segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Desenvolvimento = Empreendedorismo + Educação


O ano de 2015 marca os 70 anos de divisão da Coreia. Após a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, em 1945, acordaram União Soviética e Estados Unidos dividir o território da Coreia – que estava sob domínio japonês; em duas partes, à altura do paralelo 38.
Assim, a Coreia do Sul estabeleceu um regime capitalista autoritário, vinculado aos norte-americanos; enquanto a Coreia do Norte implantou um regime autoritário comunista, aliado aos soviéticos.
Já, em 1950 a Coreia do Norte invade a do sul visando reunificar o país, desencadeando a conhecida Guerra da Coreia, palco de confronto entre Estados Unidos e União Soviética com apoio da China, que durou mais de três anos.
Ao encerrar o conflito armado, permaneceu o clima da Guerra Fria por prazo indeterminado. Contudo, nessa época, as regiões Norte e Sul da dividida Coreia apresentavam indicadores econômicos e sociais equivalentes, com ligeira vantagem para o Norte, até a década de 1980.
Os diferentes modelos de governança e prioridades de investimentos promoveram um abismo emblemático entre os dois países, transformando a Coreia do Sul na décima maior economia do mundo, com padrão de renda europeu para seus cidadãos.
Paralelamente, a Coreia do Norte apresenta a renda per capita de seus habitantes equivalente a dos africanos subsaarianos.
Enquanto a ditadura permanece na Coreia do Norte reprimindo a propriedade privada, a inovação, a participação popular e qualquer manifestação de livre iniciativa, por considerá-las atentados a sua economia planificada e aos planos militares (que consomem 40% do PIB), sua população sobrevive a partir de ajudas humanitárias externas, posto que por lá grassa a fome e a morte prematura. Hoje, seus vizinhos do Sul vivem em média dez anos a mais e possuem renda per capita 22 vezes maior.
As disparidades entre as Coreias derrubam várias teorias sobre desenvolvimento econômico, dentre elas a que credita à região geográfica ser ou não propícia a produção de riquezas; ou a que atribui à ética protestante uma maior afinidade com a riqueza; ou ainda, a que vincula a capacidade empreendedora ou de geração de riquezas a razões étnicas.
São inúmeros os comparativos entre a economia brasileira e a coreana do Sul. Chega a ser surrada a informação de que em 1960 a renda per capita do brasileiro era o dobro da coreana. Atualmente, a coreana (do Sul, obviamente) é três vezes maior que a nossa.
Além disso, existem 100 mil jovens coreanos do Sul estudando em universidades americanas, enquanto os nossos não chegam a 10 mil. Ademais, 18% de nossos jovens possuem nível superior (ou estão cursando). Já, entre os jovens deles, apenas 18% não frequentaram o ensino superior.
Contudo, essa arrancada desenvolvimentista da Coreia do Sul é fruto de uma política muito bem pensada e executada em longo prazo e que se caracteriza pelo bom uso do recurso público. Lá, apenas 4% do PIB se destina a Educação e o analfabetismo chegou à zero, quando há 50 anos era 35%, assim como o brasileiro.
Esse cenário comprova a assertividade das políticas públicas que conciliam promover Educação com Empreendedorismo. Com efeito, a Educação favorece a pesquisa tecnológica e o crescimento do Capital Humano, ao tempo em que o Empreendedorismo desenvolve o Capital Social necessário para que os negócios prosperem e aconteça a “destruição criativa” causada pela permanente inovação tecnológica.
Dessa forma, a presença do Estado é obrigatória para fomentar o crédito, a desburocratização, a geração de emprego e a segurança jurídica para os bons investimentos privados.
Ou seja, há de se ofertar uma institucionalidade inclusiva para a economia e para a política, única razão capaz de demonstrar a diferença entre os desenvolvimentos das duas Coreias em tão breve tempo.
Por fim, nos resta como brasileiros impedir que institucionalidades extrativistas nos levem na desastrosa direção da Coreia do Norte. Seja todo o Brasil ou alguma de suas regiões mais pobres. Os mesmos olhos que procuram luzes na foto noturna do satélite na invisível Coreia do Norte, também não veem nada na maior parte do Nordeste do Brasil.


