quarta-feira, 25 de março de 2015

Águas do São Francisco e outras finas aguarias


O ano de 2015 encerra a Década da Água (2005/2015), assim proclamada pela ONU – Organização das Nações Unidas, com o objetivo de alertar a humanidade sobre a finitude desse recurso. O Brasil, infelizmente, parece encerrar essa década juntamente com a própria água. Nosso país, sempre reconhecido pela abundância de água doce, se vê em uma crise hídrica sem precedentes.
Vale lembrar que nesse mesmo Brasil, durante a Conferência da ONU para o Meio Ambiente, ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, se deliberou que o dia 22 de março passaria a ser considerado o Dia Mundial da Água. Desde então, anualmente se escolhe um tema central para a data, sendo para 2015: “Água e Desenvolvimento Sustentável”.
Nosso país, rico possuidor de quase 15% da água doce do planeta, a possui distribuída de forma desigual. A bacia amazônica detêm 80% desta, ficando o restante para as demais regiões de forma repetidamente desigual, ao sacrificar o Nordeste. Contudo, o regime pluviométrico aliado ao uso indiscriminado das reservas e o desmatamento, estão levando a região Sudeste a enfrentar inédito desabastecimento de água.
Com efeito, a riqueza da água, supera em muito a necessidade de consumo humano, estimado em 10% de todo o uso, restando à indústria e à agricultura o restante. Vejamos algumas curiosidades quantificáveis:
Embora seja um mineral, a água é o único encontrado nos três estados na natureza. Isto é, sólido, líquido e gasoso. É considerada o solvente universal, graças a sua capacidade de solubilizar inúmeros produtos e elementos químicos.
Apenas 2,5% da água existente na Terra é classificada como “água doce”. Dessa quantidade, 0,5% encontra-se em depósitos subterrâneos e 0,01% em rios e lagos. Muito finita, portanto. Durante um período de 100 anos uma molécula de água passa aproximadamente 98 anos no oceano, 23 meses em forma de gelo, 3 semanas em lagos e rios e 1 semana na atmosfera.
A todos, enriquece a leitura da excelente apostila “Os quatro reinos da natureza”, escrita pelo médico, Dr. Gerardo Blanco (in memoriam). Texto que apresenta importantes aspectos qualitativos sobre esse elemento, como segue abaixo:
É o mineral que mais se aproxima dos reinos superiores, sendo veículo da ideia de vida.
Sempre descreve formas orgânicas reveladoras nos seus rastros.
Contraria a gravidade por meio do empuxo, cujo vetor aponta para o cosmo. Igualmente sobe, sem qualquer auxilio, em tubos capilares.
Em contato com a Terra assume forma tridimensional, moldada pelo relevo. Opostamente, assume característica bidimensional quando voltada para o céu, que espelha com sua superfície superior plana; ou ainda, quando no limite da atmosfera terrestre forma cristais planos (neve), impossíveis de serem gerados em baixa altitude.
Inúmeras experiências revelam que a água possui “memória”, alterando suas características pelas substâncias nela dissolvidas, ou pela ocorrência de eventos cósmicos às quais se submeteu. Dessa interação cósmica/terrena, a medicina homeopática faz da água seu principal veículo medicamentoso.
Contudo, água, ou melhor, a falta desta, nos traz de volta ao Brasil, onde notícias tristes recentes anunciaram a primeira seca da história da nascente do rio São Francisco e o desesperado clamor pelo abastecimento na maior cidade do país. Além, do iminente risco de racionamento elétrico causado pelo insuficiente estoque hídrico.
Paralelamente, a vivência da seca pelos paulistas, faz do admirado estado um lugar cada vez mais nordestino. Lá, por exemplo, a Câmara de Vereadores de Birigui aprovou por unanimidade, projeto do vereador Vadão da Farmácia (PTB), que institui o 'Caldo de Jegue' como prato típico da cidade. A iguaria é feita há dez anos pelo comerciante Manoel Marques Espedo, de 67 anos, o popular Mané Simpatia. Por certo, simpatizante do típico animal do árido sertão.
         Se o pitoresco “Caldo de Jegue” de Birigui e o foie gras (fígado inchado de ganso), citado na Odisseia de Homero, formam legitimas iguarias; o mesmo já acontece com águas raras como as mineiras magnesianas de São Lourenço e as da nascente do São Francisco; ou ainda, as da sofrida Cantareira. Verdadeiras aguarias.


