segunda-feira, 24 de junho de 2013

Engajamento: Vivencie para saber


Pesquisas em educação comprovam que somente 10% daquilo que estudantes adultos escutam em uma aula estará retido na memória após 72 horas. Já, esses mesmos alunos fixarão 85% do que ouvem, veem e fazem após igual período. Esse resultado deveria direcionar os educadores para que o “fazer” e o “envolver” estejam mais presentes nas propostas educacionais.

Por isso, não basta apenas o envolvimento do ser humano na esfera do “pensar”, através de estímulos lógicos e racionais. É necessário, também, o envolvimento na esfera do “sentir”, proporcionando estímulos interiores e emocionais. Dessa forma, o “sentir” estimula o “querer”, transformando em vontade e ação.

É sabido por todos, da insuficiência de nosso modelo educacional e familiar, que, combinados à fragilidade de nossas políticas públicas para a juventude, geram um vazio na atenção aos jovens brasileiros. Isso, em última análise, acarreta em aumento da vulnerabilidade de nossas crianças e adolescentes frente a fatores negativos, a exemplo do consumo de drogas, prostituição e criminalidade em geral.

Há poucos anos, o papel das instituições era decisivo para estabelecer o modelo de código de ética e moralidade a ser seguido por uma maioria. Além disso, a sociedade sabia distinguir o certo do errado. Modelos não faltavam de código moral, cívico e ético, nas igrejas, escolas, famílias, forças armadas, escotismo e outros mais, que balizavam os comportamentos grupais. Hoje, com a descrença crescente nas instituições, desprezam-se os valores e os códigos de conduta delas e, parece, busca-se criar um padrão ético individual, altamente frágil e falível. O típico e egoísta estilo “salve-se quem puder”.

Contudo, a intenção aqui não é fazer juízo de valor sobre esses pilares sociais, mas levantar a seguinte questão: se abandonamos o padrão moral destas instituições, hoje, formaremos nosso código de ética individual a partir de quê? Da mídia? De discursos partidários? De redes sociais? De marketing? Pois é, sem dúvida, vivemos um momento delicado.

Diante desse frágil cenário, gestores e técnicos do Senac em Sergipe, desenvolveram uma metodologia de como ofertar aos alunos um programa de apoio educacional que se propõe a ir bem além da obrigação curricular e do cumprimento legal da Educação Profissional. Trata-se da Plataforma de Engajamento – Senac Pleno, programa que nasce inspirado nos bons resultados de dezenas de projetos transversais realizados nos últimos quatro anos, que proporcionaram aos alunos exercitar práticas de convivência no trabalho e no desenvolvimento coletivo de projetos criativos. Assim, além da formação obrigatória, o Senac oferece vivências em atividades desafiadoras que fortalecem a cultura da cooperação, o empreendedorismo, a empregabilidade, a cidadania, a inovação, a imagem pessoal, a rede de relacionamentos, a saúde, o reforço escolar e o acesso ao trabalho formal, entre várias outras.

Essa metodologia, inteiramente desenvolvida aqui, permite o registro, a métrica, a avaliação e a geração de gráficos correspondentes à atuação dos projetos pedagógicos nos seguintes arcos: Conhecimentos (Aprender a Aprender), Habilidades (Aprender a Fazer) e Atitudes (Aprender a Conviver), unindo parâmetros formadores das competências aos pilares da Unesco para a educação no século XXI.

Esse “algo mais” já distingue o egresso do Senac no ambiente de trabalho dele, posto que, nele, intenciona-se qualificar pessoas para que estejam fora da curva (infeliz), presente nos gráficos, a indicar que mais de 80% das demissões nas empresas decorrem de problemas comportamentais.

A Plataforma de Engajamento – Senac Pleno, corresponde ao inquestionável compromisso da instituição com o aluno, fazendo da educação uma oportunidade dele experienciar a construção da própria personalidade a partir de fontes saudáveis, éticas e até inesquecíveis. Uma proposta de educação viva e coletiva, já que aprendem intensamente todos que dela participam. Na dúvida, vivencie para saber!  


