sexta-feira, 20 de junho de 2014

As dicas do SENAC para quem quer empreender - Entrevista

O diretor do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial em Sergipe (SENAC-SE), Paulo do Eirado Dias Filho, aceitou o convite da revista do CJE e falou sobre empreendedorismo no dia-a-dia de trabalho do SENAC, além de destacar ferramentas importantes para ser um jovem empreendedor de sucesso. Confira as dicas.


Como acontece o trabalho do SENAC para o ponto de vista empreendedor?

No Senac, o empreendedorismo acontece como tema transversal na maioria dos cursos técnicos e como disciplina nos cursos de gestão e administração de negócios. Com a implantação do Programa Senac Pleno, uma plataforma de engajamento para nossos alunos, consolidamos o Empreendedorismo, a Superação e a Realização Pessoal como objetivos da formação que oferecemos. Porém, para nós, Empreendedorismo tem significado de “realizar o próprio projeto de vida”, que pode ser um negócio próprio, a carreira profissional ou implantar uma ONG. Enfim, empreender é construir sonhos.


Na sua visão, quais os principais desafios enfrentados hoje para um jovem empreendedor?

O primeiro desafio é superar o modelo conformador da escola e de ideologias que nos tolhem a criatividade e a iniciativa. O segundo é ser diferente (senão não é empreendedor) e aceitar-se assim, acreditando que seu sonho pode ser concretizado. E o terceiro é enfrentar o ambiente brasileiro, extremamente hostil para a iniciativa privada, seja pela burocracia, custo do dinheiro, concorrência desonesta, CLT arcaica, poucas informações disponíveis para tomada de decisões, instabilidade jurídica – até o passado fica incerto. São muitos outros, mas fico por aqui.


Como ser um jovem empreendedor de sucesso?

O empreendedor tem uma maneira muito peculiar de pensar. Ele é capaz de inverter a famosa “Pirâmide de Maslow”, deixando para trás as necessidades mais elementares como vestir-se e alimentar-se bem porque está focado em seus objetivos realizadores. Então, o que é sucesso para o empreendedor pode não ser considerado sucesso para a maioria das pessoas. Finalizando, o empreendedor só alcançará o sucesso, qualquer que seja sua visão de sucesso, à custa de muita persistência, superação e autoconfiança.


Quais temáticas são mais constantes nas reuniões entre jovens empreendedores?

Penso que é a busca de oportunidades (nichos) e as formas de minimizar os riscos.


Quais as dicas que o senhor daria para um empreendimento de sucesso?

Trabalhar com o espírito de servir. Hoje, ninguém mais trabalha para si próprio. Temos, na economia, uma grande rede de pessoas trabalhando umas para outras anonimamente e devemos fazer tudo da melhor forma possível, mesmo sem saber quem será o usuário daquele produto que fabricamos. Tenho visto que o serviço, e não o produto, é que leva ao crescimento continuado. Fazer o bem sem olhar a quem, me parece a fórmula para alimentar essa rede econômica.


Quais as características necessárias para reconhecer um jovem com potencial empreendedor?

Alguns jovens revelam talentos natos para empreender, o que é muito bom. Porém, estudos profundos desenvolvidos pela Universidade de Harvard (USA) demonstram que as características ideais para o empreendedor podem ser adquiridas a partir de treinamentos, a exemplo do curso Empretec – ministrado pelo Sebrae no Brasil. É nisso que eu acredito.
Quem quer ser empreendedor deve saber que a luta não será pequena nem leve, mas as vitórias terão sabores especiais. Exercitar, portanto, a visão de longo prazo pode ajudar a superar adversidades e levar a novos horizontes, onde poucos chegam.


Para finalizar o que o senhor diria como motivação para jovens que têm a ideia no papel, mas, por algum motivo não se arriscam e colocam o projeto em prática?

Que façam cursos sobre empreendedorismo, isso comprovadamente, reduz muito a mortalidade de empresas; que busquem informações sobre o ambiente no qual pretende empreender; que se desapeguem do seu produto para vê-lo sob a ótica do consumidor; e não dêem salto no escuro – mas assumam riscos. E, principal de todos, autoconfiança: se vocês não acreditarem em seu projeto, ninguém mais acreditará.


