segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Palmadas educativas

 

Tenho evitado escrever neste espaço sobre assuntos que estão muito presentes no cotidiano, uma vez que a mídia está abordando espaçosamente esta notícia por jornalistas e articulistas, certamente muito qualificados. Porém, por ser a “palmada educativa” que pais aplicam em seus filhos uma temática atinente a educação, entendo que devo contribuir com o debate por meio desta reflexão de natureza muito pessoal.


O tema está em evidência na mídia em decorrência do envio de Projeto de Lei que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Numa leitura mais cuidadosa percebe-se que sua interpretação abrange a proibição da chamada “palmada educativa” dada pelos pais em seus filhos menores. Entendo que tal lei, embora de teor válido, extrapola a realidade sociopolítica brasileira invadindo a instituição família e por focar assunto de natureza secundária ante a saúde pública, a educação escolar formal, a segurança pública – inclusive de crianças em salas de aula vitimadas por balas perdidas, o direito a privacidade, a moradia, dentre outros inúmeros problemas nacionais, infelizmente tradicionais.


Não seremos país de primeiro mundo por termos belas leis, mas sim por conta de nossos costumes e realidade local. Vários autores definem que possuir leis distantes dos costumes é uma característica dos países subdesenvolvidos. Consequentemente, enquanto nossas leis forem desencontradas de nossas práticas estaremos irremediavelmente no terceiro mundo.


Como educador, penso ser muito mais desastrosa a educação sem a imposição de limites do que com alguns exageros destes. Explico melhor: não defendo em nenhuma hipótese a prática de castigos físicos ou psicológicos como medida educativa, mas o outro lado da moeda tem feito estrago maior na educação dos filhos. Existe a indispensável autoridade amorosa dos educadores que deve conduzir as crianças para a formação de bons hábitos e virtudes, impregnando o futuro adulto com valores fundamentais para a cidadania e o respeito à sociedade.


A educação sempre deve incomodar um pouco o aprendiz, visto que este deve sair do patamar atual para outro mais elevado e isto sempre exigirá esforço. Sob a ótica de Piaget, o processo de aprendizagem decorre do provimento de cômodos para a assimilação dos novos conteúdos até que estes cômodos se esgotem exigindo a construção de outros superiores adequados a novos níveis de cognição, o que o ilustre pesquisador chamou de acomodação. Assim, a criação de novos cômodos exige um esforço de motivação e investimento pessoal para crescer cognitivamente permitindo um pensar cada vez mais abstrato e complexo.


Na visão globalizante da pedagogia Waldorf, a idade dos 7 aos 14 anos contempla a fase ideal para a criação de hábitos e ritmos saudáveis. Estes mesmos hábitos só são sedimentados com a presença firme de adultos que acompanham, cobram, orientam e persistam para que se consolidem permanentemente. Por exemplo, crianças que são sempre acordadas cedo nessa faixa etária cultivarão o hábito pelo resto da vida, assim como escovar dentes, tomar banhos, ser cortez com o próximo, respeitar o espaço coletivo, gostar de ler, dentre outros bons ou maus costumes que também são implantados nessa época e eternizados com o passar do tempo.


Todos nós adultos sabemos o quanto é trabalhoso acompanhar crianças na construção de valiosas virtudes. Sabemos também que as atribulações da vida nos estressam e que nossos filhos querem toda a nossa atenção gerando grandes conflitos emocionais. É perfeitamente comum que pais percam a calma com seus filhos, isto é, tornem-se intolerantes e impacientes. Mas não se admite que um adulto agrida compulsivamente e covardemente uma criança. Sei que o mais importante para a criança é ver autenticidade no amor dos pais, a segurança que inspiram, é poder dizer com convicção para os amigos que seus pais são verdadeiros com ele, e saber da intensidade dos poucos momentos que passam juntos.


Pessoalmente, levei palmadas educativas na minha infância, em casa, e afirmo que não me lembro de nenhuma delas. Porém, com toda certeza, lembro das broncas que ouvi e dos conselhos que recebi de meus pais. Sou muito grato pela educação que me deram e a eles devo muito do meu caráter.


