segunda-feira, 30 de abril de 2012

Trabalhador, construa bem o seu passado para ter futuro


     Avaliar um candidato a uma vaga de emprego é uma situação que ilustra o que se deseja demonstrar a seguir. A construção de uma carreira profissional bem sucedida é feita a partir de algumas passagens da vida pessoal e profissional de um trabalhador. Cada passagem dessas pode se tornar uma interessante linha a constar no curriculum vitae – que traduzido literalmente significa “curso da vida”. Assim, nossa profissionalização é fruto da construção de experiências já realizadas ao longo de nossas vidas, portanto, já passadas.

Sabemos que ter uma boa base escolar, aliada a uma formação profissional bem reconhecida, é fundamental para a conquista de postos mais valorizados e bem remunerados no competitivo mercado de trabalho. Porém, associamos diretamente a essa receita a expectativa de um futuro melhor. Tudo certo até aqui, exceto pela incerteza inerente ao próprio futuro, já que não temos quaisquer garantias sobre ele.  Que fazer então?

O futuro é sempre uma aposta. Já o passado é perfeitamente estático, isto é, imutável. Dessa maneira, seremos muito mais felizes em nosso objetivo de construir um passado que um futuro. De tal forma, a realização de um robusto histórico pessoal e profissional é a chave para se diferenciar na carreira profissional.

No serviço público, os concursos seletivos, hoje disputadíssimos, baseiam-se no estoque de conhecimentos teóricos, objetivos nas suas provas, favorecendo os candidatos que mais estudaram e possuem melhor habilidade de responder as provas dessa natureza. Sendo assim, favorece aos que já dedicaram mais horas de estudos aos assuntos avaliados, ou seja, os que têm mais passado dedicado a esse fim. Na iniciativa privada, a seleção de currículos também se dá pela lista de experiências vividas e pelos resultados já alcançados em funções anteriores. Novamente, somos avaliados por nosso passado.

Diante dessas constatações, nossos atos do dia a dia se transformarão nas linhas que constarão em nossos currículos profissionais. Zelar por nossas atitudes, pelo desenvolvimento de novas habilidades e conhecimentos deve ser uma fórmula ao alcance de todos que sonham com uma bela realização profissional. Posto isso, vemos que não só um bom conteúdo teórico será suficiente para a conquista da realização no trabalho, mas, acima de tudo, as boas atitudes. Aquelas que nos tornam pessoas bem sociáveis, capazes de trabalhar em equipes, integradoras, confiáveis e éticas – essas são as verdadeiras garantias de longevidade e progresso na profissão.

O trabalhador formal, o autônomo e até mesmo o empresário serão excluídos de qualquer convivência duradoura no ambiente econômico se não agirem com bons modos. Tal profissional pode ser a maior autoridade em determinado assunto, possuir um vasto conhecimento e domínio teórico do tema, mas sendo uma pessoa intratável não logrará êxito no trabalho. E isso será registrado definitivamente em seu passado.

Jack Welch, ex-presidente da GE – General Eletric, considerado “O Executivo do Século” pela revista Fortune, disse certa feita durante um debate em uma universidade americana, quando perguntado sobre “o que se deve dizer a um jovem que almeja uma brilhante carreira profissional para que tenha sucesso:”  “Apenas duas palavras”, gerando grande expectativa no curioso auditório e completou: “boas maneiras!”.

Por certo, vemos com frequência a dificuldade de jovens obterem o primeiro emprego. Contraditoriamente, os que têm “mais futuro” são os que enfrentam maiores barreiras no acesso ao trabalho. Por isso, reafirmamos: estudar, fazer cursos profissionalizantes, estagiar, participar de trabalhos voluntários e comunitários é a fórmula para a geração de um bom e imutável passado.   Invista em sua formação profissional e na construção de uma rede de relacionamentos saudáveis, afinal, o bom futuro será fruto de um passado bem avaliado.



Publicado no jornal Cinform em 30/04/2012 – Caderno Emprego


segunda-feira, 16 de abril de 2012

A sociedade à frente das corporações



     Uma autêntica inversão de valores já se anuncia há algum tempo e consolida-se mais e mais: é a velocidade superior das dinâmicas sociais sobre as dinâmicas corporativas e institucionais. Há anos, as instituições ditavam os passos que a sociedade obedientemente seguia.

