segunda-feira, 4 de março de 2013

Inovação: moda ou necessidade?


 As grandes empresas tem produzido um fenômeno de concentração de produtos de ordem mundial que limita a possibilidade de escolha do consumidor. É a conhecida comoditização ou padronização de produtos, insumos e serviços que, hoje, dita as regras do jogo econômico e aprisiona a indústria a modelos rígidos e repetitivos. Difícil encontrar um carro realmente diferente, pois notamos claramente a repetição de um design mestre, copiado pelas demais montadoras.


Há uma forte tendência a igualar os produtos para consumo, restringindo a liberdade de escolha do cliente, bem como as margens de lucro das empresas. Ou seja, se não há diferença entre o café brasileiro ou colombiano, escolhemos aquele de menor preço. Da mesma forma, ao comprarmos o pneu do carro, a calça jeans do dia a dia, a geladeira doméstica ou o aparelho de TV, caímos na mesma situação: tudo muito semelhante e ofertado, mundo afora, por um número “oligopólico” de fornecedores.

De imediato, percebemos que não é nada fácil entrar em uma competição dessas. Inimaginável para nós, simples mortais, concorrer com marcas mundiais como a Samsung, Sony, LG e outra gigante qualquer. Podemos exemplificar, a Coca-Cola está presente em 200 países, a Danone em 120 e a P&G em 180.

Então, se nesse palco de grandes disputas globais o vencedor é aquele que consegue menor custo, logo, menor preço, então, estamos diante de uma corrida suicida. Tal movimento levará ao menor custo a “qualquer preço”. Isto é, será mais bem sucedido quem desrespeitar o meio ambiente, os trabalhadores e a sociedade em geral, na medida em que possa externalizar ao máximo os custos da produção, socializando o prejuízo e concentrando o lucro. Como, parece acontecer com o poluído PIB chinês.

É possível fugir dessa disputa asfixiante? Sim, a fórmula mais recomendada e perseguida é a inovação, uma vez que diferenciamos nosso produto visando a respirar em exclusiva atmosfera, pelo menos por um tempo. A história demonstra que os inovadores são mais lucrativos.

Com efeito, vemos que coexistem duas correntes antagônicas. Uma no sentido de coletivizar, ou seja, igualar ao máximo, produtos, serviços e, até, pessoas, a partir de ícones bem-sucedidos. A outra, na contramão, segue no sentido de diversificar ou individualizá-los. A moda dita a forma como nos vestimos e a cor predominante dos carros. O design impõe a todos os prédios ângulos retos, exclusivamente. De maneira contrária, a criatividade rompe com esse impulso massificador e diversifica os frutos da temporada.  

Assim, a diversidade aponta para o livre-arbítrio. É o passo dado na direção da liberdade e da unicidade. Somente evoluímos quando nos diferenciamos do comum. Uma característica que nos separa do animal é a emancipação em relação às forças determinantes da própria espécie. Explicando melhor, é impossível uma coruja “optar” por uma dieta vegetariana ou por ter filhotes em diferente época do ano. Já, para os humanos, essas regras deixaram de ser obrigatórias para se tornar optativas ou eletivas. A natureza humana é outra – somos movidos para a diversidade ou individuação.

O famoso economista J. M. Keynes afirmou que “a dificuldade não reside em novas ideias, mas em escapar das ideias antigas, pois para aqueles que foram criados como a maioria de nós, estas ideias se ramificam em todos os cantos da mente”. Bela descrição para o apego que comumente encontramos nos ambientes empresariais em pessoas agarradas a cargos menores que o potencial delas mesmas.

Por medo do desconhecido, visão de mundo distorcida ou nefasta comodidade, estes trabalhadores não formam sucessores para poder evoluir para postos superiores ou maiores oportunidades profissionais que surgem com frequência nos bons momentos de economia crescente.

E como educar para desenvolver a criatividade? A resposta virá em outro artigo. Contudo, fica uma imagem poética da imortal Clarice Lispector: “Um pouco de aventura liberta a alma cativa do algoz cotidiano”.


         Publicado no jornal Cinform em 04/03/2013 – Caderno Emprego



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Em qual mundo você está?



