segunda-feira, 28 de abril de 2014

Brasil, um país feito a pau e Pedro

Muitos historiadores creditam ao acaso a descoberta das terras brasileiras por Pedro (Álvares Cabral). Verdade ou não, essa suspeita já carrega uma inquietação crônica e única: se houve de fato esse acaso, então o destino quis, aqui, promover a unificação definitiva de correntes humanas, afastadas entre si por dezenas de milhares de anos. É o que asseguram diversas escolas antropológicas sobre o povoamento das Américas. Convenhamos, esse tal de descobrimento não é tão fácil de entender como parece, até porque, as condições de saúde dos índios eram superiores às dos recém-chegados, conforme atestou Pedro (Vaz de Caminha) na sua célebre carta.

     Com todo respeito aos povos que aqui habitavam, mas o Brasil só poderia cumprir a missão de ser palco da maior miscigenação mundial por meio dessa invasão. Assim, por mais conflitos que tenha havido a partir desse encontro entre culturas tão distantes, são inegáveis a aceitação mútua e a atração sexual presentes nessa aventura. Esse fato diferencia nossa história da saga de outros povos, como os norte-americanos, nos quais só houve aversão, sem a prática de casamentos entre nativos e invasores.

     Será obra do acaso que esse grande encontro humano, concretizado com a chegada das naus portuguesas ao Brasil, tenha ocorrido numa Semana Santa, institucionalizada pela mais tradicional Igreja Cristã – coincidentemente fundada por Pedro (Apóstolo)? Teria a Páscoa de 1500, eternamente simbolizada pelo Monte Pascoal, realizado seu arquétipo de “passagem”, ao elevar a história a outro patamar de desenvolvimento material e tecnológico/científico, desde então? O fato é que a América do Sul salvou a Europa da fome crônica que a assolava ciclicamente, com a adaptação da batata no Velho Mundo, fazendo crescer as populações. A partir desse primórdio de globalização, há um fortalecimento da saúde global, por certo, motivado pela troca de novos anticorpos entre tantos tipos humanos.

     Algumas cenas de um País bem original:

     País que, em 1614, por ordem do Governador Constantino Menelau, cria no açúcar a primeira “moeda” brasileira. Oh! Dinheirinho doce.

     País que recebe catequizadores jesuítas poetas e escritores, que implantam pioneiramente a Educação a Distância (EaD) nessas paragens.  

    País que tem sua independência estabelecida pelo próprio colonizador, sem conflitos armados. Um fato inédito na história mundial, que só poderia ser feito por outro Pedro (I).

    País que transbordou riquezas para Portugal, e este não soube tornar-se rico e justo. Aliás, o mesmo acontece com a Espanha, que por não educarem suas populações, não distribuírem renda e por não fomentarem o empreendedorismo e a confiança coletiva, permaneceram subdesenvolvidos.

    País de dimensões continentais que fala uma só língua. Embora, Macunaíma, nosso herói sem caráter, diga que aqui se fala “brasileiro” e se escreve “português”, ou seja, é o único país do mundo onde se fala uma língua e escreve outra.

    País que adota a República como vingança à Lei Áurea da Princesa Isabel, destituindo e expulsando Pedro (II) e a Família Real, em um movimento patrocinado por ruralistas conservadores, revoltados com a abolição da escravatura, apesar de extremamente tardia.

    País que faz a metamorfose do canibalismo dos Caetés, que vitimou Pedro (Fernandez Sardinha – o bispo), em um importante movimento artístico nacional, coroado com a “Semana de 22” e seu subsequente Manifesto Antropofágico, de legítima raiz brasileira, inspirador da futura Bossa Nova e do Tropicalismo.

    País que tem a mão do artista Debret, maior ilustrador da paisagem brasileira de seu tempo, desenhando o diploma da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, em 1830, com elementos alegóricos exaltando a agricultura, a indústria, o comércio e a invenção, prenúncio do crescimento da Economia.

    País, outrora, exportador de Pau-Brasil e ouro; importador de facões e espelhos. E, hoje, exportador de soja e minério de ferro; importador de Ipad e Windows. Ou seja, saímos de seis para meia-dúzia.

