terça-feira, 9 de novembro de 2010

Biomimética, a galinha dos ovos de ouro


     A biomimética (imitação da vida) é um moderno ramo da ciência dedicado a estudos de princípios e modelos da natureza visando alcançar soluções engenhosas para a indústria, a saúde, a ecologia e outras diversas áreas da atuação humana. Paralelamente, a biônica também converge para finalidade semelhante, a exemplo do nobre desenvolvimento de próteses anatômicas e, mais recentemente, neurais, que permitirão cada vez mais a inclusão com qualidade de vida para milhões de pessoas com algum tipo de deficiência no mundo.


Mesmo sendo um ramo novo da ciência, a biomimética crescerá muito nos próximos anos devido ao fato de que a natureza que dispomos hoje é fruto de milhões de anos de evolução e aperfeiçoamento contínuo de seus processos vitais e ambientais. Temos que reconhecer que a natureza sempre alcança seus objetivos com economia, com um mínimo de energia, preservando seus recursos e reciclando completamente seus resíduos.


O Velcro, aquela tira aderente que se aplica a inúmeras finalidades, é a imitação do incomodo carrapicho que teima em permanecer agarrado a nossa roupa denunciando que caminhamos pelo mato. A máquina de diálise renal é outro exemplo inspirado na natureza, assim como o marca-passo cardíaco, ou até, um simples par de pés-de-pato usado por mergulhadores, a lente de contato e os aparelhos auditivos para idosos, são todos modelos tecnológicos copiados da natureza.


Na indústria existem pneus inspirados nas garras dos gatos, conferindo maior capacidade de frenagem. Também, asas de aviões, cascos de navios e submarinos que imitam a pele de peixes obtêm maior fluidez e a consequente economia de combustível. Merece destaque o carro criado pela Mercedes Benz, o Bionic, cuja estrutura é 1/3 mais leve que a de modelos semelhantes, oferece resistência estrutural 40% superior e o invejável coeficiente aerodinâmico de 0,19 que lhe assegura 20% de economia de gasolina; é o que aprendemos com seu modelo inspirador: o pequeno Peixe-Cofre, habitante de águas marinhas tropicais.


Porém, não só o aspecto funcional ou estrutural é motivo de estudo da biomimética, já que a natureza, como afirmamos, é muito econômica nos seus processos. Uma aranha consegue fazer teias com fios de seda finíssimos de alta resistência. Proporcionalmente, os fios da aranha são superiores ao mais resistente fio da engenharia humana, o Kevlar: produto da engenharia aeroespacial desenvolvido pela DuPont, composto de fibras orgânicas de poliamidas que possui propriedades de resistência a tração superiores ao aço. Mas o que queremos registrar no modelo natural é que a maior vantagem não está na resistência superior em si, e sim na forma de produzir o fio. Enquanto a produção do Kevlar exige altas pressões, concentrações elevadas de ácido sulfúrico e temperaturas superiores a 100° C, o menosprezado aracnídeo produz seu majestoso fio à temperatura corpórea. O mesmo podemos aprender com os moluscos, capazes de produzir conchas de dureza superior a cerâmica das ogivas de foguetes e colas de aderência inigualável que os mantêm grudados as superfícies de barcos por longos períodos em condições extremas. Também, sábias galinhas podem nos ensinar como fabricar cimento em condições econômicas, já que transformam calcário em casca de ovo, dotada de propriedades físicas melhores que as do cimento portland que fabricamos calcinando o mesmo calcário a cerca de 1480° C.


A natureza mostra-se de uma inteligência superior à de nossa ciência e tecnologia. São inúmeros casos de soluções naturais que nos podem ensinar muito a respeito de como melhorar nossos agressivos processos de produção. Mas, precisamos nos despir de vaidades e ansiedades para frearmos essa corrida tecnológica louca, em que é necessário acelerar continuamente na busca de resultados instantâneos. Assim então, creio que poderemos observar a natureza produzindo milagrosas metamorfoses no seu ritmo próprio. No século XIX, Goethe – poeta e cientista alemão, autor de um método de observação de fenômenos naturais - reclamava: “Não precisamos apenas de arte e ciência; precisamos também de paciência.”


