segunda-feira, 19 de março de 2012

Finlândia, educação e coisas do coração


A Finlândia, país nórdico, com pouco mais de 5 milhões de habitantes é o exemplo mais bem sucedido de educação regular, conforme comprovam resultados comparativos do exame internacional pisa, aplicado em um grupo de cerca de 65 países para avaliar o desempenho dos alunos em Ciências, Matemática e Linguagem. Nesse mesmo teste, o Brasil tem ficado sempre entre as piores notas, ao lado de nações africanas e de países como, Cazaquistão, Panamá, Peru e outras.
     Hoje, a Finlândia colhe os frutos de um trabalho iniciado ainda na década de 1970, quando efetuou amplas reformas na educação e perpetuou esse processo ao longo de 30 anos. Aliás, só é possível consolidar um projeto em educação, se houver visão em longo prazo e um pacto social que assegure continuidade de ações. Nos últimos 40 anos, a Finlândia passou de país eminentemente agrário e industrial para uma moderna economia do conhecimento. Lá está a sede da Nokia, maior fabricante de celulares do mundo.
Mas qual a fórmula para esse sucesso? Há alguns meses, esteve no Brasil o Professor Doutor Pasi Sahlberg, especialista em educação, ex-assessor do Ministério da Educação da Finlândia, que proferiu uma palestra apresentando os quatro paradoxos da educação de seu país.

     Primeiro paradoxo: “Less is more” (menos é mais) – Educação de qualidade não significa grandes volumes de aulas, tarefas e exercícios. Isso, na visão do Dr. Sahlberg, pode provocar exaustão e queda de rendimento dos alunos. Conhecimento não é sinônimo de educação.

     Segundo paradoxo: “More learning with less testing” (aprende-se mais com menos avaliações) – O tempo gasto com avaliações é deslocado para ações educativas mais proveitosas e menos estressantes, inclusive para o professor. As avaliações devem ter caráter mediador, isto é, não classificatório. Não devem servir para rotular um aluno, mas sim para orientar as ações do professor na superação das deficiências de ensino-aprendizagem.

     Terceiro paradoxo: “Equity through diversity” (igualdade na diversidade) – A chegada de inúmeros imigrantes para o país enriquece a educação e o desenvolvimento de hábitos de convivência respeitosa e trocas de experiências.

     Quarto paradoxo: “The better a high school graduate is, the more likely she wants to become a teacher” (Quanto melhor é uma estudante ao finalizar o Ensino Médio, maior o desejo desta de se tornar professora) – De acordo com dados daquele país, cerca de 25% dos formandos do ensino médio querem ser professores. A profissão é valorizada financeira e socialmente. Os professores são reconhecidos pela sociedade como muito importantes para o futuro da nação, ficando em segundo lugar entre todas as profissões, perdendo apenas para os policiais. Assim, os melhores alunos podem ser os melhores professores.

     Lá, diferentemente da maioria dos países avaliados, apenas metade das crianças até seis anos está na escola, já que a pré-escola é voluntária. E, muito acertadamente, a alfabetização só inicia aos sete anos de idade com a frequência escolar obrigatória até os 16 anos. Saliente-se que o professor é o principal pilar desse modelo educacional invejável, sendo valorizado e preparado para a função. Todos possuem mestrado.

     Devemos refletir sobre as mudanças que realizamos na sofrida educação brasileira, se é que de fato elas possuem algum mérito qualitativo. Antecipar a alfabetização, aumentar a carga horária, ampliar a quantidade de dias letivos, estimular a competição do Enem ou vestibular e outras podem ser a contramão da verdadeira educação. Será falta de paixão?

     Curiosamente, a Finlândia tem uma história de amor com a educação que remonta ao século 17. Naquela época, o arcebispo luterano Johannes Gezelius determinou que nenhum homem que não soubesse ler poderia se casar. Sua motivação era fazer avançar a reforma de Martinho Lutero, que propunha uma aproximação maior dos fiéis com Deus a partir da leitura pessoal da Bíblia. Assim, a paixão que movia um finlandês por uma dama, também o levava à escola para aprender a ler.