    Brasil, uma história tão exclusiva que o faz ser maravilhosamente diverso. Façamos dessa diferença a oportunidade de ser evoluído e universal. Vamos criar o próprio modelo de desenvolvimento, sem a importação de ideais caducos e inviáveis, sejam de Esquerda ou de Direita. Aí sim, em se plantando tudo dá.


                                                       .
Publicado no Jornal Cinform em 28/04/2014 - Caderno Emprego


segunda-feira, 14 de abril de 2014

A gestão é o espírito da coisa

Em nome do bom entendimento, vamos definir o significado do termo “espírito” mais adequado ao texto, de acordo com o Aurélio: “a parte incorpórea, inteligente ou sensível do ser humano; o pensamento; a mente”. Assim, afastamos o caráter religioso ou confessional de nossos propósitos imediatos. Portanto, podemos assumir como espirituais todos os valores intangíveis dos humanos, como as emoções, a ética, a solidariedade, a confiança, o amor, a esperança, e tantos outros sentimentos que nos permeiam 24 horas por dia.

     Qual a influência que nosso estado de espírito provoca no cotidiano do trabalho? Por certo, age diretamente nas relações interpessoais e pode ser determinante do sucesso profissional. Afinal, ninguém quer trabalhar próximo a uma pessoa eternamente mal humorada ou egocêntrica. O mesmo se reflete na imagem da empresa. Você conhece alguma empresa que lhe passa a imagem de ser desonesta, ou intolerante, ou apática, por exemplo?

     Olhando ao nosso redor, vemos que há um processo de desmaterialização dos bens – o celular é um caso típico -, e um incremento na prestação de serviços. A economia criativa “encarna” uma espiritualização da produção, com sua típica intangibilidade dos bens. De tal modo, o software, o design, as patentes, as marcas, a produção cultural, o entretenimento, dentre outros ativos modernos, são bens desse novo estágio do progresso humano. A esse acervo de conhecimentos, conceitos, linguagens e ideias, o jesuíta Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) deu o nome de “noosfera”. Ou seja, uma camada espiritualizada que se forma ao redor do planeta pela ação da inteligência humana.

     Os avanços para a espiritualização dos negócios já caminham em alta velocidade e precisamos nos adaptar com igual desempenho. Valores como respeito aos empregados, aos consumidores e ao meio ambiente são mais valorizados (e cobrados) a cada dia. Contudo, as mudanças requeridas podem não ser tão grandes assim, como parecem à primeira vista.

     Senão vejamos: A moral do capitalismo se fundamenta no fato de que, nos mercados livres, a única maneira de ser bem-sucedido é fazer algo benfeito para outras pessoas. Criticamente, sabemos que o dono do restaurante nos serve bem para obter lucro. Isto é, movido pelo interesse próprio. Porém, não é muito distante para o dono do restaurante, manter o mesmo comportamento de fazer benfeita a comida, mudar seu objetivo para saciar a fome dos clientes e, consequentemente obter o justo lucro. Parecem coisas já muito próximas.

     Uma escola de gestão para os novos tempos pode vir das ONGs, com o propósito de exercer uma atuação idealista e imbricada no rigoroso cumprimento da missão. Por certo, da gestão das entidades sem fins lucrativos virá o conhecimento de que o lucro se dá por várias vias (talvez uns cem fins lucrativos), e não apenas pelo excedente financeiro.

     Ainda na década de 1950, Peter Drucker, o guru da gestão de negócios, afirmava ser necessária uma rede de mútua confiança para que se realizem transações comerciais. É evidente a relação entre o sentimento de confiança coletiva e o ambiente favorável a negócios. Nesse sentido, desconfiança provoca subdesenvolvimento. Assim, afirmam grandes pensadores sobre desenvolvimento local. Aliás, a teoria do capital social é lastreada pela confiança generalizada como pré-requisito para uma ambiência favorável a progresso.

     Embora seja evidente que países de maioria protestante têm melhor desempenho econômico, podemos crer que tal desenvolvimento mais se deve a fatores educacionais do que a religiosos. Isso porque, Estados orientais não-cristãos, como o Japão e Tigres Asiáticos, criaram ambientes confiáveis para empreendedores, paralelamente a pactos nacionais para melhoria da educação. O sistema industrial japonês Just-in-time é uma prova de maximização econômica a partir de ações inspiradas na confiança mútua.