Destruir a natureza sem conhecê-la é matar a galinha dos ovos de ouro. A biomimética é mais uma mensagem que nos chega dizendo que podemos crescer com preservação natural. O contrário é a insana busca pela satisfação imediata sem considerar o legado desastroso que deixaremos para nossos filhos e netos.


Para reflexão, um conto da antiga corrente judaica dos Chassidim:    

Num sonho eu entrei numa loja.
Atrás do balcão estava um anjo.
Eu lhe perguntei: “O que o senhor vende aqui?”
“Tudo que o senhor desejar”, disse o anjo.
“Oh”, disse eu, “isso é mesmo verdade?
Então eu gostaria de: paz na Terra, abolição da opressão, nenhuma fome mais, uma casa para refugiados,”...
“Espere”, disse o anjo, “o senhor não me entendeu.
Aqui não vendemos fruto algum, apenas sementes.”





            Publicado no jornal Cinform 08/11/2010 – Caderno Emprego



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Empresas espelham homens



     Durante o processo de criação o homem vive um momento de inspiração, no qual ocorrem as idéias a serem aplicadas no seu desafio. Aqui, a palavra inspiração tem o mesmo sentido que o movimento da inspiração do ciclo da nossa respiração. É o momento em que trazemos para dentro de nós o elemento exterior que será metabolizado por nossa interioridade, para em seguida ser expirado por nossas narinas ou por nossas ações.


     Porém, que metabolismo é esse por que passam as idéias? É o processo de identificação conosco, ou seja, é a humanização da criação. Desta forma, podemos afirmar que tudo que o homem cria ou faz é a reprodução de si próprio.


     Podemos então, sem sustos, afirmar que o mundo exterior é plenamente espelhado ou refletido num mundo interior igualmente infinito. Esse mundo interior é o espaço a ser trabalhado através da educação, para que cresça e acomode uma compreensão mais ampla e complexa da realidade exterior.


     Se nos é difícil compreender isso hoje, temos um consolo e um forte estímulo também para reverter nossa limitação. Na antiga Grécia, em 400 a.C., Sócrates reafirmava: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”.


     Quando criamos uma empresa ou qualquer outra instituição o fazemos a partir do modelo do desenvolvimento humano vivido, com primeira infância, segunda, adolescência e fase adulta.


     Na primeira infância, fase que vivemos dos 0 aos 7 anos, a prioridade é plasmar um corpo físico próprio, emancipado das células doadas pelo ventre materno. A criança dessa idade possui saúde instável e variações bruscas de febres que revelam pouco domínio sobre seu metabolismo. Do mesmo modo, as empresas nascentes priorizam a construção de seu corpo físico, dotado, frequentemente, de um espaço físico com móveis, utensílios e equipamentos imprescindíveis ao seu desenvolvimento. A saúde deste empreendimento é instável e, semelhantemente à criança, suas células podem ser fruto de empréstimos também.


     A fase seguinte, entre os 7 e 14 anos, é da criação de hábitos e ritmos na criança e pela busca de ídolos. Todos os hábitos, bons e ruins, cultivados nessa fase são, via de regra, solidificados pelo resto da vida. Nas empresas esse mesmo fenômeno se dá pela necessidade de criação de processos internos, de organizar suas rotinas, estabelecer alçadas e limites de competências, organogramas e evidenciar sua missão e visão, a serem idolatrados. Agora, a empresa necessita mais organizar seus processos que seus bens físicos.


     A adolescência, compreendida entre os 14 e os 21 anos, é conhecida por impulsionar os jovens em direção à construção do social. É o período em que há necessidade de buscar a identidade grupal, a delimitação de seu espaço coletivo e a afirmação da individualidade através de riscos a que se expõe. Uma fase, como sabemos, de conflitos freqüentes. 

     Paralelamente, nas empresas, uma vez superada a obrigação de ser organizar e estabelecer seus processos internos, a necessidade passa a ser a criação do social em seu setor de atividade. Neste ponto, as organizações passam a serem vistas como modelos potenciais em seu campo de atividade e, assim, seus gestores sentem-se convocados a participarem mais ativamente do movimento classista, seja por representação sindical, seja opinando na elaboração de políticas públicas atinentes ao seu negócio. A empresa atinge nesse momento uma grande visibilidade, que lhe confere alta exposição e consequentes riscos à sua imagem decorrentes de disputas por espaço político.