Me preocupa mais a ausência de bons exemplos da programação da TV, a permissividade, a indiferença dos educadores e pais, a erotização precoce, a utilização livre da internet, a falta de bons exemplos concretos dos adultos ou a agressão moral sem testemunhas, do que a imposição de limites às crianças, como as palmadas educativas. Afinal, como ouvi de um palestrante: “um pai que não diz não ao filho, não ensina o filho a dizer não ao traficante”.


Finalmente, só acredito em educação verdadeira com exemplo vivo e coerência. Então, que o Estado Brasileiro dê seu bom exemplo primeiro.  





Publicado no jornal Cinform 02/08/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 19 de julho de 2010

De onde menos se espera




O Brasil é pródigo em ofertar personagens polêmicos e marcantes de seu tempo. Um desses personagens foi o famoso Barão de Itararé (1895-1971), o Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly. Sempre irreverente, em 1930, com a revolução, o humorista proclama-se Duque de Itararé, herói da batalha que não houve. Semanas depois, rebaixa-se a Barão como prova de modéstia. Pois vem dele a máxima: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.


Penso que essa frase está bastante atualizada no imaginário nacional em função do pífio desempenho da nossa seleção na recente Copa do Mundo da África do Sul. Particularmente, considero exagerada a cobrança que fazemos sobre o nosso time, pois desmerecemos assim, todos os demais. No mundo globalizado de hoje o futebol já não está vinculado ao status local. Os jogadores são profissionais de grande mobilidade entre times de todo o planeta, levando técnica, estratégias e habilidades para todos.


Mas, como falamos em Copa do Mundo e aproveitando o momento de melancolia brasileira, é oportuno mostrar que numa competição como esta, apenas um time ou país sai plenamente feliz do grande evento: o vencedor. É típico do ambiente de competição essa característica de generalizar, ou melhor, socializar a tristeza enquanto se elitiza a alegria. Dos trinta e dois times que iniciaram a competição, apenas um sai vencedor. Ou seja, TRISTES 31 X 1 FELIZ. Exclusão é a lógica da competição. Nesse perverso processo é melhor sair em terceiro que em segundo lugar, pois sai vitorioso na última partida. O técnico da perdedora Holanda desqualificou o excelente segundo lugar do torneio ao arrancar sua medalha do pescoço imediatamente após a homenagem.


Que alternativa temos para a competição? A cooperação. E esse é o caminho que devemos buscar em nossas ações no dia a dia. No nosso trabalho, se bem observarmos, tudo que fazemos é para os outros, já que hoje, praticamente, ninguém trabalha para si próprio, uma vez que é impossível consumir tudo o que somos capazes de produzir.


No campo educacional conheço escolas que mesclam competição com cooperação até na prática esportiva: no futebol, por exemplo, a cada gol os jogadores são misturados entre os dois times, reforçando a colaboração individual para o conjunto sem a tristeza de perdedores posto que assim não os haja. Todos jogam em ambos os lados. Outra experiência interessante praticada por alguns professores da disciplina Empreendedorismo no ensino médio da rede pública estadual de Sergipe é a organização do todos os trabalhos escolares em equipes, aí chamadas de empreendimentos cujo “faturamento” destes é o resultado da soma das notas dos seus membros em todas as disciplinas cursadas naquele ano. Assim, cada aluno coopera para o sucesso do empreendimento com suas notas valorizando o desempenho escolar e a permanência na escola como fator visível para o bem de todos, desmistificando a ideia de que o insucesso escolar é problema apenas de natureza individual.


Vejamos como uma competição transforma-se em cooperação numa paraolimpíada ocorrida em 1994 nos Estados Unidos. É um texto colhido na internet que atinge profunda e inesperadamente nossas almas nos dando uma grande lição:


“Há alguns anos, nas olimpíadas especiais de Seattle, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física, alinharam-se para a largada da corrida dos cem metros rasos.


Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar. Todos, com exceção de um garoto, que tropeçou no piso, caiu rolando e começou a chorar. Os outros oito ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás. Viram o garoto no chão, pararam e voltaram. Todos eles!


Uma das meninas, com síndrome de down, ajoelhou-se, deu um beijo no garoto e disse: "pronto, agora vai sarar". E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. O estádio inteiro levantou e não tinha um único par de olhos secos. E os aplausos duraram longos minutos.


