segunda-feira, 11 de abril de 2011

Índio quer apito? Não!!! Índio quer iPad



     Diz a lenda que com a chegada dos portugueses em nossas terras tupiniquins, a aproximação pacífica junto aos índios aconteceu sob a oferta de presentes inusitados aos antigos donos da terra. Dentre estas quinquilharias estavam espelhinhos, adereços, colares, adornos, e outros um-e-noventa-e-nove.


Trato esse assunto como lenda por não acreditar que nossos antepassados, de ambos os lados, fossem tão ingênuos. Também não sei como é possível um povo invasor, numericamente insignificante, dominar outro em sua própria selva. Penso que a única explicação plausível é a formação de alianças militares entre portugueses e índios para combater outros índios. O combate na floresta é dificílimo. Que o diga o americano derrotado no Vietnã, a despeito de toda tecnologia de guerra moderna, ainda ineficaz na selva.


O lance mais sedutor desse descobrimento brasileiro foi o acesso a tecnologias desconhecidas pelos anfitriões. O aço dos facões, as embarcações, os tecidos, os animais domésticos, especialmente as galinhas e cães. Em troca, os nativos forneceram pau-brasil, matéria-prima para a produção de tintas vermelhas, raras para a indústria têxtil da época, e animais silvestres. Para nossos índios, esse encontro significou um salto tecnológico de dezenas de milhares de anos, pois, aí tiveram contato com a linguagem escrita, a tecnologia do ferro e as naus transatlânticas, dentre outras tecnologias úteis ao dia a dia, a exemplo dos anzóis e machadinhas. Imaginemos que ganho isso representou para eles. Em contrapartida vieram doenças terríveis e vícios pessoais e sociais.


Assim, começa um longo processo de Brasil colônia. Brasil da exportação de matéria-prima e da importação de bens tecnológicos que perdura ainda hoje. Um interessante parâmetro para avaliar nosso desempenho industrial é o preço do quilo de bens exportados comparado ao preço do quilo dos bens importados. Nessa comparação veremos que não estamos bem na foto. Grosso modo, um único quilo de satélite, que importamos, tem o mesmo preço que um milhão de quilos de soja que exportamos. Assim, afirmam autores de referência.


Então, para melhorar a qualidade dos produtos brasileiros exportados, além dos necessários investimentos em pesquisa e desenvolvimento – P&D, pré-requisito para a inovação e a redução da sufocante e injusta carga tributária, nós temos de investir maciçamente em formação tecnológica e em educação básica, bem como, ajustar o câmbio à realidade.


À medida que mantemos o Real artificialmente forte priorizamos as importações e dificultamos as exportações. Isso significa sucateamento da indústria nacional e consequente perda de competitividade. Em outras palavras, criamos um círculo vicioso que nos afasta cada vez mais do mercado internacional e compromete nosso saldo da balança comercial. Este saldo incrementa a reserva cambial e nos dá segurança contra movimentos especulativos e quebradeira econômica, embora seja um dinheiro caro por ser muito mal remunerado quando comparado aos nossos estratosféricos juros internos: quatro vezes superior. Há economistas que afirmam que essa reserva, mal remunerada, nos custa 1% do PIB anualmente.


Devido aos robustos 300 bilhões de dólares de nossa reserva cambial recentemente convivemos com a crise financeira internacional que não se fez tão visível contra nossa economia. Mas, seguramente teve um custo alto para todos nós, na forma de dívida interna e custo da máquina pública.


A economia de bens e serviços produzidos pelo país não pode existir na qualidade de refém da abusiva valorização do Real. A permanência nesses níveis cambiais pode significar um retrocesso ao desenvolvimento. Isto é, um desastroso retorno ao Brasil rural do início do século passado, com o agravante de nem sequer possuirmos um agronegócio verdadeiramente nosso, posto que sua tecnologia é, também, importada e sua operacionalidade através de satélites, GPS e transgênicos nada tem a ver com o nosso homem do campo. Trata-se de uma agricultura usuária da área rural, mas, notadamente gerida técnica, comercial e financeiramente nos grandes centros cosmopolitas. Com o cambio atual geramos bons empregos na China, EUA e Europa; e subempregos no Brasil.


