terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Quando a escola dá nos nervos


     À primeira vista, motoristas dirão que a escola dá nos nervos quando pais estacionam em filas duplas para buscar os filhos. Os pais, por sua vez, dirão que o desgaste emocional maior se dá na compra cara e volumosa do material escolar, ou nos reajustes das mensalidades dos estabelecimentos particulares. Outros tantos alunos, professores, funcionários e donos falarão de salários, indisciplina, insegurança, falta de vagas, provas e vestibulares. Aliás, qualquer cidadão deve ter algum desgaste com a escola.

     Contudo, nosso foco é o contexto biológico e fisiológico do sistema nervoso humano e as contribuições boas ou ruins, que a escola nele realiza. Durante os primeiros anos da criança, o sistema nervoso tem prioridade sobre os demais órgãos do corpo. Assim, o desenvolvimento corpóreo se dá no sentido crânio-caudal, isto é, da cabeça para os pés, de forma que o cérebro, centro principal do sistema nervoso, seja o órgão que primeiro cresce no organismo humano.

     Biologicamente, duas importantes obras se realizam nos primeiros sete anos de vida: a maturidade neurológica e o reconhecimento geral do corpo pelo sistema imunológico. Sob essa ótica, a maturidade neurológica se faz com o fim do processo de mielinização dos troncos nervosos, que é o isolamento dos nervos por uma bainha de gordura - chamada de mielina -, a qual irá permitir velocidades bem superiores e precisão nas comunicações nervosas. Desde a formação do cérebro nos primeiros meses de vida até a completa mielinização aos sete anos, estão em jogo o futuro escolar da criança e suas capacidades no mundo do trabalho.

     Paralelamente, durante esses mesmos sete anos, o organismo da criança elabora a substituição de todas as células herdadas do ventre materno pelas suas próprias. Assim fazendo, o sistema imunológico põe sua assinatura nas células, identificando-as: EU. Por esse meio, diferenciar o EU do não EU é a base para o reconhecimento e combate aos invasores. As falhas nesse processo podem levar o organismo a combater violentamente a si mesmo, em qualquer idade futura, desencadeando as chamadas doenças autoimunes, a exemplo de Lúpus, algumas artrites e diabetes, além de alergias.

     Com efeito, é indiscutível a importância da primeira infância na formação da saúde e na escolaridade futura do indivíduo. Mas, onde entra a escola nisso? A resposta é o cuidado que a escola deve ter nas práticas pedagógicas para não ferir a prioridade da criança pequena, que é reservar suas energias para a construção de um corpo físico saudável. Então, o brincar e os estímulos imaginativos devem ser os componentes essenciais das aulas, respeitados os ritmos naturais da faixa etária.

     Dito de outra maneira, impor processos intelectuais em crianças pequenas, como a alfabetização precoce (anterior à mielinização), é desviar forças organizadoras do corpo físico para a esfera do raciocínio, resultando em prováveis prejuízos para a saúde e a cognição. Portanto, erros pedagógicos são frequentes e danosos, para além da esfera psíquica das crianças, e muitas vezes, invisíveis ou tidos, erroneamente, como se fossem práticas escolares corretas. Por fim, ainda dirão que a culpa é do ácaro.

     Como saber se a criança apresenta maturidade neurológica para alfabetizar? Além da possível avaliação de um neurologista ou psicopedagogo, existe outra evidência interessante a ser observada pelo educador: a troca de dentes. A implantação da dentição permanente sinaliza um estágio avançado de renovação celular, no qual a criança demonstra que até as células mais duras ela já elaborou. Em geral, após essa fase, a criança apresenta saúde estável e maior controle sobre as febres. Isto é, um bom domínio sobre o próprio organismo, para tranquilidade dos pais.

     Por certo, não há trabalho mais gratificante do que educar. Respeitar os ritmos individuais e da idade, e ver que também assim, a escola dá nos nervos, agora positivamente, quando se comprova que a escolaridade é fator de proteção contra o Mal de Alzheimer. Quanto mais escola (boa), menos doença!