Publicado no jornal Cinform em 24/06/2013 - Caderno Emprego
           Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº13/2013

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Ser humano e o Ter humano


Já cansado de saber acerca dos excessos da nossa sociedade de consumo e do modo que (ab)usa dos recursos naturais disponíveis, o homem moderno, às vezes, nem parece digno de descender do macaco. Com efeito, nessa mesma época do ápice da inteligência e da racionalidade, o ser humano é capaz de manifestar uma preocupante atrofia do bom senso e dos valores universais, ruborizando a face dos evolucionistas.

 Os sinais de enfraquecimento do tecido social são pronunciados. A banalização da violência, o descuido com a educação dos filhos, a queda dos padrões de ensino e aprendizado, o descarte de produtos e pessoas como hábito cotidiano comum, a frouxidão ao orientar os jovens, principalmente pela falta do exemplo e de coerência entre o que se diz e o que se faz. Além de outras mazelas que fazem de nossa sociedade um espaço em que prioridades individuais possam superar as de interesse coletivo.

Parece que confundimos a construção do livre-arbítrio – individuação ou consciência de si – com o individualismo, expressão do egoísmo. Nesse último, prevalece a “lei do Gerson”, aquela que nos orienta a levar vantagem em tudo. Como consequência, próximo de fazer 100 anos, Macunaíma, o herói sem caráter, representante underground do brasileiro, exibe um vigor de menino em nossas paragens. Quem sabe, o crescimento notável da expectativa de vida brasileira tenha beneficiado a todos, indistintamente?

Mario Cortella, no livro “Qual a Sua Obra?”, conta que em 1974, dois caciques Xavantes saíram de suas aldeias e foram à cidade de São Paulo. Naturalmente que ficaram chocados com certas obras como o Metrô e as catedrais financeiras da Avenida Paulista. Levados a um dos dois shoppings existentes, mostraram-se indignados com a quantidade de espelhos disponíveis em todos os cantos do centro comercial. E cita: “Eles achavam inacreditável que, num mundo cheio de gente, a gente gostasse de se ver, em vez de ver o outro. Se você estava com você o tempo todo, por que ia querer se ver? Esse excesso de espelho é um símbolo ético também”.

Pouco depois, Caetano Veloso deu a resposta emblemática com a música Sampa, versando: “É que Narciso acha feio o que não é espelho”. Desse modo, o poeta fecha a questão enaltecendo o espírito narcisista e consumista da sociedade brasileira, capitaneada por São Paulo e seus mais de setenta shoppings bem-espelhados, hoje.    

Tropeçando nos astros, humanos migram seus valores do Ser para o Ter, o que leva a sociedade a se agigantar na direção inversa: de Ter uma economia de mercado para Ser uma sociedade de mercado.

A diferença é esta: uma economia de mercado é uma ferramenta valiosa e eficaz da atividade produtiva. Uma sociedade de mercado é um modo de vida em que os valores de mercado permeiam cada aspecto da atividade humana. É um lugar em que as relações sociais são reformatadas à imagem do mercado. Assim, ensina o professor de Harvard, Michael Sandel, no livro dele: “O Que o Dinheiro Não Compra”.

Enquanto permitirmos fazer da criança “a alma do negócio”, cultuarmos em procissão as vitrines dos shoppings, adorarmos marcas e deixarmos nos seduzir por cartões de crédito, pouco emancipados seremos. No afã de exibirmos um carro superior ao do vizinho, nos escravizamos num ritual inseguro de endividamento e distorção de valores, fazendo da compra do bem um mau negócio. Segundo uma visão antropológica, o consumo é cultural e os produtos e serviços possuem significados. Mesmo que não tenhamos consciência, quando compramos algo estamos falando para o outro sobre nós mesmos. Assim, o consumismo no país é visto de maneira negativa e se caracteriza quando o indivíduo compra mais do que pode, quando há exagero e falta limite. Ato que nos torna economicamente vulneráveis pela redução da poupança e endividamento geral.