       Publicado no jornal Cinform de 30/03/2015 – Caderno Municípios
       Publicado no Correio de Sergipe - Caderno B em 25/03/2015
       Publicado em 22/03/2015, no site http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/aguas-do-sao-francisco-e-outras-finas-aguarias/85861/

segunda-feira, 2 de março de 2015

O melhor cliente do mundo


Notáveis marqueteiros dizem que a venda mais importante que se realiza é a segunda, para um mesmo cliente. Sinal que ele aprovou a primeira experiência e repetiu. Porém, quantos são os lojistas que mantêm seus negócios focados na satisfação do cliente? Infelizmente, não é difícil encontrar comerciantes que ainda veem o consumidor como um objeto estranho ao bom funcionamento de sua casa comercial, o conhecido mal necessário.
Para o experiente consultor de marketing César Souza, autor de livros sobre o tema, a empresa saudável deve “vestir a camisa do cliente” e colocá-lo no centro do próprio organograma, de forma a tê-lo como astro central, em torno do qual toda a organização deve orbitar. Para materializar a questão, César Souza desenvolveu o conceito de Clientividade.
Embora lançado em 1998 e ainda pouco praticado, o conceito de Clientividade é muito lúcido e oportuno; e parte dos seguintes pressupostos básicos: Os clientes não compram produtos, compram a realização de sonhos; cada cliente é um vendedor e não apenas um comprador; todos os colaboradores de uma empresa são vendedores.
Recentemente, o autor lançou novo livro, sob o título “A NeoEmpresa – O futuro da sua carreira e dos negócios no mundo em reconfiguração”, no qual revisita a clientividade, projetando-a para a empresa do futuro. Dessa forma, César Souza aponta práticas corretas para que as “neoempresas” atinjam sucesso em um mundo extremamente volátil:
1-    Colocam o cliente no centro do organograma. Cuidam dele e não apenas do produto.

2-    Transformam clientes em “apóstolos”. Conquistam fãs em vez de clientes, pois conhecem a sua alma, entram no seu imaginário, sabem quais são seus sonhos e antecipam desejos.

3-    Vendem o tangível e o intangível - o não produto: confiança, credibilidade, transparência, personalização e flexibilidade.

4-    Antecipam as necessidades do cliente e o educam para o que necessita, não fazendo apenas o que ele deseja.

5-    Entendem, atendem, oferecem, segmentam, conhecem e customizam, ao contrário da sequencia tradicional que primeiro oferece para depois atender e só então entender.

6-    Estabelecem pontos de compra (PDCs) e não pontos de venda (PDVs).

7-    Transformam canais de distribuição em parceiros integrados, em vez de apenas tratá-los como meros canais.

8-    Encantam talentos para encantar clientes, pois sabem que não existe cliente encantado em empresa com talentos infelizes.

9-    Oferecem soluções integradas a seus clientes, em vez de apenas produtos.

10- Usam a tecnologia como recurso para facilitar a vida dos clientes e não para impor normas unidirecionais.

11-  Motivam todos na empresa, do porteiro ao presidente, a ser responsáveis pelo relacionamento com os clientes.
O segredo, portanto, é tão sutil quanto efetivo. A oferta final vai além do produto ou da busca original do cliente. Ela envolve solução, como foi dito. Assim, não é a fachada ou a prateleira da loja que resulta em fidelizar o cliente, especialmente em um mundo com tantas commodities e mercadorias padronizadas. Vejam que o que diferencia a empresa moderna da ultrapassada está no intangível ou no imaterial, e não na data de sua fundação.
Uma revolução copernicana se faz necessária para colocar o cliente no centro do universo empresarial e assim, por meio do servir, tocar a alma do comprador. Isso mesmo! Coloquem mais alma e mais humanidade nos seus negócios. Aliás, como disse Antoine de Saint-Exupéry: o essencial é invisível aos olhos.
As palavras-chaves são: atitude, empatia - se colocar no lugar do cliente-, credibilidade, confiança, entendimento, entregar e servir. Coisas que não aparecem diretamente nas rubricas do balanço nem no preço da empresa, contudo podem valer mais que tudo isso. As marcas Microsoft, Apple ou Google valem mais que a soma dos seus ativos tangíveis. Quem sabe, o mesmo acontece com o centenário Quintana’s Bar? Onde Carlos Drummond de Andrade, poeticamente leu o invisível do negócio:
"No Quintana's Bar,
sou assíduo cliente.
É um bar que não é bar,
é um bar diferente”.