E as pessoas que estavam ali, naquele dia, repetem essa história até hoje. Por que? Porque lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida é mais do que ganhar sozinho. O que importa é ajudar os outros a vencer”, cita a matéria.


Toda vez que leio esse texto fico emocionado. Acredito que na mão de uma pessoa iluminada, rica espiritualmente, não existe gesto banal, tudo que faz revela nobreza independentemente de sua condição física ou mental.


Essa paraolimpíada me dá a certeza que o pensamento do Barão de Itararé felizmente está equivocado. É fruto da nossa visão míope, preconceituosa e estanque. Creio que de onde menos se espera... é que virá surpreendentemente, um novo mundo melhor.





Publicado no jornal Cinform 19/07/2010 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE  – Editorial jul/2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Pedagogia. Para que?




     Na antiga Grécia surge a figura do pedagogo como sendo o escravo que, equipado com uma lanterna, conduzia as crianças até as palestras, além de as acompanharem na execução das lições e tarefas exigidas. Assim, a imagem do pedagogo na sua forma mais original é a de alguém que atua ofertando as condições para que a educação aconteça da maneira mais efetiva e segura possível para além, como se vê, do interior da escola. Desta forma, a lanterna simboliza bem mais que a simples fonte de luz necessária para atravessar o caminho escuro mas, a iluminação que o conhecimento dá ao homem. Essa imagem da lanterna na mão do pedagogo ajuda a induzir muitos educadores ao erro de significar o termo aluno como “sem luz”. Tal afirmação é indevida pois trata-se de verbete de origem latina traduzido como “lactante”, ou “aquele que necessita ser nutrido”.


Nas escolas de pedagogia atuais o currículo prende-se demasiadamente ao estudo dos teóricos da educação e pouco às metodologias de ensino e aprendizagem. Muitos educadores saem de tais cursos extremamente ideologizados e, consequentemente, tão apaixonado por um grande autor da pedagogia quanto desafetos de outros.


Devemos, de fato, render homenagens a grandes teóricos da educação. Piaget, por exemplo, nos trouxe contribuições fantásticas no campo da cognição e suas conexões biológicas. Já, Paulo Freire nos instrumentaliza para a humanização e a relação dialógica do aluno com o professor. Por sua vez, Vygotsky apresenta os fundamentos da interação social como fator decisivo da aprendizagem. Diferentemente, Skinner, demonstra cientificamente que a aprendizagem pode ser realizada por condicionamentos a partir de reforços físicos e/ou sensoriais. Por outro lado, Steiner nos apresentou uma pedagogia de grande completude no desenvolvimento humano. Como vemos, é grande a lista de gigantes da educação, que ainda pode ser acrescida por Rousseau, Pestallozzi, Froebel, Ferrer, Dewey, Dècroly, Makarenko, Ferrière, Cousinet, Neill, Rogers, Robin, Montessori, Emilia Ferreiro, dentre outros.


Ora, como pode haver tantos defensores do processo de aprendizagem se baseando em pilares tão distintos na defesa dos seus objetivos educacionais? Será que algum deles está plenamente correto? Se for verdade, então significa dizer que os demais erraram nas suas propostas. Quem acertou? Quem errou? Ou não existe isso?


Vejamos o seguinte: cada grande teórico prioriza um eixo do desenvolvimento humano. E por este caminho fragmentado apresenta seus resultados. Será que chegaram a plena conclusão de suas teses ou estavam em processo permanente de construção? Geralmente os discípulos são apegados a interpretações rasas das teses de seus mestres, distorcendo assim, sua aplicação. Exemplo disso é a interpretação degradante que por interesse ideológico aplicam indevidamente à palavra “aluno”.


A educação se dá no domínio da alma humana, isto é, na interioridade da pessoa e se manifesta através do pensar, do sentir e do agir. Da mesma forma como ninguém é considerado competente apenas por ter habilidade sem ter os conhecimentos e as atitudes correspondentes. Também, não podemos dizer que alguém é educado se tem apenas conhecimento, sem os correspondentes níveis de controle emocional e sem fazer aquilo que diz saber.