Publicado no jornal Cinform em 19/03/2012 – Caderno Emprego


segunda-feira, 5 de março de 2012

América Latina: um discurso memorável



     Durante a Cúpula das Américas de 2009 em Trinidad e Tobago, ocorreu, como se esperava, um permanente confronto ideológico entre alguns dirigentes latinoamericanos e Barack Obama, representante máximo do emblemático Estados Unidos. Contudo, próximo do final, o Presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz, Óscar Arias, discursa convidando a todos para uma reflexão sobre a quem devemos responsabilizar pelo fracasso latinoamericano.     


     A seguir, alguns trechos do seu pronunciamento: “Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e latinoamericanos se reúnem com o presidente dos Estados Unidos da América é para pedir-lhe coisas ou para reclamar coisas. Quase sempre, é para culpar os Estados Unidos de nossos males passados, presentes e futuros. Não creio que isso seja de todo justo”.


     Veja mais: “Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades antes que os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras universidades desse país.  Não podemos esquecer que nesse continente, como no mundo inteiro, pelo menos até 1750 todos os americanos eram mais ou menos iguais: todos eram pobres. Ao aparecer a Revolução Industrial na Inglaterra, outros países sobem nesse vagão: Alemanha, França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e aqui a Revolução Industrial passou pela América Latina como um cometa, e não nos demos conta. Certamente perdemos a oportunidade.


     Há 50 anos, o México era mais rico que Portugal. Em 1950, um país como o Brasil tinha uma renda per capita mais elevada que o da Coreia do Sul. Há 60 anos, Honduras tinha mais riqueza per capita que Cingapura, e hoje Cingapura, em questão de 35 a 40 anos, tornou-se um país com $40.000 de renda anual por habitante. Bem, algo nós fizemos mal, os latinoamericanos.


     Que fizemos de errado? Nem posso enumerar todas as coisas que fizemos mal. Para começar, temos uma escolaridade de 7 anos. Essa é a escolaridade média da América Latina. e não é o caso da maioria dos países asiáticos. Certamente não é o caso de países como Estados Unidos e Canadá, com a melhor educação do mundo, similar a dos europeus. De cada 10 estudantes que ingressam no nível secundário na América Latina, em alguns países, só um termina esse nível secundário.


     Como disse esta manhã, não pode ser que a América Latina gaste $50.000 milhões em armas e soldados. Eu me pergunto: quem é o nosso inimigo? Nosso inimigo, presidente Correa, desta desigualdade que o Sr. aponta com muita razão, é a falta de educação; é o analfabetismo; é que não gastamos na saúde de nosso povo; que não criamos a infraestrutura necessária, os caminhos, as estradas, os portos, os aeroportos; que não estamos dedicando os recursos necessários para deter a degradação do meio ambiente; é a desigualdade que temos que nos envergonhar realmente; é produto, entre muitas outras coisas, certamente, de que não estamos educando nossos filhos e nossas filhas. 


     Vá alguém a uma universidade latinoamericana e parece, no entanto que estamos nos anos sessenta, setenta ou oitenta. Parece que nos esquecemos de que em 9 de novembro de 1989 aconteceu algo de muito importante, ao cair o Muro de Berlim, e que o mundo mudou. Temos que aceitar que este é um mundo diferente, e nisso, francamente, penso que os acadêmicos, que toda gente pensante, que todos os economistas, que todos os historiadores, quase concordam que o século XXI é um século dos asiáticos não dos latinoamericanos. E eu, lamentavelmente, concordo com eles. Porque enquanto nós continuamos discutindo ideologias, continuamos discutindo sobre todos os "ismos" (qual é o melhor? Capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo...) os asiáticos encontraram um "ismo" muito realista para o século XXI e o final do século XX, que é o pragmatismo”.






Publicado no jornal Cinform em 05/03/2012 – Caderno Emprego



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Boa pergunta não fica sem resposta



     Intuitivamente, avaliamos a inteligência e o conhecimento de alguém com quem conversamos, mais pelas perguntas que faz do que pelas respostas que dá. Embora, curiosamente, as avaliações de conhecimento mais formais se façam através das respostas nas provas da escola ou dos concursos públicos.


     É sabido que tudo no universo está relacionado entre si formando uma rede infinita. Ainda que não seja de fácil compreensão, estudiosos dos fenômenos naturais, como Goethe e atuais pesquisadores da física subatômica, por meio de seus estudos comprovam essa realidade. Valendo-se do princípio de que tudo espelha o todo, a prática terapêutica de diagnosticar pela íris, da acupuntura, ou do Do-in, com seus mapas do corpo inteiro e sabedoria milenar, comprova essa verdade.