Deixando o economês para lá, podemos ver que a história do Brasil muda de atores e cenários, mas continua sendo palco de um mesmo enredo colonialista. Onde a soja é o novo pau-brasil e o iPad o moderno e inusitado espelhinho do século XXI.    


Se a humanidade nasceu de uma mesma origem, a chegada dos europeus por aqui significa um momento muito especial. Daí, termos a responsabilidade de encaminhar ao desenvolvimento comum a terra que permitiu o reencontro de toda a humanidade, emblematicamente ocorrido num transformador Domingo de Páscoa.


            

Publicado no jornal Cinform 11/04/2011 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial abr/2011
Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 00/2011 – edição inaugural

segunda-feira, 28 de março de 2011

Somos todos transformadores



     O título deste texto é o mote da Semana da Inclusão Digital 2011, promovida pelo CDI – Comitê para Democratização da Informática que transcorrerá no período de 27 de março a 2 de abril. É acertada a iniciativa de promover o acesso de todos às modernas TICs - tecnologias da informação e comunicação, assunto que essa ONG desenvolve há muitos anos. Nascido no Brasil, o CDI é reconhecido internacionalmente por atuar em vários países do mundo, assim como o seu jovem e notório fundador: o carioca Rodrigo Baggio.


Muitos dos avanços tecnológicos são sistêmicos, isto é, estruturantes das organizações sociais, pois agem modificando hábitos e valores culturais e diferenciando grupos e indivíduos. Dessa forma, tornaram-se capazes de gerar demandas totalmente inimagináveis há alguns poucos anos atrás. Exemplo disso é o telefone celular que mudou comportamentos, chegando a níveis de domínio capazes de  alterar a psique de indivíduos quando privados do acesso a este aparelho, em parte pela falta de segurança pública no país ou mesmo  pela possibilidade de conexão destes com as viciantes redes sociais da internet.


Essa componente social é uma faceta excludente da tecnologia. Leva à formação de ‘tribos’ que se distanciam das maiorias. Um jovem sem acesso a internet em nossos dias é alguém, indubitavelmente, excluído dos demais. Essa exclusão não deriva de modismo, mas da crua realidade de ocupar um mesmo território geográfico, uma mesma contemporaneidade e ter a certeza de viver em outro mundo.


Recentemente, soube que tramita no Congresso Nacional uma PEC – Proposta de Emenda à Constituição, que cria a obrigação de o Estado Brasileiro ofertar acesso à internet a todos. Trata-se de um esforço louvável de combate a exclusão digital. Sei também que algumas escolas públicas estão experimentando a distribuição de laptops para todos os alunos, derivado do projeto one laptop per children, desenvolvido por Nicholas Negroponte, diretor do MIT – Instituto de Tecnologias de Massachusetts, nos Estados Unidos. Dessa experiência, já não gosto. À primeira vista, por desconhecer um projeto pedagógico que sustente de forma saudável o uso intensivo de computadores por crianças, além de expô-las à insegurança de portar esses equipamentos.


Desconheço mesmo a necessidade de uma criança usar computador. Não vejo ganho pedagógico no uso dessa ferramenta por elas. Precisam é de brincar, correr, desenhar, sentir a textura do papel, o atrito de um pincel com a tinta, trabalhar manualmente com argila, couro, lã, equilibrar-se numa bicicleta, nadar, jogar bola, experimentar e reconhecer os limites delas e das coisas, vivenciar a existência de outros humanos, praticar artes, ouvir o som de um tambor ou de um piano real, ouvir estórias, soltar a imaginação, aprender conteúdos escolares contextualizados, sentir o cheiro da borracha e da cola escolar, falar, cantar, apreciar a beleza da natureza, etc. Isso sim, dentro de um ambiente pedagógico acolhedor, trará segurança na existência do futuro adulto.


Inclusão digital exige mediação. Não basta oferecer acesso a internet ou a computadores se não houver um trabalho pedagógico associado. A mesma internet que educa também deseduca. Os sites inadequados são mais numerosos e fáceis de encontrar que os apropriados. Desta forma, o computador com seus jogos ou a internet com seus abusos mais prejudicam que auxiliam na educação e na formação social da criança usuária e desassistida. Creio que a pedagogia que comanda o uso dos recursos de TICs nas escolas brasileiras, públicas ou particulares, é orientada bem mais pelos interesses de mercado que os educacionais.