A pluralidade é uma marca inexorável dos dias atuais. Percebe-se, enfaticamente, essa característica de forma muito própria no Brasil. O País do astronauta Marcos Pontes, da pujante indústria aeroespacial, dos procedimentos médicos com tecnologias de ponta e das ilhas de excelência também é o mesmo dos bolsões de miséria e – pasme - a Pindorama de sempre, para dezenas de grupos indígenas amazônicos sem contato conosco ainda.

São nossos contemporâneos casuais. Isso porque, sob a ótica da linha do tempo tecnológico, ainda vivem como se fosse há dez mil anos, ou seja, sem domínio da linguagem escrita, da tecnologia do ferro, da agricultura (?), da roda e outras obviedades nossas. Qual será a expectativa de vida desse conterrâneo? Não sei.  

Sinceramente, não sei como lidar com essa situação: mantê-los isolados sem lhes dar a oportunidade de uma vida de mais conforto e longevidade, apesar do choque cultural, ou preservá-los assim, como bons selvagens (sic), de teóricos como Rousseau? Tenho minhas duvidas. E desconfio de quem sabe, especialmente daqueles que romantizam a questão, mas não renunciam à vida que levam a experimentar a hostilidade da natureza bruta para com a nossa não especializada espécie humana.

Deixemos de exageros para falar em pluralidade, pois situações bem mais corriqueiras podem conter diversidades inimagináveis. Apresentamos a seguir uma lista de coisas estranhas que até parecem ser de outro mundo. É possível existir um lugar no Brasil que, nos dias de hoje, funcione assim?

1-    Todas as ideias possam competir em condições de igualdade.
2-    As contribuições sejam mais importantes que as credenciais.
3-    As hierarquias sejam construídas de baixo para cima.
4-    Os líderes sirvam, em vez de comandar.
5-     As tarefas sejam escolhidas, não atribuídas.
6-    Os grupos se autodefinem e se auto-organizam.
7-    Os recursos sejam atraídos, não alocados.
8-    O poder decorra do compartilhamento, não do entesouramento.
9-    A mediocridade seja exposta.
10-  Os dissidentes possam juntar forças.
11-  Os “comuns” possam vetar a maioria das decisões políticas.
12-  As recompensas intrínsecas sejam as mais importantes.
13-  A geografia seja uma ciência morta.
14-  Ninguém seja excluído - ou prejudicado - por só usar a visão e a audição e mais nenhum outro sentido.
15-  Tamanho não seja “documento”.

Como uma realidade paralela, esse lugar existe em nossa variada cultura tupiniquim em estado latente. Por enquanto, já que promete acordar e dominar a tudo e a todos em breve tempo. Esse lugar é o ambiente colaborativo das redes sociais da internet. O ambiente da Wikipedia, do Facebook, do Youtube, do Linux, ferramentas compartilhadas por autores e consumidores.

Engraçado que, entre nossos vizinhos de condomínio, há os que ignoram completamente essa tal de internet; há os que a utilizam como um plano B – só em ultimo caso, porque precisam de assistência; há os que a tratam como um “caixa 2” – obscuramente; há os que a utilizam paralelamente à rotina – como algo complementar; e, por fim, os que só vivem nela – desvitalizados e empobrecidos da realidade, porém, reconhecidamente verdadeiros nativos digitais.

Esses últimos formam a Geração F (de Facebook), fatia crescente do estrato social e que logo estarão ocupando postos-chave nas empresas. Serão eles que definirão os novos padrões culturais, comerciais e administrativos. Assim, será que nossas empresas sobreviverão a essa revolução anunciada? A sobrevivência depende de ir além da satisfação do seu consumidor local, em um mercado menos complacente que o atual, uma vez que será global e no qual o cliente colabora com a empresa, com poderes para fazê-la crescer ou minguar.

Compare os 15 itens apresentados anteriormente com o modelo de negócio praticado por sua empresa e veja a que distância ela está dessa tendência. Esse check-list pode espelhar, em uma sociedade plural como a nossa, a sua posição. Em qual mundo você está?


         Publicado no jornal Cinform em 11/02/2013 – Caderno Emprego

sábado, 26 de janeiro de 2013

Apresentação do livro "O Drama Sagrado de Elêusis"



    Apresentação


    Momentos especiais acontecem como por acaso. Eles chegam, não se sabe de onde, e ficam para sempre, como linhas paralelas que nascem exatamente aí. E, se cada um de nós tem uma linha da própria vida, esse encontro de linhas forma a trama do tecido social.