     Conhecer as inúmeras relações e as leis gerais do universo é o grande desafio da nova ciência, holística e integradora, ao invés de reducionista e fragmentadora, ainda vigente. Nesse contexto, pessoas já se movimentam atentas a esse novo paradigma e começam a desenvolver um modo de vida mais conveniente para o planeta sob a ótica socioambiental, além de desenvolverem produtos, serviços e valores a serem adotados por todos num futuro próximo.


     Seguramente, a resposta para nossa dúvida pode estar presente em tudo, desde que façamos a pergunta certa. Por isso, podemos estar no cinema assistindo a um filme qualquer e em uma cena recebemos um insight que nos mostra a solução para uma angústia que nos atormentava há dias. Isso pode acontecer no aniversário de uma criança, em um sonho, ou outra situação cotidiana, aparentemente desvinculada do problema. O que prova, a meu ver, que não foi uma resposta que chegou do nada, mas sim, a pergunta que finalmente formulamos corretamente, mesmo que de forma inconsciente.


     Robert H. Frank, professor de economia, autor do livro “O naturalista da economia”, é um dos que acreditam que a melhor forma de ensinar conceitos complicados da economia é através das perguntas mais curiosas dos seus alunos, estimulados por ele. No livro estão algumas: Por que os teclados dos caixas eletrônicos de drive-in possuem código em braile, se cegos não podem dirigir? Por que a geladeira possui lâmpada interna que se acende automaticamente ao abrirmos a porta e o freezer não? Por que o leite é vendido em recipientes retangulares, enquanto os refrigerantes vêm em embalagens cilíndricas? Por que, em alguns automóveis, a porta do tanque de gasolina fica do lado do motorista enquanto em outros fica do lado do passageiro? Por que os DVDs são vendidos em embalagens muito maiores que as dos CDs, embora ambos os discos tenham exatamente o mesmo tamanho? Por que as roupas femininas são abotoadas a partir da esquerda, enquanto as roupas masculinas o são pelo lado direito? Essas e outras perguntas são respondidas categoricamente a partir de fundamentos econômicos.

O bom professor estimula seus alunos a fazerem perguntas. Por certo, a interdisciplinaridade fará conexões - com nexo - entre a pergunta aparentemente mais descabida com o assunto em pauta, gerando uma oportunidade desafiadora e envolvente de aprendizagem.


     Um caminho para estimular esse hábito consiste em se fazer as perguntas mais abertas possíveis, de forma a permitir várias respostas corretas. Ilustrando: se a pergunta oral for “quanto é 2+2?” automaticamente apenas um aluno acertará ao responder “4!” Excluindo todos os demais. Melhor seria perguntar à classe “4 é igual a?”, o que permite tantas respostas corretas quantos sejam os alunos, estimulando o raciocínio, a criatividade e respeitando a habilidade mental de cada um.


     E, para provar que fazer boas perguntas é uma arte, apresentamos essa pequena estória:  “Um padre escreveu ao Papa perguntando se era permitido fumar enquanto rezava. O Papa, à luz de seus princípios, respondeu que não, pois rezar é um ato que exige dedicação absoluta. Outro padre, também fumante inveterado, resolveu fazer a mesma consulta, mas invertendo um pouco a formulação. Perguntou se era permitido rezar enquanto se fuma. A resposta veio positiva: é claro que sim, pois é bom rezar em qualquer situação.”





Publicado no jornal Cinform em 20/02/2012 – Caderno Emprego
Publicado na Revista Fecomércio em 04/2013



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A criatividade de um bom aluno


     Encontrei esse texto na internet, de autoria incerta, mais bastante interessante, o qual compartilho com outros educadores:


     “Há algum tempo recebi um convite de um colega para servir de árbitro na revisão de uma prova de Meteorologia Física. Tratava-se de avaliar uma questão de física, que recebera nota ‘zero’.


     O aluno contestava tal conceito, alegando que merecia nota máxima pela resposta, a não ser que houvesse uma ‘conspiração do sistema’ contra ele.


     Professor e aluno concordaram em submeter o problema a um juiz imparcial, e eu fui o escolhido. Chegando à sala de meu colega, li a questão da prova, que dizia: ‘Mostrar como se pode determinar a altura de um edifício alto com o auxilio de um barômetro’.