Com efeito, exclusão digital não é assunto que diga respeito apenas aos pobres. Ela é muito mais perversa, atingindo a muitos, inclusive da elite intelectual e econômica. Ter o melhor computador com banda larga e ser excelente usuário de seus programas aplicativos não significa estar incluído. Somos todos vítimas de abusos no uso das TICs quando temos nossa privacidade invadida; nossos dados pessoais sigilosos postos à venda em CDs de camelôs; quando somos rastreados sem autorização ou conhecimento disto; quando somos violados eletronicamente pelo fisco invasor; quando o nosso sigilo eleitoral e votos se tornam crença na inviolabilidade (sic) da urna eletrônica, deixando assim de serem garantias constitucionais; ou quando se modernizam apenas os órgãos da arrecadação pública com super computadores para as finanças ou radares de ultima geração para multarem motoristas imprecisos e se esquecem da modernização do serviço ao público. 
  

Não entendam como um desabafo e sim como um convite à reflexão: para onde vai nosso Brasil? Nós, cidadãos podemos escolher o rumo da construção de uma sociedade melhor. Afinal, somos todos transformadores!





Publicado no jornal Cinform 28/03/2011 – Caderno Emprego

segunda-feira, 14 de março de 2011

Landell de Moura, gênio, empreendedor, inventor e injustiçado



     Pe. Roberto Landell de Moura  -  Serviu a Deus e a Ciência - Precursor da Telefonia e Telegrafia sem fios. Patrono dos Radioamadores do Brasil. 21.01.1861 - 30.06.1928.


     Estes são os dizeres inscritos numa placa de bronze integrante do busto do Padre cientista, que se encontra instalada na sede da LABRE/SP – Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão, doada aos colegas brasileiros por radio amadores portugueses, após a eleição em 1981, que consagrou o Padre Landell de Moura como ‘Patrono dos Radioamadores do Brasil’.


     Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1861, onde estudou Humanidades. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi cursar a Escola Politécnica. Na companhia de seu irmão Guilherme, seguiu para Roma, onde no Colégio Pio Americano e na Universidade Gregoriana estudou teologia, física e química, sendo ordenado Padre em 1886.


     De volta ao Brasil, residiu no Rio de Janeiro, capital do império, onde teve a oportunidade de rezar uma missa para Dom Pedro II e toda sua corte. Esta aproximação com o reino permitiu a ele expor suas idéias sobre transmissão do som e da imagem através de ondas e luz ao imperador, com quem manteve freqüentes diálogos científicos.


     Em 1887 retornou ao Rio Grande do Sul, permanecendo até 1892, quando foi transferido para a cidade paulista de Santos. Daí seguiu para Campinas - SP e após, para a cidade de São Paulo, onde atuou como capelão do Colégio Santana, situado em bairro do mesmo nome. Em Campinas, aprofundou seus estudos sobre a propagação de ondas portadoras de sons e imagens postulando o seguinte: ‘Dai-me um movimento vibratório tão extenso quanto a distância que nos separa dessas outras terras que rolam sobre as nossas cabeças ou sob nossos pés, e eu farei chegar a minha voz até lá’.


     Desta afirmação surgiu a certeza de ser possível criar a tecnologia, revolucionária para a época - de transmitir voz através do ar. Durante a residência no bairro de Santana, em São Paulo, realizou os primeiros experimentos de emissão de voz entre os altos de Santana e a Avenida Paulista, distantes 8 quilômetros em linha reta. Este evento foi testemunhado por diversas autoridades e jornalistas, em 1893. Um ano antes, portanto, do italiano Marconi, ser considerado ‘inventor do rádio’, Landell teve o registro no Brasil do seu “aparelho destinado à transmissão phonética à distância, com fio ou sem fio, através do espaço, da terra e do elemento aquoso”, patente                   nº. 3.279.


     O Jornal "O Estado de São Paulo", de 16 de julho de 1899, anunciava uma das experiências públicas de Landell: " Telephonia Sem Fios: Hoje ás 9 horas da manhan, no Collegio das Irmans de S.José, em Sant´Anna, realisar-se-á uma experiência de telephonia sem fios, com a apparelhos inventados pelo redvmo. padre Landell de Moura. A experiência versará sobre a telephonia aerea e subterranea. O Sr. Padre Landell de Moura, que convidou para este acto de varias autoridades, homens de sciencia e representantes de imprensa, fará uma prelecção antes de proceder nas experiências de seu invento".