Se, é incerta a origem do Ser humano a partir da evolução animal ou diretamente do barro, com o Ter humano a situação é outra: ele surge da quebra inapropriada de um animal de barro, o porquinho-mealheiro.


          Publicado no jornal Cinform em 03/06/2013 - Caderno Emprego


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Como educar para desenvolver a criatividade?




Uma pessoa criativa é definida como alguém que produz ideias ou atitudes que são simultaneamente originais e adaptativas, à medida que fazem uma contribuição significativa para si ou para outros. Outra contribuição da criatividade é o papel do livre arbítrio e liberdade de escolha desses indivíduos.

Pesquisas revelam que pessoas muito criativas não são necessariamente intelectuais brilhantes; em vez disso, é a sua disposição de independência, não convencionalidade, flexibilidade cognitiva e abordagem de risco que caracterizam suas forças de personalidade, estilo e inteligência criativa.

A criatividade exige um ambiente favorável para se fazer presente na maioria das pessoas. Os mais talentosos parecem não depender desse ambiente de apoio para transbordar a capacidade criativa. Quem trabalha em agência de publicidade sabe que a criação de campanhas nasce, na maior parte das vezes, sob pressão de prazos e escassez de recursos. Diversos autores afirmam que um ambiente desmotivador onde haja preguiça, exaustão, distração, ruídos, além de falta de consciência da própria energia criadora, terá efeito devastador no processo de desenvolvimento da criatividade. Dessa forma, vê-se que, infelizmente, o poder inibidor é mais forte e presente que o estimulador. Ou seja, é mais fácil inibir que promover o potencial criativo dos indivíduos.  

Vemos no atual modelo educacional, inspirado na produção em série de alunos habilitados a responder provas com as palavras do professor ou do autor, ao invés das suas próprias, o tal efeito inibidor. Assim, o excesso de disciplina, o estabelecimento de padrões ideais de alunos para beneficio da própria escola, o bullying com os diferentes, a adoção de exames vestibulares como objetivo maior da vida escolar, o desordenamento de ritmos entre as diversas atividades na escola, a hiperestimulação da memória típica da educação bancária criticada por Paulo Freire – na qual os alunos viram depósitos de conteúdos desconexos para posterior prestação de contas -, são fatores que atrofiam a mente criativa dos jovens.

Ao vermos tantos fatores inibidores da criatividade respondendo às chamadas de classe com raras faltas, recomendamos o que é um bom ambiente para desenvolver o potencial criativo:
1-           Equilibrar as atividades escolares sobre três bases: cognitiva, emocional e volitiva.
2-           Não antecipar processos intelectuais nas crianças menores de sete anos, a exemplo da alfabetização. E sim, estimular o brincar.
3-           Fazer da prática artística um veículo de aprendizagem regular combinando autoria e protagonismo.
4-           Incentivar e valorizar as diferenças e a individualidade.
5-           Fomentar o empreendedorismo e a cultura da cooperação.
6-           Realizar trabalhos manuais com tecelagem, argila, madeira, pedras, tricô, fiação, metais, dentre outros e ao longo de todo o currículo.
7-           Narrar contos de fadas, clássicos mitológicos e biografias inspiradoras para enriquecer a capacidade imaginativa.

Infelizmente, essa reduzida lista é tão óbvia quanto ausente nas escolas.

As forças imaginativas da pequena criança serão transformadas durante o processo de crescimento em criatividade, assim como o brincar forjará a capacidade de trabalho no adulto. Preservar a infância em seu desenvolvimento natural é assegurar uma sociedade sadia. Não só o trabalho infantil aborta a infância, mas também, o erro pedagógico. Achamos hoje, em nossa limítrofe civilização, que formar cabeças é produzir pessoas equilibradas. Quanto engano institucionalizado.