     A resposta do estudante foi a seguinte: ‘Leve o barômetro ao alto do edifício e amarre uma corda nele; baixe o barômetro até a calçada; em seguida ice a corda e meça seu comprimento; este comprimento será igual à altura do edifício’. Sem dúvida era uma resposta interessante, e de alguma forma correta, pois satisfazia o enunciado.


     Por instantes vacilei quanto ao veredicto. Recompondo-me rapidamente, disse ao estudante que ele tinha forte razão para ter nota máxima, já que havia respondido a questão completa e corretamente. Entretanto, se ele tirasse nota máxima, estaria caracterizada uma classificação para um curso de Física, mas a resposta não confirmava isso.


     Sugeri então que fizesse uma outra tentativa para responder à questão. Não me surpreendi quando meu colega concordou, mas sim quando o estudante resolveu encarar o que eu imaginei seria um bom desafio.


     Segundo o acordo, ele teria seis minutos para responder à questão; isto após ter sido prevenido de que sua resposta deveria demonstrar, necessariamente, algum conhecimento de física.


     Passados cinco minutos ele não havia escrito nada; apenas olhava pensativamente para o teto da sala.


     Perguntei-lhe então se desejava desistir, pois eu tinha um compromisso logo em seguida, e não tinha tempo a perder. Mais surpreso ainda fiquei quando o estudante anunciou que não havia desistido. Na realidade tinha muitas respostas, e estava justamente escolhendo a melhor. Desculpei-me pela interrupção e solicitei que continuasse.

No momento seguinte ele escreveu esta resposta: ‘Vá ao alto do edifício, incline-se numa ponta do telhado e solte o barômetro, medindo o tempo de queda desde a largada até o toque com o solo. Depois, empregando a Fórmula h = ½ gt2 calcule a altura do edifício’.


     Perguntei então ao meu colega se ele estava satisfeito com a nova resposta, e se concordava com a minha disposição em conferir praticamente nota máxima à prova.

Meu colega concordou, embora sentisse nele uma expressão de descontentamento, talvez inconformismo…


     Ao sair da sala lembrei-me que o estudante havia dito ter outras respostas para o problema. Embora já sem tempo, não resisti à curiosidade e perguntei-lhe quais eram estas respostas.


     Ah!, sim,’ – disse ele – ‘há muitas maneiras de se achar a altura de um edifício com a ajuda de um barômetro’.


     Perante a minha curiosidade e a já perplexidade de meu colega, o estudante desfilou as seguintes explicações.


     ‘Por exemplo, num belo dia de sol pode-se medir a altura do barômetro e o comprimento de sua sombra projetada no solo, bem como a do edifício. Depois, usando uma simples regra de três, determina-se a altura do edifício’.


     ‘Um outro método básico de medida, aliás bastante simples e direto, é subir as escadas do edifício fazendo marcas na parede, espaçadas da altura do barômetro. Contando o número de marcas, ter-se-á a altura do edifício em unidades barométricas’.


     ‘Um método mais sofisticado seria amarrar o barômetro na ponta de uma corda e balançá-lo como um pêndulo, o que permite a determinação da aceleração da gravidade (g). Repetindo a operação ao nível da rua e no topo do edifício, tem-se 2 gs, e a altura do edifício pode, a princípio, ser calculada com base nessa diferença’.


     ‘Finalmente’, concluiu, ‘se não for cobrada uma solução física para o problema, existem outras respostas. Por exemplo, pode-se ir até o edifício e bater à porta do síndico. Quando ele aparecer, diz-se: Caro Sr. síndico, trago aqui um ótimo barômetro; se o Sr. me disser a altura deste edifício, eu lhe darei o barômetro de presente’.


     A esta altura, perguntei ao estudante se ele não sabia qual era a resposta esperada para o Problema. Ele admitiu que sabia, mas estava tão farto com as tentativas dos professores de controlar o seu raciocínio e a cobrar respostas prontas com base em informações mecanicamente arroladas, que ele resolveu contestar aquilo que considerava, principalmente, uma farsa.”


     Todos concordam que esse é um bom aluno?





Publicado no jornal Cinform em 06/02/2012 – Caderno Emprego



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Dez razões para o empreendedorismo no ensino médio


     
     Sergipe possui coisas boas que o destaca de outros Estados do Brasil e deve, por isso mesmo, valorizar essas conquistas. Um desses belos exemplos é o Empreendedorismo no Ensino Médio da rede pública. Trata-se de um trabalho desenvolvido pelo SEBRAE em conjunto com a Secretaria de Estado da Educação – SEED, desde 2004.