          Publicado no jornal Cinform de 26/01/2015 – Caderno Emprego
          Publicado na revista TI&N n°22 – Fev/2015
          Publicado em http://www.administradores.com.br/artigos/empreendedorismo/desenvolvimento-empreendedorismo-educacao/84349/

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Educação Profissional, Empreendedorismo e propósito de vida


O empreendedorismo na educação revela agradáveis surpresas aos educadores que vibram com o crescimento dos seus alunos. A mais imediata delas vem do ganho de maturidade e de vida interior no jovem que experimenta exercer um papel desafiador no mundo.
Afinal, empreender é, acima de tudo, um estilo de vida construtora de sonhos. Charles Lindbergh, pioneiro aviador solitário a atravessar o Atlântico em 1927, disse: “vivemos hoje os nossos sonhos de ontem”, ensinando que empreendedores são pessoas que possuem fortes vínculos com o futuro e estão sempre dedicados a construí-lo, modificando a ordem e promovendo a chamada “destruição criativa”, a serviço da humanidade de amanhã.
Poucas são as pessoas dotadas dos dons genéticos do comportamento empreendedor. A grande maioria delas, conquista esse comportamento por meio da educação difusa, isto é, adquirida pela cultura local, a partir do exemplo de pessoas próximas, formadoras de opinião e caráter.
 Melhor seria somar a essa cultura a educação formal nas escolas regulares e nas de educação profissional. Parece existir uma razoável dose de apatia nos adolescentes em relação à escola. O ensino médio perde identidade e razão de ser, assim apontam pesquisas para esclarecer os elevados índices de evasão e desinteresse dos alunos.
Porém, inúmeras experiências no Brasil e, destacadamente, em Sergipe, demonstram que a formação empreendedora realizada dentro da escola muda esse cenário. Com efeito, escola que fomenta o protagonismo juvenil tem menores índices de violência e depredação patrimonial; têm, seus alunos, melhor desempenho escolar e mais acesso ao emprego e aos cursos superiores.
Melhora ainda a escolha vocacional e dá ao estudante maior autonomia na vida, que se traduz como independência e autoconhecimento. Equivocadamente, uma palavra que sofre com preconceitos é “empreendedorismo”, uma vez que alguns a associam ao pensamento capitalista ou neoliberal. Ledo engano.
Ser empreendedor é ser construtor de sonhos, ser inconformado com a realidade atual e disposto a lutar para mudá-la em qualquer campo da atividade humana.
Então, personalidades notáveis como Irmã Dulce, Marechal Rondon, Juscelino Kubitscheck, Barão do Rio Branco, Barão de Mauá e, até o criativo candidato Enéas, são exemplos brasileiros de empreendedores, já falecidos, que atuaram em distintas áreas, sempre com a marca da inovação em suas guerreiras biografias, dotadas de propósitos claros.
Razão pela qual estamos ainda hoje citando eles. Minha experiência como educador reforça a tese favorável ao empreendedorismo. Sob a ótica pedagógica, o ensino do empreendedorismo na escola atende às indicações da Unesco para a educação no século XXI, especialmente na consecução de dois dos quatro pilares recomendados: Aprender a Fazer e Aprender a Conviver.
Por certo, esses são os pilares mais desafiadores para as escolas, por serem os mais difíceis de trabalhar em larga escala. Daí a prática orientada do empreendedorismo e do associativismo surgirem como solução.
Após minha decepção com as propostas votadas na CONAE 2014, motivo de artigo publicado nessa mesma coluna (edição 1651), reanimo ao ver alunos secundaristas do Pronatec/Senac-SE – pelo segundo ano consecutivo -, se destacarem nacionalmente, desta vez em dois concursos neste final de ano.
Conquistaram o terceiro lugar no II Prêmio Pronatec Empreendedor e, recentemente, em Brasília, outros alunos disputaram o Prêmio Nacional de Miniempresas Estudantis da Junior Achievement, ambos realizados na sede do Sebrae Nacional.
União perfeita de formação profissional com educação empreendedora. Mais importante que a projeção que esses jovens conquistam, está a visível, embora infinita, mudança na interioridade de cada um. Provando assim, que o que faz vencer na vida são atitudes empreendedoras diante de oportunidades comuns.
Dessas que são dadas a muitos ou a todos, mas que só os que aprendem a acreditar em si e desenvolvem a coragem de aceitar desafios, agarram. Parabéns queridos alunos. “Se você pensa que pode ou sonha que pode, comece. Ousadia tem genialidade, poder e mágica. Ouse fazer, e o poder lhe será dado”, Goethe.


