeças uma vinculação imediata. A cultura possui seus símbolos, mas seus segredos mais profundos só se revelam aos autênticos ou iniciados. Daí, ser perturbador ao visitante externo, ter o contentamento realizado mais com o pitoresco do que com a essência do local.
Isso é o que acontece com o Cacique Chá e a cultura aracajuana. Pois, como inúmeras outras casas comerciais, esse restaurante-boate (familiar) foi inaugurado no ano de 1950, no centro da cidade de Aracaju. Porém, se torna único, por sua história, como um ponto de encontro da boêmia, da intelectualidade e da política sergipana. No duro período do regime militar, a casa abrigou as conversas da esquerda e dos que faziam a oposição possível, de então. Jornalistas e formadores de opinião renovavam e difundiam suas ideias, auxiliados por generosos goles etílicos e deliciosos petiscos. A ambiência favorecia os encontros, afinal alguém já disse que, “não é possível estar dentro da civilização e fora da arte”.
Certamente, a gastronomia é um atrativo para um restaurante; a simpatia dos proprietários e de sua equipe, também. Acrescente ao local a mais fina arte modernista brasileira e teremos a fórmula de décadas de sucesso desse empreendimento, hoje, tombado pelo Patrimônio Artístico. O autor dos painéis pintados diretamente sobre as paredes é o internacional Jenner Augusto. Sergipano, foi precursor da Arte Moderna. Atuante, pois, além da influência local, integrou o movimento de renovação das artes plásticas na Bahia, durante a década de 50, junto com Mário Cravo Jr., Genaro de Carvalho, Carlos Bastos e Carybé, entre outros.  

No site do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – USP -, constam ainda os seguintes dizeres sobre sua biografia: “Filho de uma professora, Jenner passou grande parte de sua infância mudando pelas cidades do interior de Sergipe. Humilde, trabalhou como engraxate, sapateiro, ajudante de alfaiate, pintor de paredes, até começar a fazer cartazes para filmes. Começa a se interessar pela obra de Horácio Hora (1853 - 1890) na década de 40, o que incentiva a sua pesquisa no campo da pintura. Seus primeiros trabalhos são acadêmicos, já que o contato com o Modernismo já amadurecido no Rio de Janeiro e em São Paulo era quase impossível. Por volta de 45, data de sua primeira exposição, começa a integrar-se no ambiente artístico de Aracajú, e em 49 realiza a decoração do Bar Cacique, marco da Arte Moderna no Sergipe, onde aparece clara influência de Portinari, prova que as informações dos centros culturais do país começavam a chegar às capitais”.

Esses dias, o Governo de Sergipe reinaugurou o prédio do Cacique Chá, restaurando com primor a rica obra de Jenner Augusto, assim resgatando uma bela parte da nossa história e acervo artístico. A utilização desse novo espaço se fará por meio do Senac em Sergipe, que está devidamente autorizado a oferecer amplo acesso à apreciação das obras  de Jenner, combinado com o funcionamento de uma confeitaria/café-escola. Desse modo, haverá convergência de ações culturais, educacionais, gastronômicas e turísticas, reforçando o interesse público no uso desse patrimônio, sua memória e enaltecendo os valores da terra.

Pelo visto, muito do que se realiza hoje foi sonhado ali, décadas atrás. Vários dos atuais “caciques” sergipanos foram jovens idealistas, frequentadores do Cacique Chá. Desejamos que nele, o Senac forme novos profissionais para o mundo do trabalho, futuros “caciques” com muitas competências, completando o famoso nome e perfazendo a correspondente sigla CHA (Conhecimentos, Habilidades e Atitudes).

    Parabéns para os responsáveis, pela sensibilidade e iniciativa de recuperar e disponibilizar, aos de hoje, essa obra prima das artes plásticas universais. Aliás, como disse Pablo Picasso: “Na arte, não existe passado nem futuro. A arte que não está no presente não existirá nunca”.