         Publicado no Jornal Cinform em 17/02/2014 - Caderno Emprego

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O futuro é o seu maior concorrente


     A sabedoria popular ensina que “a vida é feita de escolhas”. Tal afirmativa encontra no berço da Economia um dos fundamentos dessa ciência: o custo de oportunidade. Ou seja, o custo implícito pela renúncia a todas as demais possibilidades, após termos feito uma determinada escolha. Assim, ao optarmos por fazer uma mesa de madeira, renunciamos, automaticamente, a todas as cadeiras, skates e janelas, por exemplo, que essa mesma madeira poderia prover.

     Esse mesmo princípio rege o dinheiro dos nossos clientes. Ao escolher um destino, ele renuncia a qualquer outro fim para esse capital.  Dessa forma, a concorrência entre empresas tem crescido demais. Aliás, na mesma proporção que a oferta de produtos e serviços, alavancados pelo agigantado hábito (ou vício) de consumo.

     Conceitualmente, classificamos os concorrentes como diretos ou indiretos: os diretos, mais óbvios, são formados por estabelecimentos muito parecidos entre si, que ofertam artigos semelhantes, com preços similares e pontos de vendas do mesmo tipo. Porém, podem ser também, estabelecimentos maiores, que miram o mesmo público-alvo, ofertam produtos iguais, contudo, com um mix maior, a exemplo das lojas de departamentos, locais ou via comércio eletrônico.

     Já os concorrentes indiretos são mais difusos e difíceis de localizarmos. São caracterizados por disputar os mesmos recursos e clientes, para fins bem diversos. Nessa categoria, encontramos uma imobiliária concorrendo com uma concessionária de automóveis, ou uma agência de viagens, ou ainda, qualquer outro ramo que dependa de disponibilidade de crédito. Assim, ao assumir dívidas relativas ao financiamento de um carro, o comprador compromete sua renda, inviabilizando-o, em geral, de realizar viagens turísticas ou de comprar um imóvel.   

     Surpreendentemente, a realidade da concorrência de mercado não para por ai, já que o consagrado economista Schumpeter (1883-1950) desenvolveu a teoria da “destruição criativa”, afirmando que a concorrência efetiva é dada pelos efeitos das inovações sobre as empresas existentes. Portanto, reforça que a verdadeira concorrência na economia capitalista não se dá entre pequenas empresas que produzem a mesma mercadoria ou serviço, mas aquela que as empresas inovadoras, nas quais se desenvolve a atividade empreendedora, exercem em confronto com as outras. Não é a concorrência que existe entre bens idênticos produzidos todos do mesmo modo, mas sim a que os produtos novos impõem aos antigos.

     Como se sabe, os ciclos de vida dos produtos estão cada vez mais curtos. Alguns deles são prometidos para apenas uma estação, como o “celular do verão” – vejam no Google -, quando este, deveria ser um bem durável. Assim, nada tende ao surgimento de uma nova, sexagenária Kombi. Qual seria o carro, lançado hoje, que sobreviveria em produção até 2070? 

     O Fenômeno do Empreendedorismo, livro de Emanuel Leite, ensina: “Na busca por novas oportunidades, toda empresa deve estar aberta para o futuro. Sabem-se de duas coisas sobre o futuro: que não pode ser conhecido e que será diferente de hoje”. A partir disso, devemos procurar por indícios no presente, com potencial impactante para promover mudanças. Isso é possível, porque o futuro não será feito amanhã; ele está sendo construído hoje – em grande parte pelas manifestações culturais, pelos comportamentos e valores consolidados em nossas crianças, por grandes eventos que acontecerão e serão capazes de alterar tendências, além dos produtos de larga adesão, como telefones celulares, capazes de criar profundas alterações sobre as demais rotinas humanas.

     Para fortalecer o ânimo dos nossos empreendedores, brindemos com Fernando Pessoa a destruição criativa, tão necessária aos negócios: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmo”.