Publicado no jornal Cinform de 02/03/2015 – Caderno Emprego
Publicado em 02/03/2015 no site http://www.administradores.com.br/artigos/marketing/o-melhor-cliente-do-mundo/85327/
Publicado na revista TI&N nº 23 - abr/2015

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Desenvolvimento = Empreendedorismo + Educação


O ano de 2015 marca os 70 anos de divisão da Coreia. Após a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, em 1945, acordaram União Soviética e Estados Unidos dividir o território da Coreia – que estava sob domínio japonês; em duas partes, à altura do paralelo 38.
Assim, a Coreia do Sul estabeleceu um regime capitalista autoritário, vinculado aos norte-americanos; enquanto a Coreia do Norte implantou um regime autoritário comunista, aliado aos soviéticos.
Já, em 1950 a Coreia do Norte invade a do sul visando reunificar o país, desencadeando a conhecida Guerra da Coreia, palco de confronto entre Estados Unidos e União Soviética com apoio da China, que durou mais de três anos.
Ao encerrar o conflito armado, permaneceu o clima da Guerra Fria por prazo indeterminado. Contudo, nessa época, as regiões Norte e Sul da dividida Coreia apresentavam indicadores econômicos e sociais equivalentes, com ligeira vantagem para o Norte, até a década de 1980.
Os diferentes modelos de governança e prioridades de investimentos promoveram um abismo emblemático entre os dois países, transformando a Coreia do Sul na décima maior economia do mundo, com padrão de renda europeu para seus cidadãos.
Paralelamente, a Coreia do Norte apresenta a renda per capita de seus habitantes equivalente a dos africanos subsaarianos.
Enquanto a ditadura permanece na Coreia do Norte reprimindo a propriedade privada, a inovação, a participação popular e qualquer manifestação de livre iniciativa, por considerá-las atentados a sua economia planificada e aos planos militares (que consomem 40% do PIB), sua população sobrevive a partir de ajudas humanitárias externas, posto que por lá grassa a fome e a morte prematura. Hoje, seus vizinhos do Sul vivem em média dez anos a mais e possuem renda per capita 22 vezes maior.
As disparidades entre as Coreias derrubam várias teorias sobre desenvolvimento econômico, dentre elas a que credita à região geográfica ser ou não propícia a produção de riquezas; ou a que atribui à ética protestante uma maior afinidade com a riqueza; ou ainda, a que vincula a capacidade empreendedora ou de geração de riquezas a razões étnicas.
São inúmeros os comparativos entre a economia brasileira e a coreana do Sul. Chega a ser surrada a informação de que em 1960 a renda per capita do brasileiro era o dobro da coreana. Atualmente, a coreana (do Sul, obviamente) é três vezes maior que a nossa.
Além disso, existem 100 mil jovens coreanos do Sul estudando em universidades americanas, enquanto os nossos não chegam a 10 mil. Ademais, 18% de nossos jovens possuem nível superior (ou estão cursando). Já, entre os jovens deles, apenas 18% não frequentaram o ensino superior.
Contudo, essa arrancada desenvolvimentista da Coreia do Sul é fruto de uma política muito bem pensada e executada em longo prazo e que se caracteriza pelo bom uso do recurso público. Lá, apenas 4% do PIB se destina a Educação e o analfabetismo chegou à zero, quando há 50 anos era 35%, assim como o brasileiro.
Esse cenário comprova a assertividade das políticas públicas que conciliam promover Educação com Empreendedorismo. Com efeito, a Educação favorece a pesquisa tecnológica e o crescimento do Capital Humano, ao tempo em que o Empreendedorismo desenvolve o Capital Social necessário para que os negócios prosperem e aconteça a “destruição criativa” causada pela permanente inovação tecnológica.
Dessa forma, a presença do Estado é obrigatória para fomentar o crédito, a desburocratização, a geração de emprego e a segurança jurídica para os bons investimentos privados.
Ou seja, há de se ofertar uma institucionalidade inclusiva para a economia e para a política, única razão capaz de demonstrar a diferença entre os desenvolvimentos das duas Coreias em tão breve tempo.
Por fim, nos resta como brasileiros impedir que institucionalidades extrativistas nos levem na desastrosa direção da Coreia do Norte. Seja todo o Brasil ou alguma de suas regiões mais pobres. Os mesmos olhos que procuram luzes na foto noturna do satélite na invisível Coreia do Norte, também não veem nada na maior parte do Nordeste do Brasil.