          Jornalista-DRT/SE-1411
          Marília Farias

          Publicado na revista Jovem Empreendedor nº 01, maio de 2014



segunda-feira, 9 de junho de 2014

Poesia numa hora dessas?



Tomamos emprestada do brilhante Luis Fernando Verissímo, a frase título deste texto. Afinal, ela cai como uma luva para demonstrar o efeito que a arte produz nos resultados da educação regular e em outros inúmeros momentos cotidianos.
A arte é libertadora da alma humana. Ela nos permite errar saudavelmente e saborear pitadas de nossas próprias imperfeições sem maiores cobranças. Assim, podemos reconhecer na prática artística o caráter terapêutico que nos proporciona. É certo que ninguém sem domínio de um instrumento musical ou de um pincel, vá se cobrar uma performance exemplar no uso desses, mesmo sendo uma pessoa extremamente perfeccionista, lá no seu ambiente de trabalho. Daí, o resultado salutar que o fazer artístico ou dos trabalhos manuais produz nos seus praticantes amadores.
Dentro do trabalho escolar, a atividade artística se torna aliada, de primeira hora, da aprendizagem propedêutica (conhecimento básico das disciplinas), pois abre espaço afetivo para recepcionar novos conhecimentos e amplia as estruturas cognitivas para abstrações mais complexas dos alunos.
O nome maior das letras alemãs, Goethe, nos ensinou que “em toda parte nós aprendemos de quem amamos” pois, “de resto, abomino tudo aquilo que me instrui sem aumentar e estimular imediatamente a minha atividade” afinal, “depois de todos os nossos estudos, adquirimos somente aquilo que pomos em prática”. Ou seja, tal qual uma fechadura de banheiro, o nosso acesso à aprendizagem, também só pode ser aberto por dentro. Portanto, a afetividade é a chave que disponibiliza a cognição; e a prática é o que faz o conhecimento se fixar para sempre. Cabe ao educador convidar o aluno a girar sua fechadura de “ocupado” para “livre”.
Podemos ver na imagem do ser humano duas polaridades opostas em suas atividades anímicas: o pensar e o querer. O pensar é a expressão de nossa consciência, se realiza em um ambiente de pleno silêncio, baixíssimo metabolismo e ausência de movimentos internos. Inversamente, a nossa vontade se manifesta de forma exemplar em nossas vísceras, órgãos disformes e autônomos, de ação inconsciente e involuntária. Isto é, agem de acordo com seus próprios impulsos e ritmos, representando a vontade em sua manifestação bruta. Intermediando esses pólos opostos do pensar (cognitivo) e do querer (volitivo) está o sistema ritmíco, composto, principalmente, por coração e pulmões. Seu funcionamento equilibra as forças antagônicas dos demais polos pelo caminho dos sentimentos (emotivo).
Com base nessa visão, o caminho da educação integral passa por essas três esferas da alma humana. Rudolf Steiner, criador da Pedagogia Waldorf, ensina que os processos do pensamento são intolerantes com repetições pois, ao pensarmos algo, imediatamente buscamos um novo pensamento a partir daquele, e assim sucessivamente. Opostamente, a vontade deve ser educada por processos repetitivos para que se forme um hábito ou uma habilidade necessária. Aprender como dirigir um carro, na teoria não deve demorar mais do que alguns minutos de pensamento. Porém, a aquisição da segurança na condução prática do veículo depende de muitos dias de exercícios para o domínio mínimo aceitável. Então como compatibilizar a necessidade de repetições para aquisição de habilidades com o afoito “pensar”? Através da prática de atividades artísticas.
Tal resposta veio do próprio Steiner no seu livro A arte da educação vol.I: “Por que o elemento artístico atua tão especialmente sobre a formação da vontade? Primeiro, porque o exercício consiste da repetição, e segundo, porque a pessoa sente um prazer sempre renovado pelo que aprendeu em matéria de arte. Aprecia-se o artístico sempre novamente, e não apenas da primeira vez. O elemento artístico tem já por si a propriedade de alegrar o homem não só uma vez, mas sempre de novo. Daí a relação entre nossas intenções pedagógicas e o elemento artístico”.  
Caso lhe recomendem fazer uma obra de arte durante os estudos para um concurso. Não pergunte, - Poesia numa hora dessas? Faça, pode ser a chave do seu melhor desempenho.