    Esse encerramento de curso de formação em Pedagogia Waldorf, revela essa trama bem feita com fios mágicos de alunos heróis, idealistas, construtores de uma nova realidade, resilientes e empreendedores. Parabéns a todos vocês que provam que é possível sim.

    Participaram com seus fios exemplares, os dedicados professores, profundos conhecedores e fieis à causa da verdadeira educação. Enfim, incansáveis. Muito obrigado!

     Aos apoiadores, Sr. Gerard Bannwart, Associação Beneficente Mahle e Associação Beneficente Tobias, nossos mais profundos e respeitosos agradecimentos. Sem vossas contribuições nenhum tecido dessa grandeza estelar seria fiado no Instituto Social Micael. Vocês são a prova viva de que a confiança sustenta o pilar econômico.

    Como um rito de passagem, concludentes deste curso encerram um ciclo para permitir o nascimento do novo. A trama expressa n’O Drama Sagrado de Elêusis eterniza esse momento especial. Peça teatral representada pelos alunos, cujas cenas estão ricamente expressas nas ilustrações desse livro, tesouro artístico produzido por eles com giz colorido. 

    Muito obrigado a todos que nos permitem viver esses momentos e, assim reconhecer que essas linhas paralelas se encontram mesmo é na infinitude humana.

    Paulo e Cida


    Este livro sintetiza a montagem e o enredo da peça teatral "O Drama Sagrado de Elêusis", de autoria de Edouard Schure, apresentada em 26/01/2013, pelos formandos da I Turma da Formação em Pedagogia Waldorf de Aracaju, pós-graduação latu senso do Instituto Social Micael com a Faculdade São Luís de França.   Mais informações em http://ismicael.blogspot.com.br


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O viúvo é o marido da viúva ou o professor ideal de tributos brasileiros




     Selecionar candidatos a uma vaga de emprego é tarefa árdua. Sempre há um grande risco na escolha e de consequências, geralmente caras e desastrosas para todos, se malsucedida.


Por certo, uma das áreas em que há grande dificuldade para se encontrar o profissional pleno é a de tributos. O Brasil produz 6 normas de código tributário diariamente nas esferas municipais, estaduais e federal. São tantos produtos reguladores, que desafiam a capacidade humana de compreensão e, pior ainda, a capacidade de explicar esse assunto a alguém. Esse “Samba do Crioulo Doido” composto na “Torre de Babel” tem que ser dominado por todos os brasileiros, já que a esses, não é dado o direito de desconhecer qualquer Lei.

Com efeito, uma empresa que não faz negócios com os demais Estados do País deve cumprir, à risca, pelo menos 3,4 mil normas tributárias. Isso equivale, aproximadamente, a acompanhar 38,4 mil artigos ou 89,5 mil parágrafos. Ou ainda: 286,2 mil incisos. Afinal, são 250 mil normas tributárias criadas desde a Constituição Federal de 1988, que regulamentam os 62 tributos vigentes. Porém, a todos, tranquiliza saber que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei". É nesse cenário tenebroso que descobrir o professor perfeito para a matéria tem deixado muito recrutador experiente cronicamente insone.

Com Aderbal não era diferente. Experiente recrutador de uma faculdade de Administração e Direito, ele suava frio quando imaginava ter que encontrar e selecionar professor da matéria em comento. Pois, além de escassos numericamente, os candidatos dificilmente atendiam os pré-requisitos supraplanetários exigidos. Mesmo candidatos capazes de explicar para que servem bolsos de pijamas ou de colocar aliança em dedo de pato, não conseguiam convencer o selecionador de serem capazes de ensinar sobre nossos tributos. Até que, por uma dessas coisas que a lógica cartesiana não explica e que a visão imagética não convence, Aderbal, nosso dramático protagonista, percebeu - com seu calejado feeling - estar diante do candidato ideal por conta dessa pequena história contada por ele (o candidato, é claro):

“A alguns anos atrás eu conheci e acabei me casando com uma viúva, bem conservada, mas que já tinha inclusive uma filha crescida. Mais tarde, o meu pai se casou com a filha da viúva.

Então a minha enteada tornou-se minha madastra e eu virei padrastro do meu pai. Ao mesmo tempo, eu virei sogro do meu pai e minha esposa virou sogra do próprio sogro.

Depois a filha da minha esposa, minha madrasta, teve um filho. Este menino é meu irmão uma vez que ele é filho do meu pai, mas ele é também filho da filha da minha esposa, que o torna meu neto. Eu virei então avô do meu irmão.