     Finalmente, a fase adulta se caracteriza pela formação da identidade. Nessa idade, os seres humanos fortalecem a própria imagem e expõe seu caráter como atributo construído ao longo da vida fazendo dele, por vezes, seu principal valor ao buscar reproduzir nos seus descendentes essa marca  individual. Nas empresas, chegada essa fase, ocorre um processo de institucionalização de sua imagem. É um período de engessamento de seus métodos e valores. Cria-se uma imagem tão sólida e impregnada de valores que oferece grande segurança aos seus funcionários, parceiros, fornecedores e clientes, mas que pode virar uma ameaça à sua própria sobrevivência na medida em que perde o dinamismo exigido pelo mercado.


     Essa comparação meramente ilustrativa é para mostrar a partir da imagem biográfica do ser humano organizada pela Antroposofia que as nossas criações são inspiradas em nós mesmos. Nas pessoas o ciclo biológico é muito próximo entre os indivíduos, permitindo homogeneizar a regra cronológica. Diferentemente, nas organizações a sequência é bastante comum a todas, porém, os tempos podem variar bastante entre elas. Isso já se dizia há mais de 25 séculos, na famosa Grécia quando Protágoras afirmava pelas esquinas que: “O homem é a medida de todas as coisas”.       



Publicado no jornal Cinform 25/10/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Agora a educação vai pro espaço

 

Há mais de cinquenta anos, o mundo assistia ao lançamento do satélite pioneiro Sputnik, originado na extinta URSS. Fato este que marca o início da disputadíssima corrida espacial protagonizada por soviéticos e americanos. A conquista do espaço sideral representava o poderio militar dos países líderes de blocos geopolíticos. A superioridade americana só se tornou visível quando a nave Apolo XI, tripulada por três astronautas pousa na lua em 1969, levando o homem a por os pés no nosso satélite natural pela primeira vez. Cena transmitida ao vivo para um bilhão de espectadores na Terra. Famosa tornou-se a frase do astronauta Neil Armstrong, pioneiro a sair da cápsula e caminhar na lua: “Um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade”.   


Os astronômicos (literalmente) orçamentos destinados à corrida espacial foram reduzidos gradativamente após o fim da guerra fria, implicando na economia de bilhões de dólares. Embora a NASA, agência espacial americana, tenha gasto muito dinheiro na sua época áurea, também, foi uma das instituições mais transformadoras do mundo. Das suas pesquisas resultou o registro de cerca de 6.300 patentes de produtos inovadores, destacando filtros para água, aparelhos ortodônticos invisíveis, lentes óticas resistentes a arranhões, detectores de fumaça ajustáveis, ferramentas elétricas sem fio, dentre outros.


Hoje, a corrida espacial está mais difusa nos seus objetivos, ofertando serviços inestimáveis nas áreas de logística, navegação em geral, comunicação e controle ambiental. O GPS (sistema de posicionamento global) é fruto de tecnologia espacial, assim como as transmissões de sinal de TV de uma Copa do Mundo irradiada simultaneamente para centenas de países. O fato é que hoje, faz muito tempo que o homem não pisa na Lua.


Mas o que a corrida espacial tem a ver com educação? Do ponto de vista da educação profissional temos ai à oportunidade de gerar técnicos altamente qualificados para a crescente demanda por serviços prestados pelos mais diversos satélites artificiais, inclusive brasileiros. Já, sob a ótica da educação formal, temos no campo da astronomia e astronáutica a infinita possibilidade de atividades transversais ou interdisciplinares motivadoras. Certamente, por trás do lançamento de um projétil que percorrerá longos trajetos com alterações ambientais extremas, há de ser trabalhado um arranjo de várias disciplinas do conhecimento humano para a superação dos severos desafios impostos ao nosso foguete. Durante a viagem espacial, por exemplo, o lado voltado para o sol em um foguete chega a aquecer a mais de 120° C, enquanto o lado que está na sombra esfria a -100° C. Qual a alimentação adequada para os tripulantes? Como tratar os excrementos humanos? Como a ausência de gravidade altera a saúde física e psíquica dos seres humanos? Essas perguntas norteiam temas geradores para a pesquisa e a criatividade das respostas que, com efeito, ultrapassarão os conteúdos de qualquer disciplina escolar isolada.