Como citamos o pensar, o sentir e o agir, podemos relacioná-los diretamente com três dos quatro pilares da educação no século XXI, propostos por Edgar Morin. Assim, nosso raciocínio é: existe uma linha teórica mais adequada para o desenvolvimento de cada pilar? Vemos que a linha teórica de Piaget, emblematicamente, prioriza a cognição (aprender a aprender); já, Paulo Freire e Vygotsky priorizam o desenvolvimento social do indivíduo (aprender a conviver); e finalmente, Skinner, valoriza o fazer, o agir educado (aprender a fazer).


Como pode alguém apaixonado por qualquer linha teórica da pedagogia querer aplicar sua metodologia para toda a abrangência da educação? Vejo que um dos erros da escola brasileira é ter muito discurso e pouco resultado final. Enquanto nós pedagogos não formos capazes de levar os alunos a desenvolverem conhecimentos, habilidades e atitudes, estaremos cada vez mais agarrados a discursos bem fundamentados, cheios de citações, úteis em ultima análise, para justificar o porquê não dá certo.


Penso que é natural que tenhamos o nosso teórico predileto. Também tenho o meu. Mas, como técnico em educação tenho a obrigação de usar a metodologia mais indicada ao caso e educar equilibradamente o pensar, o sentir e o agir.




Publicado no jornal Cinform 05/07/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O futuro do comércio

 

Vivemos uma era de grandes transformações. Tais mudanças, além de profundas nos hábitos e costumes, também, se processam em velocidades jamais vistas pelo homem. Diferentemente de quinze anos atrás, somos todos dependentes do telefone celular, de tal maneira que se sairmos sem ele nos sentimos inseguros e vulneráveis. Talvez, entendamos que grande parte da nossa vida está ali naquela caixinha tecnológica, ou ainda, que as mudanças se processam tão rapidamente que a ausência momentânea do celular nos fará socialmente excluídos ou alienados – um verdadeiro extraterrestre.


Da mesma forma que a tecnologia afeta nossa vida pessoal, também, influencia as relações sociais, ambientais e econômicas. Novas tendências nos levam em direção a profundas alterações nas relações comerciais e os agentes do comércio e serviços precisam estar em permanente vigilância sobre os novos horizontes para se adaptarem a esses desafios que são tão ameaçadores quanto reveladores de inéditas oportunidades.


Nos últimos dias, dois veículos de larga circulação nacional, uma revista e um jornal, publicaram matérias sobre o surgimento com grande sucesso de sites de compra coletiva que funcionam através de promoções instantâneas com descontos inimagináveis para os consumidores isolados. O site faz intermediação entre lojistas e consumidores organizando barganhas e conduzindo os consumidores em bloco para aquele produto ou serviço. No Brasil, estes sites ainda são muito recentes, algo como no máximo seis meses de funcionamento, mas estão dispostos a apostar nesse mercado.


Se olharmos para essa nova prática, veremos muito mais que o simples uso da tecnologia da informação, pois, trata-se de um empoderamento, isto é, um maior protagonismo do consumidor na cena, que através de um mediador (o gestor do site), auxiliado pela ferramenta (internet) passa a ditar as regras do jogo. Isso é só o começo, pois os consumidores que hoje estão em negociação direta com o comércio, podem passar a negociar diretamente com a indústria eliminando os mediadores e os intermediários, e consequentemente reduzindo custos e preços finais. Tal situação ainda não ocorre hoje, porém, as ferramentas estão aí prontas para serem usadas nos primeiros ensaios. Uma mudança rápida nessas relações pode trazer consequências desastrosas para a geração de empregos e toda a economia do setor terciário.


Penso que está na hora dos agentes do comércio e serviço se reposicionarem e abrirem a discussão sobre as novas tendências que se anunciam e assim, preservarem ou reinventarem sua importante atividade econômica geradora de empregos.


Entre as novas tendências anunciadas, além da exposta acima, devemos ver o crescimento da automação presente nas lojas. Sem deixarmos de lado o crescimento exponencial da automação do fisco em todos os níveis do fluxo dos bens no comércio: desde a compra, o controle do estoque e a venda. Tudo inteiramente acompanhado, ou melhor, fiscalizado.  Também é crescente a mediação de agentes financeiros nas relações entre o consumidor e a loja através do crédito em suas múltiplas modalidades. Algumas lojas são verdadeiros bancos, vivem de remuneração sobre o crédito ao consumidor, usando seus bens à venda como meros atrativos para operações creditícias, revelando até, estranho e explícito desinteresse nas vendas à vista. Ainda devemos ver como tendências claras o crescimento do comércio eletrônico através da internet e TV, e o avanço rumo aos novos perfis de consumidores: crianças, adolescentes, etnias, pessoas que moram só, idosos, classes sociais emergentes, etc.