     Um aspecto que merece ser mais esclarecido é o porquê de unir empreendedorismo com a educação formal. O empreendedorismo não é sinônimo de atividade comercial ou empresarial, embora muito se confunda, e deste equívoco, nasçam discussões tão apaixonadas quanto desequilibradas. Assim, especialmente nós, educadores, devemos entender definitivamente o empreendedorismo como um elemento comportamental.


     Isto é, um conjunto de atitudes e hábitos que podem ser adquiridos através da educação e, consequentemente desenvolver nos alunos uma maneira própria de se posicionar e agir no mundo. É, literalmente, o “aprender a fazer”, recomendado pela UNESCO como um dos pilares da educação para o século 21. 


     A definição de empreendedorismo com maior propriedade é a de Filion, citado por Fernando Dolabela autor do livro “O Segredo de Luíza”, que define o empreendedor como alguém que “imagina, desenvolve e realiza visões”. Desse modo, são igualmente empreendedoras as personalidades tão distintas de Gandhi, Luther King, Juscelino Kubitschek, Barão de Mauá, Thomas Edison, Irmã Dulce, Paulo Freire, Marco Pólo, Assis Chateaubriand, Orlando Villas-Boas e do Infante D. Henrique, entre outros.

Com esse olhar atitudinal, Sergipe desenvolveu um invejável programa educacional de empreendedorismo pelas seguintes razões:


     1 – Elaborou uma proposta curricular que privilegia a gestão de pequenos empreendimentos e a cultura da cooperação, vigorosa e democrática, assinada em coautoria por 120 professores do Ensino Médio da Seed, alunos da pós-graduação lato sensu “MBA - Empreendedorismo para Docentes”, ministrada pelo Sebrae e Faculdade São Luiz de França.


     2 – Aplicou testes da metodologia de ensino em cerca de 10 mil alunos, validando a proposta e beneficiando-os com esta formação através de instrutores do Sebrae, enquanto se preparavam os professores.


     3 – Integrou a disciplina Empreendedorismo à arquitetura curricular do Ensino Médio por meio da Resolução Nº 008/CEE, de 2006, do Conselho Estadual de Educação. Ato que fez de Sergipe o Estado brasileiro pioneiro a dispor de instrumento normativo para esse fim.


     4 – Sergipe foi citado, nas considerações, como exemplo de empreendedorismo na educação em uma Moção de Apelo aos senhores ministros da Educação, da Ciência e Tecnologia e do Trabalho e Emprego, ao clamar: “...vimos apelar a Vossas Excelências para desenvolver mecanismos que garantam a inserção da educação empreendedora nas escolas da rede pública, seja em forma de disciplina ou de projetos transversais que proporcionem aos nossos alunos maior chance de sucesso no mundo do trabalho”, aprovada em plenário na primeira Conferência Nacional da Educação Profissional e Tecnológica, realizada em 2006, em Brasília.


     5 – Os professores de empreendedorismo da Seed foram os primeiros do País a participar do jogo empresarial Desafio Sebrae para Professores, uma realização da Universidade Federal do Rio de Janeiro -  UFRJ e do Sebrae Nacional.


     6 – Nossa inovadora metodologia de empreendedorismo propõe atividades práticas voltadas para dentro da própria escola, valorizando a interdisciplinaridade e o conhecimento propedêutico, além de minimizar o risco de evasão escolar.


     7 – O programa de empreendedorismo de Sergipe é considerado o melhor do Brasil numa avaliação da Universidade de São Paulo – USP-, realizada pela Professora  Kenski, em 2007. 


     8 - O Sebrae nacional escolheu o 3º workshop Empreendedorismo no Ensino Médio, para lançar no Brasil a cartilha “Referenciais para o Desenvolvimento do Empreendedorismo no Ensino Médio”, no Teatro Atheneu.


     9 – Realizou feiras escolares, workshops, desfiles cívicos, venceu concursos nacionais e fez shows, protagonizados por milhares de alunos do Ensino Médio.


     10 – Cerca 98% dos alunos responderam em pesquisa que a disciplina Empreendedorismo é importante ou muito importante para a vida deles.