Podemos ver o diálogo das forças imaginativas de uma criança com a habilidosa criatividade de um pai, que encontra nesse poder infantil a única chance de salvar seu filho ileso dos horrores de um campo de concentração nazista em que ambos estão presos, no premiadíssimo filme “A Vida é Bela”. Obra poética, comovente e educativa. Aliás, deveria ser conteúdo obrigatório nas licenciaturas diversas e na pedagogia. Nas palavras de Fernando Pessoa, “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.


Publicado no jornal Cinform em 13/05/2013 - Caderno Emprego

terça-feira, 2 de abril de 2013

O que é ser empreendedor?




Empreendedorismo é a arte de realizar sonhos. A partir disso, não há limites para quem é persistente e possui os conhecimentos necessários. Assim, empreendedorismo se torna uma capacitação possível a qualquer pessoa que se disponha a ter as atitudes e os comportamentos necessários para “fazer acontecer” oportunidades. Em geral, os empreendedores são capazes de trabalhar hoje sem perder o olhar no futuro.

Transcrevemos a partir do livro “O poder da atitude”, de Alexandre Slivinik, esse exemplo bastante emblemático da história de um dos políticos mais famosos do mundo: “ele montou um negócio em 1831, mas não deu certo. Foi derrotado na candidatura a vereador em 1832. Fracassou em outro negócio em 1834. A noiva faleceu em 1835. Teve um ataque de nervos em 1836. Foi derrotado em outra eleição em 1838. Foi derrotado para o Congresso em 1846. Foi derrotado para o Congresso em 1948. Foi derrotado para o Senado em 1855. Foi derrotado para a vice-presidência em 1856. Foi derrotado para o Senado em 1858. Foi eleito Presidente da República dos Estados Unidos em 1860. Seu nome? Abraham Lincoln. Um dos mais notáveis estadistas da humanidade”.

Com efeito, a persistência é característica obrigatória nos homens e mulheres de sucesso. Steve Jobs foi expulso de sua própria empresa, a Apple, após lançar o Macintosh, retornando a ela após cinco anos. Albert Einstein também foi expulso da escola, porque não tinha capacidade para aprender, mas a história comprovou a genialidade dele. Nelson Mandela, após passar 27 anos na prisão, se elegeu presidente da África do Sul e se consagrou como o maior líder da África Negra, tendo sido agraciado com o Premio Nobel da Paz.

Exemplos como esses nos fazem ver o valor do empreendedorismo como instrumento de superação de adversidades. Dele, aprendemos que sempre que vislumbramos metas a alcançar nos fortalecemos no enfrentamento dos inúmeros obstáculos cotidianos. Mas, quantos potenciais Lincoln, Einstein, Jobs e Mandela se perderam nos seus ideais pela falta de capacidade empreendedora? Talvez já tivéssemos a cura do câncer, a fórmula da paz mundial, a equação que resolveria a exclusão social e a degradação ambiental. Quem sabe essas soluções chegaram a alguma cabeça que recuou no primeiro obstáculo?

Seremos muito mais realizadores e felizes se cultivarmos a cultura empreendedora e o associativismo, desde a primeira escola e por toda a vida escolar de nossos alunos. Essa é a nova educação e o melhor preparo dos jovens para os futuros desafios globais


Publicado na Revista Fecomércio-SE  Jan-Fev/2013 nº 06

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Inovações milenares: o coletivo de papa e o Papa de coletivo