Os produtos industriais estão cada vez mais comoditizados, isto é, padronizados e normatizados. É visível a tendência ao comum na indústria automobilística onde, a diferença entre carros concorrentes é quase invisível no produto e no preço em si. Porém, se fazem presentes nos serviços ofertados junto ao carro. 


Na prestação de serviço é que está o nicho maior do comércio. É o pedaço econômico onde a indústria e o setor financeiro chegam com grandes dificuldades ao cliente. É o contato direto e pessoal com o consumidor que fará a diferença dos produtos industriais tão homogeneizados. Ninguém compra uma geladeira porque quer a geladeira em si. Compra porque precisa conservar alimentos e para isso, aceita conviver com o incomodo, gastador e imenso objeto na sua moderna cozinha compacta. Assim, grosso modo, só compramos serviços e não produtos. Pense como é importante a opinião clara, honesta e técnica de um vendedor de uma loja de roupas que bem orienta seus clientes, cativando-os e promovendo fidelidade através do atendimento.


Ofertar bons serviços exige mais preparo de todo o time comercial. Faz-se necessário o desenvolvimento de novas competências mais aprimoradas e complexas que só se conquista, inicialmente, pelo desejo pessoal de cada um da equipe de aprender cada vez mais e, depois, pela educação profissional adequada, que deve ser concomitante ao exercício do trabalho ao longo de toda a vida. 


      



Publicado no jornal Cinform 21/06/2010 – Caderno Emprego

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O valor do conhecimento

 

Todos nós sabemos que o conhecimento tem valor econômico. Sabemos também, que quanto mais se sobe na hierarquia das organizações maior é a exigência de conhecimentos do ocupante do cargo. Assim, da mesma forma que se exige maior formação intelectual dentro da empresa aos que estão no topo da pirâmide, também o mercado, de forma geral, hierarquiza o conhecimento como referência de valor.


É fácil ver que em um moderno aparelho celular estão importantes conhecimentos agregados. Poucos sabem fazer celular no parque industrial. O mesmo acontece com inúmeros outros produtos industriais que são frutos de um conjunto reduzidíssimo de empresas capazes de fabricá-los. Por que poucas empresas conseguem fabricar em condição de competitividade produtos e serviços que possuem demanda garantida de consumidores para adquiri-los? É aqui que entra o fator diferencial entre organizações econômicas: o conhecimento. Porém, o mesmo conhecimento que favorece uma empresa de ponta atual, será totalmente inútil em curto prazo se houver mudança nos paradigmas de consumo ou produção. Por exemplo, a Motorola foi referência em telefonia celular analógica, após a mudança da rede de telefonia móvel para o sistema digital, tal liderança passou a ser da Nokia. Por muito tempo a Sony foi praticamente única em equipamentos de som individuais, desde o lançamento do walkman, ainda com fitas cassetes, e mais tarde com o discman, tocador de CDs. Essa soberania foi perdida após a americana Apple lançar a linha ipod, em outro paradigma tecnológico, não prontamente acompanhado pela empresa japonesa.


Estes exemplos nos apresentam claramente o valor que o conhecimento tem quando agregado a produtos. Alguns autores, como o pesquisador Tom Coelho, afirmam que não compramos produtos, mas apenas serviços. Ninguém compra uma furadeira porque quer a furadeira em si. Compramos, na verdade, os furos que necessitamos em nossas paredes, serviço este, prestado pela incômoda furadeira.  Desta forma, o conhecimento se torna ainda mais valorizado economicamente, pois nos serviços ele é mais visível e, portanto, passível de avaliação direta do consumidor do que nos produtos industriais em geral. Em um restaurante, a limpeza de um prato é mais fácil de ser avaliada que um erro no processo de fabricação do próprio prato que o deixou em desconformidade. É no serviço que o conhecimento se realiza, enfim.  