Publicado no jornal Cinform de 22/12/2014 – Caderno Emprego


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Conae 2014: Oportunidade perdida


Entre os dias 19 e 23 de novembro deste ano, aconteceu em Brasília a Conae 2014 – Conferência Nacional de Educação. Trata-se de um importante momento de debate sobre os destinos da combalida educação brasileira, reunindo 3500 delegados de todos os Estados do País, representando docentes, pais, gestores e alunos, das esferas pública e privada; além de observadores.
Pelo porte grandioso, a Conae se traduz em elevados gastos públicos, pois envolve hospedagens, traslados, refeições, passagens aéreas, locação de espaços e remuneração dos organizadores.
Isso significa que o suor brasileiro banca essa conta, aumentando, por certo, a responsabilidade dos delegados e a exigência de reciprocidade. Isto é, caberia aos delegados, no mínimo, a obrigação de pensar a educação levando em conta o nosso povo e seu contexto, real patrocinador do evento.
Lamentavelmente, isso não aconteceu, a priori. As plenárias dos diversos eixos temáticos, bem como a plenária final, foram palcos de torcidas ideológicas e acaloradas nas votações dos destaques.
Se, por um lado, isso parece saudável no debate democrático, lá se revelou um fracasso, à medida que buscou mais fragmentar que fortalecer o nosso envergonhado sistema educacional.
Lutar por concentrar mais recursos orçamentários foi o fundamento de muitos grupos organizados presentes. O discurso de buscar mais dinheiro para seu próprio nicho, ainda que a custa de destruir outros, não parece a melhor postura para quem se diz educador.
Faltou estatura a muitos delegados e até a uns tantos palestrantes também, ao distorcerem informações visando interesse pessoal e ao exercerem um olhar míope frente à realidade dos esquecidos brasileiros, especialmente, os mais necessitados dos serviços do Estado.
Não é novidade informar que nos indicadores de Educação Comparada, o Brasil se mostra sempre nos piores lugares. O Pisa (teste internacional de qualidade na educação), classifica o País assim: Em 2012, 65 países participaram do Pisa, quando em Matemática, o Brasil ficou no 58º lugar no ranking, com 391 pontos.  Na prova de Leitura, a nossa média foi de 410 pontos, o que levou a 55º posição. Em Ciências, o País ocupa a 59º colocação, com 405 pontos.
Frente a essa realidade tão discrepante com o nosso padrão econômico, devemos entender que a educação necessita da união de todos para a superação de sua insuficiência. Dessa forma, a disputa imatura de grupos pelos recursos alheios assegura a consolidação do desastre.
É um crime contra o cidadão impedir o acesso aos serviços prestados por uma Apae conveniada à Rede Pública, ou de um jovem de qualquer assentamento do MST a uma escola rural praticante da Pedagogia da Alternância, ou ainda, impedir o acesso a vagas compradas com recursos do Pronatec em boas escolas profissionalizantes.
  Recurso público só para o Serviço Público. Esse foi o mote cantado e festejado por muitos presentes na Conae, ignorando a verdadeira realidade dos brasileiros. Será que o Serviço Público possui condições de atendimento qualitativo e quantitativo aos que a ele recorre? Em quanto tempo terá?
Apostar nessa solução é ir na contramão da história dos bem sucedidos exemplos. Recurso público é para ser destinado a todos que dele verdadeiramente necessitem por meio de quem honesta e eficientemente realize bem o serviço ao cidadão.
Assim, é triste ver que muitos dos que se dizem representantes da inovação educacional sejam tão apegados a interesses próprios e mesquinhos, incapazes de pregar uma integração de soluções, na qual as melhores práticas servissem de modelos replicáveis. Deveria a Conae 2014 ser o teatro de operações da interação e integração de todos pelo salvamento da Educação brasileira, ambiente emblemático para a construção de um pacto nacional.
Considerando que o desejado pacto nacional pela Educação não ocorreu, resta crer que os legisladores e a Presidente Dilma terão a lucidez que o momento exige na construção do futuro do Brasil. Afinal, o futuro está diretamente relacionado com a qualidade e o acesso ofertados a nossos jovens e crianças. De nada valerão os dez pontos percentuais do PIB ou os royalties do pré-sal se os caminhos da educação não estiverem em mãos certas.