            Esses dados referem-se aos anos de 2004 a 2007. Torçamos para que esse projeto ganhe uma escala cada vez maior. Empreendedorismo dá vida à educação e forma cidadãos livres.





Publicado no jornal Cinform em 23/01/2012 – Caderno Emprego
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 06/2012



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Rio 92: o futuro já tem 20 anos



     Neste ano, ocorrerá a edição Rio+20, em junho, na mesma cidade do Rio de Janeiro. Certamente, será um balanço das ações desenvolvidas no cumprimento da Agenda 21, documento subscrito por 175 nações, derivado dos debates e notas técnicas, que recomenda regras harmoniosas de convivência social, ambiental e econômica, ao oferecer bases para que cada país elabore seu plano de preservação ambiental.


      A Rio 92 ou Eco 92 foi, na realidade, a segunda Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. Nela, estiveram presentes 108 governantes de países, fato que conferiu a este evento o título de maior reunião de chefes de Estado da história da humanidade. As reuniões menores que se seguiram não obtiveram o mesmo glamour e apresentaram mais divergências que convergências nas suas propostas, a exemplo de Kyoto e Copenhagen.


     Fracassos e expectativas frustradas à parte, devemos reconhecer que a Rio 92 ditou os passos da sustentabilidade e consolidou modelos que hoje estão no repertório dos currículos escolares e nas políticas públicas do Brasil e de muitos outros países. As questões ambientais, sociais e o desenvolvimento sustentável estão diariamente nas manchetes da grande mídia. O conhecimento sobre preservação ambiental está disponível para todos. Infelizmente, a situação ambiental se agravou nesses últimos vinte anos, provando que o conhecimento em si não é suficiente quando carece de atitudes e vontades compatíveis.


     Com efeito, além das significativas questões culturais e da nova visão de mundo que a Rio 92 trouxe, existem dois importantes passos tecnológicos para o Brasil ainda desconhecidos por muitos: o primeiro é a implantação da telefonia celular compatível com outros sistemas em operação nos países centrais. A cidade do Rio de Janeiro, à época, já disponibilizava uma pequena cobertura para alguns poucos telefones celulares, cuja adesão custava US$ 20 mil ao assinante.


     O País vivia um grande embate sobre a liberação de editais de bandas de telefonia celular no STF, porém, a demanda dos participantes da Rio 92 fez com que a Telerj, corajosamente, ofertasse 40 mil novos terminais a preços bem mais competitivos e com sistemas compatíveis com outros celulares no país e fora dele. Nasceu aí a primeira oferta de telefones celulares em escala no país.


     O segundo passo tecnológico é a ligação pioneira da internet fora das universidades brasileiras. As exigências de comunicação do evento, aliadas à presença de 9 mil organizações não governamentais – ONGs - participantes do Fórum Global, evento paralelo à Rio 92, fez com que a Telerj montasse uma linha de comunicação entre a Conferência da Organização das Nações Unidas – ONU - e a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ -, para assim fazer a primeira ligação da sociedade brasileira com a internet.


     A entidade responsável por prover esse acesso inaugural à internet mundial foi o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase -, fundado pelo sociólogo Hebert José de Souza, o Betinho, falecido em 1997,e pelos economistas Carlos Afonso e Marcos Arruda. A procura pelos serviços de internet foi tão grande que levou o Ibase a desmembrar o programa Alternex, transformando-o em empresa comercial. Assim, enfrentando o distanciamento corporativo universitário da sociedade, a dominadora estatal Embratel e a decadente reserva de mercado da informática, surgiu o primeiro provedor brasileiro acessível ao público à grande rede.


     Como vimos, a Rio 92 trouxe muito mais mudanças do que percebemos aparentemente. Assim, concluímos que essa conferência da ONU representa um ritual de passagem de uma sociedade crente nos recursos naturais inesgotáveis, mas sem celular e internet, para uma sociedade ciente da escassez dos recursos naturais e das inesgotáveis TICs – tecnologias da informação e comunicação –, que tem mais contas de celular que habitantes.


     Se, no Brasil, 20 anos nos separam do passado, então, em Sergipe, o passado é menor de idade, já que essas tecnologias só chegaram por aqui após 1994. Pensando bem, nunca o passado foi tão próximo. 