Publicado no Jornal Cinform em 07/07/2014 - Caderno Emprego
            Publicado no jornal Coerente de 01/08/14 p.03

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Pronatec contra a educação platônica


O Governo Federal anunciou esses dias o lançamento do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego - Pronatec 2.0 -, elevando o status atual de Programa de Governo para Programa de Estado. Em outras palavras, tornar-se-á objeto de duradoura e estável Lei, assegurando sua permanência com mais vigor e independência aos movimentos eleitorais.
Considerando o desempenho do Pronatec, desde sua criação em 2011, vê-se assegurado o pleno êxito no atingimento da meta de oito milhões de matrículas em cursos profissionalizantes gratuitos, até o final de 2014. Também, merece destaque a qualidade desses cursos, já que são ofertados pelo “Sistema S” (Senac, Senai, Senat, Senar), institutos federais, escolas profissionalizantes estaduais e faculdades particulares de melhor conceito na avaliação do Enade.
São mais que justificáveis os motivos para a renovação e ampliação desse Programa: os investimentos em educação no Brasil se mostram insuficientes para os desafios da moderna Economia. Infelizmente, a produtividade do nosso trabalhador é sofrível quando comparada à de países mais ricos e, uma das causas, é a baixa qualidade da escola combinada aos poucos anos de frequência do aluno. Assim, além de dispormos de uma escola que, em geral, não relaciona o conteúdo curricular com a aplicação desse mesmo saber no cotidiano, ela, ainda parece ser um elemento acessório no contexto socioeconômico, pois carece de pertencimento e sentido de prioridade no modelo mental dos brasileiros.
Mas, isso vai mudar. Temos que acreditar e fazer por onde. Imaginemos, num sonho, que todos os brasileiros fossem estudantes. Os trabalhadores estudassem sistematicamente e os empresários também. Os funcionários públicos estudantes, dessem exemplos de melhores práticas e, principalmente, os professores, que também seriam alunos cativos, aprimorando e vivificando seu labor. Segundo a Pedagogia Waldorf, quando o professor se mostra estudioso, influencia automática e positivamente seus alunos e, por isso recomenda que o docente lecione na mesma turma, do primeiro ao oitavo ano do Ensino Fundamental, em um desafio que o obriga a crescer junto com seus alunos.
Com efeito, o Brasil com duzentos milhões de estudantes, faria uma revolução capaz de se reinventar em médio prazo, sem conflitos, onde todos sairiam ganhando, desde que, essa Educação não seguisse ideais platônicos. Como assim? Historicamente, o trabalho sempre foi visto como algo degradante e sinônimo de submissão ou pobreza. Platão, no século V a.C., mesmo sendo reconhecido como um dos maiores pensadores da história, abominava o trabalho manual. Desse modo, ele entendia que os escravos iriam para o inferno, juntamente com os artistas plásticos e todos aqueles que pertencessem à nata da sociedade, mas que desenvolvessem atividades com as mãos, a exemplo de esculturas ou pinturas. Platão valorizava apenas o trabalho mental, os ideais, a oratória e as projeções irrealizáveis. De tal modo, esse filósofo se traduz em utopias e paixões inatingíveis, quando propõe que devemos amar apenas os ideais.
Em paralelo, essa imagem platônica compõe o cenário de uma escola em que os conteúdos cognitivos não chegam às mãos dos estudantes, permanecendo como ideais irrealizáveis em suas cabeças. Portanto, qualquer coincidência é mera semelhança mesmo.
Contra isso, a práxis educacional deve equilibrar teoria e prática sistematicamente, o que fará brilhar a participação dos alunos e, acima de tudo, trará significância para o conhecimento. Essa composição mais harmoniosa é o que se vê costumeiramente na Educação Profissional, ao formar o elo do desenvolvimento de habilidades com conhecimentos.
O Pronatec provê, para além dos reconhecidos benefícios sociais e econômicos, um sutil e importante ganho pedagógico para os alunos de cursos técnicos concomitantes à escola regular: ao ofertar o “aprender a fazer” e o “aprender a conviver”, o Pronatec combate a educação platônica (ou bancária na visão freiriana). Afinal, como Heródoto, contemporâneo de Platão disse: “educar não é encher um balde, é acender um fogo”.

Publicado no Jornal Cinform em 23/06/2014 - Caderno Emprego


sexta-feira, 20 de junho de 2014

As dicas do SENAC para quem quer empreender - Entrevista

O diretor do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial em Sergipe (SENAC-SE), Paulo do Eirado Dias Filho, aceitou o convite da revista do CJE e falou sobre empreendedorismo no dia-a-dia de trabalho do SENAC, além de destacar ferramentas importantes para ser um jovem empreendedor de sucesso. Confira as dicas.