     Em pouco tempo, a sociedade, municiada por tecnologias da informação e da comunicação, e organizada em redes sociais, passa a protagonizar o rumo ao futuro, levando muitas empresas e governos à instabilidade de suas gestões.
Esse fenômeno começou no final dos anos 70, com o advento do computador pessoal – PC. Nos Estados Unidos, centro dessa revolução, toda a estrutura educacional foi literalmente atropelada pela febre autodidata dos usuários de recursos de informática. Alvin Toffler, em seu livro “Riqueza Revolucionária”,  descreve: “Esse evento começou em 1977, e aconteceu de uma forma bastante incomum. Na época, para todos os efeitos práticos, não havia computadores pessoais no planeta. Por volta de 2003, entretanto, somente nos Estados Unidos havia 190 milhões de PCs. Isso foi surpreendente. Porém, mais surpreendente foi o fato de que mais de 150 milhões de americanos sabiam como usá-los. E mais espantoso, foi como eles aprenderam a fazer isso.

     Os PCs, desde que os primeiros Altair 8800 e Sol 20 apareceram, têm sido dispositivos temperamentais e muito mais teimosos e complicados de usar do que qualquer outra utilidade doméstica. Eles tinham teclas, disquetes, softwares (um conceito que poucos americanos conheciam), manuais e um estranho vocabulário de comando DOS.
Então, como milhões de pessoas – metade da nação – dominaram essa máquina de grande complexidade?  Como elas aprenderam a fazer isso?

     Bem, sabemos como NÃO aprenderam. A esmagadora maioria, especialmente nos primeiros tempos, não foi à escola para aprender a usar o PC. Na verdade, com raras exceções, esses novos usuários tiveram pouca ou nenhuma instrução formal.

     O aprendizado começava quando iam a uma loja (...). O que acontecia em seguida era uma busca frenética por alguém – vizinho, amigo, colega, conhecido, etc – que pudesse ajudar. Qualquer um que soubesse um pouco mais do que ele sobre como usar um computador. Um guru, descobriu-se, era alguém que comprara um computador uma semana antes”.

     E conclui Toffler: “Em seguida, uma verdadeira torrente de informações sobre PCs espalhou-se pela sociedade americana, criando uma experiência de aprendizagem da qual milhões participam”.

     A partir dessa narrativa histórica, percebemos um movimento espontâneo de ensino-aprendizagem nascido das interações pessoais, que provocou uma transformação cultural, econômica e social em curtíssimo espaço de tempo.

     E onde estavam as escolas nesse período? Onde estavam as empresas nesse período?  Naturalmente, esse processo de aprendizado progressivo não foi controlado ou organizado por uma pessoa ou instituição. E como ninguém recebia pelo trabalho ou atividade que realizava, teve início um imenso processo social – que passou despercebido por boa parte dos educadores e economistas. Apenas muitos anos mais tarde as empresas começaram a treinar grandes números de usuários para operarem seus PCs.

     O exemplo americano é apenas o começo de um processo histórico universal, aliado ao destino humano de formação do livre arbítrio, no qual as pessoas tendem a fazer suas escolhas de dentro para fora, isto é, o poder do marketing de massa e da indução de desejos de consumo começa a ser amenizado. As redes sociais da internet influenciarão cada vez mais as decisões de compras entre consumidores empoderados e, assim, deverão ser acompanhadas de perto pelas corporações e governos para balizarem suas estratégias mais vitais.

     Aos empresários, fica o recado de que há de se rever práticas comerciais urgentemente. E isso é apenas o começo.





Publicado no jornal Cinform em 16/04/2012 – Caderno Emprego



segunda-feira, 2 de abril de 2012

De tanto pensar, morreu um mundo


     
     Vivemos a era do intelecto. Nos dias atuais, a exigência de uma formação intelectual se tornou pressuposto de sucesso no universo do trabalho e das profissões. Modo geral, somos extremamente estimulados na escola e na sociedade para o desenvolvimento cognitivo da memória e da capacidade intelectual.