Qual o coletivo de papa? Essa pergunta apareceu inúmeras vezes em almanaques e na forma de “pegadinhas” em provas. A resposta sempre afirmou a impossibilidade de tal fato existir e, por isso mesmo, não se justifica a existência do tal substantivo. Bem, nesses dias em que a Igreja Católica Apostólica Romana acolhe o Papa Francisco, recém-eleito, e Bento XVI, que renunciou às funções, sendo, porém, nomeado Papa Emérito, trouxe-nos a inédita situação de termos dois papas vivos, e a inusitada e inominada reunião deles.
 Sob a ótica da inovação, a milenar Igreja avançou bastante, não importa se passiva ou ativamente. Assim ela fez e, sem dúvida, colherá os frutos dessa opção. Não bastasse a curiosa e inédita situação do encontro de papas, o Papa Francisco ainda renuncia ao carro oficial para andar de coletivo, junto aos cardeais. Fato amplamente divulgado pela grande mídia mundial. O papa jesuíta, verdadeiro demolidor de protocolos, afasta qualquer ostentação de riqueza e se revela vocacionado aos pobres.

Estes fatos nos fazem refletir sobre o quanto a inovação é desencadeadora de notícias e atraente ao público em geral. Creio que adoramos quem “pensa fora do quadrado”. Houvesse o Papa Francisco seguido rigorosamente o protocolo, as notícias seriam infinitamente menores e sem esse sabor especial provocado pela surpresa. Assim, demonstramos facilmente uma fórmula para ganhar a chamada mídia espontânea, objeto do sonho de profissionais de Marketing e divulgadores em geral.

Sabiamente, o novo Papa diante da crise que alegam passar a Igreja, enxerga longe e lembra o que disse Ahmed Yamani, ministro do petróleo saudita: “A idade da pedra não acabou por falta de pedra”. Portanto, vemos que não é a escassez de seres humanos que enfraquece as igrejas e sim, as novas perguntas que são formuladas pela sociedade ou a falta delas.

Gary Hamel, autor do livro: “O Que Importa Agora”, afirma reconhecer os problemas internos das igrejas, mas vê graves problemas no mundo, ou mais especificamente: uma sociedade movida a consumo, em que o tamanho da conta bancária é mais importante que o caráter; o número quase infinito de diversões oferecidas por nossa cultura saturada de mídia – distrações que não dão tempo à reflexão espiritual; a visão profundamente cética dos jovens a respeito das grandes instituições – visão que mistura grandes religiões com grandes empresas e grandes Governos; a descrença crescente e reflexa em relação a todos que alegam ter “a verdade”.

Apesar desses fatores externos, o Papa Francisco, pertencente à mesma Ordem de Antônio Vieira, demonstra estar disposto a fazer a sua parte no resgate dos fiéis. Esse é o teor do Sermão da Sexagésima de Vieira, no qual faz uma distinção entre os “pregadores do paço” e os “pregadores do passo”. Paço, sinônimo de palácio, diferencia o pregador palaciano, o que fica preso a seu conforto, daquele outro, como os jesuítas, que saíam pelo mundo pregando a palavra de Deus.

Nesse famoso sermão, o padre pergunta por que fazia tão pouco fruto a palavra de Deus na Terra (e olhem que estava na segunda metade do século XVII). Poderia ser por um desses três motivos: por culpa do povo, da Palavra de Deus, ou dos pregadores. Depois de uma belíssima exposição sobre a inocência do povo e da Palavra, ele conclui: “Sabeis, cristãos, por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa nossa!”.

     Em tempos de coletivo de papa e Papa de coletivo, nada melhor que unir a fé com a razão em direção a Deus. Assim revolucionou São Tomás de Aquino (séc. XIII) ao fundamentar o livre surgimento das primeiras universidade e escolas, tão bem expresso em sua oração: “Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar. Dê-me, Senhor, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir”.



Publicado no jornal Cinform em 01/04/2013 – Caderno Emprego


segunda-feira, 4 de março de 2013

Inovação: moda ou necessidade?


 As grandes empresas tem produzido um fenômeno de concentração de produtos de ordem mundial que limita a possibilidade de escolha do consumidor. É a conhecida comoditização ou padronização de produtos, insumos e serviços que, hoje, dita as regras do jogo econômico e aprisiona a indústria a modelos rígidos e repetitivos. Difícil encontrar um carro realmente diferente, pois notamos claramente a repetição de um design mestre, copiado pelas demais montadoras.