Costumo diagnosticar que a deficiência educacional brasileira está na ausência ou no sub-dimensionamento de atividades pedagógicas para as boas práticas do conviver e do desenvolvimento de hábitos socialmente construtivos. Também definhamos nas atividades pedagógicas que eduquem a vontade, ou seja, a volição. Enquanto gestor de escola de educação profissional, tenho minha atenção voltada para a formação de nossos alunos no conhecimento, nas atitudes e nas habilidades necessárias aos profissionais competentes. Costuma-se exagerar na construção do conhecimento nos alunos, como se isso bastasse. Vejo o conhecimento como a porta de entrada para o trabalho, porém, o que conserva o emprego e garante ascendência na carreira profissional são as atitudes e habilidades do trabalhador. Menos de 20% das demissões são ocasionadas por falta de conhecimento do brasileiro.


Nesse cenário, o SENAC em Sergipe está desenvolvendo a corrida espacial entre centenas de adolescentes aprendizes que estão empenhados em levar a marca de suas empresas para o alto, estampadas em foguetes que  estão fabricando, aplicando conhecimentos diversos, desenvolvendo habilidades manuais e técnicas, e acima de tudo, aprendendo a trabalhar em equipe. Esses bólidos estão sendo construídos com material reciclado, e o combustível propulsor é água pressurizada. Inócuo, portanto, do ponto de vista ambiental. Nessa oficina existe um orientador habilitado pela Agência Espacial Brasileira e a contagem regressiva já está em curso até o dia 16 de outubro quando os foguetes serão lançados às 9 horas, no Parque da Sementeira. Esse espetáculo é uma homenagem aos professores pela passagem do seu dia, 15 de outubro.


Ah! E por que o homem não pisou mais na Lua? Talvez atendendo a pedidos diversos, como na marchinha:


“Todos eles estão errados/ A lua é dos namorados/ Lua, oh lua/ Querem te passar pra trás/ Lua, oh lua/ Querem te roubar a paz/ Lua que no céu flutua/ Lua que nos dá luar/ Lua, oh lua/ Não deixa ninguém te pisar.”

   



Publicado no jornal Cinform 11/10/2010 – Caderno Emprego



segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A resposta está em suas mãos

 

Costumo dizer que possuímos maior facilidade de responder às nossas questões por meio de uma visão bipolar que de uma visão tridimensional. Tal forma de ler o mundo nos compromete a uma melhor compreensão devido à insuficiência de dados. Lamentavelmente, o homem costuma degradar para facilitar o que pretende controlar ou produzir, numa relação extremamente danosa para o equilíbrio da natureza e seus sistemas ecológicos. Essa degradação nos leva a descristalizar o reino mineral, de onde extraímos suas riquezas, abandonando substâncias amorfas. No reino vegetal adicionamos às plantas sais minerais, fertilizantes ou defensivos, talvez numa tentativa de mineralizar e, portanto, degradar os vegetais. Com os animais, tendemos, cada vez mais, ao confinamento abusivo, no qual há severas restrições à mobilidade. Mais uma vez, degradamos, agora com a aplicação de uma vida vegetativa ao reino animal. E, finalmente, quando avaliamos as práticas da condução do ser humano, vemos insistentemente, ações de coletivização contrárias ao desenvolvimento do livre arbítrio, objeto maior de nossa aventura humana. A negação da individualidade nos leva a sermos vistos como uma espécie dotada de comportamentos padrões massificados, e não como indivíduos únicos.     


A compreensão de um universo dotado de dois pólos é uma imagem simplista da verdadeira realidade. Luz ou escuridão, mercado ou Estado, dentro ou fora, criacionista ou evolucionista, simpatia ou antipatia, sujeito ou objeto, atração ou repulsa, vivo ou morto, dentre outros, é uma classificação pobre e insuficiente para a complexidade do nosso universo.