Conhecimento é poder. Por isso, a educação dá poder às pessoas na medida em que as prepara para responderem a desafios cada vez mais complexos e seletivos. A educação é o caminho da liberdade porque emancipa o homem dando-lhe o poder de decidir com mais segurança, e assim, adquirir o almejado livre arbítrio, uma exclusividade humana. A capacitação, aliada a autoconfiança, produz milagres na evolução profissional dos trabalhadores.


Gosto de usar como exemplo do valor do conhecimento os dados econômicos do estado da Califórnia nos Estados Unidos. Sua economia é diversificada, cerca de um terço de sua área é ocupada por fazendas que produzem tanto, que fazem dela o maior celeiro da agricultura americana. É o maior produtor de leite, carne bovina, tomate, morango, melões, pêssegos e melancias e segundo maior produtor de laranjas, além de uvas e vinhos. Dados, portanto, extremamente significativos para qualquer economia tradicional. Porém, toda essa portentosa produção primária responde por apenas 2% do seu PIB. Os produtos industriais propriamente ditos, correspondem a 18% do PIB do estado, ai incluídas as grandes indústrias da informática, telecomunicações e eletrônicos, também, as maiores do país. Sobram, então, 80% do PIB que é completado pelo setor terciário, nele compreendido o comércio e os serviços diversos. Destacam-se o entretenimento fruto de Hollywood e a produção de software para os mais diversos fins.


Como vimos, apenas a economia dos serviços californianos equivale a cerca de 125% de todo o PIB brasileiro. Comparativamente ao nosso estado de São Paulo, a Califórnia, que possui população aproximada, detém um PIB total cinco vezes superior. Tudo isso, fruto do incremento de valor que o conhecimento dá a moderna economia.


Penso que o grande motor da economia mundial moderna é a educação. Ela é o suporte do conhecimento e este, precisa do empreendedorismo para se transformar em valor econômico. É preciso mobilizar o conhecimento através de redes de colaboração interdisciplinares para que possa acontecer inovação em larga escala e, conseqüentemente, gerar riqueza. O que só será possível se houver a indispensável gestão do conhecimento.




Publicado no jornal Cinform 31/05/2010 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial jun/2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Porque educar o pensar, o sentir e o agir



Imaginemos a seguinte cena: um antepassado nosso observando as estrelas dez mil anos atrás. Certamente, a aprendizagem obtida pela observação dos corpos celestes serve de base para muitos dos conhecimentos científicos e tecnológicos atuais. Naturalmente que há, hoje, uma grossa camada de conhecimentos e conceitos que seriam impossíveis à época do nosso contemplativo tataravô em questão. O que regia seus conhecimentos, porém, estava subordinado às mesmas leis gerais presentes nos grandes avanços tecnológicos do século XXI.


A primeira noção adquirida pela observação celeste é o ritmo do tempo. O carrossel das estrelas fixas fornece informações absolutamente precisas do tempo cronológico. Podemos afirmar que o movimento dos astros é um referencial absoluto para nosso proveito terrestre, e como tal, toda referência absoluta é uma lei geral.


Pela observação da posição das estrelas podemos saber com segurança total a hora exata no local onde estamos. Disso resulta um conceito derivado do tempo cronológico e profundamente enraizado no ser humano: a noção de passado, presente e futuro. Percebemos aqui que somos dependentes do tempo e sabiamente a natureza humana é dotada de instrumentos de leitura para tal passado, presente e futuro.


Para lidar com o passado somos dotados do pensar. Isto mesmo, o pensar, a intelectualidade, a memória e a cognição, tão valorizados nos tempos modernos, são nossos agentes de ligação com o passado, senão vejamos: nós só pensamos para trás, só pensamos a partir do que sabemos, isto é, aquilo que já está devidamente aprendido e registrado na memória. Para frente, nosso pensar será meramente especulativo e não seremos capazes de prever o futuro a partir de nossos cérebros. Certamente muitos dirão: e o planejamento não é “pensar” o futuro? Não. O planejamento é um guia para nossas ações e elas farão o tal futuro acontecer, como veremos adiante. Se alguém crer que é capaz de pensar o futuro, então lhe peça que informe o resultado da loteria federal da próxima semana e também o resultado da mesma loteria da semana passada. A diferença entre as duas respostas nos dará com precisão para onde nosso pensar está apto.