   

Publicado no jornal Cinform em 09/01/2012 – Caderno Emprego


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Os 80 anos da roupa vermelha do Papai Noel



     Diz a lenda que o bom velhinho surgiu no ano 280 d.C., inspirado na figura de um bispo chamado Nicolau, nascido na Turquia, pessoa extremamente bondosa para com os pobres. O bispo deixava saquinhos com moedas próximos às chaminés das casas.


     O relato dos milagres realizados por Nicolau, de várias pessoas, levou à canonização do bispo como São Nicolau. Na Alemanha, associou-se a imagem do São Nicolau ao Natal, espalhando-se pelo mundo com diversos nomes atribuídos ao bom velhinho. Nos Estados Unidos, é Santa Claus; na Argentina, Papá Noel; em Portugal, Pai Natal, e no Brasil, Papai Noel.


     Até o início do Século XX, São Nicolau era apresentado com roupas de inverno verdes ou marrons. Em 1886, o cartunista alemão Thomas Nast recria a imagem do Papai Noel com as roupas vermelhas, botas e cinto pretos, tal como conhecemos hoje. Essa nova imagem, porém, publicada no mesmo ano na revista Harper´s Weeklys, só vem a se institucionalizar em 1931, há 80 anos, a partir de uma grande campanha publicitária da Coca-Cola, que vislumbrou a conveniência da cor vermelha de sua marca à nova imagem do Papai Noel. Assim, a roupa vermelha do Papai Noel vem do interesse comercial da famosa marca de refrigerantes.


     Aliás, o marketing da Coca-Cola é pródigo em gerar imagens ideais para seus produtos. Além do Papai Noel vermelho, a Coca-Cola fez chegar ao front da Segunda Guerra Mundial, na Europa, seus refrigerantes para os soldados americanos, que pousaram como heróis em fotos enquanto brindavam vitórias com as emblemáticas garrafas. Diga-se, ainda, que estas garrafas de Coca-Cola são reconhecidas como um dos desenhos de produtos de maior sucesso mundial. Um verdadeiro clássico do design.


     Sou da opinião de que a lenda do Papai Noel é muito rica e desejável para a imaginação das pequenas crianças. Ela traduz uma imagem de que o mundo é bom, exatamente como acreditam as crianças menores de sete anos. Estas são as que se atiram para os pais ou outros que elas gostem, quando estão em algum lugar mais alto, para que estes a peguem em pleno ar, certamente movidas pela certeza de que o mundo é bom. E, dessa forma, nada de mal acontecerá.


     Aprofundemos sobre o Natal e suas características atuais. Toda essa linda História – com H mesmo – do Papai Noel está profundamente deturpada. Afinal, o Natal passou a ser visto como o evento de maior interesse comercial e o bom velhinho como o provedor do consumismo, enevoando a verdadeira motivação da data que é o nascimento do Menino Jesus. Parece que transformamos os shoppings em catedrais, ritualizamos nossas compras frenéticas, sacralizamos produtos industriais e, comumente, consumidores se tornam evangelizadores de marcas ícones, a exemplo da Apple.


     Com certeza, essa febre de bondade será efêmera, desfazendo-se como mágica já na primeira fatura pós-natalina do gordo cartão de crédito, que por sua vez, será desfibrilado para suportar os novos surtos e sustos do material escolar do início do ano. Paralelamente, os temporários papais noéis dos centros comerciais já estão a batalhar uma vaga em outra atividade para seu sustento, talvez de rei momo no carnaval ou de pai da noiva de algum casamento na roça junina. E, infelizmente, sem um direcionamento próprio, a vida de muitos continua subordinada a campanhas sazonais e capitalistas.


     Vamos gerar oportunidades de trabalhos, mesmo que temporários. Incentivemos o comércio justo e a legítima alegria de presentear a quem gostamos. Também vamos preservar a imagem bondosa e fraterna do Papai Noel. Contudo, busquemos sempre uma reflexão íntima sobre o verdadeiro espírito do Natal, no qual, a imaginação das crianças seja cultivada, que os presentes sejam motivados pela presença e não pela ausência, que o bom velhinho proteja, como um verdadeiro papai, a todos os que nele depositam a mais pura confiança.


     E que a árvore de natal represente o reino vegetal, convertido cotidianamente pelo trabalho dos homens, em pão e vinho, corpo e sangue d’Aquele a quem o verdadeiro Natal se reporta.  Feliz Natal!





Publicado no jornal Cinform em 19/12/2011 – Caderno Emprego