A chave inicial para ampliar a nossa compreensão do mundo está na tridimensionalidade das coisas, e não na bidimensionalidade. Desde quando nossos mais remotos antepassados começaram a observar as estrelas que notaram a tridimensionalidade das coisas presentes no mundo. A partir dos astros perceberam o tempo cronológico dividido em passado, presente e futuro. Também aprenderam a se deslocar no espaço físico, coincidentemente, dotado das três dimensões: altura, largura e profundidade.


Nós, seres humanos, somos dotados de instrumentos naturais para a leitura tridimensional do que observamos: o pensar, o sentir e o agir. Esses instrumentos se aplicam as três dimensões a seguir.


O pensar nos relaciona ao passado vivido e já registrado em nosso cérebro. Por isso, temos muito mais facilidade em dizer quais foram os últimos mil resultados de loterias já realizadas que apenas um único resultado futuro. No espaço tridimensional temos o pensar associado à profundidade.


Já o sentir, isto é, o emocional humano, é nosso instrumento de leitura do presente, do aqui e agora. É o sistema responsável por nos centrar no que fazemos e pensamos. Em resumo, é a sede de nossas atitudes e da nossa convivência social. No espaço tridimensional o sentir relaciona-se à largura, ou seja, à horizontalidade.


Assim, obviamente, o agir é o nosso instrumento do futuro. Através de nossas ações fazemos o futuro acontecer. É o elemento transformador. As mudanças resultantes de nossas ações são sempre posteriores a elas. Por isso, só podemos mudar o futuro e jamais o passado. Dentre as três dimensões espaciais, associamos o agir ao erguer, isto é, à verticalidade.


Para aplicarmos a tridimensionalidade nos exemplos anteriormente citados veremos: que entre a luz e a escuridão encontram-se todas as cores. Que, além de mercado e Estado encontramos o terceiro setor. Veremos ainda que a borda encontra-se tanto dentro quanto fora de uma figura geométrica. Que antropósofos formam uma terceira via entre criacionistas e evolucionistas. Que a empatia supera a simples simpatia ou antipatia. Que entre o objeto e o sujeito está o conhecimento, ou não haveria o sujeito. Que além da atração e repulsa estão todas as órbitas. Que para vivo ou morto, ops....prefiro que leiam abaixo.


No livro Artistas do invisível, de Allan Kaplan, há uma linda história, originada em uma vila de Botsuana, a respeito de alguns jovens que queriam desafiar a sabedoria do ancião da aldeia. O líder desses jovens pegou um passarinho, apertou-o com firmeza para escondê-lo na mão e foi ter com o ancião, levando o seguinte desafio: “Você, que tanto sabe, diga-nos se esse pássaro está vivo ou morto”. A ideia era que, se o ancião respondesse que o pássaro estava morto, o jovem o soltaria, para provar-lhe que estava errado. E, se o ancião respondesse que o pássaro estava vivo, o jovem o esmagaria na mão, para provar-lhe que estava errado. Enfim, não havia jeito de o ancião vencer a prova. Diante do desafio, o velho homem olhou bem nos olhos do jovem e disse, com toda segurança: “A resposta está em suas mãos”.





Publicado no jornal Cinform 27/09/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Gestão e pedagogia: Princípios comuns

 

Guardo, com muito zelo, um exemplar da revista Informática Exame, de março de 1996. Esse querido exemplar me traz a perfeita noção do quanto nossa sociedade se transformou em tão pouco tempo. Lá está uma chamada para uma edição especial sobre tecnologia da informação com o seguinte título: “entre no mundo da informação sem limites”, com promessas de apresentar “a internet e o boom do comércio eletrônico”. Acontece que no anúncio consta um número de telefone à disposição dos promissores anunciantes, mas não há email ou endereço de internet disponível porque simplesmente, em 1996, não existia internet no Brasil, exceto algumas ilhas da rede. Nesta mesma revista, em outra página, tem um cupom para “acesso direto” aos anunciantes, via Correios, sem necessidade de selar. Encontro, ainda, uma propaganda de um computador Pentium 100, em imperdível promoção por R$ 4.200,00, cerca de R$ 8.000,00, hoje, se corrigido pelo dólar, ou seja, dez vezes o preço de um PC atual de capacidade muito superior.