Publicado no jornal Cinform de 01/12/2014 – Caderno Emprego

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Endividamento e pobreza disfarçada


Disse o historiador inglês Thomas Fuller, no século XVII, que “a dívida é a pior pobreza”. Por certo, tal frase continua perfeitamente atualizada para o nosso século.
No Brasil não é diferente: pesquisas recentes afirmam que o brasileiro mantêm níveis de endividamento muito elevados, pois 41% dos entrevistados estão, ou estiveram com restrições ao crédito por inadimplência e 54% possuem dívidas que comprometem a renda mensal com parcelas de cartões de crédito.
A pesquisa, realizada em 2012, pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná - Sinduscon/PR -, aponta dados preocupantes, porque 41% das famílias declararam que a causa da inadimplência é decorrente de falta de planejamento, ou seja, má administração das finanças, seguido por desemprego com 11%.
Nesse cenário, economistas recomendam que se disponibilizem cursos de Educação Financeira para todos, especialmente para os mais jovens. Essa capacitação deveria ser ofertada pelas próprias instituições financeiras, juntamente a órgãos governamentais, fomentando a cultura do “crédito responsável” e minimizando o impacto perverso causado pela inadimplência de alguns que acarreta custo social para muitos.
A politica econômica adotada pelo Brasil, de fomentar o acesso ao crédito como forma de manter a atividade produtiva vigorosa, é um modelo limitado, por promover paralelamente o endividamento da população. Uma população endividada forma uma sociedade cujo futuro está comprometido e, demonstra a pesquisa, a maioria dos cidadãos se endividou sem a clareza necessária para fazer tal operação de longo prazo. Grande parte desse comprometimento de rendas futuras surge estimulado por compras impulsivas ou para saldar inadimplência de parentes, principalmente por meio do crédito consignado dos aposentados.
Sob a ótica econômica, dívidas longas contraídas para aquisição de bens de consumo implicam em perda patrimonial para a família, sendo nefastas, portanto. Já as dívidas relativas à compra da casa própria, por exemplo, são vistas como saudáveis por promoverem uma forma de poupança.
Porém, considerando o despreparo do consumidor relativo a operações financeiras e a indução ao crédito feito por propagandas comerciais e governamentais, temos que concordar com o autor Peter Senge, pesquisador de referência em técnicas de aprendizado coletivo, quando afirma: “na ausência de um grande objetivo, a mediocridade prevalece”. Isto é, sem um bom projeto para uso do capital de terceiro, todo recurso será ameaçador, ainda mais com as abusivas taxas de juros locais.
Do ponto de vista filosófico, todo empréstimo é uma operação baseada em relações de confiança mútua. Assim, quem empresta disponibiliza recursos acumulados do seu passado em favor do projeto de outro. Como projeto é algo “por fazer”, logo nos remete ao futuro, e a todas as suas incertezas. Dessa maneira, uma operação de crédito corresponde ao encontro do passado de um (financiador) com o futuro de outro (tomador).
Como sabemos que o futuro sempre envolve risco, por sua natureza incerta, entende-se a solidariedade de quem concede o empréstimo, via análise de crédito, com a capacidade de honrar o compromisso do tomador.
Com efeito, endividar a população de menor renda para estimular o consumo pode render dividendos políticos de curto prazo por gerar a sensação de melhoria do poder aquisitivo e assim, disfarçar a pobreza. Contudo, poderá ser uma medida recessiva a médio e longo prazo por “escravizar” o devedor e sua família com o comprometimento de significativa parcela de rendas futuras. Isso assegurará a manutenção da pobreza e trará intranquilidade para muitos brasileiros e brasileiras que viverão a sensação de que “o dia que está por vir parece maior que o ano que passou”.
Para iniciar um bom curso de educação financeira sigamos a recomendação do poeta Vinicius de Morais:
 “Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.”