Como acontece o trabalho do SENAC para o ponto de vista empreendedor?

No Senac, o empreendedorismo acontece como tema transversal na maioria dos cursos técnicos e como disciplina nos cursos de gestão e administração de negócios. Com a implantação do Programa Senac Pleno, uma plataforma de engajamento para nossos alunos, consolidamos o Empreendedorismo, a Superação e a Realização Pessoal como objetivos da formação que oferecemos. Porém, para nós, Empreendedorismo tem significado de “realizar o próprio projeto de vida”, que pode ser um negócio próprio, a carreira profissional ou implantar uma ONG. Enfim, empreender é construir sonhos.


Na sua visão, quais os principais desafios enfrentados hoje para um jovem empreendedor?

O primeiro desafio é superar o modelo conformador da escola e de ideologias que nos tolhem a criatividade e a iniciativa. O segundo é ser diferente (senão não é empreendedor) e aceitar-se assim, acreditando que seu sonho pode ser concretizado. E o terceiro é enfrentar o ambiente brasileiro, extremamente hostil para a iniciativa privada, seja pela burocracia, custo do dinheiro, concorrência desonesta, CLT arcaica, poucas informações disponíveis para tomada de decisões, instabilidade jurídica – até o passado fica incerto. São muitos outros, mas fico por aqui.


Como ser um jovem empreendedor de sucesso?

O empreendedor tem uma maneira muito peculiar de pensar. Ele é capaz de inverter a famosa “Pirâmide de Maslow”, deixando para trás as necessidades mais elementares como vestir-se e alimentar-se bem porque está focado em seus objetivos realizadores. Então, o que é sucesso para o empreendedor pode não ser considerado sucesso para a maioria das pessoas. Finalizando, o empreendedor só alcançará o sucesso, qualquer que seja sua visão de sucesso, à custa de muita persistência, superação e autoconfiança.


Quais temáticas são mais constantes nas reuniões entre jovens empreendedores?

Penso que é a busca de oportunidades (nichos) e as formas de minimizar os riscos.


Quais as dicas que o senhor daria para um empreendimento de sucesso?

Trabalhar com o espírito de servir. Hoje, ninguém mais trabalha para si próprio. Temos, na economia, uma grande rede de pessoas trabalhando umas para outras anonimamente e devemos fazer tudo da melhor forma possível, mesmo sem saber quem será o usuário daquele produto que fabricamos. Tenho visto que o serviço, e não o produto, é que leva ao crescimento continuado. Fazer o bem sem olhar a quem, me parece a fórmula para alimentar essa rede econômica.


Quais as características necessárias para reconhecer um jovem com potencial empreendedor?

Alguns jovens revelam talentos natos para empreender, o que é muito bom. Porém, estudos profundos desenvolvidos pela Universidade de Harvard (USA) demonstram que as características ideais para o empreendedor podem ser adquiridas a partir de treinamentos, a exemplo do curso Empretec – ministrado pelo Sebrae no Brasil. É nisso que eu acredito.
Quem quer ser empreendedor deve saber que a luta não será pequena nem leve, mas as vitórias terão sabores especiais. Exercitar, portanto, a visão de longo prazo pode ajudar a superar adversidades e levar a novos horizontes, onde poucos chegam.


Para finalizar o que o senhor diria como motivação para jovens que têm a ideia no papel, mas, por algum motivo não se arriscam e colocam o projeto em prática?

Que façam cursos sobre empreendedorismo, isso comprovadamente, reduz muito a mortalidade de empresas; que busquem informações sobre o ambiente no qual pretende empreender; que se desapeguem do seu produto para vê-lo sob a ótica do consumidor; e não dêem salto no escuro – mas assumam riscos. E, principal de todos, autoconfiança: se vocês não acreditarem em seu projeto, ninguém mais acreditará.


          Jornalista-DRT/SE-1411
          Marília Farias

          Publicado na revista Jovem Empreendedor nº 01, maio de 2014



segunda-feira, 9 de junho de 2014

Poesia numa hora dessas?