Mas isso não era nada até a hora em que eu e a minha esposa tivemos um filho. Agora a filha da minha esposa, que é irmã do meu filho e também minha madrasta, tornou-se avó do próprio irmão. O meu pai, casado com a irmã do meu filho, acabou virando cunhado do próprio neto.

Eu sou cunhado da minha madrasta, minha esposa é tia da própria filha, meu filho é sobrinho do meu pai e eu sou avô de mim mesmo!”

E, para finalizar a esclarecedora narrativa com chave de ouro, o candidato ainda explicou tim-tim por tim-tim, os critérios que fundamentaram a pensão alimentícia que passou a receber, quando da separação litigiosa do seu pai, o cunhado do próprio neto. Além, da justa e lúcida partilha de bens resultante da morte da viúva, obviamente, como vimos, a tia da própria filha. E, carismático que é, o professor terminou demonstrando cabalmente que o viúvo é o marido da viúva.

Nem é preciso dizer que esse candidato tornou-se o professor que mais dominava a matéria sobre tributos brasileiros, posto que “não se ensina aquilo que se quer, ensina-se e só se pode ensinar aquilo que se é”, assim assegurou o pacifista francês Jean Jaurés, cem anos atrás, sem nem conhecer o Brasil.


        Publicado no jornal Cinform em 14/01/2013 – Caderno Emprego
        Publicado na Revista Tecnologia da Informação &Negócios nº 12/2013
                 Publicado em http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/o-viuvo-e-o-marido-da-viuva-ou-o-professor-ideal-de-tributos-brasileiros/84236/
                    Publicado na Revista Fecomércio Sergipe Nº 23 Fev/Mar 2017


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Fim do mundo, atacado ou varejo?



        Caro leitor, se você está lendo este texto, nesse jornal, é porque o mundo não se acabou. Parece meio esquisito dizer isso, mas assim previam melancólicos intérpretes da profecia Maia ao afirmar que esse apocalíptico final seria em 21/12/2012.

     Brincadeiras à parte, refleti que os sábios maias não erraram em sua totalidade. Penso que apenas a modalidade atacadista é que não vingou. Porém, no varejo a profecia deles é infalível. Não conheci, até aqui, ninguém capaz de sair vivo dessa vida. “Viver é muito perigoso”, já dizia repetidamente Riobaldo, personagem de Grande Sertão Veredas, do imortal Guimarães Rosa, por certo, sentenciando nossa frágil vida.

     Ao prosseguir nessa filosófica imersão, chego à conclusão que, efetivamente, não somos desse mundo, já que a vida média de 70 anos é só uma piscada de olhos diante da vida eterna. Logo, não somos mesmo daqui, ou melhor, estamos aqui só de passagem.

     Os materialistas, certamente mais apegados à vida que os imortais espiritualistas, talvez tenham feito alavancagens financeiras impagáveis ao adquirir umas Ferraris sem entrada, com a primeira parcela para após o apocalipse, devem estar aflitos a pensar sobre o que dizer hoje ao banco. Para esses, o fim do mundo foi irremediavelmente contratado.

     Seria justo acabar o mundo assim, sem um por quê? Será que merecemos punição tão severa? Há muita coisa errada, é fato. Mas, há incontáveis avanços realizados em várias áreas que melhoram a qualidade de vida das pessoas, inclusive das mais carentes. Por certo, a humanidade nunca viveu com tanto conforto no planeta, que o digam nossos antepassados que viviam, em média, apenas 30 anos. Isso é que era o fim do mundo. Depois da penicilina, por exemplo, vivemos bem melhor.

     Muitos de nossos desafios atuais são quase eternos, como o conflito entre gerações e a crença no fim do mundo próximo. É possível até se encontrar manifestações, tais como as citadas pelo inglês Roland Gibson, por conta do início de uma conferência: “O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe”, que ele afirma ser escrita por um sacerdote do ano 2000 a.C.

     Para finalizar, apresentamos uma anedota sobre o (quase) fim do mundo, de Rolando Boldrin:
  
     “É o fim do mundo.