Publicado no jornal Cinform de 17/11/2014 – Caderno Emprego
Publicado no jornal Coerente de 15/12/2014 – Edição 14
Publicado na revista TI&N n°21 - Dez/2014
Publicado em 04/02/2015 em http://www.administradores.com.br/artigos/economia-e-financas/endividamento-e-pobreza-disfarcada/84575/

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O que a internet está fazendo com as nossas mentes


O título desse artigo foi extraído de palestra homônima proferida no Senac e na UFS, pelo Prof. Dr. Valdemar Setzer, da Universidade de São Paulo – USP -, durante sua passagem por Aracaju nos últimos dias. O conteúdo, como há de se esperar, não traz boas notícias para os habituais frequentadores de redes sociais e sites de buscas. Inspirado em pesquisas realizadas por cientistas americanos, especialmente por Nicholas Carr, a narrativa discorre sobre a preguiça mental (ou emburrecimento, nas palavras do pesquisador), resultante da leitura de textos na internet. 
A partir da metáfora, do homem primitivo coletor de frutos e mariscos, ou seja, extrativista de subsistência e, portanto, incapaz de praticar a agricultura ou a pecuária, o palestrante expõe a situação do jovem contemporâneo, usuário contumaz da internet. Nesse sentido, como usuário, ele vive de achados fortuitos e superficiais, sem dominar o ambiente. Quem sabe, um nômade digital ou um analfabeto versão 2.0?
Tal superficialidade faz do jovem um ser limitado intelectualmente e dotado de preguiça mental. Pode parecer exagero essa afirmativa, mas os educadores percebem a incapacidade de aprofundamento na leitura e a correspondente ausência de disciplina da vontade, presentes nas salas de aulas atuais. Não por acaso, Albert Einstein afirmou: “temo o dia em que a tecnologia se sobreponha à nossa humanidade: o mundo terá apenas uma geração de idiotas”.
A volição deve ser educada com a mesma intensidade e rigor que a cognição. Uma pessoa que não desenvolve a popular “força de vontade” pode se tornar vítima de si mesmo. Um exemplo esclarecedor é comparar a volição a um movimento metabólico do corpo, como o do intestino. Em seu ritmo normal, o intestino age por sua própria vontade, geralmente em equilíbrio, ou tolerância, com nossas disponibilidades de tempo. Contudo, quando vitimado por uma diarreia, impõe sua vontade de forma unilateral, imperando sobre todas as outras vontades, compromissos ou desejos humanos, como a afirmar, indelicadamente, sobre quem manda em quem agora. Comparativamente, essa pode ser a reação de uma pessoa, volitiva e emocionalmente deseducada, que não consegue manifestar uma posição de equilíbrio, quando sob forte pressão: descontrolada e rebelde, agindo “fora de si” para se impor sobre os demais elementos, sejam internos ou externos.
Diferentemente dos livros, a internet, mesmo em trabalhos de pesquisas, limita a capacidade de entendimento da leitura. Os anúncios rotativos e a oferta de hipertextos, com seus vínculos tentadores, desviam da rota lógica da pesquisa e quebram o entendimento do texto. Dessa maneira, o pesquisador na internet tende a ser um distraído coletor de manchetes, boiando na superfície do assunto, sem conseguir se concentrar. Há autores que afirmam que o Google criou a chance de maquiarmos inteligência, quando não a possuímos.
Outro agravante prejudicial ao desenvolvimento dos jovens vem do uso exagerado de redes sociais, como o Facebook ou o Twitter, por afastar do contato “olhos nos olhos”, essencial para a construção de relações sociais e desenvolvimento do caráter. Um jovem plugado fica em média mais de oito horas por dia em frente à telinha de computadores, smartphones, tablets ou tvs. Disso decorre um estado anestésico mental com dependência psicológica, além de sobrepeso e maior insegurança existencial. Um verdadeiro caso (ou caos) de saúde pública.
Diante de notícias que anunciam a venda recorde de tablets nesse último dia das crianças, devemos refletir sobre quais qualidades estamos cultivando em nossos descendentes e quais atrofiamos? Quais acessos lhes permitimos e superexposições lhes ofertamos? Será que daríamos uma emissora de TV para uma criança publicar livremente, em outras épocas? Que saúde futura terá a criança que passa várias horas por dia, parada diante de telas e sentada numa carteira escolar sem brincar?
“Bendito, bendito é aquele que semeia livros, livros a mão cheia e manda o povo pensar; o livro caindo na alma, é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar.” Castro Alves.