                                                      

Publicado no Jornal Cinform em 09/06/2014 - Caderno Emprego


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Quatro pontos cordiais


 Durante a ECO-92, no Rio de Janeiro, a ioguina indiana Dadi Janki, hoje com 98 anos, recebeu da ONU o título de Guardiã do Planeta por seu trabalho em prol de mentes mais livres e pacíficas, declarando no seu pronunciamento: “Porque tudo o que acontece neste mundo começa antes no coração das pessoas”.
Enaltecer as coisas do coração (ou cordiais) no mundo dos negócios e da educação soa destoante nesse universo de estética hiperintelectual. Mas, essa reduzida cosmovisão está gerando prejuízos na avaliação de tendências e, consequentemente, na tomada de decisões de grandes executivos e de formuladores de políticas educacionais.
Recentemente, uma famosa cervejaria europeia, desiludida com as avaliações cartesianas resultantes de pesquisas de marketing, que não apontavam as reais causas da queda das vendas, resolveu incumbir um grupo de antropólogos de visitar bares para descobrir a razão do declínio. Após dezenas de horas de vídeos, milhares de fotografias e páginas de anotações nas cadernetas de campo, executivos juntaram-se aos antropólogos para, debruçados sobre os dados brutos, buscarem alguns padrões legíveis de explicação.
Os porquês logo surgiram em meio a subjetividades invisíveis aos padrões de pesquisas comuns. Os brindes “tamanho único”, distribuídos pela Cia., a tensão constante sofrida pelas garçonetes assediadas pelos clientes e, a falta de uma abordagem educativa para donos de bares e seus colaboradores, foram motivações para a perda de espaço comercial da cerveja. Assim, criar “escolas” para treinar garçons e donos de bares no domínio dos produtos, personalizar brindes “sob medida” e pagar táxi para as garçonetes voltarem para casa após expediente noturno, garantiram a retomada do crescimento contínuo das vendas. Fruto do olhar pelo coração.
De forma semelhante, a Lego, tradicional fábrica de brinquedos, contratou equipes de ciências humanas para, por meio da prática da fenomenologia, entender as reais motivações de seus clientes, pais e crianças ao brincarem com seus kits. O resultado dessa abordagem fez a empresa voltar a crescer e sair da crise que se envolveu há cerca de dez anos, quando houve uma perda de conexão dos antigos clientes com os novos produtos da marca, mais frios e simples que os tradicionais. A pesquisa revelou que muitas crianças brincavam com Lego para fugir de seus excessivos compromissos e para desenvolver novas habilidades, contrariamente ao que se imaginava: que lhes faltavam tempo e interesse.
O que é o fenômeno brincar, a experiência das crianças ao brincar e onde a Lego se encaixaria nessas necessidades? A resposta implicou no comprometimento da marca com a criação de significado nos seus produtos e no que eles representam no campo afetivo. Novamente, o coração mostrou o caminho onde a ciência exata vacilou.

Ao formar o vínculo emocional do aluno com o assunto abordado pelo educador, a aprendizagem ocorre com profundidade, seja esse impulso de atração ou de oposição ao tema. É o que demonstra a história a seguir:

Numa escola pública, estava ocorrendo uma situação inusitada:
Uma turma de meninas de 12 anos que usavam batom, todos os dias beijavam o espelho para remover o excesso do batom. O diretor andava bastante aborrecido, porque o zelador tinha um trabalho enorme para limpar o espelho no final do dia! Mas, como sempre, na tarde seguinte, lá estavam as mesmas marcas de batom...
Um dia, o diretor juntou todas as meninas no banheiro e explicou pacientemente que era muito complicado limpar o espelho com todas aquelas marcas que elas faziam. Fez uma palestra de uma hora. No dia seguinte, as marcas de batom no banheiro, reapareceram...
No outro dia, o diretor reuniu novamente todas as meninas junto com o zelador no banheiro e pediu ao zelador para demonstrar a dificuldade do trabalho. O zelador imediatamente pegou um pano, molhou bem molhado no vaso sanitário e passou no espelho. Nunca mais aparecerem marcas no espelho!
     Pelo visto, foi com a razão e o coração que Jung, discípulo de Freud, afirmou: “A ciência não é imune à concepção inconsciente do mundo”.