                                                        .
            Publicado no Jornal Cinform em 20/01/2014 - Caderno Emprego
             http://palavraderh.com.br/o-futuro-e-o-seu-maior-concorrente/
            Publicado no jornal Coerente de 01/05/14 p.05

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

2014 – Ano Internacional da Agricultura Familiar



     A Assembleia Geral das Nações Unidas decidiu que em 2014, será celebrado o Ano Internacional da Agricultura Familiar. É, justamente, um reconhecimento à importância da agricultura familiar na segurança alimentar e no combate a pobreza.

     Por certo, nas milhões de unidades agrícolas familiares brasileiras residem pessoas especiais, que conseguem extrair da pequena área de terra o sustento de suas famílias. Há alguns anos, era comum existir agricultores que milagrosamente criaram numerosos filhos e filhas a partir de alguns poucos hectares de terra, inclusive formando-os em escola superior. Hoje, essa situação parece impossível, porque viver da produção artesanal agrícola, com raras exceções, é inviável.

     Uma das razões que inviabilizaram a sustentabilidade do pequeno produtor é a dependência de insumos para a manutenção de sua produção. Compra-se de tudo para um sítio: sementes, defensivos, adubos, embalagens, equipamentos de irrigação, etc. Essa dependência provoca evasão demasiada de recursos para bancos e multinacionais químicas e biotecnológicas. Ou seja, o produtor agrícola é um escravo do sistema econômico internacional, trabalhando forçadamente para empresas que lhes impõem um modelo de manejo inadequado para terras tropicais.

     No Brasil atual, só o agronegócio de grande escala é viável. Todos os demais agentes da agricultura estão travando uma luta perversa pela sobrevivência, especialmente o médio produtor, por ser desassistido de políticas públicas, como ainda o são, de alguma forma, os pequenos.

     Estranhamente, chamamos de agronegócio a atividade de produção em larga escala de commodities, a exemplo da soja e do milho. Porém, são essencialmente atividades de serviços que nada tem a ver com a atividade rural, uma vez que as sementes são transgênicas, a fertilização é química, a manipulação é automatizada, o consumidor é mundialmente indeterminado, os preços são em dólar, o planejamento do negócio se dá em grandes centros econômicos e de pesquisas, e o gerenciamento é informatizado. Assim, o território utilizado é apenas um substrato para a geração de alimentos “plásticos” controlados por satélites, nada convergindo para as populações locais e a cultura rural.  

     Os biomas florestais brasileiros são os mais ricos do planeta em extensão e biodiversidade. Assim, lutar contra as forças da natureza em nossas terras é mais difícil que em outras paragens. Com efeito, toda atividade agrícola é uma intervenção humana contrária às ações da natureza, uma vez que nunca encontraremos uma horta criada espontaneamente.

     Porém, é possível se valer das forças locais de um sítio para minimizar o impacto da atividade rural. É o que assegura a Agricultura Biodinâmica, criada por Rudolf Steiner no início do século XX e hoje, praticada em mais de 50 países, inclusive o Brasil. Os produtos certificados biodinâmicos recebem o selo de identificação internacional DEMETER.

     A Agricultura Biodinâmica tem como consequência natural a renovação do manejo agrícola, o saneamento do meio ambiente e a produção de alimentos condignos ao ser humano. Quer, ainda, devolver à agricultura sua força original criadora e fomentadora cultural e social, perdida no caminho da industrialização, da monocultura e da criação em massa de animais fora do seu ambiente natural. Dessa forma, o agricultor biodinâmico caminha para vencer a concepção materialista imposta à natureza e assim, achar uma relação espiritual – ética, com o solo, plantas, animais e humanos.

     Pode parecer distante esse discurso, mas não é. O maior certificador de produtos orgânicos do Brasil é o IBD – Instituto Biodinâmico, com sede em Botucatu (SP) e, existem diversas publicações e cursos sobre o assunto. Interessante destacar que os custos para a produção agrícola por meio dessa eficiente tecnologia são irrisórios, pois, esta, visa transformar o sítio em uma individualidade agrícola autossuficiente, libertando o produtor do círculo vicioso convencional.

     A Agricultura Biodinâmica pode ser para o agricultor familiar a Árvore da Vida.