Tomamos emprestada do brilhante Luis Fernando Verissímo, a frase título deste texto. Afinal, ela cai como uma luva para demonstrar o efeito que a arte produz nos resultados da educação regular e em outros inúmeros momentos cotidianos.
A arte é libertadora da alma humana. Ela nos permite errar saudavelmente e saborear pitadas de nossas próprias imperfeições sem maiores cobranças. Assim, podemos reconhecer na prática artística o caráter terapêutico que nos proporciona. É certo que ninguém sem domínio de um instrumento musical ou de um pincel, vá se cobrar uma performance exemplar no uso desses, mesmo sendo uma pessoa extremamente perfeccionista, lá no seu ambiente de trabalho. Daí, o resultado salutar que o fazer artístico ou dos trabalhos manuais produz nos seus praticantes amadores.
Dentro do trabalho escolar, a atividade artística se torna aliada, de primeira hora, da aprendizagem propedêutica (conhecimento básico das disciplinas), pois abre espaço afetivo para recepcionar novos conhecimentos e amplia as estruturas cognitivas para abstrações mais complexas dos alunos.
O nome maior das letras alemãs, Goethe, nos ensinou que “em toda parte nós aprendemos de quem amamos” pois, “de resto, abomino tudo aquilo que me instrui sem aumentar e estimular imediatamente a minha atividade” afinal, “depois de todos os nossos estudos, adquirimos somente aquilo que pomos em prática”. Ou seja, tal qual uma fechadura de banheiro, o nosso acesso à aprendizagem, também só pode ser aberto por dentro. Portanto, a afetividade é a chave que disponibiliza a cognição; e a prática é o que faz o conhecimento se fixar para sempre. Cabe ao educador convidar o aluno a girar sua fechadura de “ocupado” para “livre”.
Podemos ver na imagem do ser humano duas polaridades opostas em suas atividades anímicas: o pensar e o querer. O pensar é a expressão de nossa consciência, se realiza em um ambiente de pleno silêncio, baixíssimo metabolismo e ausência de movimentos internos. Inversamente, a nossa vontade se manifesta de forma exemplar em nossas vísceras, órgãos disformes e autônomos, de ação inconsciente e involuntária. Isto é, agem de acordo com seus próprios impulsos e ritmos, representando a vontade em sua manifestação bruta. Intermediando esses pólos opostos do pensar (cognitivo) e do querer (volitivo) está o sistema ritmíco, composto, principalmente, por coração e pulmões. Seu funcionamento equilibra as forças antagônicas dos demais polos pelo caminho dos sentimentos (emotivo).
Com base nessa visão, o caminho da educação integral passa por essas três esferas da alma humana. Rudolf Steiner, criador da Pedagogia Waldorf, ensina que os processos do pensamento são intolerantes com repetições pois, ao pensarmos algo, imediatamente buscamos um novo pensamento a partir daquele, e assim sucessivamente. Opostamente, a vontade deve ser educada por processos repetitivos para que se forme um hábito ou uma habilidade necessária. Aprender como dirigir um carro, na teoria não deve demorar mais do que alguns minutos de pensamento. Porém, a aquisição da segurança na condução prática do veículo depende de muitos dias de exercícios para o domínio mínimo aceitável. Então como compatibilizar a necessidade de repetições para aquisição de habilidades com o afoito “pensar”? Através da prática de atividades artísticas.
Tal resposta veio do próprio Steiner no seu livro A arte da educação vol.I: “Por que o elemento artístico atua tão especialmente sobre a formação da vontade? Primeiro, porque o exercício consiste da repetição, e segundo, porque a pessoa sente um prazer sempre renovado pelo que aprendeu em matéria de arte. Aprecia-se o artístico sempre novamente, e não apenas da primeira vez. O elemento artístico tem já por si a propriedade de alegrar o homem não só uma vez, mas sempre de novo. Daí a relação entre nossas intenções pedagógicas e o elemento artístico”.  
Caso lhe recomendem fazer uma obra de arte durante os estudos para um concurso. Não pergunte, - Poesia numa hora dessas? Faça, pode ser a chave do seu melhor desempenho.