          Publicado no jornal Cinform de 26/01/2015 – Caderno Emprego
          Publicado na revista TI&N n°22 – Fev/2015
          Publicado em http://www.administradores.com.br/artigos/empreendedorismo/desenvolvimento-empreendedorismo-educacao/84349/

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Educação Profissional, Empreendedorismo e propósito de vida


O empreendedorismo na educação revela agradáveis surpresas aos educadores que vibram com o crescimento dos seus alunos. A mais imediata delas vem do ganho de maturidade e de vida interior no jovem que experimenta exercer um papel desafiador no mundo.
Afinal, empreender é, acima de tudo, um estilo de vida construtora de sonhos. Charles Lindbergh, pioneiro aviador solitário a atravessar o Atlântico em 1927, disse: “vivemos hoje os nossos sonhos de ontem”, ensinando que empreendedores são pessoas que possuem fortes vínculos com o futuro e estão sempre dedicados a construí-lo, modificando a ordem e promovendo a chamada “destruição criativa”, a serviço da humanidade de amanhã.
Poucas são as pessoas dotadas dos dons genéticos do comportamento empreendedor. A grande maioria delas, conquista esse comportamento por meio da educação difusa, isto é, adquirida pela cultura local, a partir do exemplo de pessoas próximas, formadoras de opinião e caráter.
 Melhor seria somar a essa cultura a educação formal nas escolas regulares e nas de educação profissional. Parece existir uma razoável dose de apatia nos adolescentes em relação à escola. O ensino médio perde identidade e razão de ser, assim apontam pesquisas para esclarecer os elevados índices de evasão e desinteresse dos alunos.
Porém, inúmeras experiências no Brasil e, destacadamente, em Sergipe, demonstram que a formação empreendedora realizada dentro da escola muda esse cenário. Com efeito, escola que fomenta o protagonismo juvenil tem menores índices de violência e depredação patrimonial; têm, seus alunos, melhor desempenho escolar e mais acesso ao emprego e aos cursos superiores.
Melhora ainda a escolha vocacional e dá ao estudante maior autonomia na vida, que se traduz como independência e autoconhecimento. Equivocadamente, uma palavra que sofre com preconceitos é “empreendedorismo”, uma vez que alguns a associam ao pensamento capitalista ou neoliberal. Ledo engano.
Ser empreendedor é ser construtor de sonhos, ser inconformado com a realidade atual e disposto a lutar para mudá-la em qualquer campo da atividade humana.
Então, personalidades notáveis como Irmã Dulce, Marechal Rondon, Juscelino Kubitscheck, Barão do Rio Branco, Barão de Mauá e, até o criativo candidato Enéas, são exemplos brasileiros de empreendedores, já falecidos, que atuaram em distintas áreas, sempre com a marca da inovação em suas guerreiras biografias, dotadas de propósitos claros.
Razão pela qual estamos ainda hoje citando eles. Minha experiência como educador reforça a tese favorável ao empreendedorismo. Sob a ótica pedagógica, o ensino do empreendedorismo na escola atende às indicações da Unesco para a educação no século XXI, especialmente na consecução de dois dos quatro pilares recomendados: Aprender a Fazer e Aprender a Conviver.
Por certo, esses são os pilares mais desafiadores para as escolas, por serem os mais difíceis de trabalhar em larga escala. Daí a prática orientada do empreendedorismo e do associativismo surgirem como solução.
Após minha decepção com as propostas votadas na CONAE 2014, motivo de artigo publicado nessa mesma coluna (edição 1651), reanimo ao ver alunos secundaristas do Pronatec/Senac-SE – pelo segundo ano consecutivo -, se destacarem nacionalmente, desta vez em dois concursos neste final de ano.
Conquistaram o terceiro lugar no II Prêmio Pronatec Empreendedor e, recentemente, em Brasília, outros alunos disputaram o Prêmio Nacional de Miniempresas Estudantis da Junior Achievement, ambos realizados na sede do Sebrae Nacional.
União perfeita de formação profissional com educação empreendedora. Mais importante que a projeção que esses jovens conquistam, está a visível, embora infinita, mudança na interioridade de cada um. Provando assim, que o que faz vencer na vida são atitudes empreendedoras diante de oportunidades comuns.
Dessas que são dadas a muitos ou a todos, mas que só os que aprendem a acreditar em si e desenvolvem a coragem de aceitar desafios, agarram. Parabéns queridos alunos. “Se você pensa que pode ou sonha que pode, comece. Ousadia tem genialidade, poder e mágica. Ouse fazer, e o poder lhe será dado”, Goethe.