     O escritor francês André Malraux profetizou: “O século XXI será religioso ou não será.”  Portanto, independente dos negócios, exerça a fé e evolua a sua religiosidade. O mundo agradece. Boa Páscoa!

                                                        .
Publicado no Jornal Cinform em 14/04/2014 - Caderno Emprego


segunda-feira, 31 de março de 2014

Tecnologia na escola não se faz no computador



     A história da tecnologia é quase tão antiga quanto a da própria humanidade, pois surge na confecção das primeiras ferramentas de caça, proteção ou transporte. Desde que o mundo é mundo, como diz o poeta, o homem usa dos recursos físicos e estratégicos para se impor sobre o meio. Assim, transportar água em vasos, por exemplo, deu autonomia para as conquistas territoriais. Lascar pedras ou arar a terra trouxe consequências sociais impactantes, além da invenção da roda e do controle do fogo. Porém, tecnologia é toda ferramenta, máquina, técnica, método ou processo que se aplica na resolução de problemas.

     Sob esse ponto de vista, computadores e redes informacionais são apenas ferramentas sofisticadas que, conjuntamente com o desenvolvimento de manipulações genéticas, biomédicas e as conquistas espaciais, formam o ápice da tecnologia atual.

     Será que o uso imediato dos computadores e das modernas TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) em escolas para crianças é um bom caminho para a conquista do almejado domínio tecnológico? Por certo, não! A precocidade provoca um salto frio e inteligível. Uma ruptura.

     Com efeito, apesar dessas TICs exercerem grande fascínio nas crianças e grande ansiedade nos adultos, são totalmente dispensáveis nas escolas infantis. Para os pequenos, representam coisas do passado. Daí dominarem o uso com certo desprezo e alguma arrogância afirmativa. Já para os pais, parecem coisas do futuro, além de serem desafiadoras ao extremo. Portanto, mais se deve à pressão dos pais e do mercado o uso dessas tecnologias na escola, do que uma necessidade pedagógica real. Aliás, desconheço projeto pedagógico de sucesso, com essas TICs, que seja mais envolvente e construtivo do que uma aula de esculturas de argila ou de pintura em aquarela. Afinal, não existe nada mais intolerante que o computador e suas frias simulações, a se valer, a priori, da visão e, perifericamente, da audição. Então, qual o cheiro da cor azul do Paint? Qual o gosto de uma jaca no Google? Qual o calor e a aspereza do pedaço de fóssil na Wikipedia? Qual o equilíbrio que se desenvolve ao guiar uma moto em um game? O que importa é só a aparência?

     Historicamente, Karl Marx (1818-1883) prefaciou, na primeira edição alemã de O Capital: “... a sociedade não pode nem ultrapassar por saltos nem abolir por decretos as fases de seu desenvolvimento natural, se bem que possa abreviar os períodos de gestação e aliviar as dores do parto de cada fase, desde que descubra a lei natural que preside a seu movimento”.

     São questionamentos como esses que nos fazem refletir se o uso antecipado das TICs nas escolas não é uma forma de alienação de alunos, pais e professores, pois há uma série de outras conquistas tecnológicas que as antecederam, criaram suas bases e são ignoradas nesse processo, provocando uma espécie de paraquedismo cognitivo.

     No início do século XX, o dinamarquês Jacob Riis, considerado o primeiro fotojornalista, disse esperançoso: “Quando nada parece ajudar, eu vou e olho o cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem vezes, sem que nenhuma rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas, e eu sei que não foi aquela a que conseguiu, mas todas as que vieram antes”.

     Por essas razões, devemos reconhecer o valor da Pedagogia Waldorf, ao adotar um currículo escolar que vivencia toda a história da tecnologia, na mesma ordem cronológica de seu surgimento. Por certo, uma forma de ofertar segurança e compreensão sobre a sociedade atual e os caminhos percorridos por ela. Decididamente, nenhuma linha pedagógica é tão apaixonada pela tecnologia e tão provedora de criatividade nos seus alunos. No Fórum Social Mundial, em 2003, Fritjof Capra indicou a Pedagogia Waldorf como modelo de educação transdisciplinar.