Há uma forte tendência a igualar os produtos para consumo, restringindo a liberdade de escolha do cliente, bem como as margens de lucro das empresas. Ou seja, se não há diferença entre o café brasileiro ou colombiano, escolhemos aquele de menor preço. Da mesma forma, ao comprarmos o pneu do carro, a calça jeans do dia a dia, a geladeira doméstica ou o aparelho de TV, caímos na mesma situação: tudo muito semelhante e ofertado, mundo afora, por um número “oligopólico” de fornecedores.

De imediato, percebemos que não é nada fácil entrar em uma competição dessas. Inimaginável para nós, simples mortais, concorrer com marcas mundiais como a Samsung, Sony, LG e outra gigante qualquer. Podemos exemplificar, a Coca-Cola está presente em 200 países, a Danone em 120 e a P&G em 180.

Então, se nesse palco de grandes disputas globais o vencedor é aquele que consegue menor custo, logo, menor preço, então, estamos diante de uma corrida suicida. Tal movimento levará ao menor custo a “qualquer preço”. Isto é, será mais bem sucedido quem desrespeitar o meio ambiente, os trabalhadores e a sociedade em geral, na medida em que possa externalizar ao máximo os custos da produção, socializando o prejuízo e concentrando o lucro. Como, parece acontecer com o poluído PIB chinês.

É possível fugir dessa disputa asfixiante? Sim, a fórmula mais recomendada e perseguida é a inovação, uma vez que diferenciamos nosso produto visando a respirar em exclusiva atmosfera, pelo menos por um tempo. A história demonstra que os inovadores são mais lucrativos.

Com efeito, vemos que coexistem duas correntes antagônicas. Uma no sentido de coletivizar, ou seja, igualar ao máximo, produtos, serviços e, até, pessoas, a partir de ícones bem-sucedidos. A outra, na contramão, segue no sentido de diversificar ou individualizá-los. A moda dita a forma como nos vestimos e a cor predominante dos carros. O design impõe a todos os prédios ângulos retos, exclusivamente. De maneira contrária, a criatividade rompe com esse impulso massificador e diversifica os frutos da temporada.  

Assim, a diversidade aponta para o livre-arbítrio. É o passo dado na direção da liberdade e da unicidade. Somente evoluímos quando nos diferenciamos do comum. Uma característica que nos separa do animal é a emancipação em relação às forças determinantes da própria espécie. Explicando melhor, é impossível uma coruja “optar” por uma dieta vegetariana ou por ter filhotes em diferente época do ano. Já, para os humanos, essas regras deixaram de ser obrigatórias para se tornar optativas ou eletivas. A natureza humana é outra – somos movidos para a diversidade ou individuação.

O famoso economista J. M. Keynes afirmou que “a dificuldade não reside em novas ideias, mas em escapar das ideias antigas, pois para aqueles que foram criados como a maioria de nós, estas ideias se ramificam em todos os cantos da mente”. Bela descrição para o apego que comumente encontramos nos ambientes empresariais em pessoas agarradas a cargos menores que o potencial delas mesmas.

Por medo do desconhecido, visão de mundo distorcida ou nefasta comodidade, estes trabalhadores não formam sucessores para poder evoluir para postos superiores ou maiores oportunidades profissionais que surgem com frequência nos bons momentos de economia crescente.

E como educar para desenvolver a criatividade? A resposta virá em outro artigo. Contudo, fica uma imagem poética da imortal Clarice Lispector: “Um pouco de aventura liberta a alma cativa do algoz cotidiano”.


         Publicado no jornal Cinform em 04/03/2013 – Caderno Emprego



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Em qual mundo você está?