    Imediatamente após o registro da patente, não encontrando apoio financeiro e moral para prosseguir com o desenvolvimento de seus aparelhos, o Padre Landell conseguiu autorização da Igreja para viajar para os Estados Unidos a fim de registrar patentes. A esta altura, foi perseguido por fiéis fanáticos que o acusavam de pacto com o diabo e destruíram seu laboratório. Lá, obteve três patentes no The United States PatentOffice, em New York, Estados Unidos: “Transmissor de Ondas” - precursor do rádio, “Telefone sem fio” e “Telégrafo sem fio”. Nas patentes agregou vários avanços técnicos como transmissão por ondas contínuas, por meio da luz, princípio da fibra óptica e por ondas curtas. Também em 1904 o Padre Landell começou a projetar, de forma precursora, a transmissão da imagem, ou seja, de televisão e de textos, teletipo, à distância.


     O jornal New York Herald, 12 de Outubro de 1902, em reportagem sobre os inventos revolucionários do brasileiro, relatou as seguintes palavras do inventor: "No Brasil, uma multidão supersticiosa acusava-me participante com o diabo, interromperam os meus estudos e quebraram os meus aparelhos. (...) Conheci o que é sentir como Galileu para gritar: "Eppur si muove".


     De volta ao Brasil, o Padre foi visto como louco pelas autoridades públicas e eclesiásticas por declarar ingenuamente que seu invento permitiria até a comunicação interplanetária. Assim, com grande desgosto, abandonou sua carreira de inventor, dedicando-se até o fim da vida a atividade sacerdotal.


     Essa foi a saga de um empreendedor brasileiro. Agora somos obrigados a resgatar a glória desse gênio, gravando em nossa história sua titularidade de o “pai do rádio”, igualmente como reverenciamos a Santos Dumont. Para apoiar esta causa entre no site WWW.mlm.landelldemoura.qsl.br e participe do abaixo assinado, já apoiado por várias instituições brasileiras. Faça parte!



Publicado no jornal Cinform 14/03/2011 – Caderno Emprego

terça-feira, 1 de março de 2011

A economia da atitude



     A história ensina que a economia se baseia em pilares de sustentação, em torno dos quais tudo gira. Quando olhamos o mundo moderno, isto é, da revolução industrial para os dias atuais, o que vemos é a passagem por paradigmas econômicos fundamentais. O primeiro desses está vinculado ao fazer, ou seja, às habilidades manufatureiras. Sua lógica determinante é a busca da eficiência e precisão nas fábricas, que consiste em montar com eficiência, ajustar tempos e movimentos humanos às máquinas e linhas de montagem e aumentar a eficiência energética. Enfim, surgem aí o fordismo e a administração científica de Taylor. Essa é a economia da habilidade.


Ficar parado não é condição que se aplique à economia. Logo, vem a partir da segunda guerra mundial, durante a chamada guerra fria, uma nova onda que rapidamente ocupa a maior fatia da economia mundial contemporânea. É a economia do conhecimento. Nesse modelo, os ativos mais valiosos são os produtos intangíveis, aqueles desprovidos de matéria ou extremamente miniaturizados como, por exemplo, softwares, biotecnologia e transgenia, entretenimentos hollywoodianos, patentes, marcas e direitos autorais. Essa economia do conhecimento, no mesmo ritmo veloz em que se expande, também exclui, na medida em que exige escolaridade, empreendedorismo, pesquisa e inovação. Insumos raros para países periféricos, onde capital humano e capital social se mostram escassos e só são alcançados a contento, no prazo de gerações.


Vivemos extasiados pelo pensamento, afinal, só aí somos verdadeiramente livres. Assim, supervalorizamos o discurso bem pronunciado, ainda que vazio, a competição do vestibular, a lógica cartesiana e fria da informática e até a racionalidade e a inteligência de nossas crianças. Paralelamente, esquecemos ou tratamos de forma distante a formação do caráter, as boas maneiras, a convivência harmoniosa e produtiva, o trabalho em grupo, as ações voluntárias de ajuda social, o cuidado com o meio ambiente, o respeito ao próximo e a muitos outros valores da alma humana que precisam ser educados igualmente.