     Valorizamos tão demasiadamente a atividade cerebral, que, por vezes, alguns autores teimam em reduzir o ser humano a um cérebro isolado. No máximo, esses adoradores da massa cinzenta devem ver os demais órgãos como satélites que orbitam em torno de um cérebro. Seriam estes os neoencefálocentristas?

     Diferentemente da imagem de provedor do futuro, ou de fonte do porvir, nosso caríssimo cérebro funciona muito mais semelhantemente a um espelho retrovisor do que a um farol que ilumina nosso próximo passo. Explicando melhor: o pensar é fruto de nossas experiências e aprendizagens já realizadas, ou seja, ele vive e se alimenta do passado. Por isso, para sermos bons profissionais, temos que possuir um estoque de conhecimentos adquiridos por muitos anos na escola e por meio das atividades laborais. Assim, é o nosso passado, que nos faz bons pensadores e usuários das nobres funções cerebrais.

     Costumo dizer que se o nosso tão valorizado pensar nos orientasse com segurança para o futuro, acertaríamos o resultado das próximas loterias com a mesma facilidade que acertamos os números de quinas já sorteadas. Além disso, prever o futuro é tão inacessível a nossa cognição que atribuímos isso - em pleno terceiro milênio - a fatores místicos ou mágicos.

     Com efeito, esse mundo da supervalorização das atividades cerebrais e do acervo de informações e conhecimentos pretéritos pode ser responsável pela inviabilidade do nosso futuro. Sabemos tudo, mas erramos muito na nossa conduta. Então, saber não é fazer. Enquanto superestimamos o conhecimento sem a sua coerente aplicação no mundo, nos orgulharemos de nossas conquistas teóricas avançando para o abismo da realidade órfã. Ou seja: um discurso bonito por fora e decomposto por dentro.

     A humanidade, impulsionada por essa onda de intelectualidade, vive no presente a inédita sensação de acreditar que o futuro poderá ser pior que o passado. Trata-se da desesperança coletiva inovadora e infeliz. Enquanto apenas pensamos, ainda que positivamente, sem agirmos, não poderemos ser felizes e equilibrados. Pior que isso, é quando temos um pensamento negativo e agimos para sua realização, a exemplo da vigorosa indústria bélica.

     Devemos, portanto, investir na formação de uma nova escola, que desenvolva seus alunos integralmente por meio da educação do pensar, das atitudes e da vontade. Isso pode ser conquistado, estimulando o empreendedorismo e a cultura da cooperação. Cumpre-se, desse modo, três pilares da educação do Século XXI, propostos pela Unesco: aprender a aprender, aprender a fazer e aprender a conviver.

     Se temos conhecimento sobre a erosão dos solos, o envenenamento das águas, a poluição do ar, a distribuição de renda, os serviços de saúde, as escolas, a segurança pública e a riqueza produzida no mundo, então, somos irreversivelmente responsáveis pelo futuro do planeta.  

     Não temos mais o direito à indecisão, senão viveremos o paradoxo do Asno de Buridan, que na dúvida entre comer um monte de feno e assim matar a fome ou beber uma gamela de água e matar a sede, olhava um, olhava outro e acabou morrendo, na dúvida de qual necessidade atender primeiro. Enfim, de tanto pensar morreu um burro, diz o ditado.

     Creio que vivemos um novo antropocentrismo, no qual o homem é o centro do mundo que o cerca. Um antropocentrismo moderno, sem a pretensão de se sobrepor a Deus e, também, desprovido da vaidade de estar no topo da complexidade biológica da Terra, mas sim por termos conquistado tamanha capacidade de intervenção sobre o planeta que nos responsabiliza definitivamente sobre o próprio destino. É preciso decidir e agir, sem tanto pensar.