     “Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?” T.S.Eliot.


                                                       .
Publicado no Jornal Cinform em 31/03/2014 - Caderno Emprego


terça-feira, 18 de março de 2014

Estacionamentos e garagens: sempre bem nas paradas


     Cerca de vinte e cinco anos atrás, morando na cidade de São Paulo e trabalhando na região central, descobri uma razão muito própria para o ideologizado bordão, “São Paulo não pode parar”: a escassez e o preço dos estacionamentos. A verdade é que, já naquela época, um carro parado custava mais caro do que um rodando por igual período. De fato, assim São Paulo nem podia parar. De lá para cá, com o agravamento da circulação de veículos na cidade dos quilométricos engarrafamentos, nem mais sabemos se São Paulo, além de não poder parar, também não pode andar.

     Hoje, temos em Aracaju, como em qualquer outra capital brasileira, uma crise de mobilidade urbana. Os congestionamentos, a deficiência no transporte público e a falta de estacionamentos, provocam estresse e mudanças de hábitos. Almoçar em restaurantes, para muitos aracajuanos se torna uma necessidade diária, diferentemente dos costumes de até uma década atrás, quando alguns mais conservadores, consideravam “feio” almoçar na rua sem a família.

     Contudo, o que é sofrimento para uns, é oportunidade para outros. Aliás, dizem que a pessoa empreendedora é aquela que quando vê todos chorando, ao invés de entrar na comoção geral, enxerga uma chance imperdível de vender lenços e, assim, atender a essa demanda. Por certo, com esse espírito empreendedor, muitos sonham com a possibilidade de conseguir um terreno ou um velho casarão para demoli-lo e, então, ofertar vagas de estacionamento particular no centro da cidade, realizando um lucrativo negócio.

     Se, enxergamos oportunidades empreendedoras nos estacionamentos e nas garagens, inclusive de shoppings, temos que admitir a nossa modéstia frente a outros povos, particularmente, os norte-americanos, que desenvolveram grandes impérios mundiais a partir de simples garagens. Não por acaso, nasceram em garagens as seguintes marcas: Hewlett-Packard - HP, Harley Davidson Motors, Disney, Mattel, Google, Aplle, Amazon e Lotus Cars (inglesa).

     Desnecessário comentar sobre o valor e a importância dessas marcas. Porém, existem pelo menos três fatores que dão a esses empreendedores estrangeiros superioridade sobre nós: 1- Ambiente favorável ao empreendedorismo, como cultura nacional; 2- níveis de escolaridade e interesse pela pesquisa tecnológica, superiores ao brasileiro e; 3- valorização das micro e pequenas empresas, posto que estas são o principal celeiro da inovação tecnológica.

     Para os norte-americanos, a garagem tem um simbolismo muito especial, associado à criatividade e à inovação. Por conta disso, a Microsoft construiu em seu campus, em Redmond, um galpão – The Garage -, ao qual, os funcionários têm acesso 24 horas por dia e sete dias por semana, funcionando com uma “fábrica de ideias”. Diz o site da empresa, que por essa garagem passaram mais de três mil funcionários e que produziram cerca de dez mil projetos inovadores. Desses, destacamos o mouse sem limite, que permite ao operador-capitão comandar uma frota de computadores simultaneamente, ofertando recursos do tipo copiar-colar ou arrastar arquivos, entre máquinas distintas.

     Por outro lado, neste último mês de fevereiro, comemoramos 50 anos de Beatlemania, movimento mundial disparado a partir do primeiro show dos Beatles na excursão pelos Estados Unidos, em 1964. Esse evento aconteceu na consternada cidade de Washington, três meses após o assassinato de John Kennedy e dois dias após uma aparição ao vivo, no programa The Ed Sullivan Show, que rendeu a audiência recorde de 74 milhões de espectadores, ou seja, metade da população do país.

     Mas, o que a Beatlemania tem a ver com o tema desse artigo? Tudo. O show inaugural dessa histeria coletiva aconteceu no Washington Coliseum, sobre um ringue de luta, dentro de um grande galpão que servia para apresentações de boxe, com arquibancadas para 7 mil pessoas. Confiante em investir nas paradas - Yesterday é a música mais executada no mundo -, o antigo galpão é hoje um carismático estacionamento coberto.