Publicado no Jornal Cinform em 02/06/2014 - Caderno Emprego
Publicado na revista TI&N nº 18, de jun/2014

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Ondas empreendedoras mundiais


A noção de progresso está diretamente relacionada à ação dos empreendedores. Estes são os responsáveis pelas mudanças estruturais, inclusive as mais profundas socialmente, abrindo as estradas por onde a humanidade caminhará. Ou, nas palavras de Nicolau Maquiavel: “os homens trilham quase sempre estradas já percorridas”. Assim, diferentemente da imagem de pessoa gananciosa ou capitalista radical, o empreendedor é um artista, um criador. É aquele que está sempre em busca de realizar sonhos e nunca desiste. Estes sonhos podem se realizar em diversos campos da atuação humana, como artes, negócios, ciências sociais, tecnologia, economia ou política, dentre outros.

     Ao longo da história recente, a primeira grande onda de empreendedorismo surge em torno de 1850, perdurando até 1914, quando explode a I Guerra Mundial. Nesse curto período, a realidade se transformou com a gênese do mundo moderno. Em 1856, a Siemens lança o dínamo, um revolucionário gerador de energia elétrica.

     Já, em 1911, surge a válvula eletrônica, pré-requisito para o acontecimento da televisão e demais eletrônicos. Entre esses eventos, surgem a máquina de escrever, o automóvel, o avião, a lâmpada elétrica, as drogas sintéticas, o rádio, os tratores, o bonde urbano, fotografia colorida, o motor de combustão interna, a cirurgia asséptica, o fonógrafo, o refrigerador e muitas outras invenções que nos fizeram modernos. Por certo, esse foi o tempo em que a humanidade mais se espantou com suas próprias realizações.

     No período entre guerras, de 1914 a 1945, acontece um apagão nos processos inovadores, quando, além da crise mundial decorrente das guerras e do desarranjo econômico, ocorre um mergulho nos processos gerenciais. Isto é, uma introspecção do fenômeno empresarial, que resulta no culto à grande empresa, vista como redentora dos problemas econômicos e sociais e, modelo ideal de desenvolvimento saudável, apesar da forte aliança que mantem com governos e sindicatos. Dessa forma, a pequena empresa passa a ser mal vista nesses tempos, simbolizando um negócio precário.

     Após a Segunda Guerra, as grandes empresas encarnam o modelo Luís XIV – “o Estado sou Eu” –, redefinindo rumos econômicos e sociais às nações. Célebre é a controvertida frase atribuída a Charles Wilson, ex-presidente da GM: “o que é bom para a General Motors é bom para o País”, que vem a ser emblemática dessa relação incestuosa do Estado com a grande empresa, ainda hoje, muito presente, inclusive no Brasil.

     Ao raiar da década de 1980, ressurge o empreendedorismo com força total, ameaçando a grande empresa e o modelo impositivo da economia de escala. A substituição de átomos por bits cria novas oportunidades que favorecem ao empreendedorismo “de garagem”. Inúmeras pequenas empresas surgem na nova onda da economia do conhecimento, muito mais favorável à gestão desburocratizada da pequena empresa do que a da grande corporação.

     Por ser nossa contemporânea, essa segunda grande onda empreendedora assistimos ao vivo e a cores. Na realidade, estamos imersos nela quando “navegamos” na internet, usamos nossos potentes aparelhos celulares, fazemos videoconferência até dentro de um ônibus urbano ou, quando nos submetemos a cirurgias realizadas por precisos robôs. Aquelas garagens de 1980 para cá, ocupadas por estudiosos empreendedores, gestaram as marcas mais valiosas de hoje: Google, Microsoft, HP, Apple e outras.

     Essas ondas empreendedoras globais, como imensos tsunamis, causaram um fenômeno histórico revolucionário: arrastaram o eixo do Ocidente mais ao ocidente ainda. Ou seja, elas deslocaram o epicentro ocidental da Europa para a América do Norte, região que viveu subordinada aos europeus por séculos. Paralelamente, o Brasil se reconhece brasileiro, encontrando seu caminho como nação, exatamente na entressafra potencial europeia – o período entre guerras mundiais –, lançando seu manifesto artístico empreendedor na famosa Semana de 22, incubadora da alma nacional.

     Quanto mais faltar incentivo ao empreendedorismo, mais se cria espaço para o antagônico clientelismo. Para você, isso faz sentido?