     O mundo acabou em fogo. Morreu todo mundo. Acabou-se tudo, como lá diz o outro. Só sobrou sobre os escombros carbonizados um macaquinho serelepe, sem um arranhão, pra contar a historia do fim. E ai ele, muito inteligente, pensava alto:

     “Agora, sim. Agora eu vou fazer um mundo diferente, porque o mundo que o homem criou era muito ruim. Nação brigando com nação, irmão contra irmão… Agora, não. Eu vou construir um mundo cheio de paz… de tranquilidade… de amor… muita paz… paz… paz.
O mundo que o homem criou era somente guerra… guerra… e mais guerra. Mas, agora que eu estou sozinho no mundo, vou começar pela paz.”

     Ele pensava lá com ele essas coisas lindas de macaco quando, para sua surpresa, surge no horizonte um vulto. Mal dava pra se ver o dito-cujo. Era distinguir o que seria. O que dava para perceber era que aquele vulto vinha vindo, vinha vindo para o lado onde estava o nosso personagem, o macaquinho sobrevivente do fim do mundo mau.

     Pois bem. Ele foi se esforçando para ver o que era aquele vulto cada vez mais perto. Ate que finalmente deu para nosso macaquinho sacar o que estava ali à sua frente.

     Toda saltitante, também serelepe, eis que a segunda personagem se identifica: era uma linda macaquinha.

     Nesse instante, o nosso macaquinho leva a mão direita à testa e exclama (p... da vida):
“Chiii, vai começar a m... tudo de novo.”

     Agora, se você não está lendo esse texto, eu começo a me preocupar de verdade. Mas, independentemente do plano que estejamos, Feliz Natal e Feliz 2013!


Publicado no jornal Cinform em 24/12/2012 - Caderno Emprego

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Cem anos: do Lua ao Gonzagão, o “Rei do Baião”




A riqueza cultural nordestina manteve-se encoberta por muitos anos. Seus grandes valores alcançavam minimamente outros redutos e, menos ainda, uma escala nacional. Inúmeros artistas da região ficaram famosos ao trilhar a pista asfaltada por Luiz Gonzaga, o Lua, a quem coube o mérito de cantar sua aldeia nos melhores palcos deste País, para fazê-la universal e admirada. Hoje, no centenário do seu nascimento, graças ao seu legado, se tornou fácil ver que “o sertão está em toda parte”, fato que só visionários na década de 1950 poderiam sentenciar, como o fez Guimarães Rosa.

Creio não haver brasileiro que desconheça o verso “Ela só quer, só pensa em namorar”, bem como, quem ignore o amor do nordestino pelo seu torrão natal, mesmo que ciclicamente calcinado pela seca. Ocasião em que lhe resta apelar à natureza ígnea da fé em sua máxima intensidade, igualando homem e terra, no mesmo fervor, ao pedir para serem poupados, uma vez que “inté mesmo a asa branca bateu asas do sertão”.

Dessa saga semiárida vem a resiliência admirável “das muié séria e dos home trabaiador”, fonte do verso contundente, da arte objetiva e sem arrodeio. Um conjunto artístico coerente com a realidade da caatinga, na qual inexistem seres impunes à dor do recolhimento compulsório da vida, na prolongada aridez ou da explosiva reencarnação verde, a festejar o primeiro chuvisco.

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1912, já com o DNA de sanfoneiro, herdado do afamado pai Mestre Januário dos oito baixos, na cidade de Exu, sertão pernambucano. Lugar, onde aprendeu a apreciar a arte ouvindo cantadores e artistas populares nas feiras. Ao sentar praça no serviço militar, é transferido para o sudeste do Brasil com o advento da Revolução de 30. Após o afastamento do Exército, inicia seu trabalho como músico profissional no Rio de Janeiro, onde atuou como sanfoneiro nas gravações de cantores da época, fato que chama a atenção dos produtores para seu talento como instrumentista. A partir disso, inicia a gravação de seus primeiros discos de 78 rpm e, em 1945, conhece Humberto Teixeira, advogado e poeta, com quem faz seus primeiros grandes sucessos. No ano seguinte, conhece Zédantas, novo parceiro letrista, tornando-se definitivamente “O Rei do Baião”. Em 1989, morre o premiadíssimo Gonzagão. Na verdade, Gonzagão continua vivo e “se a gente lembra só por lembrar”, essas particularidades passageiras da sua biografia, é porque ele trouxe dentro de si não só uma forte individualidade, mas a nordestinidade inteira, com todas as suas possibilidades. Artista que rodou o mundo sem nunca deixar o nordeste brasileiro, posto que este também o é, simbioticamente.