Publicado no jornal Cinform em 02/04/2012 – Caderno Emprego
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 07/2012

          Publicado em 02/02/2015 em http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/de-tanto-pensar-morreu-um-mundo/84519/

segunda-feira, 19 de março de 2012

Finlândia, educação e coisas do coração


A Finlândia, país nórdico, com pouco mais de 5 milhões de habitantes é o exemplo mais bem sucedido de educação regular, conforme comprovam resultados comparativos do exame internacional pisa, aplicado em um grupo de cerca de 65 países para avaliar o desempenho dos alunos em Ciências, Matemática e Linguagem. Nesse mesmo teste, o Brasil tem ficado sempre entre as piores notas, ao lado de nações africanas e de países como, Cazaquistão, Panamá, Peru e outras.
     Hoje, a Finlândia colhe os frutos de um trabalho iniciado ainda na década de 1970, quando efetuou amplas reformas na educação e perpetuou esse processo ao longo de 30 anos. Aliás, só é possível consolidar um projeto em educação, se houver visão em longo prazo e um pacto social que assegure continuidade de ações. Nos últimos 40 anos, a Finlândia passou de país eminentemente agrário e industrial para uma moderna economia do conhecimento. Lá está a sede da Nokia, maior fabricante de celulares do mundo.
Mas qual a fórmula para esse sucesso? Há alguns meses, esteve no Brasil o Professor Doutor Pasi Sahlberg, especialista em educação, ex-assessor do Ministério da Educação da Finlândia, que proferiu uma palestra apresentando os quatro paradoxos da educação de seu país.

     Primeiro paradoxo: “Less is more” (menos é mais) – Educação de qualidade não significa grandes volumes de aulas, tarefas e exercícios. Isso, na visão do Dr. Sahlberg, pode provocar exaustão e queda de rendimento dos alunos. Conhecimento não é sinônimo de educação.

     Segundo paradoxo: “More learning with less testing” (aprende-se mais com menos avaliações) – O tempo gasto com avaliações é deslocado para ações educativas mais proveitosas e menos estressantes, inclusive para o professor. As avaliações devem ter caráter mediador, isto é, não classificatório. Não devem servir para rotular um aluno, mas sim para orientar as ações do professor na superação das deficiências de ensino-aprendizagem.

     Terceiro paradoxo: “Equity through diversity” (igualdade na diversidade) – A chegada de inúmeros imigrantes para o país enriquece a educação e o desenvolvimento de hábitos de convivência respeitosa e trocas de experiências.

     Quarto paradoxo: “The better a high school graduate is, the more likely she wants to become a teacher” (Quanto melhor é uma estudante ao finalizar o Ensino Médio, maior o desejo desta de se tornar professora) – De acordo com dados daquele país, cerca de 25% dos formandos do ensino médio querem ser professores. A profissão é valorizada financeira e socialmente. Os professores são reconhecidos pela sociedade como muito importantes para o futuro da nação, ficando em segundo lugar entre todas as profissões, perdendo apenas para os policiais. Assim, os melhores alunos podem ser os melhores professores.

     Lá, diferentemente da maioria dos países avaliados, apenas metade das crianças até seis anos está na escola, já que a pré-escola é voluntária. E, muito acertadamente, a alfabetização só inicia aos sete anos de idade com a frequência escolar obrigatória até os 16 anos. Saliente-se que o professor é o principal pilar desse modelo educacional invejável, sendo valorizado e preparado para a função. Todos possuem mestrado.

     Devemos refletir sobre as mudanças que realizamos na sofrida educação brasileira, se é que de fato elas possuem algum mérito qualitativo. Antecipar a alfabetização, aumentar a carga horária, ampliar a quantidade de dias letivos, estimular a competição do Enem ou vestibular e outras podem ser a contramão da verdadeira educação. Será falta de paixão?

     Curiosamente, a Finlândia tem uma história de amor com a educação que remonta ao século 17. Naquela época, o arcebispo luterano Johannes Gezelius determinou que nenhum homem que não soubesse ler poderia se casar. Sua motivação era fazer avançar a reforma de Martinho Lutero, que propunha uma aproximação maior dos fiéis com Deus a partir da leitura pessoal da Bíblia. Assim, a paixão que movia um finlandês por uma dama, também o levava à escola para aprender a ler.



Publicado no jornal Cinform em 19/03/2012 – Caderno Emprego


segunda-feira, 5 de março de 2012

América Latina: um discurso memorável



     Durante a Cúpula das Américas de 2009 em Trinidad e Tobago, ocorreu, como se esperava, um permanente confronto ideológico entre alguns dirigentes latinoamericanos e Barack Obama, representante máximo do emblemático Estados Unidos. Contudo, próximo do final, o Presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz, Óscar Arias, discursa convidando a todos para uma reflexão sobre a quem devemos responsabilizar pelo fracasso latinoamericano.     