Publicado no jornal Cinform de 22/12/2014 – Caderno Emprego


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Conae 2014: Oportunidade perdida


Entre os dias 19 e 23 de novembro deste ano, aconteceu em Brasília a Conae 2014 – Conferência Nacional de Educação. Trata-se de um importante momento de debate sobre os destinos da combalida educação brasileira, reunindo 3500 delegados de todos os Estados do País, representando docentes, pais, gestores e alunos, das esferas pública e privada; além de observadores.
Pelo porte grandioso, a Conae se traduz em elevados gastos públicos, pois envolve hospedagens, traslados, refeições, passagens aéreas, locação de espaços e remuneração dos organizadores.
Isso significa que o suor brasileiro banca essa conta, aumentando, por certo, a responsabilidade dos delegados e a exigência de reciprocidade. Isto é, caberia aos delegados, no mínimo, a obrigação de pensar a educação levando em conta o nosso povo e seu contexto, real patrocinador do evento.
Lamentavelmente, isso não aconteceu, a priori. As plenárias dos diversos eixos temáticos, bem como a plenária final, foram palcos de torcidas ideológicas e acaloradas nas votações dos destaques.
Se, por um lado, isso parece saudável no debate democrático, lá se revelou um fracasso, à medida que buscou mais fragmentar que fortalecer o nosso envergonhado sistema educacional.
Lutar por concentrar mais recursos orçamentários foi o fundamento de muitos grupos organizados presentes. O discurso de buscar mais dinheiro para seu próprio nicho, ainda que a custa de destruir outros, não parece a melhor postura para quem se diz educador.
Faltou estatura a muitos delegados e até a uns tantos palestrantes também, ao distorcerem informações visando interesse pessoal e ao exercerem um olhar míope frente à realidade dos esquecidos brasileiros, especialmente, os mais necessitados dos serviços do Estado.
Não é novidade informar que nos indicadores de Educação Comparada, o Brasil se mostra sempre nos piores lugares. O Pisa (teste internacional de qualidade na educação), classifica o País assim: Em 2012, 65 países participaram do Pisa, quando em Matemática, o Brasil ficou no 58º lugar no ranking, com 391 pontos.  Na prova de Leitura, a nossa média foi de 410 pontos, o que levou a 55º posição. Em Ciências, o País ocupa a 59º colocação, com 405 pontos.
Frente a essa realidade tão discrepante com o nosso padrão econômico, devemos entender que a educação necessita da união de todos para a superação de sua insuficiência. Dessa forma, a disputa imatura de grupos pelos recursos alheios assegura a consolidação do desastre.
É um crime contra o cidadão impedir o acesso aos serviços prestados por uma Apae conveniada à Rede Pública, ou de um jovem de qualquer assentamento do MST a uma escola rural praticante da Pedagogia da Alternância, ou ainda, impedir o acesso a vagas compradas com recursos do Pronatec em boas escolas profissionalizantes.
  Recurso público só para o Serviço Público. Esse foi o mote cantado e festejado por muitos presentes na Conae, ignorando a verdadeira realidade dos brasileiros. Será que o Serviço Público possui condições de atendimento qualitativo e quantitativo aos que a ele recorre? Em quanto tempo terá?
Apostar nessa solução é ir na contramão da história dos bem sucedidos exemplos. Recurso público é para ser destinado a todos que dele verdadeiramente necessitem por meio de quem honesta e eficientemente realize bem o serviço ao cidadão.
Assim, é triste ver que muitos dos que se dizem representantes da inovação educacional sejam tão apegados a interesses próprios e mesquinhos, incapazes de pregar uma integração de soluções, na qual as melhores práticas servissem de modelos replicáveis. Deveria a Conae 2014 ser o teatro de operações da interação e integração de todos pelo salvamento da Educação brasileira, ambiente emblemático para a construção de um pacto nacional.
Considerando que o desejado pacto nacional pela Educação não ocorreu, resta crer que os legisladores e a Presidente Dilma terão a lucidez que o momento exige na construção do futuro do Brasil. Afinal, o futuro está diretamente relacionado com a qualidade e o acesso ofertados a nossos jovens e crianças. De nada valerão os dez pontos percentuais do PIB ou os royalties do pré-sal se os caminhos da educação não estiverem em mãos certas.