           Paulo do Eirado Dias Filho

Publicado no Catálogo Bom Dia Gonzagão - Funarte 2012


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

De biquíni e computador, pai não entende nada




O uso de computadores na educação parece desconsiderar a mais ínfima razão pedagógica. Os investimentos nessa área obedecem, em geral, a  uma simples chamada mercadológica. Afinal, para que servem mesmo os computadores na escola?

Um dos argumentos para sustentar a necessidade dessas máquinas nas escolas vem da dificuldade, relativamente comum, dos pais usarem os computadores nas mais variadas versões: celulares, desktops, laptops, tablets, smartphones, netbooks, Ipods, “I-isso”, “I-aquilo”. Particularmente, penso que a dificuldade que um jovem de hoje terá de usar um computador será semelhante à que minha geração teve para usar uma garrafa térmica. As crianças atuais nascem com um chip a mais que as de décadas atrás. Elas usam um aparelho eletrônico qualquer desde a primeira vez como se já fossem velhos conhecidos, arrasando definitivamente nossa autoridade no assunto.

Do ponto de vista pedagógico, desconheço projeto de uso de computador em ensino fundamental que possua fundamento superior ao do uso de uma flauta ou uma aquarela na escola. O que se desenvolve em uma criança durante a interação com computadores? A autocorreção gramatical? A motricidade? A compaixão? A capacidade de operar números? A prontidão mastigada e apressada do Google? A arte de colar? A experiência anônima do MSN? O reflexo condicionado pelos estímulos visuais? A reação impensada nos games? A representação de um mundo oco, acelerado e hiperexcitante?

O Doutor Valdemar Setzer, professor do Instituto de Ciências da Computação da Universidade de São Paulo - USP, é um aguerrido defensor da inutilidade pedagógica dessas máquinas digitais. Ele argumenta que, por possuir uma estrutura fria e inflexível, a lógica do software empobrece a capacidade imaginativa da criança por meio de um condicionamento limitado do pensar, além de apresentar imagens simuladas da realidade por mero recurso matemático, o mesmo acontecendo com o som. Dessa forma, sustenta o professor Setzer, esse mergulho no ambiente virtual afasta a criança da realidade concreta, na qual as coisas têm peso, textura, temperatura, sombras, coerência entre tamanho e massa, produzem sons característicos e, acima de tudo, nos dão segurança na existência.

Pais costumam crer que os computadores devem ser manipulados desde cedo pelas crianças, pensando no futuro delas. Filhos veem os computadores como coisas do passado - afinal, já existiam no mundo antes de eles nascerem. Esse é o descompasso entre gerações habitantes do novato século XXI.

Sim, já houve conflitos mais tensos entre gerações. Certamente, ter um filho hippie ou guerrilheiro desorientava bem mais os pais de 40 anos atrás. Mas esses filhos contestadores e inconformados formavam minorias e não aprendiam esses comportamentos sociais na escola. Preocupante, hoje, é a submissão em larga escala das crianças a esse mundo virtual, incentivadas por “educadores” (des)orientados e (des)preparados pela indução do mercado, que dita tendências educacionais autorrealizáveis e narcisistas.

Deixar uma criança sozinha na internet é semelhante a largá-la a sós em uma esquina de uma grande cidade à noite, assim diz o professor Setzer. Semelhantemente, não vemos crime quando nosso filho faz um download  desautorizado de um livro. Porém, não aceitaríamos, com veemência, se ele roubasse esse mesmo livro da prateleira de uma livraria. Isso mostra que não sabemos educar para esse mundo virtual. Falta-nos a mais elementar compreensão do universo imaterial.

Um ligeiro e genial conto, “Pai Não Entende Nada”, de Luís Fernando Veríssimo, ilustra bem a imaterialidade crescente das coisas e as diferentes visões de mundo entre gerações:

- Um biquíni novo?
- É, pai.
- Você comprou um no ano passado!
- Não serve mais, pai. Eu cresci.
- Como não serve? No ano passado, você tinha 14 anos. Este ano, tem 15. Não cresceu tanto assim.
- Não serve, pai.
- Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.
- Maior não, pai. Menor.
Aquele pai, também, não entendia nada.

  

            Publicado no jornal Cinform em 26/11/2012 – Caderno Emprego

Publicado na revista Tecnologia da Informação & Negócios nº 11/2013