     A seguir, alguns trechos do seu pronunciamento: “Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e latinoamericanos se reúnem com o presidente dos Estados Unidos da América é para pedir-lhe coisas ou para reclamar coisas. Quase sempre, é para culpar os Estados Unidos de nossos males passados, presentes e futuros. Não creio que isso seja de todo justo”.


     Veja mais: “Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades antes que os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras universidades desse país.  Não podemos esquecer que nesse continente, como no mundo inteiro, pelo menos até 1750 todos os americanos eram mais ou menos iguais: todos eram pobres. Ao aparecer a Revolução Industrial na Inglaterra, outros países sobem nesse vagão: Alemanha, França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e aqui a Revolução Industrial passou pela América Latina como um cometa, e não nos demos conta. Certamente perdemos a oportunidade.


     Há 50 anos, o México era mais rico que Portugal. Em 1950, um país como o Brasil tinha uma renda per capita mais elevada que o da Coreia do Sul. Há 60 anos, Honduras tinha mais riqueza per capita que Cingapura, e hoje Cingapura, em questão de 35 a 40 anos, tornou-se um país com $40.000 de renda anual por habitante. Bem, algo nós fizemos mal, os latinoamericanos.


     Que fizemos de errado? Nem posso enumerar todas as coisas que fizemos mal. Para começar, temos uma escolaridade de 7 anos. Essa é a escolaridade média da América Latina. e não é o caso da maioria dos países asiáticos. Certamente não é o caso de países como Estados Unidos e Canadá, com a melhor educação do mundo, similar a dos europeus. De cada 10 estudantes que ingressam no nível secundário na América Latina, em alguns países, só um termina esse nível secundário.


     Como disse esta manhã, não pode ser que a América Latina gaste $50.000 milhões em armas e soldados. Eu me pergunto: quem é o nosso inimigo? Nosso inimigo, presidente Correa, desta desigualdade que o Sr. aponta com muita razão, é a falta de educação; é o analfabetismo; é que não gastamos na saúde de nosso povo; que não criamos a infraestrutura necessária, os caminhos, as estradas, os portos, os aeroportos; que não estamos dedicando os recursos necessários para deter a degradação do meio ambiente; é a desigualdade que temos que nos envergonhar realmente; é produto, entre muitas outras coisas, certamente, de que não estamos educando nossos filhos e nossas filhas. 


     Vá alguém a uma universidade latinoamericana e parece, no entanto que estamos nos anos sessenta, setenta ou oitenta. Parece que nos esquecemos de que em 9 de novembro de 1989 aconteceu algo de muito importante, ao cair o Muro de Berlim, e que o mundo mudou. Temos que aceitar que este é um mundo diferente, e nisso, francamente, penso que os acadêmicos, que toda gente pensante, que todos os economistas, que todos os historiadores, quase concordam que o século XXI é um século dos asiáticos não dos latinoamericanos. E eu, lamentavelmente, concordo com eles. Porque enquanto nós continuamos discutindo ideologias, continuamos discutindo sobre todos os "ismos" (qual é o melhor? Capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo...) os asiáticos encontraram um "ismo" muito realista para o século XXI e o final do século XX, que é o pragmatismo”.






Publicado no jornal Cinform em 05/03/2012 – Caderno Emprego



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Boa pergunta não fica sem resposta



     Intuitivamente, avaliamos a inteligência e o conhecimento de alguém com quem conversamos, mais pelas perguntas que faz do que pelas respostas que dá. Embora, curiosamente, as avaliações de conhecimento mais formais se façam através das respostas nas provas da escola ou dos concursos públicos.


     É sabido que tudo no universo está relacionado entre si formando uma rede infinita. Ainda que não seja de fácil compreensão, estudiosos dos fenômenos naturais, como Goethe e atuais pesquisadores da física subatômica, por meio de seus estudos comprovam essa realidade. Valendo-se do princípio de que tudo espelha o todo, a prática terapêutica de diagnosticar pela íris, da acupuntura, ou do Do-in, com seus mapas do corpo inteiro e sabedoria milenar, comprova essa verdade.