                                                       .                                                      .

Publicado no Jornal Cinform em 17/03/2014 - Caderno Emprego
Publicado na revista TI&N nº 17, de abr/2014

segunda-feira, 3 de março de 2014

Uma parceria do Céu com a Terra

É evidente o crescimento do trabalho em equipe nas atividades produtivas. Por certo, Santos Dumont, o inventor (solitário) do avião há cem anos, hoje, teria que saber trabalhar em grupo para repetir o feito. Afinal, em nossos dias, ninguém fabrica avião sozinho.

     Já se foi o tempo em que trabalhávamos para nós mesmos. Produzíamos o que necessitávamos consumir, gerando poucos excedentes para trocas e, invariavelmente, convivendo com crônica escassez material e fome. A história de nossos antepassados é uma saga de sofrimentos insuportáveis para a “ar condicionada” humanidade atual. Talvez, seja mais confortável nossa favela do século XXI, que um sombrio castelo medieval europeu.

     À medida que a tecnologia avançou, a produção de bens de consumo cresceu excepcionalmente. Isso levou os produtores a buscarem mercados para seus produtos, posto que o trabalho passou a gerar muito mais que seu próprio potencial de consumo. Assim, atualmente, trabalhamos para outros, quase exclusivamente. E, em paralelo, muitos trabalham para nós, formando uma grande rede de cooperação, ainda que invisível e inconsciente. Discretamente, alguém faz o pão fresco que consumiremos mais tarde e a gasolina de amanhã. Reciprocamente, escrevi este artigo para você, caro e anônimo leitor.

     Existem produtos incríveis, frutos de trabalhos compartilhados em larga escala, a exemplo do Linux – programa de computador -, desenvolvido por meio da internet, resultado do esforço de milhares de programadores voluntários, espalhados pelo mundo. Aliás, o Linux é o grande concorrente histórico do Windows. O mesmo, se aplica ao acervo de vídeos do YouTube.

     A evolução do bem estar da humanidade se torna realidade, a partir do trabalho cooperado e da consequente rede de produção. Dessa forma, percebemos que o homem é fruto do meio, ao mesmo tempo em que o meio é fruto do homem. Assim, nos ensina uma das mais belas imagens bíblicas, em Gênesis: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...”. Interessante o plural “façamos”. Aqui reside a parceria Céu e Terra, na qual o ser humano também protagoniza a criação da própria humanidade e a responsabilidade pelo futuro de todos.

     Philip Kotler, no livro Marketing 3.0, revela que o segredo do marketing contemporâneo é cumprir rigorosamente a missão institucional, obtendo assim, a confiança dos consumidores. Afirma ainda, que as relações horizontais são mais confiáveis que as verticais e que cerca de 90% dos consumidores confiam nas recomendações de conhecidos e, 70% confiam nas opiniões de clientes postadas na internet. Além disso, dão mais crédito a estranhos na sua rede social do que a especialistas.

     Com efeito, negócios são exercícios de confiança. Só queremos negociar com quem confiamos. Não há, portanto, pré-requisito maior para a Economia do que esse valor espiritual. Aliás, só é possível a parceria do “céu”, se nossos propósitos forem honestos e trabalharmos pelo bem comum da humanidade. Dessa maneira, parece ser ideal a fusão dos modelos de empresas comerciais com ONGs, integrando o fator comercial ao interesse público. Daí, fazer do lucro uma consequência da sua útil e respeitosa atuação no mercado. Em resumo, que sejam as empresas e os homens agentes da saudável evolução, aquela alinhada à Divina Providência.

     Para sintetizar uma boa e bem humorada parceria, apresentamos o texto, a seguir, extraído do livro As mais belas parábolas de todos os tempos: Um pastor comprou um bom terreno, mas em péssimo estado: mato e entulho por todo lado. Pacientemente, cada fim de semana limpava um pouco. Depois de limpo, plantou flores e árvores frutíferas e frondosas. Muitos finais de semana depois, já tinha construído uma pequena casa com varanda. O lugar ficou realmente aprazível, e ele, então, convidou um colega religioso para ver como tinha ficado. O colega, ao ver o lugar, exclamou:
     - Puxa pastor, você e Deus fizeram um ótimo trabalho aqui!
     - Pois é. Você precisava ver quando Deus cuidava disso aqui sozinho!