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Publicado no Jornal Cinform em 12/05/2014 - Caderno Emprego
Publicado na revista TI&N nº 24 - jun/2015


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Brasil, um país feito a pau e Pedro

Muitos historiadores creditam ao acaso a descoberta das terras brasileiras por Pedro (Álvares Cabral). Verdade ou não, essa suspeita já carrega uma inquietação crônica e única: se houve de fato esse acaso, então o destino quis, aqui, promover a unificação definitiva de correntes humanas, afastadas entre si por dezenas de milhares de anos. É o que asseguram diversas escolas antropológicas sobre o povoamento das Américas. Convenhamos, esse tal de descobrimento não é tão fácil de entender como parece, até porque, as condições de saúde dos índios eram superiores às dos recém-chegados, conforme atestou Pedro (Vaz de Caminha) na sua célebre carta.

     Com todo respeito aos povos que aqui habitavam, mas o Brasil só poderia cumprir a missão de ser palco da maior miscigenação mundial por meio dessa invasão. Assim, por mais conflitos que tenha havido a partir desse encontro entre culturas tão distantes, são inegáveis a aceitação mútua e a atração sexual presentes nessa aventura. Esse fato diferencia nossa história da saga de outros povos, como os norte-americanos, nos quais só houve aversão, sem a prática de casamentos entre nativos e invasores.

     Será obra do acaso que esse grande encontro humano, concretizado com a chegada das naus portuguesas ao Brasil, tenha ocorrido numa Semana Santa, institucionalizada pela mais tradicional Igreja Cristã – coincidentemente fundada por Pedro (Apóstolo)? Teria a Páscoa de 1500, eternamente simbolizada pelo Monte Pascoal, realizado seu arquétipo de “passagem”, ao elevar a história a outro patamar de desenvolvimento material e tecnológico/científico, desde então? O fato é que a América do Sul salvou a Europa da fome crônica que a assolava ciclicamente, com a adaptação da batata no Velho Mundo, fazendo crescer as populações. A partir desse primórdio de globalização, há um fortalecimento da saúde global, por certo, motivado pela troca de novos anticorpos entre tantos tipos humanos.

     Algumas cenas de um País bem original:

     País que, em 1614, por ordem do Governador Constantino Menelau, cria no açúcar a primeira “moeda” brasileira. Oh! Dinheirinho doce.

     País que recebe catequizadores jesuítas poetas e escritores, que implantam pioneiramente a Educação a Distância (EaD) nessas paragens.  

    País que tem sua independência estabelecida pelo próprio colonizador, sem conflitos armados. Um fato inédito na história mundial, que só poderia ser feito por outro Pedro (I).

    País que transbordou riquezas para Portugal, e este não soube tornar-se rico e justo. Aliás, o mesmo acontece com a Espanha, que por não educarem suas populações, não distribuírem renda e por não fomentarem o empreendedorismo e a confiança coletiva, permaneceram subdesenvolvidos.

    País de dimensões continentais que fala uma só língua. Embora, Macunaíma, nosso herói sem caráter, diga que aqui se fala “brasileiro” e se escreve “português”, ou seja, é o único país do mundo onde se fala uma língua e escreve outra.

    País que adota a República como vingança à Lei Áurea da Princesa Isabel, destituindo e expulsando Pedro (II) e a Família Real, em um movimento patrocinado por ruralistas conservadores, revoltados com a abolição da escravatura, apesar de extremamente tardia.

    País que faz a metamorfose do canibalismo dos Caetés, que vitimou Pedro (Fernandez Sardinha – o bispo), em um importante movimento artístico nacional, coroado com a “Semana de 22” e seu subsequente Manifesto Antropofágico, de legítima raiz brasileira, inspirador da futura Bossa Nova e do Tropicalismo.

    País que tem a mão do artista Debret, maior ilustrador da paisagem brasileira de seu tempo, desenhando o diploma da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, em 1830, com elementos alegóricos exaltando a agricultura, a indústria, o comércio e a invenção, prenúncio do crescimento da Economia.

    País, outrora, exportador de Pau-Brasil e ouro; importador de facões e espelhos. E, hoje, exportador de soja e minério de ferro; importador de Ipad e Windows. Ou seja, saímos de seis para meia-dúzia.