       Publicado no Jornal Cinform em 30/12/2013 - Caderno Emprego

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Atividade-meio e atividade-fim: nem tudo são rosas


Por diversas razões somos tentados a dividir as rotinas de trabalho de uma organização com base naquilo que é mais vinculado ao propósito maior da empresa. Dessa divisão resulta definir o que seria a área-fim da atividade econômica, restando às demais rotinas de apoio a classificação em área-meio.

     Tal classificação envolve conceitos de natureza legal, uma vez que a norma trabalhista brasileira, escrita na década de 40 - antes, portanto, do processo de industrialização do país, não permite terceirização de atividades-fim. Essa inflexibilidade prejudica o desenvolvimento da empresa nacional, inclusive a pública, uma vez que processos industriais e de serviços poderiam ser executados com maior produtividade, menores custos e com ganhos de escala por empresas altamente especializadas, além de reconhecidamente acreditadas.

     Será a manutenção de aeronaves, atividade-fim de uma empresa aérea? Deve a transportadora fabricar empilhadeiras ou caminhões? Seria a montadora de automóveis obrigada a fabricar todas as peças de um carro? Difícil responder com segurança no emaranhado legal tupiniquim. Recentemente, o Tribunal Superior do Trabalho sentenciou que a CELG, distribuidora de energia elétrica de Goiás, não poderia terceirizar a construção, reforma e manutenção da rede e subestações. Assim, podemos extrapolar a mesma lógica para que os jornais fabriquem o próprio papel e que a Transpetro, subsidiária da Petrobras, só utilize navios próprios, nunca fretados. É realmente cinzenta a região que define o que é atividade-fim do que é atividade-meio na complexa Economia atual.

     Renomados juristas entendem que “a atividade-meio diz respeito àquela tão-somente secundária, acessória, quanto aos fins do empreendimento. Se a cessação de certa atividade não interfere para a consecução de certo produto, objeto dos fins da empresa, certamente trata-se de atividade-meio”. Definição ampla demais, pois não é possível uma escola funcionar sem a frequente higienização dos banheiros. Embora, os agentes de limpeza sejam típicos terceirizados.

     Contudo, não vamos propor soluções para esse tema, de grandeza inversamente proporcional ao espaço desse texto. Voltemos nosso olhar para o que acontece dentro das empresas, em suas rotinas administrativas e produtivas, onde, infelizmente, é comum a discriminação de trabalhadores do próprio quadro de funcionários da chamada atividade-meio, pelos que atuam na atividade-fim.

     É relativamente comum o “nariz empinado” daqueles que exercem atividades finalísticas, por estarem, digamos, próximos do propósito mais imediato da empresa. Porém, toda sobrecarga de trabalho desses implica em imediato incremento da atividade de todos. Logo, o motorista vai trabalhar mais, assim como o porteiro ou o auxiliar contábil. Não há, portanto, possibilidade de trabalho exclusivo de um único setor nas organizações. Dessa forma, a distinção entre a importância de um determinado posto ou profissional no organograma será ditado pela remuneração ofertada pelo mercado de trabalho, e não pela relação entre as atribuições do cargo e a missão da empresa. É o que nos retrata o pequeno conto abaixo:

     "Era uma vez uma rosa muito bonita, a mais linda do jardim. Mas começou a perceber que as pessoas somente a observavam de longe. Acabou se dando conta de que, ao seu lado, sempre havia um sapo e, por essa razão, ninguém se aproximava.

     Irritada com a descoberta, ordenou ao sapo que fosse embora. O sapo, humildemente, disse:

     - Está bem, se é o que deseja.

     Algum tempo depois, o sapo passou por onde estava a rosa e se surpreendeu ao vê-la acabada, sem folhas nem pétalas. Penalizado, disse:

     - Que coisa horrível, o que aconteceu com você?


     A rosa respondeu:

     - As formigas começaram a me atacar dia após dia, e agora nunca voltarei a ser bela como era antes.

     O sapo respondeu:

     - Quando eu estava por aqui, comia todas as formigas que se aproximavam de ti. Por isso é que eras a rosa mais bonita do jardim”.
  