                                                       

Publicado no Jornal Cinform em 03/03/2014 - Caderno Emprego


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Quando a escola dá nos nervos


     À primeira vista, motoristas dirão que a escola dá nos nervos quando pais estacionam em filas duplas para buscar os filhos. Os pais, por sua vez, dirão que o desgaste emocional maior se dá na compra cara e volumosa do material escolar, ou nos reajustes das mensalidades dos estabelecimentos particulares. Outros tantos alunos, professores, funcionários e donos falarão de salários, indisciplina, insegurança, falta de vagas, provas e vestibulares. Aliás, qualquer cidadão deve ter algum desgaste com a escola.

     Contudo, nosso foco é o contexto biológico e fisiológico do sistema nervoso humano e as contribuições boas ou ruins, que a escola nele realiza. Durante os primeiros anos da criança, o sistema nervoso tem prioridade sobre os demais órgãos do corpo. Assim, o desenvolvimento corpóreo se dá no sentido crânio-caudal, isto é, da cabeça para os pés, de forma que o cérebro, centro principal do sistema nervoso, seja o órgão que primeiro cresce no organismo humano.

     Biologicamente, duas importantes obras se realizam nos primeiros sete anos de vida: a maturidade neurológica e o reconhecimento geral do corpo pelo sistema imunológico. Sob essa ótica, a maturidade neurológica se faz com o fim do processo de mielinização dos troncos nervosos, que é o isolamento dos nervos por uma bainha de gordura - chamada de mielina -, a qual irá permitir velocidades bem superiores e precisão nas comunicações nervosas. Desde a formação do cérebro nos primeiros meses de vida até a completa mielinização aos sete anos, estão em jogo o futuro escolar da criança e suas capacidades no mundo do trabalho.

     Paralelamente, durante esses mesmos sete anos, o organismo da criança elabora a substituição de todas as células herdadas do ventre materno pelas suas próprias. Assim fazendo, o sistema imunológico põe sua assinatura nas células, identificando-as: EU. Por esse meio, diferenciar o EU do não EU é a base para o reconhecimento e combate aos invasores. As falhas nesse processo podem levar o organismo a combater violentamente a si mesmo, em qualquer idade futura, desencadeando as chamadas doenças autoimunes, a exemplo de Lúpus, algumas artrites e diabetes, além de alergias.

     Com efeito, é indiscutível a importância da primeira infância na formação da saúde e na escolaridade futura do indivíduo. Mas, onde entra a escola nisso? A resposta é o cuidado que a escola deve ter nas práticas pedagógicas para não ferir a prioridade da criança pequena, que é reservar suas energias para a construção de um corpo físico saudável. Então, o brincar e os estímulos imaginativos devem ser os componentes essenciais das aulas, respeitados os ritmos naturais da faixa etária.

     Dito de outra maneira, impor processos intelectuais em crianças pequenas, como a alfabetização precoce (anterior à mielinização), é desviar forças organizadoras do corpo físico para a esfera do raciocínio, resultando em prováveis prejuízos para a saúde e a cognição. Portanto, erros pedagógicos são frequentes e danosos, para além da esfera psíquica das crianças, e muitas vezes, invisíveis ou tidos, erroneamente, como se fossem práticas escolares corretas. Por fim, ainda dirão que a culpa é do ácaro.

     Como saber se a criança apresenta maturidade neurológica para alfabetizar? Além da possível avaliação de um neurologista ou psicopedagogo, existe outra evidência interessante a ser observada pelo educador: a troca de dentes. A implantação da dentição permanente sinaliza um estágio avançado de renovação celular, no qual a criança demonstra que até as células mais duras ela já elaborou. Em geral, após essa fase, a criança apresenta saúde estável e maior controle sobre as febres. Isto é, um bom domínio sobre o próprio organismo, para tranquilidade dos pais.

     Por certo, não há trabalho mais gratificante do que educar. Respeitar os ritmos individuais e da idade, e ver que também assim, a escola dá nos nervos, agora positivamente, quando se comprova que a escolaridade é fator de proteção contra o Mal de Alzheimer. Quanto mais escola (boa), menos doença!