Assim era o mundo em 1996, ano da promulgação da atual LDB – Leis de Diretrizes e Bases- que regulamenta todo o sistema educacional brasileiro. Embora seja uma Lei moderna, não foi desenvolvida para o contexto atual, o mundo da EaD - educação a distância, das redes sociais, do lap top para cada criança, das lan houses cidadãs, do ENEM, do ENADE, das cotas raciais (sic), dentre outras coisas.


Diante de uma transformação social tão veloz, há de se supor que, assim como muitos jovens de hoje são completamente incapazes de imaginar o mundo sem celular e sem internet, também, nos é impossível saber quais novas profissões surgirão em muito pouco tempo, oportunizando trabalho, inovação, e até uma total dependência tecnológica que não nos  faz a menor falta hoje, mas será indispensável em pouco tempo.


Paralelamente, existem coisas que não mudam, resistindo ao tempo através da sistemática e pobre polarização de valores. Algo como assim ou assado, luz ou escuridão, mercado ou Estado, dentro ou fora. Creio que tal estreiteza de visão está imbricada de pseudo-ideologia da dialética marxista, na qual é necessário se opor tecnicamente, para criar sustentação ao discurso, ainda que distorcido. Situação em que, uma frase apenas, isolada do contexto é usada para desqualificar uma palestra ou uma tese. É uma forma simplista de “vender” a realidade.


Como dizem os antigos, desde que Adão era cadete, isto é, desde quando nossos mais remotos antepassados começaram a observar as estrelas, e que perceberam a tridimensionalidade das coisas presentes no mundo. A partir dos astros, percebemos o tempo cronológico dividido em passado, presente e futuro. Também aprendemos com o céu a nos deslocar no espaço físico terrestre, coincidentemente, em três dimensões: altura, largura e profundidade.


Creio que a tridimensionalidade nos enriquece a compreensão do mundo que vivemos. Desta forma, se imaginamos um circulo, podemos ver que o seu centro pertence a dentro e a fora simultaneamente, igualmente a sua borda.  O mesmo acontece com os modelos de mercado e Estado que desconsideram a existência do terceiro setor, notadamente quando afirmamos que este é não-governamental e sem fins lucrativos. Só dizemos o que ele não é, pois falta-nos a tridimensionalidade natural para entendermos o mundo. Entre os pólos existe o limiar assim, como entre a luz e a escuridão estão todas as cores.


Penso que perguntas recorrentes do tipo “aluno ou cliente?” merecem respostas mais complexas e menos ideologizadas. Todo aluno deve ser tratado como cliente até que se comece um verdadeiro trabalho pedagógico, isto é, até por o pé na sala de aula. A partir daí passa a ser aluno. A relação da escola com o aluno deve ser profunda, pois até o destino deste está sendo definido. Portanto uma relação de profundidade, largura e altura superior à de uma empresa com seus clientes.


Igualmente, quando perguntado se a escola é uma empresa? Respondo que sim. A escola é uma empresa, seja do ponto de vista institucional, seja pelos compromissos orçamentários e financeiros que possui, ou ainda, pela desafiante sobrevivência mercadológica. Mas, acima de tudo, é uma empresa, por ter que ser sustentável para honrar seus compromissos econômicos e educacionais. Isso vale inclusive para a escola pública que tem que apresentar resultados de seu trabalho pedagógico maximizando seus recursos orçamentários.  


Devemos fugir da superficialidade na observação da realidade. Pedagogia e gestão são frutos de uma mesma ciência e, portanto, não podem divergir em seus princípios mais básicos. Tridimensionalmente, devemos educar o pensar, o agir e o sentir na pedagogia. Analogicamente, os gestores necessitam de conhecimentos, habilidades e atitudes, ou seja, competência de suas equipes. Todos os grandes autores afirmam ser a educação casada com o trabalho.





Publicado no jornal Cinform 13/09/2010 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial set/2010

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Educação e contexto



Toda sociedade procura se perpetuar e, para isso, utiliza da educação como forma de reproduzir seus valores, suas conquistas e sua visão de mundo para as novas gerações. Assim, em todas elas existe um modelo de educação, ainda que não seja explicito e que as pessoas da comunidade nem tenham consciência dele.