                                                     .
Publicado no Jornal Cinform em 16/12/2013 - Caderno Emprego



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Só faço previsão após os noventa minutos



     Uma das grandes inquietações humanas é prever o futuro. Àqueles que se dizem leitores do futuro, atribuímos adjetivos caros aos mortais, como por exemplo, mago, sobrenatural, paranormal, etc. Fazer previsões sobre o amanhã não é mesmo tarefa fácil. Daí o título deste texto que nos remete a uma resposta “previsível” de jogador de futebol abordado pela imprensa antes do jogo.

     De fato, erramos demais as previsões. Pesquisas demonstram que, em média, apenas 20% das previsões são certeiras e não estão associadas à área de domínio do pretenso visionário. Assim, economistas não acertam eventos futuros na economia com maior chance que pessoas leigas. Há um debate célebre com o falecido economista Mário Henrique Simonsen, ex-ministro do regime militar brasileiro, quando questionado sobre as previsões erradas na economia, disse: “a economia não comporta previsões”. E indagou, desafiador: “Alguém aqui pode lembrar alguma previsão de um economista que tenha dado certo?” Na hora, um debatedor citou o caso do economista marxista húngaro Jenö Varga, que previu a crise da Bolsa de New York em 1929. A reação de Simonsen surpreendeu a todos: “Varga era tão ruim que acertou”.

     Uma das causas de errarmos tanto nas previsões, é que partimos de uma compreensão equivocada do presente para especular sobre o futuro. Disso resulta que 25% dos americanos se consideram parte do 1% que possui capacidade de liderança ou, ainda, 90% deles, se avaliam motorista acima da média. Distorções, essas, capazes de ruborizar um bom discípulo socrático, seguidor do “sei que nada sei”. 

     Com efeito, nosso fracasso maior sobre previsões advém de uma limitação instrumental do nosso cérebro que está totalmente a serviço do nosso passado, por meio da memória e da aprendizagem já executada, fontes do nosso pensar. Por certo, pensar o futuro com a mesma facilidade que o passado, é o sonho de todo investidor, toda seguradora ou apostador de loterias. Mas, como isso nos é impossível, só resta uma maravilhosa solução: não adivinhar passivamente qual será o porvir e sim, faze-lo acontecer por meio de nossas ações, como fazem os empreendedores. Dessa forma, concluímos que o futuro se constrói a partir de nossa vontade e das nossas ações.

     Podemos afirmar que o astrônomo e matemático francês Laplace (séc. XIX) trouxe para a humanidade a ilusão da previsibilidade plena, quando demonstrou o funcionamento do universo segundo leis matemáticas. Assim, se todo o cosmo funciona como um relógio, influenciando a natureza terrestre, então, o futuro seria conhecido através dessas mesmas leis, ou seja, uma mera questão de computação, que denominou “intelecto”. E reforça: “para um intelecto como esse, nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, estaria presente diante dos seus olhos”.

     Saber a data que os planetas voltarão a se alinhar ou o horário exato das marés é fruto da leitura de um sistema simples que pode ser equacionado com um M.M.C. – mínimo múltiplo comum, do ensino fundamental. O mesmo não se aplica a sistemas complexos como a economia de uma nação que depende de fatores externos, absolutamente fora do controle de qualquer dos seus agentes. Aliás, por sistema, devemos entender que nele, nenhum elemento pode possuir controle sobre o todo.

     O saudoso Millôr Fernandes, com suas frases geniais ensinou que “o passado é o futuro usado”. E quem usa o futuro? Certamente, os empreendedores, agentes de transformações sociais, culturais e econômicas, movidos pelo inconformismo típico dos que interveem nas estruturas vigentes pela via da inovação e, muitas vezes, acelerados pelos momentos de crise, a abrir os caminhos por onde a humanidade passará.

     Portanto, com a chegada do fim do ano, é hora de fazer previsões que engordam o ibope dos programas de TV. E, se não encontramos os profetas facilmente esses dias, é porque estão calibrando suas bolas de cristal, para dar conta do volume de serviços que vem por ai.