    Brasil, uma história tão exclusiva que o faz ser maravilhosamente diverso. Façamos dessa diferença a oportunidade de ser evoluído e universal. Vamos criar o próprio modelo de desenvolvimento, sem a importação de ideais caducos e inviáveis, sejam de Esquerda ou de Direita. Aí sim, em se plantando tudo dá.


                                                       .
Publicado no Jornal Cinform em 28/04/2014 - Caderno Emprego


segunda-feira, 14 de abril de 2014

A gestão é o espírito da coisa

Em nome do bom entendimento, vamos definir o significado do termo “espírito” mais adequado ao texto, de acordo com o Aurélio: “a parte incorpórea, inteligente ou sensível do ser humano; o pensamento; a mente”. Assim, afastamos o caráter religioso ou confessional de nossos propósitos imediatos. Portanto, podemos assumir como espirituais todos os valores intangíveis dos humanos, como as emoções, a ética, a solidariedade, a confiança, o amor, a esperança, e tantos outros sentimentos que nos permeiam 24 horas por dia.

     Qual a influência que nosso estado de espírito provoca no cotidiano do trabalho? Por certo, age diretamente nas relações interpessoais e pode ser determinante do sucesso profissional. Afinal, ninguém quer trabalhar próximo a uma pessoa eternamente mal humorada ou egocêntrica. O mesmo se reflete na imagem da empresa. Você conhece alguma empresa que lhe passa a imagem de ser desonesta, ou intolerante, ou apática, por exemplo?

     Olhando ao nosso redor, vemos que há um processo de desmaterialização dos bens – o celular é um caso típico -, e um incremento na prestação de serviços. A economia criativa “encarna” uma espiritualização da produção, com sua típica intangibilidade dos bens. De tal modo, o software, o design, as patentes, as marcas, a produção cultural, o entretenimento, dentre outros ativos modernos, são bens desse novo estágio do progresso humano. A esse acervo de conhecimentos, conceitos, linguagens e ideias, o jesuíta Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) deu o nome de “noosfera”. Ou seja, uma camada espiritualizada que se forma ao redor do planeta pela ação da inteligência humana.

     Os avanços para a espiritualização dos negócios já caminham em alta velocidade e precisamos nos adaptar com igual desempenho. Valores como respeito aos empregados, aos consumidores e ao meio ambiente são mais valorizados (e cobrados) a cada dia. Contudo, as mudanças requeridas podem não ser tão grandes assim, como parecem à primeira vista.

     Senão vejamos: A moral do capitalismo se fundamenta no fato de que, nos mercados livres, a única maneira de ser bem-sucedido é fazer algo benfeito para outras pessoas. Criticamente, sabemos que o dono do restaurante nos serve bem para obter lucro. Isto é, movido pelo interesse próprio. Porém, não é muito distante para o dono do restaurante, manter o mesmo comportamento de fazer benfeita a comida, mudar seu objetivo para saciar a fome dos clientes e, consequentemente obter o justo lucro. Parecem coisas já muito próximas.

     Uma escola de gestão para os novos tempos pode vir das ONGs, com o propósito de exercer uma atuação idealista e imbricada no rigoroso cumprimento da missão. Por certo, da gestão das entidades sem fins lucrativos virá o conhecimento de que o lucro se dá por várias vias (talvez uns cem fins lucrativos), e não apenas pelo excedente financeiro.

     Ainda na década de 1950, Peter Drucker, o guru da gestão de negócios, afirmava ser necessária uma rede de mútua confiança para que se realizem transações comerciais. É evidente a relação entre o sentimento de confiança coletiva e o ambiente favorável a negócios. Nesse sentido, desconfiança provoca subdesenvolvimento. Assim, afirmam grandes pensadores sobre desenvolvimento local. Aliás, a teoria do capital social é lastreada pela confiança generalizada como pré-requisito para uma ambiência favorável a progresso.

     Embora seja evidente que países de maioria protestante têm melhor desempenho econômico, podemos crer que tal desenvolvimento mais se deve a fatores educacionais do que a religiosos. Isso porque, Estados orientais não-cristãos, como o Japão e Tigres Asiáticos, criaram ambientes confiáveis para empreendedores, paralelamente a pactos nacionais para melhoria da educação. O sistema industrial japonês Just-in-time é uma prova de maximização econômica a partir de ações inspiradas na confiança mútua.

