O curioso título deste texto
reflete expressões da moda. Mas o que tem a ver uma com a outra?
Frequentemente, desde 2006, a famosa frase “dados são o novo petróleo” é citada
para efeito de comparação, enfatizando a riqueza que ambas representam em
comum.
O petróleo, mineral energético,
tem sua produção em contínuo crescimento, ainda que sob a pressão dos discursos
contrários por parte daqueles que o veem como principal causador do efeito
estufa e do aquecimento global. Acontece que entre as décadas de 1930 e 1970,
85% das reservas mundiais deste hidrocarboneto estavam sob o domínio das
chamadas Sete Irmãs (leia-se: Esso, Shell, Gulf, Socal, Texaco, Anglo-Persian e
Socony) que dominavam a economia mundial. Contudo, ao final deste período, se inicia
uma alteração profunda nesse reinado fraterno com a formação da OPEP –
Organização dos Países Exportadores de Petróleo, culminando com a “crise do
petróleo de 1973” que abriu espaço para o surgimento de novos players nos
países produtores, a exemplo de Venezuela, Arábia Saudita e Irã, pulverizando o
domínio da extração da riqueza e reduzindo drasticamente o acesso das Sete
Irmãs, que hoje são apenas quatro, detendo cerca de 3% das reservas.
Sucessoras, ou não, o ano de 1975
contempla o surgimento da Microsoft, seguido de imediato pela Apple, iniciando
a ascensão de novos agentes de acumulação de riquezas mundiais, similares às
Sete Irmãs, agora formados pelas Big Techs (Microsoft, Apple, Google, Amazon,
X, Nvidia e Meta), todas norte-americanas, líderes das tecnologias digitais e
presentes em todo o planeta.
Não há de se estranhar que além
de minerar petróleo no subsolo, estamos a minerar dados (data mining) na nuvem,
formada por sistemas de servidores com alta capacidade de desempenho, armazenamento
e disponibilidade. Desta maneira, os dados surgem como um novo recurso mineral
que extraímos, refinamos, compramos, vendemos e avaliamos da mesma forma que
fazemos com o petróleo.
Quiçá a abundância de dados não
se converta em poluição, uma vez que nossa habilidade maior no uso da internet já
consiste em saber filtrar as informações para obtenção de respostas seguras,
bem como haja mais segurança contra cyber crimes e controles sobre a IA –
Inteligência Artificial. Em paralelo, roguemos que os processos de
descarbonização da atmosfera vigorem em escala de reversão do nível de
concentração atual.
Fiquemos atentos também ao
inesperado crescimento de consumo energético causado pelo mundo digital que se
transformou em energo-expansivo, contrariando todas as previsões. Para
exemplificar: apenas o consumo de energia com a mineração da criptomoeda Bitcoin
supera o consumo total de países inteiros como a Argentina.
Com efeito, necessitamos
sabedoria para lidar com as transformações e transições clamadas pelo planeta e
pela sociedade para que virem riquezas para todos. Pessoalmente não sei o que
fazer para agregar valor em um barril de petróleo em minhas mãos, nem talvez,
encontrar um veio valioso em uma coleção de dados na nuvem. Eis o desafio.
Paulo do Eirado Dias Filho, pedagogo, Diretor Presidente do ITP - Instituto de Tecnologia e Pesquisa (Aracaju-SE)
Publicado na revista eletrônica TI&N Edição 27 em 20/03/2025
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