Publicado no jornal Cinform de 20/10/2014 – Caderno Emprego

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Relógio: global e pontual ao mesmo tempo

Vimos no texto anterior – publicado em 29/09/14 - que o relógio representa a caminhada humana na busca de emancipar-se dos ciclos da natureza. Para uma nação, domínio tecnológico é sinônimo de soberania. Assim, construtores de relógios foram vistos como provedores de recursos estratégicos e inovadores. Eles foram os primeiros a aplicar conscientemente as teorias da mecânica e da física no fabrico de máquinas, ao envolver cientistas, como Galileu e Hooke, com artesãos e mecânicos. Ou seja, articulações iniciais do que hoje denominamos Pesquisa e Desenvolvimento – P&D. Portanto, fabricantes de relógios foram os primeiros produtores de instrumentos científicos.
Com efeito, há o caso de um relógio do século XVI, que demorou mais de 20 anos para ser construído, composto de mais de 1800 rodas dentadas feitas à mão, com a ajuda de um pioneiro torno mecânico. Também, há um relógio construído em 1380, em Salisbury, na Inglaterra, que é considerado o mais antigo relógio mecânico em funcionamento, confeccionado manualmente sem um único parafuso, já que a tecnologia para abertura de roscas em metal ainda era desconhecida.
Conflitos religiosos e convulsões políticas decorrentes da Reforma Protestante e da Guerra dos Trinta Anos dispersaram relojoeiros de toda a Europa para duas ilhas: a Suíça, cercada de montanhas, e a Inglaterra, cercada pelo mar.
Da Inglaterra, berço da Revolução Industrial, origina a especialização e a divisão do trabalho, que a torna exportadora de relógios, tendo alcançado a marca de 80 mil unidades, já em 1786. Em paralelo, na Suíça, nasce a precisão e a qualidade dos relógios definitivos, vistos como joias e obras de arte. Tradição, cujo epicentro dá-se em Genebra, para onde milhares de refugiados relojoeiros seguiram Calvino, autor do primeiro manual do cristianismo protestante.
Esse movimento parece inspirar o êxodo dos cientistas atômicos, exilados por perseguições nazifascistas, no século XX, rumo aos Estados Unidos. Em ambas as eras, muitos imigrantes com especialidades avançadas chegaram para fazer a diferença, difundindo uma nova cultura e gerando valor ao lugar, instalando o que chamamos, hoje, de Arranjo Produtivo Local – APL.
O sucesso suíço na fabricação de relógios vem a ser seriamente abalado na década de 1970, por conta do surgimento dos relógios digitais produzidos a preços baixos pelo Japão, Coréia e China. Marcas como Seiko e Citizen, aderem agressivamente nos pulsos dos consumidores como objetos acessíveis a todos.
Essa concorrência muda definitivamente a indústria suíça, obrigando o fechamento de fábricas, demissões em massa e concordatas. Enfim, o caos se implanta com vigor. Entre 1977 e 1983, a participação suíça no mercado mundial caiu de 43% para 15%. De líder para terceiro colocado em seis anos.
Sabemos como é difícil mudar paradigmas. É quase impossível crer que um fabricante suíço de relógios aceitaria abrir mão de sua tradição secular por imposições de concorrentes de qualidade e durabilidade inferiores. Contudo, duas grandes empresas resolveram deixar o orgulho de lado e se juntar para enfrentar o inimigo com as mesmas armas: automatizar a linha de produção, simplificar os mecanismos e substituir as pulseiras de aço por plástico.
O choque e as reações foram explosivos. Inicialmente, foram acusados pelos concorrentes locais, de destruir a reputação histórica do relógio suíço. Porém, se defenderam alegando que a qualidade dos produtos seria superior e que manteriam os mecanismos analógicos dos mostradores. E mais, decidiram reinventar o negócio, ao trocar a imagem de objeto eterno para sazonal. Em resumo, um artigo de moda, que pudesse ser mudado como se troca de roupa.
Assim, nasce a Swatch, em 1983, com o lançamento da primeira coleção Primavera/Verão, composta de modelos femininos e masculinos. Sucesso imediato entre os jovens. Desde 1992, a Swatch é a marca mais vendida no mundo, recolocando a Suíça no topo da indústria relojoeira.
Se não bastasse a metáfora do funcionamento do cosmo, as implicações geopolíticas, a aplicação de teorias científicas na inovação, as reordenações sociais e a emancipação do homem em relação à natureza; o relógio ainda influi diretamente na alma humana ao fundar o valor moral da pontualidade.