A economia da atitude, título deste artigo, nos remete a uma zona invisível, sobre a qual autores e formadores de opinião não costumam falar, mas, certamente representa uma significativa parcela do PIB. Inúmeros consultores nos apontam que a principal causa de demissão nas empresas é atitude ou comportamento inadequado, chegando a representar mais de oitenta por cento do total das causas apresentadas. Daí, em quanto eleva o custo das empresas a substituição precoce de funcionários? 


Vemos, a todo instante, campanhas públicas para o combate à dengue. Muito da proliferação do mosquito vetor decorre da atitude das pessoas em favorecer a acumulação de água em vasos, garrafas, pneus, etc. Quanto custa a dengue à sociedade? Da mesma forma, detritos, sacos plásticos e diversos entulhos largados à rua são causadores de entupimentos de esgotos e drenos de águas da chuva. Qual o prejuízo social de uma inundação urbana?


Dirigir embriagado ou cometer imprudências ao volante são problemas comportamentais caríssimos aos cofres sociais. Dos acidentes automobilísticos decorrem muitas perdas irreparáveis como mortes e invalidez, além de danos materiais e serviços hospitalares onerosos.


A violência urbana, a corrupção, as drogas, o número de roubos de carros tão grande que somente 3 ou 4 montadoras teriam condição de produzir o suficiente para repor os carros roubados no Brasil, são comportamentos criminosos, decorrentes de falhas de caráter.


O famoso cientista e poeta alemão Goethe afirmava que “é na solidão que se educa o talento e na torrente do mundo o caráter”. Desta sentença concluímos que educar o pensar, sem educar o sentir e o agir produz pessoas potencialmente deformadas. Nossos adolescentes vivem uma grande solidão, trancados em condomínios, transportados para a universidade em condução escolar (sic), mergulhados na internet ou nos games. Estão, assim, perdendo a oportunidade de desenvolver o social, prioridade máxima dessa faixa etária. Apesar de serem extremamente talentosos, muitos, porém, encontram-se inapetentes para o social. Pela falta de embates nos contatos diretos com outros, como estão quanto ao desenvolvimento do caráter?


Sou dos que acreditam na educação e no seu poder de bem formar seres humanos. Desta forma, não vejo possibilidade de crermos em educação sem a participação direta das famílias na escola, nem nas escolas que educam para o vestibular. A educação deve atuar no intelecto, na convivência e na ação, afinal, de tudo que estudamos só ficamos com aquilo que pomos em prática.


Espero ver esta nasciturna economia da atitude em ação ao produzir uma sociedade de paz e reduzir o custo social gerado por atos destrutivos. Concluo que educação é o melhor dos investimentos que se pode fazer em um país. O custo não é educar, é não educar.




Publicado no jornal Cinform 28/02/2011 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial fev/2011

Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 08/2012
            Publicado na revista Jovem Empreendedor nº 01, maio/2014

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Convergência tecnológica dos pés à cabeça


A convergência tecnológica é uma tendência dominante no inovador e moderno ambiente econômico. Sob a ótica da tecnologia, consiste no encontro de diferentes serviços que compartilham uma mesma infraestrutura. Já sob o olhar econômico, se afirma que a convergência tecnológica é um processo de mudança qualitativa que liga dois ou mais mercados existentes e anteriormente distintos. Certamente, através de exemplos entenderemos com mais clareza esse assunto, como no caso de um dos seus ícones: o telefone celular. Nele encontramos diversos outros dispositivos embutidos, tais como filmadora, máquina fotográfica, agenda eletrônica, cartão de crédito, despertador, rádio, TV, computador com acesso a internet, secretária eletrônica, GPS, walkman e, até lanterna.


Por trás dessa salada tecnológica há uma nova oportunidade comercial em cada descoberta de uso inédito. Seguramente, o autor de uma inovação tecnológica não é capaz de antever todas as utilidades decorrentes de seu invento. Os usuários passam a escrever a história funcional do instrumento para além da sua finalidade original. E aí a coisa não tem mais limites.