         Publicado no Jornal Cinform em 17/02/2014 - Caderno Emprego

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O futuro é o seu maior concorrente


     A sabedoria popular ensina que “a vida é feita de escolhas”. Tal afirmativa encontra no berço da Economia um dos fundamentos dessa ciência: o custo de oportunidade. Ou seja, o custo implícito pela renúncia a todas as demais possibilidades, após termos feito uma determinada escolha. Assim, ao optarmos por fazer uma mesa de madeira, renunciamos, automaticamente, a todas as cadeiras, skates e janelas, por exemplo, que essa mesma madeira poderia prover.

     Esse mesmo princípio rege o dinheiro dos nossos clientes. Ao escolher um destino, ele renuncia a qualquer outro fim para esse capital.  Dessa forma, a concorrência entre empresas tem crescido demais. Aliás, na mesma proporção que a oferta de produtos e serviços, alavancados pelo agigantado hábito (ou vício) de consumo.

     Conceitualmente, classificamos os concorrentes como diretos ou indiretos: os diretos, mais óbvios, são formados por estabelecimentos muito parecidos entre si, que ofertam artigos semelhantes, com preços similares e pontos de vendas do mesmo tipo. Porém, podem ser também, estabelecimentos maiores, que miram o mesmo público-alvo, ofertam produtos iguais, contudo, com um mix maior, a exemplo das lojas de departamentos, locais ou via comércio eletrônico.

     Já os concorrentes indiretos são mais difusos e difíceis de localizarmos. São caracterizados por disputar os mesmos recursos e clientes, para fins bem diversos. Nessa categoria, encontramos uma imobiliária concorrendo com uma concessionária de automóveis, ou uma agência de viagens, ou ainda, qualquer outro ramo que dependa de disponibilidade de crédito. Assim, ao assumir dívidas relativas ao financiamento de um carro, o comprador compromete sua renda, inviabilizando-o, em geral, de realizar viagens turísticas ou de comprar um imóvel.   

     Surpreendentemente, a realidade da concorrência de mercado não para por ai, já que o consagrado economista Schumpeter (1883-1950) desenvolveu a teoria da “destruição criativa”, afirmando que a concorrência efetiva é dada pelos efeitos das inovações sobre as empresas existentes. Portanto, reforça que a verdadeira concorrência na economia capitalista não se dá entre pequenas empresas que produzem a mesma mercadoria ou serviço, mas aquela que as empresas inovadoras, nas quais se desenvolve a atividade empreendedora, exercem em confronto com as outras. Não é a concorrência que existe entre bens idênticos produzidos todos do mesmo modo, mas sim a que os produtos novos impõem aos antigos.

     Como se sabe, os ciclos de vida dos produtos estão cada vez mais curtos. Alguns deles são prometidos para apenas uma estação, como o “celular do verão” – vejam no Google -, quando este, deveria ser um bem durável. Assim, nada tende ao surgimento de uma nova, sexagenária Kombi. Qual seria o carro, lançado hoje, que sobreviveria em produção até 2070? 

     O Fenômeno do Empreendedorismo, livro de Emanuel Leite, ensina: “Na busca por novas oportunidades, toda empresa deve estar aberta para o futuro. Sabem-se de duas coisas sobre o futuro: que não pode ser conhecido e que será diferente de hoje”. A partir disso, devemos procurar por indícios no presente, com potencial impactante para promover mudanças. Isso é possível, porque o futuro não será feito amanhã; ele está sendo construído hoje – em grande parte pelas manifestações culturais, pelos comportamentos e valores consolidados em nossas crianças, por grandes eventos que acontecerão e serão capazes de alterar tendências, além dos produtos de larga adesão, como telefones celulares, capazes de criar profundas alterações sobre as demais rotinas humanas.

     Para fortalecer o ânimo dos nossos empreendedores, brindemos com Fernando Pessoa a destruição criativa, tão necessária aos negócios: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmo”.



                                                        .
            Publicado no Jornal Cinform em 20/01/2014 - Caderno Emprego
             http://palavraderh.com.br/o-futuro-e-o-seu-maior-concorrente/
            Publicado no jornal Coerente de 01/05/14 p.05