                                                      

Publicado no Jornal Cinform em 09/06/2014 - Caderno Emprego


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Quatro pontos cordiais


 Durante a ECO-92, no Rio de Janeiro, a ioguina indiana Dadi Janki, hoje com 98 anos, recebeu da ONU o título de Guardiã do Planeta por seu trabalho em prol de mentes mais livres e pacíficas, declarando no seu pronunciamento: “Porque tudo o que acontece neste mundo começa antes no coração das pessoas”.
Enaltecer as coisas do coração (ou cordiais) no mundo dos negócios e da educação soa destoante nesse universo de estética hiperintelectual. Mas, essa reduzida cosmovisão está gerando prejuízos na avaliação de tendências e, consequentemente, na tomada de decisões de grandes executivos e de formuladores de políticas educacionais.
Recentemente, uma famosa cervejaria europeia, desiludida com as avaliações cartesianas resultantes de pesquisas de marketing, que não apontavam as reais causas da queda das vendas, resolveu incumbir um grupo de antropólogos de visitar bares para descobrir a razão do declínio. Após dezenas de horas de vídeos, milhares de fotografias e páginas de anotações nas cadernetas de campo, executivos juntaram-se aos antropólogos para, debruçados sobre os dados brutos, buscarem alguns padrões legíveis de explicação.
Os porquês logo surgiram em meio a subjetividades invisíveis aos padrões de pesquisas comuns. Os brindes “tamanho único”, distribuídos pela Cia., a tensão constante sofrida pelas garçonetes assediadas pelos clientes e, a falta de uma abordagem educativa para donos de bares e seus colaboradores, foram motivações para a perda de espaço comercial da cerveja. Assim, criar “escolas” para treinar garçons e donos de bares no domínio dos produtos, personalizar brindes “sob medida” e pagar táxi para as garçonetes voltarem para casa após expediente noturno, garantiram a retomada do crescimento contínuo das vendas. Fruto do olhar pelo coração.
De forma semelhante, a Lego, tradicional fábrica de brinquedos, contratou equipes de ciências humanas para, por meio da prática da fenomenologia, entender as reais motivações de seus clientes, pais e crianças ao brincarem com seus kits. O resultado dessa abordagem fez a empresa voltar a crescer e sair da crise que se envolveu há cerca de dez anos, quando houve uma perda de conexão dos antigos clientes com os novos produtos da marca, mais frios e simples que os tradicionais. A pesquisa revelou que muitas crianças brincavam com Lego para fugir de seus excessivos compromissos e para desenvolver novas habilidades, contrariamente ao que se imaginava: que lhes faltavam tempo e interesse.
O que é o fenômeno brincar, a experiência das crianças ao brincar e onde a Lego se encaixaria nessas necessidades? A resposta implicou no comprometimento da marca com a criação de significado nos seus produtos e no que eles representam no campo afetivo. Novamente, o coração mostrou o caminho onde a ciência exata vacilou.

Ao formar o vínculo emocional do aluno com o assunto abordado pelo educador, a aprendizagem ocorre com profundidade, seja esse impulso de atração ou de oposição ao tema. É o que demonstra a história a seguir:

Numa escola pública, estava ocorrendo uma situação inusitada:
Uma turma de meninas de 12 anos que usavam batom, todos os dias beijavam o espelho para remover o excesso do batom. O diretor andava bastante aborrecido, porque o zelador tinha um trabalho enorme para limpar o espelho no final do dia! Mas, como sempre, na tarde seguinte, lá estavam as mesmas marcas de batom...
Um dia, o diretor juntou todas as meninas no banheiro e explicou pacientemente que era muito complicado limpar o espelho com todas aquelas marcas que elas faziam. Fez uma palestra de uma hora. No dia seguinte, as marcas de batom no banheiro, reapareceram...
No outro dia, o diretor reuniu novamente todas as meninas junto com o zelador no banheiro e pediu ao zelador para demonstrar a dificuldade do trabalho. O zelador imediatamente pegou um pano, molhou bem molhado no vaso sanitário e passou no espelho. Nunca mais aparecerem marcas no espelho!
     Pelo visto, foi com a razão e o coração que Jung, discípulo de Freud, afirmou: “A ciência não é imune à concepção inconsciente do mundo”.



Publicado no Jornal Cinform em 02/06/2014 - Caderno Emprego
Publicado na revista TI&N nº 18, de jun/2014