Opostamente ao nosso pensar estão as nossas ações. Assim, o nosso querer ou a nossa volição é o instrumento de ligação que temos com o futuro. Desta forma, conclui-se que o futuro é construído a partir de nossas ações. O futuro nasce a cada dia como conseqüência de nossos atos. Se for necessário dar um exemplo esclarecedor, pergunte ao reticente ouvinte: é possível mudar o passado? Certamente a resposta será não. Mas também, certamente ouviremos que é possível mudar o futuro. E mudanças serão sempre resultados exclusivos de ações conseqüentes da vontade de uma ou mais pessoas. Como não podemos mudar algo errado do passado, só nos resta o perdão.


E o presente? Que instrumento a natureza nos deu para sua leitura? O “sentir”, isto é, o sistema emocional humano. São as emoções harmoniosas que nos fazem estar aqui e agora. Quando estamos emocionalmente desestabilizados perdemos a capacidade de ler o presente. Ficamos desequilibrados e perdemos o famoso “simancol”. Tal desequilíbrio pode nos remeter ao passado, um remorso por exemplo. Ou ainda, somos remetidos pro futuro como quando temos uma grande preocupação (pré-ocupação). Em ambos os casos ficamos comprometidos no nosso desempenho social. O sentir humano é o veiculo das nossas interações sociais e da nossa convivência.


Voltando ao nosso inspirado antepassado, outra lição que ele nos deixou como conseqüência da sua capacidade de aprender com os astros, advém da mesma lei geral. É a capacidade de reconhecer o espaço geográfico tridimensional a partir da leitura dessas mesmas estrelas. Tal aprendizado permitiu ao homem a aventura de se deslocar pelo planeta e dominar os mares. Como vimos o espaço coincidentemente com o tempo está dividido em três: profundidade, largura e altura.


Obviamente, já que são frutos de uma mesma lei geral podemos então, por analogia, associar que o pensar está diretamente ligado a profundidade. A largura (o horizontal) está vinculada ao sentir e, conseqüentemente, ao espaço social. Por fim, a altura (o vertical) corresponde ao querer, agir contra a lei da gravidade.


Esta imagem aqui apresentada serve de orientação para a educação integral dos seres humanos. Precisamos educar nas escolas as grandes funções humanas: o pensar, o sentir e o agir. Na mesma ordem estão três dos quatro pilares da educação propostos por E. Morin: aprender a aprender, aprender a conviver e aprender a fazer. Ou ainda, o desenvolvimento de competências: conhecimentos, atitudes e habilidades, também respectivamente.


Generalizando, podemos afirmar que a escola de hoje adora trabalhar o pensar - o aprender a aprender; vacila no desenvolvimento do sentir – o aprender a conviver; e repele a educação da volição – o aprender a fazer.


Mas, como sempre concluo meus textos com uma mensagem otimista, indico aos educadores e pais que conheçam a Pedagogia Waldorf.  Por meio desta, eles verão como é possível educar todas essas macro funções do ser humano de forma equilibrada e efetiva, desvinculada de modismos. Educação para todo tempo e espaço.       

      


Publicado no jornal Cinform 17/05/2010 – Caderno Emprego
Publicado no Boletim da Sociedade Antroposófica nº 064/2011

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Poluição, lucro e prejuízo



O homem desenvolveu dois métodos para lidar com os rejeitos poluentes: caso seja sólido, procura concentrar para que seja isolado no ambiente. Caso seja fluido, isto é, gasoso ou líquido, procura dispersar para não mais tornar-se visível. Assim, a poluição atmosférica ou hídrica é socializada para todo o planeta automaticamente, enquanto a poluição sólida dos aterros e lixões, por exemplo, é delimitada geograficamente. Embora, a poluição sólida sempre reflita em poluição aérea ou do lençol freático, e portanto socializada parcialmente.


Quero com isso fazer um paralelo entre essas metodologias de combate a poluição e as metodologias econômicas usuais no Brasil. Em nosso país, o tratamento que se dá aos prejuízos econômicos se igualam ao tratamento de efluentes fluídos. Socializa-se automaticamente, às vezes na calada da noite, outras vezes acintosamente à luz dos olhos de todos. Emblematicamente, o sistema financeiro repassa todo seu risco e prejuízo aos seus clientes através da taxa de juros, das taxas de serviços ou do spread bancário (diferença entre as taxas de captação e aplicação financeiras). Por sua vez, a indústria e o comércio repassam estes custos para o preço dos seus produtos, majorando o preço final pago pelo consumidor.