Um caso inusitado de convergência tecnológica vem da Nike, tradicional marca de material esportivo, em especial de tênis de corrida e calçados esportivos. Em 2001, após o lançamento do iPod da Apple, executivos da Nike observaram que em todo o mundo pessoas corriam escutando música com seus iPods e viram nisso a oportunidade de combinar música e dados. Daí nasceu a parceria com a Apple que produziu em 2006 o tênis Nike+ (NikePlus). Esse calçado possui um sensor inteligente que se comunica com o iPod ou iPhone, registrando o tempo e a distância da corrida enquanto você ouve música. Caso algum recorde seja batido, é dado um aviso parabenizando e estimulando o corredor a uma nova superação.


Após cada corrida, pode-se transferir as informações para um site comunitário da Nike, onde seus dados são armazenados e analisados para serem transformados em tabelas e gráficos comparativos de seu desempenho histórico, da média mundial e dos grandes corredores do planeta. Este site ainda permite a criação de grupos que se unem fisicamente ou não, para superar desafios coletivos do tipo: “nosso grupo vai correr 1.600 quilômetros este mês”, cabendo aos diversos membros a contribuição individual para a obtenção da meta coletiva.


Bem mais que um serviço criativo ofertado pela Nike, este entrosamento direto com usuários de seus produtos resultou na possibilidade de ver cristalinamente a forma, intensidade, ciclo de vida, perfil do usuário profissional ou amador, dentre outras informações privilegiadas dos consumidores de seus tênis. Em 2009 já eram mais de 2 milhões de pessoas registradas no site Nike+, formando uma rede social colaborativa para o aperfeiçoamento e o desenvolvimento dos produtos da marca. Esses benefícios se constituem em grande capital estratégico para a empresa.


Desse estratégico encontro do sapato com a música extraímos alguns números grandiosos: em agosto de 2009, mais de 240 milhões de quilômetros haviam sido registrados por mais de 1,3 milhões de corredores que queimaram mais de 14 bilhões de calorias e elevaram a participação da Nike no mercado americano de tênis de corrida de 46% em 2006 para 61% nesta ultima data.


Sem sombra de dúvida, este sistema composto de calçados inteligentes com iPods, amparados por recursos informáticos, é capaz de levar pessoas a tecerem uma rede social. Feliz exemplo de cocriação por meio de uma plataforma de engajamento que abriga milhões de consumidores dispostos a cooperar com a marca.


Este caso apresentado aqui não deve ser visto como um fenômeno de sucesso no mundo dos negócios. Deve sim ser encarado, sobretudo, como uma tendência que cotidianamente enaltece a experiência do consumidor com o produto, na qual, o centro, obviamente, é a pessoa ao invés do produto. Uma nova revolução copérnica se anuncia, agora na relação entre produtores e consumidores. Certamente, estes últimos formarão o centro em torno do qual a indústria orbitará ou se perderá no espaço oco.


Porém, nem tudo são flores na convergência tecnológica. Estes dias fomos surpreendidos com a notícia de que o Vaticano proibiu a confissão dos fiéis por meio do aplicativo ‘Confession’ do iPhone. Analiso o fato com o devido afastamento que requer essa exagerada convergência tecnológica. Se do lado de cá está um confesso pecador, do outro lado penso ser simplesmente inacreditável que o céu tenha caído nessa fútil, mercadológica, transitória e mortal tentação.


Assim, como há casos geniais de convergência tecnológica capazes de nos conectar dos pés à cabeça, há outros que nos parecem sem pé nem cabeça.  


      

Publicado no jornal Cinform 14/02/2011 – Caderno Emprego
            Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 03/2011
Publicado em 28/01/2015 em http://www.administradores.com.br/artigos/tecnologia/convergencia-tecnologica-dos-pes-a-cabeca/84411/


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A empresa como um arranjo produtivo



     Os arranjos produtivos locais – APLs se caracterizam como pequenas ilhas de prosperidade em nosso continental mapa brasileiro. Existem estudos para clarear o entendimento do porquê de algumas regiões demonstrarem aptidão para o progresso social e econômico enquanto outras, muito similares, apresentam inapetência crônica para a geração de riquezas. Concluem tais estudos para alguns fatos comuns nos APLs: em primeiro lugar, sempre existe forte interação entre as pessoas e a imprescindível confiança entre elas. Depois, os integrantes possuem identidade comum, visão compartilhada e sentem-se possuidores de uma mesma orientação vocacional. Por fim, participam da governança local, seja o poder público, os empreendedores, os agentes financeiros, ONGs, agentes de desenvolvimento, universidades e a comunidade.