     Conhecer as inúmeras relações e as leis gerais do universo é o grande desafio da nova ciência, holística e integradora, ao invés de reducionista e fragmentadora, ainda vigente. Nesse contexto, pessoas já se movimentam atentas a esse novo paradigma e começam a desenvolver um modo de vida mais conveniente para o planeta sob a ótica socioambiental, além de desenvolverem produtos, serviços e valores a serem adotados por todos num futuro próximo.


     Seguramente, a resposta para nossa dúvida pode estar presente em tudo, desde que façamos a pergunta certa. Por isso, podemos estar no cinema assistindo a um filme qualquer e em uma cena recebemos um insight que nos mostra a solução para uma angústia que nos atormentava há dias. Isso pode acontecer no aniversário de uma criança, em um sonho, ou outra situação cotidiana, aparentemente desvinculada do problema. O que prova, a meu ver, que não foi uma resposta que chegou do nada, mas sim, a pergunta que finalmente formulamos corretamente, mesmo que de forma inconsciente.


     Robert H. Frank, professor de economia, autor do livro “O naturalista da economia”, é um dos que acreditam que a melhor forma de ensinar conceitos complicados da economia é através das perguntas mais curiosas dos seus alunos, estimulados por ele. No livro estão algumas: Por que os teclados dos caixas eletrônicos de drive-in possuem código em braile, se cegos não podem dirigir? Por que a geladeira possui lâmpada interna que se acende automaticamente ao abrirmos a porta e o freezer não? Por que o leite é vendido em recipientes retangulares, enquanto os refrigerantes vêm em embalagens cilíndricas? Por que, em alguns automóveis, a porta do tanque de gasolina fica do lado do motorista enquanto em outros fica do lado do passageiro? Por que os DVDs são vendidos em embalagens muito maiores que as dos CDs, embora ambos os discos tenham exatamente o mesmo tamanho? Por que as roupas femininas são abotoadas a partir da esquerda, enquanto as roupas masculinas o são pelo lado direito? Essas e outras perguntas são respondidas categoricamente a partir de fundamentos econômicos.

O bom professor estimula seus alunos a fazerem perguntas. Por certo, a interdisciplinaridade fará conexões - com nexo - entre a pergunta aparentemente mais descabida com o assunto em pauta, gerando uma oportunidade desafiadora e envolvente de aprendizagem.


     Um caminho para estimular esse hábito consiste em se fazer as perguntas mais abertas possíveis, de forma a permitir várias respostas corretas. Ilustrando: se a pergunta oral for “quanto é 2+2?” automaticamente apenas um aluno acertará ao responder “4!” Excluindo todos os demais. Melhor seria perguntar à classe “4 é igual a?”, o que permite tantas respostas corretas quantos sejam os alunos, estimulando o raciocínio, a criatividade e respeitando a habilidade mental de cada um.


     E, para provar que fazer boas perguntas é uma arte, apresentamos essa pequena estória:  “Um padre escreveu ao Papa perguntando se era permitido fumar enquanto rezava. O Papa, à luz de seus princípios, respondeu que não, pois rezar é um ato que exige dedicação absoluta. Outro padre, também fumante inveterado, resolveu fazer a mesma consulta, mas invertendo um pouco a formulação. Perguntou se era permitido rezar enquanto se fuma. A resposta veio positiva: é claro que sim, pois é bom rezar em qualquer situação.”





Publicado no jornal Cinform em 20/02/2012 – Caderno Emprego
Publicado na Revista Fecomércio em 04/2013



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A criatividade de um bom aluno


     Encontrei esse texto na internet, de autoria incerta, mais bastante interessante, o qual compartilho com outros educadores:


     “Há algum tempo recebi um convite de um colega para servir de árbitro na revisão de uma prova de Meteorologia Física. Tratava-se de avaliar uma questão de física, que recebera nota ‘zero’.


     O aluno contestava tal conceito, alegando que merecia nota máxima pela resposta, a não ser que houvesse uma ‘conspiração do sistema’ contra ele.


     Professor e aluno concordaram em submeter o problema a um juiz imparcial, e eu fui o escolhido. Chegando à sala de meu colega, li a questão da prova, que dizia: ‘Mostrar como se pode determinar a altura de um edifício alto com o auxilio de um barômetro’.