          Publicado no jornal Cinform de 13/10/2014 – Caderno Emprego

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Entrevista Caderno SN - Sergipe Notícias


SN - O Senac em Sergipe é considerado uma referência nacional. Qual a razão dessa boa avaliação?

PE – A razão disso vem do comprometimento das nossas equipes com a missão do Senac. E mais, somos bastante austeros no trato das nossas contas, somos o primeiro Regional do Brasil a implantar o novo sistema de informática nacional, atuamos em todo o território de Sergipe, desenvolvemos integralmente aqui o Senac Pleno (uma plataforma de engajamento para alunos), somos comprometidos com nossos egressos na colocação no mercado de trabalho por meio do nosso Banco de Oportunidades. Trabalhamos com diálogo permanente entre a alta administração e o quadro de funcionários através dos Comitês de Gestão, Pedagógico e Socioambiental; e praticamos uma política de portas abertas a todos, com espírito inovador. Tudo isso, graças ao apoio dos nossos conselheiros e do nosso Presidente.


SN - Qual a importância da qualificação para a pessoa que deseja se inserir no mercado de trabalho?

PE – A cada dia que passa, maior se torna a importância da formação profissional para a ascensão social e a correspondente melhoria de renda. Todos os países que superaram o subdesenvolvimento, o fizeram por meio da Educação. Existe até um fenômeno econômico conhecido como “a maldição dos recursos naturais não renováveis”, que explica o porquê dos países mais bem providos de riquezas naturais serem todos subdesenvolvidos. Portanto, só acredito na melhoria da educação como saída para nosso Brasil, cujos indicadores educacionais são desastrosamente incompatíveis com os econômicos. Mas, falo em educação no sentido amplo, envolvendo a família e a comunidade, além da escola e dos poderes públicos: todos dando bons exemplos.


SN - Como o senhor avalia a receptividade dos trabalhadores formados pelo Senac pelo mercado sergipano?

PE – Muito boa. Mas, temos que melhorar sempre. As inovações tecnológicas promovem mudanças mais rápidas nos ambientes de trabalho do que nas ferramentas gerenciais e na academia, especialmente em alguns setores da economia. Isso, nos obriga a manter diálogo permanente com empresários e ofertantes de empregos para buscar feedback para nossas adequações. O nosso Banco de Oportunidades e a Sala do Empresário, são dispositivos que nos aproximam dos empregadores e nos permitem avaliar algumas oportunidades de melhorias para nossos cursos. De um modo geral, a maior dificuldade associada ao bom desempenho profissional decorre de problemas ligados a atitudes e comportamentos inadequados com a cultura empresarial e as regras de convívio social. Para minimizar essa carência criamos o Senac Pleno, um programa que oferece ricas experiências no trabalho em equipe e na disposição de fomentar uma postura mais colaborativa em nossos alunos.


SN – Na sua avaliação, quais as vantagens para os jovens que fazem cursos profissionalizantes?

PE – O curso técnico oportuniza acesso rápido a bons empregos. São muitos os jovens que saem desses cursos já disputados por empresas, até de outros Estados. No entanto, o jovem precisa se antecipar, isto é, fazer sua formação profissional para estar apto no momento que a oportunidade do emprego aparece. Isso exige espírito empreendedor porque aposta no futuro.


SN - O Senac tem planos de expansão das ações? O que o se pode esperar da instituição para os próximos anos?

PE – Hoje, além de nossa unidade mais tradicional, na av. Ivo do Prado, possuímos cinco escolas-anexas em Aracaju.  Mas, o aumento definitivo das instalações do Senac em Aracaju se dará com a construção da nova escola na avenida Maranhão, da Confeitaria-Escola Cacique Chá e do novo salão de beleza-escola. Além disso, todas nossas instalações próprias passam por reformas para garantir acessibilidade a pessoas com deficiência. O Senac possui também escolas em Itabaiana, Lagarto e Tobias Barreto. Estamos construindo novas unidades em Nossa Senhora da Glória e Estância.

Pretendemos, ainda, reforçar nossa atuação social com cursos gratuitos e mais atuação no interior sergipano, embora, em 2013, estivemos presentes em 90% dos municípios do Estado e cerca de 1% dos sergipanos foram nossos alunos em cursos gratuitos.


Publicado no jornal Correio de Sergipe - Caderno SN. Em 07/10/2014