Nesse ambiente de alta interação entre os diversos integrantes do APL está uma de suas maiores riquezas: a construção coletiva do bem comum. Só é possível haver desenvolvimento a partir dessa combinação protagonizada pelos indivíduos do próprio local. É um movimento endógeno que faz de um local economicamente deprimido um novo ambiente de riqueza pujante e mais justo socialmente.


No Brasil, apenas o APL aeroespacial de São José dos Campos, em São Paulo, foi induzido a partir de interesse governamental, portanto exógeno, e deu certo. Todos os demais, bem sucedidos, são frutos de ações de dentro para fora, no quais a comunidade alavancou com a força de trabalho o apoio de outras instituições que se fizeram presentes. São exemplos de APLs brasileiros: a indústria de confecções de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro; o turismo em Porto Seguro, na Bahia; a produção de vinhos do Vale dos Vinhedos, Rio Grande do Sul, a indústria moveleira em Paragominas, no Pará; e a indústria têxtil e de confecções de Tobias Barreto em nosso Sergipe.


Paralelamente, organizações empresariais devem inspirar-se no modelo de funcionamento dos APLs para instituir uma governança mais democrática e interativa com seus clientes, bancos, conselhos deliberativos, fornecedores, colaboradores, prestadores de serviços diretos e indiretos, comunidade vizinha e outros. Afinal, não podemos perder de vista que estamos cada vez mais imersos numa sociedade organizada em redes de interesses por meio da internet e suas ferramentas de construções coletivas, a exemplo do YouTube, Wikipédia, Twitter, Orkut, MSN, Linux, etc. 


Alguns renomados autores de gestão de negócios recomendam a abertura dos processos industriais mais íntimos à colaboração de seus clientes numa parceria que denominam cocriação. Assim, desenvolver novos produtos com a participação direta de usuários tem sido o caminho de inovações bem-sucedidas. A defesa pela cocriação encontra respaldo em importantes ícones da indústria mundial, como Dell, Nike, Apple, Starbucks e IBM.


A idéia da cocriação não é exatamente nova. Alguns líderes mundiais da produção de software já possuíam seus ‘grupos de usuários’ que interagiam diretamente com os projetistas de sistemas apresentando críticas e sugestões de melhorias para os produtos. Porém, nova é a dimensão que a cocriação ganhou no mundo dos negócios.


Pesquisas americanas apontam que para realizar uma compra pela internet o cliente dedica apenas 1% do seu tempo de navegação, os demais 99% são usados nas pesquisas e trocas de opiniões com outros compradores. Assim, com um cliente que tão bem estuda o que pretende comprar, é possível imaginar seu potencial de colaboração para o aperfeiçoamento de um produto ou serviço se lhe pedirem uma ‘mãozinha’.


Em 2008, o presidente da Dell Computadores, Michael Dell, declarou: “Tenho certeza de que há um monte de coisas que não consigo nem imaginar, mas que nossos clientes conseguem. Uma empresa do porte da nossa não pode girar em torno de idéias produzidas por um punhadinho de pessoas; ela precisa girar em torno de milhões de pessoas, e saber utilizar o poder de suas idéias.” 
    

Prudentemente, podemos observar que o mesmo poder que os clientes têm de colaborar positivamente, também pode ser usado para destruir uma marca ou produto. A reputação deve ser acompanhada nas redes sociais pelas empresas, mas, sempre com o cuidado de não contrapor opiniões desagradáveis através de manifestação de poder ou de repressão. As redes sociais têm ética própria e são intolerantes, por sua natureza, a informações pasteurizadas ou ‘chapa branca’. Recomendam os especialistas, que a participação de empresas em comunidades se faça pelo caminho da legitimidade social, cumprindo o que promete e sem o uso do jargão usual do marketing.


Esses novos tempos exigirão um reposicionamento do capital tradicional para novas relações do poder e da comunicação social. Também surgem novos ecossistemas sociais, frutos da internet que subitamente suprimiu a geografia e deu a todos os seus navegadores o mesmo tamanho.