Quando uma empresa deixa de honrar seus compromissos com uma instituição financeira, todos pagam. Desta forma, é ingênuo pensar que se trata de um problema localizado, restrito aos agentes relacionados diretamente com o infeliz empresário. Não, a lógica tem se mostrado perversa: a instituição financeira lesada vai repartir o seu “prejuízo” entre todos aqueles que mantêm negócios, inclusive clientes pessoas físicas por meio de suas infindáveis e gordas taxas de juros e serviços ou as anuidades de cartões de crédito.


Importante se faz entender a prática do repasse de custos aos preços finais, o que socializa indistintamente até potenciais prejuízos não efetivados. No preço dos produtos de consumo obrigatório, tipo material escolar, leite para crianças, remédios, transportes, higiênicos e comida, dentre outros básicos estão embutidas externalidades financeiras que não dizem respeito direto ao consumidor, especialmente os de mais baixa renda.


Isto faz do Brasil o país único no mundo que conseguiu fazer um portentoso crescimento do PIB nos últimos 60 anos sem mudar a desigualdade da distribuição da renda. Coisa que só o Brasil consegue. Seja pela criatividade de fazer políticas compensatórias como tíquete-refeição, vale transporte, vale-gás, bolsa-família, etc. Seja pela distribuição livre dos prejuízos a toda a sociedade, penalizando mais os de baixa renda, perpetuando desigualdades e neutralizando ações de políticas públicas reparadoras.


Já o lucro, tão visado ideologicamente, é em tese, muito menos perverso. Com ele, acontece algo semelhante à poluição de sólidos: mesmo concentrado e isolado, é socializado através da “contaminação” dos fluidos ao seu entorno, inclusive na forma de impostos. Portanto, muito mais controlável e saudável que o invisível prejuízo.


Como vemos, tratamos o lucro com impulso concentrador e os prejuízos com impulso dispersor. Não devemos crer que seja possível uma sociedade existir sem ambos já que derivam da assunção de riscos inerentes ao mundo dos negócios.


Na minha visão, lucro e prejuízos são entes naturais da atividade econômica. Não visualizo problemas em ambos dentro de valores e padrões razoáveis.  Mas o que seria razoável? Talvez a visão orgânica da economia traga respostas.


Na natureza, a produção de excedentes é regra básica. Uma laranjeira dá milhares de laranjas com sementes durante sua vida. Caso não houvesse excedente nessa planta, ela daria apenas uma laranja com duas sementes no máximo, para repor sua existência. Sem mais.


O organismo humano produz bilhões de espermatozóides e milhares de óvulos para pouquíssimos serem fecundados. O risco de fracasso é alto e as possibilidades de reprodução são baixas. Inúmeras perdas são freqüentes, ou seriam prejuízos? O excedente corresponde ao risco e essa é a regra natural.


Tudo que é produzido pela natureza é produzido com excedentes. Semelhantemente, na atividade econômica o mesmo acontece com o uso intenso de tecnologias, é o caso de uma máquina de produzir pneus que produzirá muito mais pneus que todos os envolvidos no processo serão capazes de consumir. A diferença é que na natureza só há cooperação e na economia predomina a competição.


O surgimento de uma floresta é de uma beleza sem par. Os primeiros arbustos que surgem vêm apenas para fazer sombra para as árvores secundárias, mais nobres. As secundárias também visam sombrear idealmente o local para o crescimento protegido das terciárias, ainda mais nobres e definitivas. Quando as sucessoras ultrapassam as pioneiras, estas morrem e irão adubar o solo para o desenvolvimento bem sucedido das plantas mais nobres. Assim, surge uma Mata Atlântica, por exemplo, fruto da mais alta cooperação entre seres ditos irracionais.


Na natureza, como na economia existem o excedente, o risco, a perda e a doença. Mas, penso que se nos espelharmos no modelo orgânico para conduzir a moralidade econômica viveremos em justa paz com desenvolvimento cooperado, ainda que alguns sejam pioneiros e outros mais definitivos nas suas atividades. Mas igualmente importantes para o todo.





Publicado no jornal Cinform 03/05/2010 – Caderno Emprego