     O escritor francês André Malraux profetizou: “O século XXI será religioso ou não será.”  Portanto, independente dos negócios, exerça a fé e evolua a sua religiosidade. O mundo agradece. Boa Páscoa!

                                                        .
Publicado no Jornal Cinform em 14/04/2014 - Caderno Emprego


segunda-feira, 31 de março de 2014

Tecnologia na escola não se faz no computador



     A história da tecnologia é quase tão antiga quanto a da própria humanidade, pois surge na confecção das primeiras ferramentas de caça, proteção ou transporte. Desde que o mundo é mundo, como diz o poeta, o homem usa dos recursos físicos e estratégicos para se impor sobre o meio. Assim, transportar água em vasos, por exemplo, deu autonomia para as conquistas territoriais. Lascar pedras ou arar a terra trouxe consequências sociais impactantes, além da invenção da roda e do controle do fogo. Porém, tecnologia é toda ferramenta, máquina, técnica, método ou processo que se aplica na resolução de problemas.

     Sob esse ponto de vista, computadores e redes informacionais são apenas ferramentas sofisticadas que, conjuntamente com o desenvolvimento de manipulações genéticas, biomédicas e as conquistas espaciais, formam o ápice da tecnologia atual.

     Será que o uso imediato dos computadores e das modernas TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) em escolas para crianças é um bom caminho para a conquista do almejado domínio tecnológico? Por certo, não! A precocidade provoca um salto frio e inteligível. Uma ruptura.

     Com efeito, apesar dessas TICs exercerem grande fascínio nas crianças e grande ansiedade nos adultos, são totalmente dispensáveis nas escolas infantis. Para os pequenos, representam coisas do passado. Daí dominarem o uso com certo desprezo e alguma arrogância afirmativa. Já para os pais, parecem coisas do futuro, além de serem desafiadoras ao extremo. Portanto, mais se deve à pressão dos pais e do mercado o uso dessas tecnologias na escola, do que uma necessidade pedagógica real. Aliás, desconheço projeto pedagógico de sucesso, com essas TICs, que seja mais envolvente e construtivo do que uma aula de esculturas de argila ou de pintura em aquarela. Afinal, não existe nada mais intolerante que o computador e suas frias simulações, a se valer, a priori, da visão e, perifericamente, da audição. Então, qual o cheiro da cor azul do Paint? Qual o gosto de uma jaca no Google? Qual o calor e a aspereza do pedaço de fóssil na Wikipedia? Qual o equilíbrio que se desenvolve ao guiar uma moto em um game? O que importa é só a aparência?

     Historicamente, Karl Marx (1818-1883) prefaciou, na primeira edição alemã de O Capital: “... a sociedade não pode nem ultrapassar por saltos nem abolir por decretos as fases de seu desenvolvimento natural, se bem que possa abreviar os períodos de gestação e aliviar as dores do parto de cada fase, desde que descubra a lei natural que preside a seu movimento”.

     São questionamentos como esses que nos fazem refletir se o uso antecipado das TICs nas escolas não é uma forma de alienação de alunos, pais e professores, pois há uma série de outras conquistas tecnológicas que as antecederam, criaram suas bases e são ignoradas nesse processo, provocando uma espécie de paraquedismo cognitivo.

     No início do século XX, o dinamarquês Jacob Riis, considerado o primeiro fotojornalista, disse esperançoso: “Quando nada parece ajudar, eu vou e olho o cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem vezes, sem que nenhuma rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas, e eu sei que não foi aquela a que conseguiu, mas todas as que vieram antes”.

     Por essas razões, devemos reconhecer o valor da Pedagogia Waldorf, ao adotar um currículo escolar que vivencia toda a história da tecnologia, na mesma ordem cronológica de seu surgimento. Por certo, uma forma de ofertar segurança e compreensão sobre a sociedade atual e os caminhos percorridos por ela. Decididamente, nenhuma linha pedagógica é tão apaixonada pela tecnologia e tão provedora de criatividade nos seus alunos. No Fórum Social Mundial, em 2003, Fritjof Capra indicou a Pedagogia Waldorf como modelo de educação transdisciplinar.

     “Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?” T.S.Eliot.


                                                       .
Publicado no Jornal Cinform em 31/03/2014 - Caderno Emprego