Publicado no jornal Cinform 31/01/2011 – Caderno Emprego

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Metabolismo industrial e educação ambiental



     O momento que vivemos mostra-nos, a todo instante, a importância da educação ambiental como tema obrigatório e, preferencialmente, transversal a toda atividade escolar ou laboral. A ética da produção que aceitamos como correta se mostra caduca e carece de profunda revisão, sob pena de esgotarmos nossa maior riqueza: a natureza.


Para melhor compreensão transcrevo a seguir um texto extraído do livro Capitalismo Natural, de Paul Hawken e outros, que descreve a complexidade e a energia consumida para a produção de uma simples lata de Coca-Cola:


“Um interessante estudo de caso mostra a complexidade do metabolismo industrial no livro Lean Thinking (O Pensamento Estéril), de James Womack e Daniel Jones, que acompanha a origem e a trajetória de uma lata de Coca-Cola inglesa. A fabricação da lata resulta mais custosa e complicada que a da própria bebida. A bauxita é extraída na Austrália e transportada para um separador, que, em meia hora, purifica uma tonelada de minério, reduzindo-a a meia tonelada de óxido de alumínio. Quando acumulado em quantidade suficiente, o estoque é embarcado em um gigantesco cargueiro que o leva à Suécia ou à Noruega, onde as usinas hidroelétricas fornecem energia barata. Depois de um mês de travessia de dois oceanos, ele passa dois meses na fundição. Ali, um processo de duas horas transforma cada meia tonelada de óxido de alumínio em um quarto de tonelada de metal alumínio em lingotes de dez metros de comprimento. Estes são tratados durante quinze dias antes de embarcar para as laminadoras da Suécia ou da Alemanha. Lá, cada lingote é aquecido a quinhentos graus Celsius e prensado até atingir a espessura de 0,30 centímetros. As folhas resultantes são embaladas em rolos de dez toneladas e transportadas a um armazém e, depois, a uma laminadora a frio do mesmo país ou de outro, onde voltam a ser prensados até ficar dez vezes mais finas e prontas para a fabricação. O alumínio é, então, enviado à Inglaterra, onde se moldam as folhas em forma de latas que, a seguir, são lavadas, secadas, esmaltadas e pintadas (ainda não tem tampa), recebem uma camada protetora, que evita que o refrigerante as corroa, e passam pela inspeção. Colocadas em paletes, são erguidas pelas empilhadeiras e ficam armazenadas nas prateleiras. No momento do uso, são transportadas até a engarrafadora, onde as lavam e limpam uma vez mais e as enchem de água misturada com xarope aromatizado, fósforo, cafeína e gás de óxido de carbono. O açúcar vem das plantações de beterraba da França depois de passar pelo transporte, a usina, a refinação e o embarque. O fósforo, originário de Idaho, nos Estados Unidos, é extraído em minas profundas – processo esse que também desenterra o cádmio e o tório radiativo. As empresas de mineração consomem permanentemente a mesma quantidade de eletricidade que uma cidade de 100 mil habitantes a fim de dar qualidade alimentar ao fosfato. A cafeína vai da indústria química para o fabricante do xarope na Inglaterra. As latas cheias, depois de vedadas com uma tampa pop-top de alumínio a um ritmo de 1.500 por minuto, são embaladas em caixas de papelão com as mesmas cores e esquemas promocionais. Estas foram feitas com polpa de madeira oriunda de qualquer lugar, da Suécia à Sibéria e às antigas florestas virgens da Columbia Britânica, que são os habitat dos ursos pardos, dos cachorros-do-mato, das lontras e das águias. Uma vez mais empilhadas em paletes, as latas são transportadas ao armazém de distribuição regional e, pouco depois, ao supermercado, onde normalmente as compram em três dias. O consumidor adquire 350 mililitros de água com açúcar colorida com fosfato, impregnada de cafeína e aromatizada com caramelo. Beber a Coca-Cola é questão de alguns minutos; jogar a lata fora, de um segundo”, finaliza o texto.


Como vimos, a produção e o consumo de muitos produtos são totalmente desiguais e assimétricos. Meses de produção e segundos para consumo e descarte. Como diz um famoso apresentador da televisão: “Isto é um absurdo”.



     

Publicado no jornal Cinform 17/01/2011 – Caderno Emprego
Publicado no Jornal do Comércio / SE – Editorial jan/2011