A pluralidade é uma marca inexorável dos dias atuais. Percebe-se, enfaticamente, essa característica de forma muito própria no Brasil. O País do astronauta Marcos Pontes, da pujante indústria aeroespacial, dos procedimentos médicos com tecnologias de ponta e das ilhas de excelência também é o mesmo dos bolsões de miséria e – pasme - a Pindorama de sempre, para dezenas de grupos indígenas amazônicos sem contato conosco ainda.

São nossos contemporâneos casuais. Isso porque, sob a ótica da linha do tempo tecnológico, ainda vivem como se fosse há dez mil anos, ou seja, sem domínio da linguagem escrita, da tecnologia do ferro, da agricultura (?), da roda e outras obviedades nossas. Qual será a expectativa de vida desse conterrâneo? Não sei.  

Sinceramente, não sei como lidar com essa situação: mantê-los isolados sem lhes dar a oportunidade de uma vida de mais conforto e longevidade, apesar do choque cultural, ou preservá-los assim, como bons selvagens (sic), de teóricos como Rousseau? Tenho minhas duvidas. E desconfio de quem sabe, especialmente daqueles que romantizam a questão, mas não renunciam à vida que levam a experimentar a hostilidade da natureza bruta para com a nossa não especializada espécie humana.

Deixemos de exageros para falar em pluralidade, pois situações bem mais corriqueiras podem conter diversidades inimagináveis. Apresentamos a seguir uma lista de coisas estranhas que até parecem ser de outro mundo. É possível existir um lugar no Brasil que, nos dias de hoje, funcione assim?

1-    Todas as ideias possam competir em condições de igualdade.
2-    As contribuições sejam mais importantes que as credenciais.
3-    As hierarquias sejam construídas de baixo para cima.
4-    Os líderes sirvam, em vez de comandar.
5-     As tarefas sejam escolhidas, não atribuídas.
6-    Os grupos se autodefinem e se auto-organizam.
7-    Os recursos sejam atraídos, não alocados.
8-    O poder decorra do compartilhamento, não do entesouramento.
9-    A mediocridade seja exposta.
10-  Os dissidentes possam juntar forças.
11-  Os “comuns” possam vetar a maioria das decisões políticas.
12-  As recompensas intrínsecas sejam as mais importantes.
13-  A geografia seja uma ciência morta.
14-  Ninguém seja excluído - ou prejudicado - por só usar a visão e a audição e mais nenhum outro sentido.
15-  Tamanho não seja “documento”.

Como uma realidade paralela, esse lugar existe em nossa variada cultura tupiniquim em estado latente. Por enquanto, já que promete acordar e dominar a tudo e a todos em breve tempo. Esse lugar é o ambiente colaborativo das redes sociais da internet. O ambiente da Wikipedia, do Facebook, do Youtube, do Linux, ferramentas compartilhadas por autores e consumidores.

Engraçado que, entre nossos vizinhos de condomínio, há os que ignoram completamente essa tal de internet; há os que a utilizam como um plano B – só em ultimo caso, porque precisam de assistência; há os que a tratam como um “caixa 2” – obscuramente; há os que a utilizam paralelamente à rotina – como algo complementar; e, por fim, os que só vivem nela – desvitalizados e empobrecidos da realidade, porém, reconhecidamente verdadeiros nativos digitais.

Esses últimos formam a Geração F (de Facebook), fatia crescente do estrato social e que logo estarão ocupando postos-chave nas empresas. Serão eles que definirão os novos padrões culturais, comerciais e administrativos. Assim, será que nossas empresas sobreviverão a essa revolução anunciada? A sobrevivência depende de ir além da satisfação do seu consumidor local, em um mercado menos complacente que o atual, uma vez que será global e no qual o cliente colabora com a empresa, com poderes para fazê-la crescer ou minguar.

Compare os 15 itens apresentados anteriormente com o modelo de negócio praticado por sua empresa e veja a que distância ela está dessa tendência. Esse check-list pode espelhar, em uma sociedade plural como a nossa, a sua posição. Em qual mundo você está?


         Publicado no jornal Cinform em 11/02/2013 – Caderno Emprego