Publicado no jornal Cinform de 01/12/2014 – Caderno Emprego

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Endividamento e pobreza disfarçada


Disse o historiador inglês Thomas Fuller, no século XVII, que “a dívida é a pior pobreza”. Por certo, tal frase continua perfeitamente atualizada para o nosso século.
No Brasil não é diferente: pesquisas recentes afirmam que o brasileiro mantêm níveis de endividamento muito elevados, pois 41% dos entrevistados estão, ou estiveram com restrições ao crédito por inadimplência e 54% possuem dívidas que comprometem a renda mensal com parcelas de cartões de crédito.
A pesquisa, realizada em 2012, pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná - Sinduscon/PR -, aponta dados preocupantes, porque 41% das famílias declararam que a causa da inadimplência é decorrente de falta de planejamento, ou seja, má administração das finanças, seguido por desemprego com 11%.
Nesse cenário, economistas recomendam que se disponibilizem cursos de Educação Financeira para todos, especialmente para os mais jovens. Essa capacitação deveria ser ofertada pelas próprias instituições financeiras, juntamente a órgãos governamentais, fomentando a cultura do “crédito responsável” e minimizando o impacto perverso causado pela inadimplência de alguns que acarreta custo social para muitos.
A politica econômica adotada pelo Brasil, de fomentar o acesso ao crédito como forma de manter a atividade produtiva vigorosa, é um modelo limitado, por promover paralelamente o endividamento da população. Uma população endividada forma uma sociedade cujo futuro está comprometido e, demonstra a pesquisa, a maioria dos cidadãos se endividou sem a clareza necessária para fazer tal operação de longo prazo. Grande parte desse comprometimento de rendas futuras surge estimulado por compras impulsivas ou para saldar inadimplência de parentes, principalmente por meio do crédito consignado dos aposentados.
Sob a ótica econômica, dívidas longas contraídas para aquisição de bens de consumo implicam em perda patrimonial para a família, sendo nefastas, portanto. Já as dívidas relativas à compra da casa própria, por exemplo, são vistas como saudáveis por promoverem uma forma de poupança.
Porém, considerando o despreparo do consumidor relativo a operações financeiras e a indução ao crédito feito por propagandas comerciais e governamentais, temos que concordar com o autor Peter Senge, pesquisador de referência em técnicas de aprendizado coletivo, quando afirma: “na ausência de um grande objetivo, a mediocridade prevalece”. Isto é, sem um bom projeto para uso do capital de terceiro, todo recurso será ameaçador, ainda mais com as abusivas taxas de juros locais.
Do ponto de vista filosófico, todo empréstimo é uma operação baseada em relações de confiança mútua. Assim, quem empresta disponibiliza recursos acumulados do seu passado em favor do projeto de outro. Como projeto é algo “por fazer”, logo nos remete ao futuro, e a todas as suas incertezas. Dessa maneira, uma operação de crédito corresponde ao encontro do passado de um (financiador) com o futuro de outro (tomador).
Como sabemos que o futuro sempre envolve risco, por sua natureza incerta, entende-se a solidariedade de quem concede o empréstimo, via análise de crédito, com a capacidade de honrar o compromisso do tomador.
Com efeito, endividar a população de menor renda para estimular o consumo pode render dividendos políticos de curto prazo por gerar a sensação de melhoria do poder aquisitivo e assim, disfarçar a pobreza. Contudo, poderá ser uma medida recessiva a médio e longo prazo por “escravizar” o devedor e sua família com o comprometimento de significativa parcela de rendas futuras. Isso assegurará a manutenção da pobreza e trará intranquilidade para muitos brasileiros e brasileiras que viverão a sensação de que “o dia que está por vir parece maior que o ano que passou”.
Para iniciar um bom curso de educação financeira sigamos a recomendação do poeta Vinicius de Morais:
 “Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.”