A educação é um direito de cada um, tornando-se então um dever nosso educar a outras pessoas. Daí, nessa relação educador-educando forma-se um vínculo profundo que deve fazer uma passagem útil, feliz e comprometida com o destino do educando. Importante dizer que nesse binômio educador-educando ocorre sistematicamente a troca de posições. Ora somos educadores, ora somos educandos. Afinal, existe melhor momento de aprendizagem do que quando ensinamos?


No mundo atual as exigências educacionais são bem mais rigorosas que em tempos passados. A educação sempre esteve diretamente atrelada ao mundo do trabalho. Em tempos remotos, acompanhar o pai ou a mãe em suas atividades diárias era suficiente para preparar o jovem para a vida, num processo de educação difuso e sem metodologia. Hoje, os filhos raramente têm a oportunidade de acompanhar os pais no trabalho e quando o fazem não o compreendem claramente, isso porque o trabalho tornou-se cada vez mais abstrato e menos tangível aos sentidos, exigindo grande capacidade cognitiva do trabalhador.


A educação formal é o calcanhar de Aquiles da moderna economia. E aqui no deparamos com uma enorme ameaça: a importação de modelos e metodologias que não nos respondam às nossas reais necessidades porque só há educação significativa com contexto. E todo contexto, por sua própria natureza, é ricamente interdisciplinar.


Nos Estados Unidos, há muitos anos atrás, seis nações indígenas assinaram um tratado de paz com os Estados de Virginia e Maryland. Ocorre que os governantes brancos ofereceram vagas em suas escolas para jovens índios e receberam como resposta uma carta com a recusa e o agradecimento dos chefes das seis nações, nos termos a seguir, que mais tarde Benjamin Franklin adotou o costume de divulgá-la.


“... Nós estamos convencidos de que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo coração. Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa.


... Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltaram para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros.


Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens”.


Certamente nessa carta dos índios estão algumas das questões mais importantes da educação que se discute hoje. Assim, fica evidenciado que não há um modelo único nem mesmo uma forma única. Creio até que nem exista uma educação melhor que outra se ocorrem em contextos diferentes dada a impossibilidade de comparar culturas e valores.


Precisamos cuidar de nossa educação filtrando modelos importados inadequados e desajustados a nossa realidade local. Diferentemente da situação tão delineada e distante entre as partes pacificadas relatada na carta acima, o Brasil tem na mistura de povos e etnias um valor cultural diferenciado para nossa educação.


Tenho certeza que encontraremos os legítimos valores brasileiros entre os extremos representados por personagens clássicos. De um lado, Iracema, a romântica virgem dos lábios de mel, índia que por fidelidade a seus princípios, renuncia o alto posto tribal que ocupa, para, uma vez apaixonada, viver o drama de casar com Martim, branco guerreiro que combate seus irmãos índios. Fato que a faz viver profundo drama, mas que dessa união nasceu Moacir. E opostamente, Macunaíma, negro, filho de índia, nascido na selva que se torna branco para ir para São Paulo, revelando sua natureza de herói sem nenhum caráter. Embora nenhum destes seja, por si, a expressão fiel do povo brasileiro, também não há como descartá-los: ambos comungam da miscigenação como elevado valor brasileiro.   


Respeitemos a riqueza de nossa cultura, farta de lendas, músicas, folclore, autores famosos e, acima de tudo, miscigenada como nenhuma outra, para juntos encontrarmos os bons e profundos valores próprios que estão presentes no íntimo de cada brasileiro e ajudar a fazer do Brasil uma Nação (com N maiúsculo mesmo). 





Publicado no jornal Cinform 30/08/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O próximo homem mais rico do mundo

 

Dentre os atuais homens mais ricos do mundo aparecem destacadamente os grandes condutores dos negócios em tecnologia da informação e comunicação. Dentre estes, o mais tradicional e emblemático é certamente o Sr. Bill Gates, dono da Microsoft e símbolo da popularização do computador. Embora saibamos ser seu grande mérito de natureza mais comercial que tecnológica, haja vista que existem sistemas superiores em estabilidade e qualidade que os seus, porém, a indiscutível superioridade econômica da Microsoft a faz detentora de esmagadora porção do grande parque de sistemas em computadores pessoais.