     A resposta do estudante foi a seguinte: ‘Leve o barômetro ao alto do edifício e amarre uma corda nele; baixe o barômetro até a calçada; em seguida ice a corda e meça seu comprimento; este comprimento será igual à altura do edifício’. Sem dúvida era uma resposta interessante, e de alguma forma correta, pois satisfazia o enunciado.


     Por instantes vacilei quanto ao veredicto. Recompondo-me rapidamente, disse ao estudante que ele tinha forte razão para ter nota máxima, já que havia respondido a questão completa e corretamente. Entretanto, se ele tirasse nota máxima, estaria caracterizada uma classificação para um curso de Física, mas a resposta não confirmava isso.


     Sugeri então que fizesse uma outra tentativa para responder à questão. Não me surpreendi quando meu colega concordou, mas sim quando o estudante resolveu encarar o que eu imaginei seria um bom desafio.


     Segundo o acordo, ele teria seis minutos para responder à questão; isto após ter sido prevenido de que sua resposta deveria demonstrar, necessariamente, algum conhecimento de física.


     Passados cinco minutos ele não havia escrito nada; apenas olhava pensativamente para o teto da sala.


     Perguntei-lhe então se desejava desistir, pois eu tinha um compromisso logo em seguida, e não tinha tempo a perder. Mais surpreso ainda fiquei quando o estudante anunciou que não havia desistido. Na realidade tinha muitas respostas, e estava justamente escolhendo a melhor. Desculpei-me pela interrupção e solicitei que continuasse.

No momento seguinte ele escreveu esta resposta: ‘Vá ao alto do edifício, incline-se numa ponta do telhado e solte o barômetro, medindo o tempo de queda desde a largada até o toque com o solo. Depois, empregando a Fórmula h = ½ gt2 calcule a altura do edifício’.


     Perguntei então ao meu colega se ele estava satisfeito com a nova resposta, e se concordava com a minha disposição em conferir praticamente nota máxima à prova.

Meu colega concordou, embora sentisse nele uma expressão de descontentamento, talvez inconformismo…


     Ao sair da sala lembrei-me que o estudante havia dito ter outras respostas para o problema. Embora já sem tempo, não resisti à curiosidade e perguntei-lhe quais eram estas respostas.


     Ah!, sim,’ – disse ele – ‘há muitas maneiras de se achar a altura de um edifício com a ajuda de um barômetro’.


     Perante a minha curiosidade e a já perplexidade de meu colega, o estudante desfilou as seguintes explicações.


     ‘Por exemplo, num belo dia de sol pode-se medir a altura do barômetro e o comprimento de sua sombra projetada no solo, bem como a do edifício. Depois, usando uma simples regra de três, determina-se a altura do edifício’.


     ‘Um outro método básico de medida, aliás bastante simples e direto, é subir as escadas do edifício fazendo marcas na parede, espaçadas da altura do barômetro. Contando o número de marcas, ter-se-á a altura do edifício em unidades barométricas’.


     ‘Um método mais sofisticado seria amarrar o barômetro na ponta de uma corda e balançá-lo como um pêndulo, o que permite a determinação da aceleração da gravidade (g). Repetindo a operação ao nível da rua e no topo do edifício, tem-se 2 gs, e a altura do edifício pode, a princípio, ser calculada com base nessa diferença’.


     ‘Finalmente’, concluiu, ‘se não for cobrada uma solução física para o problema, existem outras respostas. Por exemplo, pode-se ir até o edifício e bater à porta do síndico. Quando ele aparecer, diz-se: Caro Sr. síndico, trago aqui um ótimo barômetro; se o Sr. me disser a altura deste edifício, eu lhe darei o barômetro de presente’.


     A esta altura, perguntei ao estudante se ele não sabia qual era a resposta esperada para o Problema. Ele admitiu que sabia, mas estava tão farto com as tentativas dos professores de controlar o seu raciocínio e a cobrar respostas prontas com base em informações mecanicamente arroladas, que ele resolveu contestar aquilo que considerava, principalmente, uma farsa.”


     Todos concordam que esse é um bom aluno?





Publicado no jornal Cinform em 06/02/2012 – Caderno Emprego