  Publicado no Jornal Cinform em 02/12/2013 - Caderno Emprego

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Metáforas organizacionais, empresas e máquinas



     O uso de metáforas enriquece nossa percepção sobre os mais diversos temas. Assim, falar em “céu da boca”, ao invés de palato, pode facilitar a imagem anatômica dessa parte bucal. Muitos fizeram uso de metáforas para ampliar a compreensão de suas mensagens, por vezes combinadas a parábolas ou a contos com mensagens morais, além dos poemas, é claro, que “adoçam” ao nos dizer que “minha vida era um palco iluminado”.

     Com as organizações empresariais não é diferente. Para melhor entender o complexo funcionamento das pessoas jurídicas, o professor de Administração Gareth Morgan, na década de 1980, elaborou uma relação de oito diferentes imagens para caracterizar a forma como as empresas atuavam em seus ambientes internos e externos. Para Morgan, essas metáforas são uma maneira de pensar e ver as organizações sob os seguintes ângulos: a empresa como máquina, organismo vivo, cérebro, cultura, sistema político, prisão psíquica, fluxo e transformação, e instrumento de dominação.

     Para nosso texto, as duas primeiras imagens são as mais significativas e contraditórias: a imagem de máquina e a orgânica. A associação da imagem de máquina às organizações é imediata quando vista pelas teorias clássicas da administração, inspiradas nos “princípios da administração científica” de Taylor e seus fundamentos derivados do paradigma mecanicista formulado por Descartes e Newton no século XVII, molde da sociedade ocidental. Ou seja, a empresa deve ser “uma máquina de ganhar dinheiro”, com controle e eficiência, na qual os homens são partes do “rolo compressor”.

     Contrariamente, a imagem orgânica nos permite projetar organizações sustentáveis, posto que, partem do mesmo princípio comum. Acresça a isso, que na moderna economia baseada no conhecimento, há grandes ganhos de produtividade, aprendizagem contínua, aquisição de novas habilidades para desenvolvimento de tecnologias, formação de redes, valorização das relações, além de outros requisitos que fazem do “capital intelectual” e do “aprendizado das organizações”, novos fundamentos da administração que espelham propriedades típicas dos sistemas biológicos abertos.

     Com efeito, se buscamos controle e domínio pleno sobre o objeto, então somente uma máquina nos permitirá isso. Como consequência, porém, não podemos esperar de uma máquina adaptações flexíveis para o aprendizado e para a evolução. Assim, não há dúvidas de que empresas administradas de maneira puramente mecânica não têm condições de sobreviver no ambiente econômico atual, complexo, orientado para o conhecimento e sujeito a mudanças rápidas. Ensina Fritjof Capra no livro “As conexões ocultas”.

     Muitos administradores sentem ameaças à própria credibilidade quando não usam modelos matemáticos e práticas científicas clássicas para demonstrar teses. Por vezes, recorrem a fundamentos da ciência do século XVII buscando segurança metodológica. A isso, William Bygrave, físico que se tornou estudioso das organizações, apelidou, com propriedade, de “inveja da física”, por ser essa a disciplina típica do modelo científico tradicional, ainda que inadequado para as ciências sociais e humanas.

     Mas “nem tudo são flores” no uso das figuras de linguagem, já que conforme o interlocutor, o significado pode ficar comprometido se levado ao “pé da letra”. Conforme o fato a seguir: Era uma vez, um jovem bandido que foi pego em flagrante praticando um furto. A população revoltada conteve o meliante com alguns mais exaltados querendo iniciar um linchamento.

     Diante dos ânimos mais coléricos, um corajoso sacerdote interferiu, e tomando a frente do ladrão, gritou para os populares ensandecidos:

     - Atire a primeira pedra quem nunca errou! 

     - Um senhor que estava bem próximo, aparentando 70 anos, imediatamente jogou uma pedra acertando de raspão a cabeça do delinquente.

     Com veemência, o sacerdote perguntou ao idoso: - O senhor nunca errou?

     - Assim, dessa distância, não! Foi a triste resposta.