Publicado no jornal Cinform de 17/11/2014 – Caderno Emprego
Publicado no jornal Coerente de 15/12/2014 – Edição 14
Publicado na revista TI&N n°21 - Dez/2014
Publicado em 04/02/2015 em http://www.administradores.com.br/artigos/economia-e-financas/endividamento-e-pobreza-disfarcada/84575/

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O que a internet está fazendo com as nossas mentes


O título desse artigo foi extraído de palestra homônima proferida no Senac e na UFS, pelo Prof. Dr. Valdemar Setzer, da Universidade de São Paulo – USP -, durante sua passagem por Aracaju nos últimos dias. O conteúdo, como há de se esperar, não traz boas notícias para os habituais frequentadores de redes sociais e sites de buscas. Inspirado em pesquisas realizadas por cientistas americanos, especialmente por Nicholas Carr, a narrativa discorre sobre a preguiça mental (ou emburrecimento, nas palavras do pesquisador), resultante da leitura de textos na internet. 
A partir da metáfora, do homem primitivo coletor de frutos e mariscos, ou seja, extrativista de subsistência e, portanto, incapaz de praticar a agricultura ou a pecuária, o palestrante expõe a situação do jovem contemporâneo, usuário contumaz da internet. Nesse sentido, como usuário, ele vive de achados fortuitos e superficiais, sem dominar o ambiente. Quem sabe, um nômade digital ou um analfabeto versão 2.0?
Tal superficialidade faz do jovem um ser limitado intelectualmente e dotado de preguiça mental. Pode parecer exagero essa afirmativa, mas os educadores percebem a incapacidade de aprofundamento na leitura e a correspondente ausência de disciplina da vontade, presentes nas salas de aulas atuais. Não por acaso, Albert Einstein afirmou: “temo o dia em que a tecnologia se sobreponha à nossa humanidade: o mundo terá apenas uma geração de idiotas”.
A volição deve ser educada com a mesma intensidade e rigor que a cognição. Uma pessoa que não desenvolve a popular “força de vontade” pode se tornar vítima de si mesmo. Um exemplo esclarecedor é comparar a volição a um movimento metabólico do corpo, como o do intestino. Em seu ritmo normal, o intestino age por sua própria vontade, geralmente em equilíbrio, ou tolerância, com nossas disponibilidades de tempo. Contudo, quando vitimado por uma diarreia, impõe sua vontade de forma unilateral, imperando sobre todas as outras vontades, compromissos ou desejos humanos, como a afirmar, indelicadamente, sobre quem manda em quem agora. Comparativamente, essa pode ser a reação de uma pessoa, volitiva e emocionalmente deseducada, que não consegue manifestar uma posição de equilíbrio, quando sob forte pressão: descontrolada e rebelde, agindo “fora de si” para se impor sobre os demais elementos, sejam internos ou externos.
Diferentemente dos livros, a internet, mesmo em trabalhos de pesquisas, limita a capacidade de entendimento da leitura. Os anúncios rotativos e a oferta de hipertextos, com seus vínculos tentadores, desviam da rota lógica da pesquisa e quebram o entendimento do texto. Dessa maneira, o pesquisador na internet tende a ser um distraído coletor de manchetes, boiando na superfície do assunto, sem conseguir se concentrar. Há autores que afirmam que o Google criou a chance de maquiarmos inteligência, quando não a possuímos.
Outro agravante prejudicial ao desenvolvimento dos jovens vem do uso exagerado de redes sociais, como o Facebook ou o Twitter, por afastar do contato “olhos nos olhos”, essencial para a construção de relações sociais e desenvolvimento do caráter. Um jovem plugado fica em média mais de oito horas por dia em frente à telinha de computadores, smartphones, tablets ou tvs. Disso decorre um estado anestésico mental com dependência psicológica, além de sobrepeso e maior insegurança existencial. Um verdadeiro caso (ou caos) de saúde pública.
Diante de notícias que anunciam a venda recorde de tablets nesse último dia das crianças, devemos refletir sobre quais qualidades estamos cultivando em nossos descendentes e quais atrofiamos? Quais acessos lhes permitimos e superexposições lhes ofertamos? Será que daríamos uma emissora de TV para uma criança publicar livremente, em outras épocas? Que saúde futura terá a criança que passa várias horas por dia, parada diante de telas e sentada numa carteira escolar sem brincar?
“Bendito, bendito é aquele que semeia livros, livros a mão cheia e manda o povo pensar; o livro caindo na alma, é germe que faz a palma, é chuva que faz o mar.” Castro Alves.



Publicado no jornal Cinform de 20/10/2014 – Caderno Emprego