A popularidade dos computadores cresceu exponencialmente nos últimos anos, especialmente após o advento da internet que libertou o computador de si mesmo, tornando-o acima de tudo um instrumento de comunicação. O presidente da SUN Microsystem, grande fabricante americana de computadores, já profetizava há mais de 12 anos com a seguinte frase: “o computador é a rede”, reforçando a tendência que se anunciava de que o computador isolado seria um instrumento extremamente limitado e restrito a aplicativos profissionais, distante portanto, de utilidade para o grande público.


Hoje, por conta desta popularização dos computadores, existe mais de 1,7 bilhões de internautas no planeta. Número assustador por si só, já que é maior que a população de qualquer nação, inclusive da China. O mais grave porém, é que estima-se que dez por cento deste internautas são viciados em internet, fenômeno que especialistas consideram um “problema psiquiátrico” já inerente à saúde pública. Afinal, 170 milhões de pessoas com distúrbios é quase o mesmo que o total de brasileiros vivos e, pior, brevemente superior.


A doentia fixação pela rede foi diagnosticada como “distúrbio de adição à internet” e o vício é chamado de “internet-dependência” ou “internet-compulsão”. As vítimas deste distúrbio manifestam alterações de comportamento afetando sua vida familiar, social e profissional. Apresentam, ainda, um severo nível de estresse, perda da auto-estima e afastamento do mundo real. Esse desinteresse pela vida familiar e pelo casamento já fez surgir até grupos de apoio a “cyberviúvas”, ou seja, esposas de viciados em internet.


No mundo do computador não só a internet é a vilã. Também, os jogos eletrônicos produzem grandes mazelas, principalmente entre os mais jovens. São inúmeras as famílias que possuem filhos e filhas pré-adolescentes ou adolescentes que mergulham horas seguidas no computador para jogar ou navegar em sites de relacionamento em conversas intermináveis com amigos virtuais mais afetivos que os reais, ainda que possa ser a mesma pessoa. Talvez, devido a timidez a relação seja mais fácil na rede que na escola, por exemplo.


Pedagogicamente falando, os jogos eletrônicos de ação são ferramentas adestradoras, isto é, condicionadoras de respostas automatizadas. Sua fundamentação provém da teoria de Skinner, que demonstra ser possível “educar” através de estímulos que levam a reações recompensadas, quando bem correspondidas, ou punidas, quando frustradas. Esse é o processo de adestramento de animais em geral, seja para cães policiais ou para elefantes de circos. Aliás, a opinião pública crescentemente repugna os condicionamentos que agridem a natureza do animal, coibindo sua participação em circos e até em tradicionais touradas espanholas.


Entendo que um jovem submetido a horas de jogos de ação contra um computador ou mesmo outro jogador remoto, está sendo submetido a um processo de desumanização, já que seu desempenho será tanto melhor quanto mais rápida e impensada for sua reação ao estímulo. Para sermos imediatos num jogo assim, faz-se necessário agir da forma mais próxima possível do arco-reflexo, isto é: abrir mão da análise, da crítica, dos julgamentos, dos freios, da moralidade, da compaixão, dentre outras faculdades mais nobres e diferenciadas do ser humano, para assim, responder prontamente ao estímulo no mesmo nível da máquina. Erroneamente, muitos vêem nessa destreza indicadores de desenvolvimento da inteligência, quando se dá exatamente o contrário.


Diante do cenário apresentado, no qual a tecnologia está impactando decisivamente na cultura, tenho duas perguntas que me inquietam: Por que denominamos de “usuários” igualmente os que fazem uso de drogas e os que fazem uso de computadores? E, por que se rejeita hoje, o condicionamento de animais e se admira o de crianças?


Se esse avanço tecnológico atual provocou a pujante riqueza econômica de alguns homens que com seus inventos recriam a condição humana na Terra, creio que o próximo homem mais rico do mundo será aquele que inventar a fórmula redentora para muitas famílias e educadores, que irá tirar as crianças e jovens da dependência maléfica do computador, humanizando-os.




Publicado no jornal Cinform 16/08/2010 – Caderno Emprego