  


Publicado no Jornal Cinform em 18/11/2013 - Caderno Emprego
Publicado na revista TI&N nº 16, de dez/2013


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Simplicidade voluntária

O título deste artigo nos remete a um modo de vida defendido pelo pesquisador norte americano Duane Elgin. Autor do livro de mesmo título, Elgin propõe um estilo de vida exteriormente simples, mas interiormente rico. Assim, garante ser a melhor maneira de respeitar a atual sociedade, que mantém padrões de consumo e desejos incompatíveis com o suporte do planeta e com a própria felicidade. Aliás, isso é o que revela uma pesquisa sobre o grau de felicidade das pessoas que iguala vaqueiros masai do Quênia aos multimilionários americanos.

     Muito interessante a abordagem do livro, embora portadora de um tom alarmista. Mas, também, capaz de oferecer soluções em que eventuais perdas materiais, são plenamente recompensadas com o crescimento da interioridade das pessoas. Desenvolver vida interior é uma experiência riquíssima, assegura o autor.

     Diante de uma mesma cena, duas pessoas quaisquer possuem vivências muito distintas. Por exemplo, ao olhar simultaneamente para a Lua, a moça enamorada vê uma imagem bem diferente daquela vista pelo ex-astronauta Edgar Mitchell, integrante da Apollo XIV, que lá pisou em 1971, e hoje, defende a simplicidade voluntária. Isso porque, diante de um mesmo cenário, temos a nossa compreensão limitada pela capacidade interior. Dessa forma, podemos afirmar que o mundo tem o tamanho da nossa interioridade. Isto é, o mundo é diretamente proporcional à sabedoria de cada um.

     Isso também disse o poeta Gilberto Gil, em sua música Parabolicamará: Antes mundo era pequeno / Porque Terra era grande / Hoje mundo é muito grande / Porque Terra é pequena. Nesses versos, foi muito feliz o compositor, ao comparar o tamanho do planeta (exterioridade) com o tamanho do mundo (interioridade) e a inversão ocorrida ao longo do tempo.

     Com efeito, valorizar o imenso mundo interior, é estar sintonizado com a realidade presente. Segundo Elgin, na década de 1970, esse movimento era uma subcultura que sensibilizava pouquíssimas pessoas. A mesma pesquisa, realizada em 2009, aponta que cerca de 20% dos americanos são aderentes a esse estilo de vida, o que demonstra um vertiginoso crescimento e uma tendência já consolidada.

     De acordo com a Pesquisa de Simplicidade Voluntária, a motivação mais comum para se adotá-la é viver de modo a integrar e equilibrar os aspectos interiores e não materiais da existência com os aspectos exteriores e materiais. Assim, ensina o pesquisador: “Ao contrário dos mitos da mídia, o consumismo propicia vidas de sacrifício, enquanto a simplicidade proporciona vidas de oportunidade”.

     Simplificar a vida é renunciar ao apelo de consumo excessivo e se libertar dele. É investir mais tempo e energia em atividades comuns com cônjuges, filhos e amigos. É buscar autenticidade entre o que pensa e o que faz. É ser coerente nos planos pessoais de longo e curto prazo. É estar mais intimamente ligado à Terra e à natureza. É melhorar a qualidade da alimentação, fugindo dos produtos altamente industrializados. É ser solidário e indignar-se com a pobreza extrema e as injustiças sociais. É estabelecer padrões de igualdade de direitos entre papéis masculinos e femininos. É reconhecer a individualidade como o grande valor, que faz de cada ser humano um ser único, independentemente de aparências ou limitações. É ver o universo como um ser vivo e mutante, em contraposição à imagem de um relógio, perfeitamente previsível.

     O mundo parece sair de um paradigma racionalista e mecânico para um novo paradigma integral e orgânico. Assim, indicam os conceitos científicos e espirituais que convergem para uma nova perspectiva que vê o universo como um tipo único de sistema vivo. Aparentemente, essa aproximação se dá, primeiro sob a ótica da ciência, depois, de acordo com as tradições mundiais de sabedoria. 

     Portanto, optar por bens duráveis, que permitam manutenções e reciclar tudo que seja possível é o que nos ensina um antigo ditado americano: “use, esgote, aproveite ou passe sem”.

  

         Publicado no jornal Cinform em 04/11/2013 - Caderno Emprego